23 de set de 2012

Capítulo 54

But you still have... all of me


Uma ordem: Escutem a música My Immortal - Evanescence enquanto esse capítulo for rolando. (:

Ela abriu os olhos.
Haviam cacos de vidro espalhados por todo o chão. Um abajur estava ao pedaços e uma poltrona revirada.
Estava nua.
E nos braços do homem que mais amou — e ainda ama — em toda a sua vida.
Suspirou enquanto, finalmente, as lembranças a invadiam. Olhou para o lado e viu Josh dormindo angelicalmente. Ele continua um meio sorriso no rosto. Parecia sonhar com algo muito bom.
Ou apenas rever os momentos que viveu há poucas horas antes em sonho. O que não deixa de ser considerado como a primeira alternativa.
Sorriu de canto ao vê-lo sorrindo enquanto dormia. E o sorriso se ampliou quando se lembrou do que houvera horas antes.
Ela havia gostado. Melhor, havia amado.
Mas o sorriso se foi quando ela pensou no que fazer agora. Afinal... não foi certo. Foi muito errado, aliás.
E sim, ela de fato amava Josh. Mas Jason ainda era o que não a faria sofrer apesar de tudo.
Josh... ela o amava. Mas se decidisse ficar com ele... ela sofreria. Mais.
Não conseguia pensar em sofrer mais do que já sofrera. Não queria passar por tudo novamente. E... não queria fazer seu salvador sofrer. Jason havia sido traído... e mesmo que ele nunca soubesse... Ela se sentiria culpada até o fim.
E foi aí que Hayley se arrependeu.
Devagar, ela se levantou de cima de Josh. Olhou para o relógio da parede e viu que marcavam 22:45 da noite.
Jason estaria louco procurando por ela, provavelmente.
Suspirou. Ainda estava exausta, mas não podia ficar ali.
Depois de procurar e achar suas roupas, ela as vestiu. Calçou seu salto alto e deu uma ajeitada no cabelo.

“— Eu sei que você vai embora quando acordar... mas... apenas me deixe uma prova de que isso não foi um sonho.

Lembrou-se da última frase que escutou antes de adormecer.
Apesar de tudo, ela precisava fazer o que Josh havia pedido.
Foi até a sua garagem e pegou sua bolsa dentro do carro. Lá dentro, havia uma pequena caderneta e uma caneta.
Escreveu um bilhete.

“Josh,
Essa noite foi um erro. Não um erro seu, mas sim, um erro meu.
Você me disse mais cedo que não teve escolha em ir para a guerra naquela época. Você foi porque foi designado. Porque mandaram você ir. Você não teve escolha em me deixar.
Agora me diga: já que você não teve escolha, foi escolhido pelo destino que eu sofresse sem você, certo?
Eu penso que é isso que ele quer. Me ver sofrer.
Não sinto mais raiva de você. Não te culpo por mais nada. A culpa não foi sua. Se você teve que ir, bem, eu tive que ficar e sofrer.
Acontece que eu sofri muito. Mais do que você possa imaginar. Eu tive de deixar minha cidade favorita no mundo, tive de deixar de acompanhar o crescimento das minhas irmãs, tive de me formar em um colégio diferente com pessoas diferentes dos meus amigos pra evitar o sofrimento, que foi inevitável. E ainda, para não machucá-los mais, eu tive de fingir que estava tudo bem comigo... Eu tive que fingir, Josh. Tive que guardar minhas lágrimas para quando eu entrava na ducha e as lágrimas se misturavam com a água. Tive que deixar para soluçar no meu travesseiro quando eu tinha certeza que não havia mais ninguém por perto. Tive que lutar contra tudo em mim para não te querer. Não querer sentir suas palavras, seu corpo, sua voz, sua boca, você. Eu lutei, lutei muito, e achei que tinha vencido minha luta interna.
Mas aí você reapareceu.
E eu percebi que não tinha ganhado porcaria nenhuma! Você ainda continuava em mim. E eu ainda continuava te amando.
E eu te amo. Te amo com toda a certeza do mundo. Te amo mais do que eu mesma, mais do que o ar que eu respiro.
Mas... o amor não é... bom. É, não é bom.
Eu já sofri muito por amor. Tenho sofrido por ele desde que completei 6 anos, com a separação dos meus pais.
Me diz se é bom que eu continue amando, porém, sofrendo?
Se eu tiver que sofrer mais pra te ter, eu... Eu não vou aguentar... Eu não quero mais, Josh... Eu estou esgotada... Eu não tenho mais forças para lutar contra mim mesma...
Por isso, eu te peço, te imploro, não me procure mais. Por que eu simplesmente não agüento mais tudo isso.
Me desculpe,
Hayley”

