23 de set de 2012

Capítulo 49


I won't get used to being gone



— Tira isso da cabeça — ele disse pela vigésima vez, aumentando o aperto em sua cintura e fazendo-a suspirar. — Você é incrível, Sophie. Você é extremamente talentosa, e sabe que eu te acho a melhor pianista do mundo. Eles não vão desconsiderar isso só por causa de um erro. Todo mundo erra, não é?
Sophie afundou o pescoço no ombro de Luke mais uma vez, segurando-se nele para que não se desequilibrasse. O metrô em que eles estavam não estava lotado, mas cheio o bastante para que não houvesse mais lugares para se sentar.
— Você não viu o jeito que eles me olharam — ela sussurrou, sentindo um arrepio passar pelo seu corpo com toda a intensidade. Já havia parado de chorar, sim, mas ainda estava mais do que aflita pelo que havia passado na audiência. Detestava se sentir fraca. E ela se sentia mais fraca do que tudo nesse momento. — Inexpressivos, impecáveis. A mulher que conversava comigo só mostrou alguma emoção quando falou do Sr. Christopher.
— Acontece, Soph, que é pra isso que eles servem — apesar de também estar aflito com a situação, a voz de Luke era inegavelmente calma. — Eles precisam ser rígidos, impotentes, inexpressivos e bobocas — ele fez a piada, fazendo com que ela desse uma pequena risada. — Eles precisam realmente ser desse jeito, por que é assim que eles avaliam como uma pessoa atua sobre pressão. Você tocou Liszt perfeitamente, falou todo aquele discurso extremamente choroso e emocionante e foi linda do jeito que é. Se eles são mesmo a melhor escola de música desse país, não serão burros o suficiente para não te aceitarem — agora o tom de voz de Luke já estava completamente confiante, e Sophie deixou-se dar mais um sorriso.
Luke sabia exatamente como fazê-la se sentir melhor. E... tudo bem, em parte, ele até tinha razão. Sophie não tinha pensado bem enquanto estava na audiência por que estava nervosa demais — afinal, agora surgiam mil frases diferentes para salvar sua pele quando lhe fora perguntado sobre a briga com Stephy —, mas ainda assim não havia feito nada de realmente errado. Tinha tocado bem, ela reconhecia. Tinha respondido bem as perguntas. Tinha sido simpática e agradável. E acima de tudo, tinha se entregado de corpo e alma quando tocava, o que por si só garantiria uma vaga em qualquer escola do mundo, segundo Brendon.
E mesmo que ela não fosse aceita em Juilliard, ela não desistiria do seu sonho. Oras, quantas escolas de música existiam por aí? Em Nova Iorque ou não? Sophie sabia que jamais trabalharia ou ganharia sua vida com outra coisa que não fosse música. Tendo estudado em Juilliard ou não.
Por isso, quando Luke disse outra vez “você é maravilhosa, sério, tira isso da cabeça”, ela sentiu seus músculos relaxarem gradativamente e procurou os lábios do namorado, achando-os sem nenhuma dificuldade. Já havia feito sua audiência para Juilliard e, agora, precisava mais do que tudo aproveitar a presença do namorado. Afinal, eles ficariam sem se ver até as férias do natal.
Tempo demais, se querem saber. Sophie ainda estava tentando descobrir como conseguiria lidar, assim como Luke. Mas eles já haviam combinado de ligar todo dia, fazer conferências de vídeo pela internet e mandar cartas. Muitas cartas. Podia ser extremamente ultrapassado — e, na verdade, era —, mas tanto ele quanto ela concordaram que nada acalmaria mais seus corações do que ver a letra um do outro. Luke com sua letra itálica e desigual, que mais parecia um grande rabisco quando ele escrevia com pressa. Sophie com sua letra pequena e redonda, diferente da maioria das pessoas. Com toda a certeza, seria mais do que um alívio para ambos entregar-se a leitura de uma carta, tendo a certeza de que ela fora escrita pela pessoa que ambos amavam mais do que tudo na vida.
Ela separou seus lábios com delicadeza, olhando no fundo dos olhos azuis brilhantes e hipnotizantes de Luke. Deu um meio sorriso sem mostrar os dentes, demonstrando que já estava bem melhor, apenas por estar com ele.