Passou as mãos pelos olhos, tentando retirar as lágrimas do rosto. Algumas haviam caído e molhado o papel.
Arrancou a folha da caderneta e dobrou-a, colocando por cima do tapete, logo depois.
Suspirou e saiu da casa que se situava no condomínio. Por sorte, um táxi deixava uma moça na porta do condomínio. Ela o tomou de volta para casa.
Ao chegar lá, abriu a porta e viu um homem sentado na poltrona da sala, com um semblante frio e uns papéis na mão. Ele não a olhou.
— Não precisa me dizer onde você estava. — Ele disse apenas, ainda sem olhá-la. — Eu sei.
Hayley sentiu-se gelar.
Jason se levantou ainda sem olhá-la, encarando o papel em sua mão.
— Liguei pra PP pra saber onde você estava quando você não voltou pra casa. Me disseram que você tinha ido conferir um salão com o Farro. Liguei então para ele, e alguém do quartel atendeu. Me deram o número do condomínio dele e o recepcionista me disse que ele havia entrado com uma ruiva, tempos antes. — Ele suspirou, ainda com muita frieza na voz.
Hayley sentiu as lágrimas invadirem seus olhos.
— Eu confiei em você... — Ele riu, sem humor. — Você mentiu pra mim. Mentiu mais de uma vez.
— Jason, eu...
— Pode explicar? — Ele completou. — Explicar o quê? Que você teve uma recaída e acabou transando com o seu ex namorado? — Ela abaixou a cabeça. — Ou explicar isso, Hayley? — Ele pegou os papeis e jogou em sua direção.
Hayley, trêmula, pegou-os do chão.

“Clínica Ginecológica e Obstetra Saint Davis
Nashville, TN
Paciente: Hayley Nichole Williams
Médico: Dr. Louis Parker
Tipo de anticoncepcional: Injetável.
Assinatura do médico.”

Ela sentiu as pernas fraquejarem.
Tudo estava acontecendo ao mesmo tempo.
Jason a continuava olhando, sem mostrar expressão. Estava frio. Não gritava, surtava, nem sequer chorava.
Apenas a via chorar.
— Ainda vai explicar alguma coisa? — Ele perguntou, depois de abrir a boca algumas vezes.
Não havia explicação.
— Eu não podia. — Ela respondeu, entre soluços. — Eu não podia colocar uma criança no mundo, colocando ela a prova de todo o sofrimento que ela vai passar... assim como eu passei... — Com dificuldade, Hayley disse tudo, muito baixo.
— E EU NUNCA TE AJUDEI?! — Ele gritou pela primeira vez, logo se recompondo e abaixando o tom de voz. — Você realmente acha que eu ia deixar uma criança sofrer? Sério?
— Isso vai muito além do que você ou eu podemos fazer, Jason! Foi o que aconteceu comigo. Eu sofri muito! Eu não agüentaria ver um filho sofrer assim!
— E eu não segurei sua mão quando você se sentiu insegura? Eu não enxuguei suas lágrimas e te abracei até a dor passar? — Ele disse com indignação. — Você fala como se eu não tivesse feito nada por você.
— Não, Jason, é lógico que fez! Você foi a pessoa mais importante pra mim nesses últimos, anos, entenda...
— Entender, Hayley? Eu não fui importante o suficiente pra você ser fiel à mim. Eu não fui importante o suficiente pra você me dar um filho. Eu não fui importante o suficiente! — Ele não conseguia olhá-la nos olhos. Andava dois passos e voltava. Levava a mão a cabeça e tirava. Estava alterado, porém, controlado.
— Você foi, Jason... — Ela soluçava. Seus olhos estavam vermelhos.
— Eu fiz tudo por você... — Ele disse, olhando para baixo. — Eu estava lá quando ele te machucou. Eu estava lá pra enxugar as suas lágrimas. Eu estava lá pra te oferecer meu ombro amigo. Eu sempre estive aqui, te amando, e te apoiando seja lá no que for. Quando ele voltou eu fiquei com medo que isso acontecesse... Você reclamou tanto que eu não confiava em você... E eu fiz isso... Eu confiei em você e, você mentiu pra mim. Eu fui o seu amigo e protetor durante todos esses anos, e durante todos eles, você mentiu pra mim. Eu... — Ele levou uma mão a cabeça e bufou de leve. Um nó se formava em sua garganta e ele conseguia contê-lo.
— Eu sei, Jason! — Ela gritou, um oitavo acima de sua voz normal. — Eu não queria te perder, eu... Eu sei que não merecia, mas eu não tive escolha na questão do bebê! Eu não podia e quando eu disse que não queria eu comecei a perder você... eu não podia perder você...
— Você... tem idéia de como isso é egoísta? — Ele disse, a olhando, triste. — E se você realmente não quisesse me perder, VOCÊ NÃO TERIA ME TRAÍDO, DROGA! — Gritou. — EU CONFIEI EM VOCÊ! VOCÊ... ah. — Ele deu um passo para trás e virou o rosto. — Só me diz uma coisa. — Ele disse mais controlado, olhando para os papéis na mão dela. — Se nada disso tivesse acontecido. Se ele estivesse aqui no meu lugar. Se o Josh não tivesse ido pra guerra, se você estivesse casada com ele hoje. Você rejeitaria um filho? Você faria a mesma coisa que fez comigo? Por favor, Hayley, seja sincera, porque eu não agüento mais mentiras. — Ele disse a olhando finalmente nos olhos.
Hayley abaixou a cabeça e passou a fitar seus pés.
Ela não podia dizer que sim. Pois ela sabia que não era verdade.
E ela não queria mais mentir para Jason.
As lágrimas se formaram nos olhos dele.
— Quer saber? Fiquem juntos. Eu fui um idiota de tentar te ter pra mim. Eu... tenho que ir. — Ele saiu em passos fortes e abriu a porta da casa, batendo-a fortemente em seguida.
Hayley se deixou cair no chão e chorou alto.
Tudo estava dando errado. Ela havia feito tudo errado.
E havia perdido Jason também. Isso ela tinha certeza.
Abraçou suas pernas com força, ficando em posição fetal e molhando seus joelhos com as lágrimas dolorosas que saiam de seus olhos.
E foi assim que Katt a encontrou, logo que viu Jason arrancar com o carro. A abraçou.
Jason havia pego seu carro e, enquanto as lágrimas caiam de seus olhos de um jeito avassalador, dirigia feito louco.
Tudo o que ele tinha mais medo havia acontecido.
Ficou louco procurando Hayley quando ela não voltou para casa. Ao ligar para todos que podia e acabar na recepção do condomínio de Josh, ele soube que ele havia entrado com uma ruiva.
Só podia ser Hayley. E eles estavam “amarrotados” segundo o recepcionista. Isso foi um golpe forte, e ele achou que não poderia ficar pior.
Foi a casa de Jeremy para saber se Katt sabia se eles tinham algum caso. Mas não foi necessário, pois quando ele abriu um projeto dela, que estava sobre uma mesa, encontrou um exame de gravidez e um papel indicando uma consulta ginecológica. O problema é que não era de Katt.
Era de Hayley.
Com isso ele se sentiu derrotado. Não continha mais forças para nada.
Com o papel na mão, em sua casa, ele esperou pacientemente Hayley retornar.
E agora tinha a certeza de que ele fora enganado todo esse tempo. Não sabia o que doía mais. A dor da traição, ou a dor da mentira.
Ele sentia que tudo o que havia entre ele e Hayley havia sido uma mentira. Ele havia dado todo o seu amor e toda a sua ajuda para ela, pedindo apenas o amor dela de volta.
Mas ela não o fez.
Não verdadeiramente.
Foi uma mentira.