— Obrigada — ela sussurrou, ainda segurando sua nuca com as duas mãos.
Ele sorriu largamente.
— Não fiz nada. Estou apenas dizendo a verdade. Você é demais. — Novamente, o tom de voz confiante estava pairando sobre ele. Sophie sorriu mais uma vez, decidida a parar de pensar na audiência por um momento. Pelo menos por um momento.
Lentamente o metrô foi diminuindo sua velocidade até cessar. Sophie não se moveu, sabendo que eles desceriam uma estação a mais do que aquela para que chegassem ao apartamento de Brendon. Mas Luke começou a andar.
— Ei, não é aqui que vamos parar — Sophie relembrou a ele, que seguia uma pequena multidão e a puxava pela mão.
— É sim — ele disse, sorrindo.
Eles já haviam saído do vagão do metrô quando a voz de Sophie se sobressaiu a das pessoas que estavam ao redor dos dois.
— Pra onde estamos indo? — ela quase gritou, recebendo um sorriso de Luke em seguida. Ele não respondeu e apenas acelerou o passo, fazendo-os andar rapidamente até saírem da estação subterrânea.
E verem o início do Central Park à sua frente.
Sophie riu enquanto Luke abria os braços, como se estivesse apresentando alguma coisa.
— Pra cá! — ele disse com a voz alterada e isso só serviu para fazer Sophie rir mais uma vez. E pensar que ela estava chorando há menos de meia hora atrás. — Não deu pra gente vir ontem, e eu quero fazer uma coisa.
Sophie fez que não com a cabeça, segurando a mão de Luke logo depois quando eles começaram a andar em direção ao parque.
— Que coisa? — perguntou ela, enquanto quase corria para atravessar a única rua que separava a estação de metrô do início do Central Park.
— Uma coisa — ela o ouviu dizer e bufou. Luke devia ser a única pessoa do mundo que conseguia ser perfeitamente amável e irritante num intervalo incrível de apenas dois minutos.
— Detesto quando você começa a falar alguma coisa e não termina — ela revirou os olhos após dizer, mas isso só serviu para que Luke gargalhasse. — Que coisa?
— Você vai saber o que é, se acalma — ele disse, com o tom de voz despreocupado, enquanto passava a andar mais devagar. Agora eles seguiam um pequeno caminho de calçada por meio do bosque arborizado. Podiam escutar o cantar dos passarinhos ao fundo, e era possível ver algumas folhas caindo das grandes árvores que pareciam já ter durado várias primaveras. Assim como eles, algumas pessoas caminhavam calmamente pela calçada, sozinhas ou acompanhadas, sorrindo ou apenas contemplando a natureza ao redor. E era uma visão realmente linda para quem não fosse acostumado àquilo, o que deveria incluir pelo menos noventa e oito por cento dos moradores de Manhattan. Aquele pedacinho de Nova Iorque era como um refúgio, longe de toda aquela correria e aquela preocupação. Por isso Sophie se deixou ficar em silêncio, esquecendo-se do dia ruim e da idiotice de Luke, concentrando-se na beleza estonteante do lugar. Ao longe, Sophie viu algumas pessoas fazendo piquenique à beira de um lago artificial, que por sua vez, era atravessado por duas canoas. Continuaram andando por mais alguns breves minutos, observando e contemplando, até chegarem em uma parte especial do parque onde algumas crianças brincavam em um playground e alguns adultos conversavam despreocupadamente sentados em bancos de madeira. Mas dentre todo o percurso, Sophie sabia que seus olhos não tinham brilhado como no momento em que ela avistou uma barraquinha de pipoca doce.
— Compra pra mim — ela disse para Luke, apontando para a pipoca de aspecto rosado dentro da espécie de carrinho que um senhor carregava.
Luke riu. — Pipoca doce? Tudo bem.
— E compra sorvete também — ela mexeu no braço do namorado, como se precisasse disso para que ele assimilasse bem o que ela estava dizendo. — De pistache. Quero sorvete de pistache.
— Sorvete de pistache? — Luke ergueu uma sobrancelha, parando para encarar a namorada. — Nem sei se vendem isso aqui.
— Ai, Luke, por favor — ela revirou os olhos, sem soltar seu braço. — Claro que vendem! Compra pra mim, vai!
— Tá legal — ele encolheu os ombros, rindo. — Primeiro a pipoca ou primeiro o sorvete?
— Os dois!
Ele franziu o cenho.
— Ao mesmo tempo? — precisou perguntar para ter certeza. Viu Sophie revirar os olhos como se estivesse impaciente e tudo fosse muito óbvio.
— Sim, ao mesmo tempo — ela bufou.
Luke torceu os lábios.
— É que... sorvete e pipoca juntos é uma mistura esquisita — ele disse devagar, fazendo uma careta.
Sophie o olhou como se fosse matá-lo naquele mesmo momento.
— Vai comprar o negócio pra mim ou não?
Ele riu mais uma vez, passando uma mão pela cintura dela e deixando um beijo na sua testa. — Vou comprar sua mistura estranha de guloseimas, tá.
Sophie comemorou por dois segundos enquanto eles seguiam em direção à barraquinha de pipoca doce. Ela pediu a maior porção, mas não comeu uma pipoca sequer até eles andarem por mais uns bons cinco minutos até acharem um carrinho de sorvetes. Por pura sorte, havia uma única porção de sorvete de pistache para vender. “Ele não é o preferido das crianças, sabe” havia dito o senhor que segurava o carrinho. “Por causa da cor verde e coisa e tal”.
Sophie apenas ignorou o homem e deixou Luke pagar os dólares necessários para ele. Abriu seu pequeno pote de sorvete e pediu para Luke segurar seu saco de pipoca, que o fez com uma careta no rosto ao ver a namorada molhar a pipoca doce no sorvete verde e comer tudo aquilo achando delicioso. Sinceramente, Luke achava que a única pessoa que provavelmente acharia aquilo bom era Dan. E isso por que para uma comida ser boa para Dan, ela só precisa ser comida.
— Isso é ótimo — Sophie disse, tomando outra colherada de sorvete e mastigando a pipoca. — Não sei como nunca pensei nisso antes.
Luke riu, comendo uma pipoca, já que estava segurando o saco.
— Acho que ninguém nunca pensou nisso antes — disse, fazendo uma pequena careta enquanto ouvia Sophie xingá-lo e comer mais uma vez a sua mistura estranha.
Eles andaram de volta até o lugar onde havia o playground e Sophie seguiu Luke até a sombra de uma árvore enorme, meio afastado dos bancos de madeira, mas mais perto de um outro laguinho artificial. Ela deixou-se aninhar ao corpo do namorado quando ele se sentou e se recostou na árvore, admirando a beleza da vista que tinha, e isso sem citar o gosto peculiar e delicioso da pipoca doce com o sorvete de pistache. É, seu último dia em Nova Iorque não estava assim tão ruim.
— Agora eu entendo por que falam tanto do Central Park — ela sussurrou, lambendo os próprios lábios gélidos. — É tão... bonito.
— É sim — Luke concordou, com o queixo pousado no ombro dela. Mergulhou novamente no silêncio, mas não aquele silêncio ruim. Esse era um silêncio que completava a ambos, deixando com que cada um tivesse espaço o suficiente para se perder em seus próprios pensamentos em relação àquele parque, àquela cidade, àquele momento em si. Os próximos momentos que iriam passar. E o sorvete com a pipoca. — Hum... você sabia de uma coisa?
Sophie fez que não com a cabeça.
— Que coisa? — perguntou, ainda prestando atenção no seu sorvete que já estava no fim.
— A coisa que eu queria fazer — ele disse, com o sorriso sapeca no rosto novamente. Sophie jurou em pensamento que bateria nele com toda a força se ele não falasse de novo.
— E que coisa é essa?
— Ah, uma coisa... — ele disse, dando ombros, com o tom de voz total e completamente despreocupado. Sorriu, enquanto via a namorada bufar de pura irritação. Luke sabia que eladetestava quando alguém começava a dizer algo e não terminava. — Eu trouxe uma faca, sabe.
Sophie se virou para ele, olhando-o como se Luke tivesse tingido o cabelo de verde.
— E daí? — ela perguntou, meio indignada. — Por que diabos você foi trazer uma faca para o par... Oh, meu Deus — a expressão de raiva no seu rosto deu espaço rapidamente à expressão de surpresa e incredulidade. — Você não vai...