Estou tão cansado de estar aqui. Reprimido por todos os meus medos infantis.
E se você tiver que ir, eu desejo que você vá logo.
Pois sua presença ainda permanece aqui, e isso não vai me deixar em paz.


Ele limpava as lágrimas com os braços enquanto dirigia. Soluçava.
Se lembrou de quando era um adolescente. A havia desejado mais do que tudo em sua vida. A amou como nunca amou ninguém, e ele sabia que não era um amor adolescente. Sabia que era real. Sabia que duraria, sabia que ele permaneceria amando-a, não importasse o quê. Ele havia lutado de todas as formas para tê-la, principalmente, depois da saída de Josh. Quando conseguiu amá-la como queria, sentiu-se o homem mais feliz do mundo. Sentiu que não queria que aquilo terminasse nunca.
E agora, ele desejava esquecê-la. Desejava, sinceramente, que ela fosse embora de sua vida.

Quando você chorou eu enxuguei todas as suas lágrimas.
Quando você gritou eu lutei contra todos os seus medos.
Eu segurei a sua mão por todos esses anos...
Mas você ainda tem... tudo de mim.


Ele se sentia mal não só pela traição e pelo bebê.
Se sentia mal, porque apesar de tudo, ele não conseguia odiá-la. Apesar de tudo, se sentia mal por vê-la chorando. Se sentia mal porque... Ele não tinha raiva dela.
Limpou as lágrimas rapidamente com as mangas dos braços antes de sair do carro estacionado. Entrou no PUB com a pior das suas caras.
Mas ele não se importava.
Pediu “qualquer bebida forte” para o garçon, que lhe entregou uma dose do whisky mais alcóolico da casa.
Jason engoliu o líquido que desceu queimando sua garganta. Fez uma careta e pediu mais.
— Problemas, amigo? — O garçon perguntou vendo-o tomar o líquido enquanto limpava o balcão.
— Os piores possíveis. — Respondeu, passando uma mão pelos olhos.

[...]