— Vou — Luke a interrompeu com o melhor sorriso que tinha. Retirou um pequeno canivete do bolso e se levantou, impondo a lâmina afiada da faca e posicionando-a contra a árvore. Sophie riu sem acreditar. — Você prefere que eu escreva “Sophie” ou “Soph”?
Ainda com o sorriso de incredulidade no rosto, Sophie fez que não com a cabeça.
— Você não vai fazer isso... — murmurou, quase se esquecendo do sorvete que estava em suas mãos.
— Ah, vou — Luke disse completamente imponente. — Sophie é melhor. Mais completo e sexy.
Ela gargalhou e se afastou um pouco, observando os músculos dos braços e das costas de Luke se contraírem gradativamente enquanto ele marcava a árvore com o canivete.
Deus, mas que coisa boba que ele estava fazendo! E fofa! Ridiculamente fofa! Ai, mas que droga, Luke estava escrevendo o nome deles numa árvore no Central Park! Estava sorrindo, completamente feliz, enquanto ela se entupia de sorvete e pipoca. Estava sendo irritantemente amável de novo, e isso tudo era tão perfeito e incrível que fazia Sophie querer chorar, rir, bater nele e matá-lo de beijos ao mesmo tempo. Desde quando ela se tornara essa confusão absoluta de sentimentos, ela não sabia. Talvez estivesse com uma TPM adiantada.
Ou talvez só amasse Luke demais.
— Isso é mais difícil do que parece nos filmes, pois é — ele disse, enquanto colocava um pouco mais de força no canivete, fazendo com que seus músculos se flexionassem com mais intensidade. Sophie prendeu a respiração durante um segundo, observando o belo físico do namorado e sentindo-se sortuda por saber que tudo aquilo era dela. Apenas dela. E de mais ninguém.
Essa era a parte em que Sophie queria matá-lo de beijos.
— Ainda não acredito que você vai fazer isso — ela murmurou, fazendo Luke dar uma risada gostosa.
— Pois então pode passar a acreditar, por que... — Luke disse bem devagar e parou de flexionar seus músculos, guardando a lâmina do canivete logo depois — ...eu terminei!
Sophie se levantou, deixando as guloseimas no chão, e sentiu seus olhos começarem a brilhar. O desenho de Luke na árvore era a coisa mais... linda que ela já havia visto. Ele havia escrito“Luke loves Sophie”, envoltos por um coração, em uma letra completamente desigual, mas ao mesmo tempo, linda. Foi impossível conter o sorriso enorme que surgiu no rosto dela sem aviso prévio.
— E então? — Luke perguntou, aproximando-se dela. — O que minha namorada linda e que gosta de comer sobremesas esquisitas achou?
Ela sorriu, aproximando-se também, e passando as mãos pelo seu pescoço.
— Ela acha que o namorado dela é muito bobo — Soph começou, olhando no fundo dos olhos dele. — Mas ela também acha que ele é a pessoa mais incrível que ela já conheceu. E essa marca na árvore comprova, mais uma vez, tudo isso para ela.
Luke sorriu, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha de Sophie. Ainda encarava seus olhos furtivamente.
— Bom saber que ela gostou — ele entrou no jogo, contendo um sorriso cativante no rosto. — Por que eu só fico bobo desse jeito por causa dela. É tudo culpa dela, sabe.
Sophie sorriu, aproximando suas testas.
— Sei — sussurrou, fechando seus olhos. — Saiba que tudo que ela sente é culpa dele também. E que ele não tem ideia do efeito que causa sobre ela. E que ela o ama com todo o coração.
Luke aproximou seus corpos, segurando a nuca dela com um pouco mais de firmeza.
— Eu a amo com todo o meu coração, também. Ela sabe. — Ele sussurrou, fazendo com que Sophie desse um sorriso verdadeiro antes de tomar seus lábios em um beijo calmo e com gosto de sorvete. Eles chocaram seus lábios e entrelaçaram suas línguas delicadamente, apenas sentindo o gosto um do outro, e desfrutando com satisfação do sentimento que lhes tomavam conta quando eles estavam na companhia um do outro. A corrente elétrica corria livremente pelos seus corpos, mesmo que o beijo fosse calmo, mesmo que ambos estivessem tomados pela serenidade. Essa era uma coisa que jamais mudaria nos dois. O extremo sentimento que os envolviam toda vez que se beijavam.
Pouco tempo depois, quando seus pulmões pediram por ar, Luke acariciou a maçã do rosto de Sophie antes de separar seus lábios delicadamente, e sem desgrudar suas testas. Deu uma risada baixa, feliz apenas por estar com ela, o que por si só fez com que ela risse também a apertasse sua nuca.
— Seja lá qual for o sabor dessa mistura esquisita de doces que você estava tomando — Luke começou entre sua risada, sussurrando —, deixou a sua boca com um gostinho bom.
Sophie riu um pouco mais alto, apertando a nuca dele ao mesmo tempo, como se quisesse puni-lo.
— Você é um bobo — ela sussurrou em seguida, aproximando seus lábios vagarosamente em um selinho molhado e delicioso. Sorriu, sentindo um arrepio gostoso esquentar seu corpo de uma vez enquanto Luke passava as mãos pela sua cintura e juntava seus corpos, unindo seus lábios logo depois. Sim, Sophie sabia que ele era absolutamente bobo. Mas a verdade era que ela também era. Completamente boba, e tudo isso só por causa dele.



[...]



— Oh! — Jane exclamou num choramingo, fazendo o rapaz dar uma risada. — Maldito seja Brendon!
Dan sorriu, segurando a mão da namorada que já estava perto e puxando-a delicadamente, fazendo-a sentar-se no seu colo. Apertou o corpo dela contra o seu, deixando-se perder no seu cheiro doce por um momento.
— Mas por que, linda? — ele perguntou, apoiando o queixo no ombro dela. — Ele não emprestou a casa com a cozinha maravilhosa e tal?
— Sim! — ela choramingou outra vez, pousando as mãos nos braços fortes do namorado que agora cruzavam sua barriga, segurando seu corpo junto ao dele. — E esse é o problema! Ele nos emprestou o apartamento e nos fez ver tudo de maravilhoso que tem nele, e agora nós vamos sentir falta dele para sempre!
Dan gargalhou, deixando um beijo na bochecha da namorada.
— Não se preocupa, gatinha. Assim que nós nos casarmos, eu te dou um apê com uma cozinha grande e tudo o que tem direito — ele disse, totalmente convencido, o que fez com que Marie desse uma risada baixa. Uma das coisas que mais adorava em Dan era seu tom de voz imponente e sua autoestima, que só parecia realçar sua beleza inegável. Tudo bem que alguns meses antes era isso mesmo que a fez se sentir confusa quanto a eles e o sentimento que havia entre eles, mas agora que ela tinha certeza que o amava e que ele a amava também, tudo isso era ótimo. No início, Marie se sentiu uma adolescente idiota por estar atraída por um rapaz tão bobo e convencido. Sinceramente, ela não sabia como conseguira se apaixonar tão loucamente por alguém tão diferente dela. Mas mesmo assim se apaixonara. E nunca se sentira tão feliz em sua vida.
Mesmo que tivesse de se mudar do apartamento dos seus sonhos dentro de algumas poucas horas.
— Você promete? — ela perguntou, virando seu rosto para encarar os olhos negros dele.
— Prometo! — ele assentiu veemente com a cabeça, dando mais consistência para o que disse. — Nem que eu tenha que vender meu rim.
Marie gargalhou, segurando o rosto dele entre suas mãos e lhe deixando um beijo calmo e rápido nos lábios, antes de se levantar de seu colo e ir conferir a torta que estava no forno. Na parte de cima do fogão, ela havia feito um dos pratos preferidos de Dan: frango frito com purê de batatas. Também estava cozinhando espaguete com queijo e molho ranch, e o bolo de chocolate recheado com sorvete de flocos já estava na geladeira. Para dizer a verdade, era a primeira vez que ela cozinhava de verdade naquela cozinha (cozinhar de verdade para ela significava cozinhar por mais de duas horas), e ela simplesmente se recusava a ir embora para seu dormitório frio e simples na fraternidade da Columbia University antes de usar tudo o que tinha direito ali.
— Nossa! Que cheiro bom! — Dan se virou para onde tinha escutado a voz e viu Luke, segurando a mão de Sophie, adentrando a cozinha. — O que nossa chef está preparando para hoje?