Passava da meia noite quando Alana saiu do cinema.
Havia decidido ir ver o filme na sessão das 22h no cinema 24horas. De fato, havia se arrependido um pouco, levando em consideração que estava com mais sono do que tudo.
Entrou no carro e o arrancou, indo em direção ao seu apartamento, que não ficava tão longe dali.
Porém, o Hyundai i30 prata, estacionado em frente a um PUB, chamou sua atenção.
Era o carro de Hayley. Era reconhecível, pelo adesivo com o design da empresa que havia na traseira. O mesmo adesivo que ela usava.
Estacionou. Algo estava errado.
Entrou no PUB deixando o cheiro de cerveja e desinfetante (havia uma pessoa limpando o chão) invadirem suas narinas. Percorreu o lugar com os olhos procurando algo familiar, até ver os cabelos castanhos amarelados de um homem que estava sentado à um balcão.
Ela reconheceria aqueles cabelos em qualquer lugar do universo.
Aproximou-se de Jason e o viu, com dificuldade, tentando levar mais um copo à boca.
— Você conhece ele? — Perguntou o garçon.
— É um velho amigo meu.
— Bem, nós estamos querendo fechar, e...
— Ok... ok. — Ela concordou. — Quanto ele deve?
— Nada não. Ele pagou antes de começar a beber.
— Pode... me ajudar aqui?
O garçon pegou Jason pelo braço e Alana pegou por outro. Com uma certa dificuldade, eles o colocaram no banco do Honda de Alana.
Ela começou a andar com o carro em direção a casa de Hayley.
— Eu... — Jason começou, visivelmente alterado. Lágrimas caíam de seus olhos e nada podia definir o desespero de Alana ao vê-lo daquela forma. — ...Ally?
— Sim, sou eu. Se acalma, Jasy, vou te levar pra casa.
— EU... NÃO QUERO VOLTAR! — Jason gritou, assustando Alana.
— Você precisa voltar... sua... — ela engoliu seco — ...esposa deve estar esperando por você.
— Não! Ela não... ela não é minha esposa! Ela é uma mentirosa!
Alana o olhou confusa, ainda prestando atenção na pista.
— Jason, você precisa...
— Ela me... traiu... Ally. — Jason disse, dando um soluço logo depois.
Alana ficou estática.
Traído? Como Hayley poderia ter traído Jason?
Claro.
O Coronel.
— Ela não pode ter feito isso... — Ela murmurou.
— Mas ela fez. — Jason choramingou.
— Eu... vou te levar pra minha casa, então... Você precisa descansar...
Alana tentava olhar o menos possível para o seu rosto. Vê-lo vermelho e chorando era pior do que ter o peito perfurado por uma faca afiada. Ela sentia doer nela também.
Teria de ter uma conversa séria com Hayley.
Ela não conseguia entender, simplesmente não conseguia entender porque alguém trairia um dos homens mais carinhosos, engraçados e bonitos que ela já tinha visto. Estava com raiva de Hayley.
O Coronel podia sim ser muito bonito, mas ainda era arrogante e chato. Como trocar os dois?
E agora, por causa deles, o homem que ela amava estava ali, em seu carro, chorando.
Ela sentia raiva.
Estacionou o carro no estacionamento do prédio onde morava. Saiu e abriu a porta de Jason, fazendo-o apoiar-se nela.
— Vamos, Jasy... Vamos...
Eles andaram devagar até o elevador do prédio e subiram até o apartamento de Ally. Após abrir a casa e adentrá-la, ela levou Jason para seu quarto. Ele se deitou em sua cama e pouco depois de chorar mais um pouco, completamente exausto, adormeceu.
Alana ficou vendo-o dormir, até sentir sono também. Pegou uma coberta e levou para a sala. Adormeceu por lá, ainda cheia de raiva e preocupação.

[...]

Era uma sexta-feira de sol. Passavam das duas da tarde quando Jason abriu os olhos.
Olhou em sua volta e não reconheceu onde estava.
O quarto era todo decorado em detalhes roxo. Havia um grande guarda-roupa branco em um canto. Um violão, e na parede à sua frente, várias fotos coladas nela.
Reconheceu ele mesmo em uma delas. Era a foto de ano novo que ele tirou com Hayley, Alana, Jeremy, Taylor e Katt. Dava pra ver Luke com poucos meses de vida também.
Sua cabeça latejava forte e ele estava enjoado. Lembrou-se vagarosamente da noite passada.
Estava na casa de Alana.
Viu um bilhete no travesseiro ao lado dele. O abriu.

“Se você já estiver acordado, saiba apenas que eu dei uma saída. Fui comprar umas coisas no mercado e já volto. Enquanto isso, vai tomar um banho. Tem umas roupas abaixo desse bilhete... Elas eram do Brian. Devem dar em você.
Já volto,
Ally.”

Suspirou.
Lembrava-se do ex-namorado de Alana. Era um baita cretino e não a merecia nem em um milhão de anos. Jason tinha um grande afeto por ela e sabia que Brian não era um bom homem. Talvez até a traísse.
Felizmente eles haviam terminado... fazia um ano e meio? Talvez dois?
Ele não se lembrava. Mas havia ficado feliz por ver a amiga longe daquele traste.
Pegou as roupas e se levantou com certa dificuldade. Foi em direção ao banheiro e deixou a água cair em si.
Seu pensamento não saía de Hayley. Josh. Traição. Bebê.
Porém não deixou lágrimas caírem.
Doía, como doía.
Mas ele não queria chorar novamente. Ele sinceramente não acreditava que o choro fosse um sinônimo de fraqueza, mas não queria se deixar levar novamente. Ter ido beber já tinha sido um erro.
Em menos de um mês e meio ele já havia ficado bêbado duas vezes. Já era demais.
Isso sem dizer que estava dando trabalho para Alana.
Deciciu se trocar e sair de sua casa antes que ela chegasse. Iria até a empresa, pegaria algum dinheiro e alugaria algum lugar. Talvez ficasse em um hotel, ele não ligava. Apenas não queria ser um incômodo.
Vestiu a roupa de Brian ainda no banheiro. Felizmente, as medidas eram quase as mesmas e a roupa lhe caiu bem.
Saiu de lá com o cabelo ainda molhado. Seu rosto ainda continha muitas olheiras e ele ainda se sentia tonto e com enxaqueca.
Mas não teve tempo de ir embora. Alana chegou antes e o viu saindo do banheiro.
— Ei. — Ela sorriu.
— Oi Ally.
— Está melhor? — Perguntou. Jason notou que ela trazia consigo uma bandeja com algumas coisas.
— Mais ou menos...
— Isso quer dizer que não. — Ela torceu o lábio. — Vem, senta na cama.
— Não, eu já te dei muito trabalho... Não quero incomodar, é melhor eu ir.
— Jason, eu vivo nessa casa sozinha já tem uns dois anos. Você não me incomoda nem um pouco. E outra, eu não vou deixar você ir embora desse jeito mesmo, então senta, vai.
Ele suspirou.
Os lindos olhos verdes e brilhantes de Alana o olhavam. Ela continha uma feição de paz que o envolvia no simples ato de olhá-lo.
— Não tenho mesmo escolha?
— Não. — Ela sorriu e, contagiado, ele sorriu também. — Vem, senta.
Jason se sentou com as pernas para o alto.
— Você deve estar com dor de cabeça, sem apetite, enjoado, tonto...
— É, mais ou menos isso. — Ele disse.
— Toma. — Ela lhe entregou um pequeno pote com algo marrom dentro. — É doce de leite.
— Doce? — Ele fez uma careta.
O que menos queria comer agora era algum doce.
— Vai te fazer bem, Jasy. Quando alguém que está alcoolizado é mandado pro hospital, a primeira coisa que fazem é aplicar glicose pura no sangue. O doce de leite é bem açucarado e vai te ajudar.
Jason fez que sim com a cabeça e tomou uma colherada do doce.
— Como você me achou ontem à noite? — Ele perguntou.
— Estava voltando do cinema e vi o seu carro na frente do PUB. Percebi que tinha alguma coisa errada e entrei lá dentro, então eu te tirei de lá.
Ele abaixou a cabeça.
— Me desculpe, eu não costumo fazer isso...
— ...mas você teve bons motivos. — Alana completou.
— É. — Jason abaixou a cabeça.
— Quer me contar?
Ele fez que sim com a cabeça. Alana era serena e algo nela o fazia querer se abrir.
Jason confiava nela.
— Quando eu conheci a Hayley ela ainda não namorava o Josh... mas eles costumavam ficar. Até namorarem de vez. Eu me apaixonei por ela assim que a vi, mas ela não gostava de mim. Então eles ficaram juntos, até... Ele ir pra guerra. Ela chorou e sofreu como ninguém. Eu ajudei ela, Ally. — Involuntariamente, uma lágrima caiu de seus olhos. — Eu ajudei ela do jeito que pude. Ela se mudou pra cá, e eu visitava ela toda semana. Eu escutava ela desabafar. Eu... ajudei ela a compor a primeira música depois que ele foi... Eu ajudei ela... E fiz ela gostar de mim também... Então nós começamos a namorar. Foi tudo perfeito, até decidirmos morar juntos... E eu quis ter uma criança. De início ela não queria, mas depois eu a convenci. Então o Josh voltou... nós discutimos no mesmo dia que nos vimos. Eu fiquei com medo de que ele a pegasse de mim outra vez... Então começamos a brigar por isso... não estávamos totalmente bem... Ontem descobri que ela se previnia por conta própria... e descobri que ela havia me traído com o Josh... Foi tudo uma mentira, Alana... tudo... — Ele já chorava fortemente.
Alana se aproximou dele e o abraçou. Deixou as lágrimas dele molharem sua camiseta.
Ficaram assim durante alguns segundos, até se afastarem. Jason limpou o rosto.
— Me desculpa.
— Não precisa se desculpar. Acontece com todo mundo... Eu entendo que está sendo difícil pra você e só Deus pode dizer o quanto eu me sinto mal por estar te vendo assim. Mas... ela errou muito, Jason... e talvez não mereça você. Talvez... ela não te ame... Você ajudou ela e talvez ela quisesse te agradecer por isso, ficando com você, e convencendo a ela mesma de que amava a você, e não a ele. Mas... a gente não manda no coração... e eu duvido que ela tenha feito isso por mal... Mas você tem que seguir em frente.