Marie sorriu.
— Torta de carne moída, frango frito, purê de batatas e macarrão com queijo ao molho ranch. E de sobremesa, bolo com sorvete — ela disse, enquanto Luke umedeceu seus lábios. Estava com fome (Sophie comera toda a pipoca), e o cheiro de frango frito não estava ajudando. — Um pequeno banquete de despedida.
— Oh, despedida para mim! — Sophie exclamou. Marie revirou os olhos.
— Não. Despedida para o apartamento. — Ela disse, dando de ombros enquanto Sophie e Luke gargalhavam. Ela soltou a mão do namorado para ir tomar um copo d’água, mas assim que passou em frente ao fogão, sentiu seu estômago revirar e sua garganta secar. Desistiu da água no mesmo momento e colocando uma mão na boca, ela saiu correndo o mais rápido que pôde em direção ao banheiro mais próximo, no segundo andar.
— O que deu nela? — Dan perguntou, vendo-a correr e escutando o barulho de seus tênis batendo contra a escada.
— Parece que vai vomitar — Marie disse, torcendo os lábios. — Puxa vida, acho que carreguei o frango demais no alho.
Luke fez que não com a cabeça.
— Ela comeu sorvete de pistache e pipoca doce ainda agora — ele disse, franzindo o cenho. — Aquele velho do sorvete não me parecia muito confiável.
Dan sorriu.
— Nunca confie em velhos que vendem sorvete de pistache — disse, dando ombros. Luke sorriu também, respirando fundo.
— Vou ver o que houve — falou, e então saiu correndo em direção ao quarto em que estava hospedado, que estava com a porta escancarada. No banheiro, onde Sophie também havia aberto a porta desesperadamente, ela estava amarrando o cabelo para trás e molhando o rosto com água fria em seguida. Bochechou um pouco de água, cuspindo e praguejando logo depois. Parecia ter ficado subitamente mais pálida. Luke se recostou na porta, encarando-a preocupado. — Ei, o que aconteceu? — perguntou.
Sophie suspirou, apoiando-se na pia.
— Senti uma ânsia muito forte e tive que vomitar. Estou completamente enjoada. — Disse, suspirando e secando o rosto com uma toalhinha logo depois. — Nunca mais quero ver um sorvete de pistache na minha vida.
Luke sorriu, enquanto ela se aproximava dele. Passou a mão pela sua cintura e juntou seus corpos, abraçando-a sentidamente. Pousou o queixo no topo da cabeça dela.
— Vou comprar um remedinho pro seu estômago e peço pra Marie fazer uma sopa bem leve. Pode ser?
Sophie resmungou, com o rosto enterrado no seu peito.
— Não quero comer — disse baixo, choramingando. — Se eu pelo menos sentir o cheiro de comida vou querer vomitar de novo.
— Mas você precisa comer — ele disse, calmo, ainda abraçando-a.
— Não quero — ela resmungou outra vez, fazendo Luke dar uma risada.
Separou-se dela por um momento, segurando seu rosto com as duas mãos.
— Eu vou lá com o Dan comprar o remédio, tá? Toma um banho e quando eu voltar, te faço comer — ele disse, fazendo-a sorrir também e fazer que não com a cabeça. Deixou um beijo em sua testa e saiu do quarto logo depois, deixando Sophie sozinha com seu enjoo chato e inoportuno. Certamente nada seria pior do que embarcar logo de manhã no outro dia estando completamente enjoada.
Ela tinha de se lembrar de nunca mais tomar sorvete e comer pipoca ao mesmo tempo.
Luke voltou cerca de quarenta minutos depois, quando Sophie já tinha tomado banho e arrumado tudo para a sua partida no dia seguinte. Certificou-se de que não estava esquecendo nada e deixou apenas a roupa que vestiria no dia seguinte, o celular e a câmera fotográfica em mãos. Estava revendo as fotos que havia tirado naquele dia, no Central Park quando Luke apareceu com uma cartela de comprimidos e um copo d’água em uma mão, e uma pequena vasilha com macarrão em outra. Sophie ficou feliz quando viu que estava sentindo um pouco de fome e, na verdade, queria comer o macarrão com queijo. Mesmo que esse queijo fosse fazer sua garganta arranhar logo depois, e em casos mais extremos, ele ficar com um pouco de febre. Por queijo valia a pena.