— Eu sei, é isso que eu pensei também... Mas sabe, tem uma parte de mim muito grande que quer esquecer de tudo isso e voltar pra ela...
Alana abaixou a cabeça.
— Ainda assim... ela vai continuar não te amando. — Ela murmurou muito baixo. Jason não a escutou direito, mas decidiu não perguntar a ela.
— Mas é bobagem. Vai acontecer outra vez e o melhor e deixar isso tudo. Ela não me ama... e insistir nisso é burrice.
Alana suspirou e pegou sua mão.
Ignorou o arrepio involuntário que sentiu.
— Só saiba que eu vou estar aqui se você precisar de mim. Detesto te ver assim e nunca vou medir esforços pra te fazer sorrir... Cara, Jason, eu te amo demais... — Ela percebeu que havia falado mais do que desejara, e logo contornou: — Você é um dos meus melhores amigos, e a sua amizade vale muito pra mim. Detesto ver amigos meus chorando e eu não quero que você sofra... Se precisar de mim, por favor, é só falar. — Ela olhava dentro de seus olhos azuis que a encaravam.
— Obrigado, Ally. Você é uma grande amiga. — Ele tentou sorrir.
Amiga.
Apenas uma amiga.
Ela abaixou a cabeça e sorriu também.
— Termina de comer o seu doce, vai. — Ele sorriu e colocou mais uma colherada na boca.
— Onde você aprendeu que doce faz bem pra ressaca mesmo?
— Bem... — Ela deu um meio sorriso. — O meu pai foi mandado pro hospital algumas vezes por isso... Os médicos disseram pra minha mãe e eu era adolescente na época. Acabei aprendendo.
— Seu pai?
— Sim... Mas não é uma história agradável. — Ela ainda sorria.
É claro que não queria sorrir.
Mas sorria.
— Qualquer coisa que me distraia agora é bom... Quer me contar?
Ela arqueou as sombrancelhas e abriu a boca, suspirando.
— Ok. — Concordou. — O meu pai costumava beber... e não era pouco... Eu sou filha única, sabe? Ele pegava o dinheiro todo que ele ganhava e gastava em bebida. Aí ele ficava violento, se metia em briga de bar, voltava pra casa e tentava brigar com a minha mãe... Ela me trancava no quarto, mas nunca deixou ele bater nela. Minha mãe era muito forte e meu pai, apesar de tudo, a amava muito. Mas é verdade que eu nunca me sentia bem perto dos dois... acho que não era muito desejada pelo meu pai, por um motivo que eu desconheço... então eu tinha que fingir estar dormindo toda vez que ele chegava bêbado... Um dia, ele se meteu numa briga de bar e o cara tava armado... Não é necessário ser um gênio pra descobrir o que aconteceu depois. Sem o meu pai a minha mãe teve que trabalhar mais, e foi aí que eu comecei a produzir festas. Eu tinha só uns 15 anos quando os pais de uma amiga minha tinham que fazer uma festa para a irmãzinha mais nova dela... Eles iam fastar uma fortuna numa festa que não ia agradar as crianças. Eu dei opiniões boas e eles me disseram pra eu tomar conta. Eu fiz tudo feliz, era só uma adolescente. Quando a festa aconteceu e ficou ótima, eles me pagaram a diferença que gastariam a mais na outra festa, e eu vi que poderia trabalhar assim. Uns anos depois, eu já tinha terminado os estudos e deixei um currículo com o Nicky. Estou lá desde então. Então... apesar de tudo... se não fosse pelo meu pai eu não estaria aqui.
— Nossa. — Jason riu. — A sua história então teve um final feliz?
— Nem tanto. — Ela sorriu de canto. — Mas não é por isso que eu devo deixar de sorrir. Tento sempre ver o lado bom das coisas e seguir em frente sempre, apesar de tudo.
— Gostaria de ser assim...
— Você é, Jason. Só precisa acreditar. — Os olhares deles se encontraram novamente.
— Você é incrível, sabia disso? — Ele disse, sorrindo.
— Não sou nada. — Ela respondeu, forçando os lábios.
Ainda mantinha o olhar firme nos seus olhos. Era difícil estar tão perto dele e não poder tê-lo, de verdade. Tudo nela gritava para ela se aproximar dele e o beijar. Tudo.
Já Jason, agora, pensava na mesma coisa. Pensava em como ela era bonita e em como ele não havia notado isso. Olhava dentro de seus ternos olhos verdes e via esperança. Ela era realmente incrível.
Alana não agüentou mais.
Aproximou-se rapidamente e tomou os lábios dele num beijo urgente.
Jason não recuou, afinal, ele também queria aquilo. Passou uma mão pelo braço dela e a puxou mais para si. Ele não pensava. Estava deixando-se guiar pelo desejo carnal de ter aquela mulher para si.
E ali, na cama de Alana, o desejo dos dois foi consumado. Alana o queria mais que tudo e não havia conseguido conter sua vontade que estava escondida dentro dela desde muito tempo. E Jason, nela se refugiou, esquecendo-se de todos os seus problemas e do mundo lá fora. Esquecendo-se das conseqüências e da amizade que os dois mantinham. Esquecendo-se, apenas, de tudo.