— Cheguei! — ele disse, fazendo-a rir. Apoiou o macarrão na cômoda e se sentou na cama assim como ela, entregando-lhe o comprimido e o copo d’água. — Eu e Dan penamos até achar uma drogaria. Enfim, o farmacêutico disse que esse é o melhor comprimido pra intoxicação ou má digestão, que é o que deve ter acontecido por causa do sorvete. Você tem que tomar muito líquido e não pode deixar de se alimentar, então eu trouxe o macarrão pra você, mas tirei o queijo.
Sophie abriu a boca, protestando.
— Ah, qual é! — ela reclamou, bufando. — A melhor parte do macarrão com queijo é o queijo!
Luke riu.
— Queijo não te faz bem. E o molho tá bem gostoso. — Ele disse, vendo-a engolir o comprimido com a ajuda da água, e entregou-lhe o macarrão que ela logo começou a comer.
— Ainda queria o queijo — ela reclamou outra vez. Luke revirou os olhos.
— Você já tá doente, quer ficar ainda mais? — ele pegou o garfo da mão dela e colocou alguns fios de macarrão na própria boca, comendo. Sophie sorriu e recostou seu corpo no dele. — O que será que Marie colocou nesse molho?
— Eu sei lá — Sophie disse, comendo já com um pouco mais de vontade. — Deve ter sido a mãe dela que ensinou. A minha não é a melhor cozinheira do mundo, então eu não herdei esses dons.
Luke sorriu.
— Vamos viver de fast-food e comida congelada quando formos morar juntos, eita — ele disse, passando a mão pela cintura de Sophie.
— E aí vamos ficar obesos — ela rebateu, fazendo Luke rir por sua vez.
— Não, não vamos — ele disse. — Vamos entrar numa academia e eu posso cozinhar pra minha esposa de vez em quando. Que acha?
— Gosto da ideia de não ficar obesa — ela disse, rindo. — E desde quando você sabe cozinhar?
— Sei algumas coisas. Minha mãe às vezes dá a louca e me chama pra fazer o jantar com ela — ele explicou, fazendo Sophie lembrar de súbito da obsessão de Katt todo fim de ano por fazer a melhor mousse de natal. Sorriu, entregando-se a um silêncio gostoso, dividindo o macarrão com Luke.
Ele viu a máquina fotográfica por cima da cama e pegou-a, apertando o botão que a fazia ligar. Sophie levantou os olhos quando ele passou a ver as fotos que eles haviam tirado desde que embarcaram para Nova Iorque. A primeira foto era de Sophie dormindo no ombro de Luke, no voo, e ele fazendo uma careta. Sophie se lembrou que queria apagar essa foto, mas a careta dele estava realmente impagável, então ela a conservou. Então, algumas fotos de Manhattan por cima, que Luke havia tirado pouco antes de desembarcarem. Dan e Luke na sala de música, ambos com um sorriso no rosto. Dan fazendo um muque e uma careta esquisita. Marie beijando o rosto de Dan. Umas quatro fotos de um dos laguinhos artificiais do Central Park, e uma outra foto com Dan em cima do galho de uma árvore. Marie e Sophie na varanda sorrindo na varanda. Marie e Sophie sorrindo na varanda e o pé de Dan (ele havia colocado o pé na frente da lente apenas para estragar a foto). Os quatro numa mesa em um restaurante de barbecue sulista chamado Southern Hospitality. Sophie sorriu, lembrando-se de que Marie havia jurado ter visto Justin Timberlake na cozinha do lugar, e todos a zoaram por isso, mas quando chegaram em casa, ela pesquisou sobre o lugar na internet e descobriu que Justin era um dos donos do restaurante. Os quatro nunca haviam ficado tão pasmos. Uma outra foto de Sophie dormindo, apagada na cama (por que diabos Luke gostava de tirar fotos dela dormindo?). Duas fotos de Luke e Dan fazendo a festa com o café da manhã que Marie havia preparado, ainda esta manhã. Sophie e Luke no piano, sorrindo (foto tirada por Marie). Uma foto de Sophie tocando, tirada por Luke. Então vinham as fotos do Central Park. Uma foto da árvore, e outra foto dos dois embaixo do nome deles na árvore, trocando um selinho (Luke pagou um dólar para o menino que tirou a foto). Uma foto da pipoca e do sorvete. Uma foto do playground com o laguinho um pouco mais longe. E uma foto de Sophie se segurando em Luke, no metrô, enquanto ria.