[...]

O sol se punha, e Jason re-colocava sua roupa.
Notara o quando aquilo havia sido errado.
Alana, estava adormecida na cama. Apenas o cobertor cobria o seu corpo.
Acordou quando Jason colocava seu sapato.
— Você vai embora? — Foi a primeira frase que se formulou em sua cabeça.
— Me desculpa, Ally... Desculpa.
— Mas desculpar porquê? — Ela mantinha uma feição confusa.
— Eu... eu estraguei tudo... Me desculpa ter feito isso com você... Eu estou estragando tudo.
— Jason, olha, eu...
— Eu acabei de ter uma briga com a Hayley e ainda fiz isso contigo. — Ele se aproximou da cama. — Me diz, por favor, que você vai continuar sendo a minha amiga... Eu não quero estragar a nossa amizade, Ally...
Alana deixou uma lágrima cair.
Ele ainda pensava que eles eram amigos.
— Claro que isso nunca vai mudar, Jason... Continuo sendo a sua amiga... — Ela disse tudo isso com um nó na garganta.
— Obrigado. — Ele agradeceu. — Prometo que vou esquecer tudo isso, ok? Eu... não devia... Me perdoa. Você é a minha melhor amiga e eu não quero estragar isso.
— Não estragou. — Ela respondeu e tentou sorrir.
Jason deixou um beijo em sua testa e disse “me desculpe” mas uma vez. 
Saiu do quarto e Alana deixou as lágrimas caírem.

Se ele soubesse que ela o queria...
Mas ela simplesmente não conseguia dizer! Não podia dizer. Se dissesse, ele iria se afastar dela. Não seria nem sequer seu amigo. E ela não podia perdê-lo. Preferia tê-lo como amigo do que não tê-lo.
E com isso, mais um coração se partia nessa história toda.

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