Luke parou de ver as fotos selecionou o modo automático da máquina, fazendo Sophie entender que ele queria tirar uma outra fotografia. Ela pegou alguns fios de macarrão com o garfo e colocou na boca dele, e nesse exato momento o flash bateu em seus rostos. Sophie rindo e Luke mastigando, eles foram ver como a foto havia se saído.
— Olha só que namorado feio você foi arranjar — ele disse, fazendo som de reprovação, apontando para a câmera digital. Sophie engoliu o macarrão que havia colocado na boca.
— Olha só essa tua namorada, toda pálida, doente e sem graça. Ah, não, Luke — ela entrou no jogo, fazendo Luke rir.
— Só tô vendo uma garota totalmente linda enquanto coloca macarrão na boca do namorado esquisito — ele deu ombros e Sophie largou a tigela de macarrão para abraçá-lo por trás e colocar o peso de seu corpo sobre o corpo dele, fazendo-os caírem para trás. Luke sorriu e Sophie se deitou sobre o seu peito, gargalhando como uma criança. Apoiou a cabeça lá, acalmando suas risadas, ouvindo o bater do coração dele e sentindo seu peito se inflar gradativamente. Passou as mãos pela cintura de Luke e apertou-o, querendo ficar a vida toda daquele jeito. Senti-lo tão perto dela lhe transmitia a melhor sensação de calma, paz e felicidade que ela jamais sentira em toda a sua vida. Se morresse ali, morreria feliz e completa. Só por estar com ele.
Mas foi inevitável ela não sentir um aperto no peito ao saber que aquela seria a última vez que ela faria aquilo num intervalo de, no mínimo, seis meses. Tanto tempo. Como iria suportar? Ela ainda estava tentando descobrir.
Mesmo assim, eles não fizeram amor naquela noite. Ficaram conversando, planejando o futuro e falando bobagens até mais da metade da madrugada. Observaram a lua pela varanda do apartamento de Brendon, também contemplando as luzes da área de Upper West Side, na cidade, a grande Nova Iorque. Vez ou outra, Luke se pegava abraçando Sophie de repente, com muita força, apenas para provar que aquele momento era real, ou para pedir que ela não fosse embora, mesmo que soubesse que ela precisasse. Mais de uma vez pegou-se apertando sua cintura com mais força do que o necessário quando seus lábios se encontraram. Mais de uma vez pegou-se desejando com todo o coração que aqueles seis meses passassem mais rápido do que ele achava que poderia ser. E mais de uma vez pegou-se acariciando o rosto de Sophie, mesmo depois de ela ter caído em sono profundo, sussurrando com todo o coração que ele a amava, mesmo que ela não pudesse escutar.
E enquanto imprimia a foto que eles haviam tirado no Central Park e a foto do macarrão, quando ele havia deixado sua amada em sono profundo na cama e se levantou já depois das cinco da manhã, Luke se pegou pensando como seria sua vida dali a cinco anos. Se pegou pensando onde estaria, o que estaria fazendo, no que estaria trabalhando, no que Sophie estaria trabalhando. Se teria filhos ou não. Se moraria em Nova Iorque ou em Nashville, ou em outro lugar. Se ainda teria o mesmo penteado de cabelo que tinha desde os treze anos e até agora nunca tivera vontade de mudar. Se tudo daria certo para ele e para a garota que ele amava.
Se... ele ainda guardaria aquela foto que acabara de imprimir.
Luke só foi conseguir dormir quando o dia ameaçou amanhecer. Ainda segurava Sophie contra ele, ainda observava os belos traços finos e delicados de seus rosto, ainda desejava que estivesse com ela independente do que acontecesse. Então, lentamente seus olhos ganharam peso e ele cochilou. Cochilou, sim, por que mesmo que soubesse que eram seis e pouquinho da manhã quando adormeceu, ele acordou às nove e meia com a sensação de que havia fechado os olhos por apenas quinze minutos.
Mesmo assim se colocou de pé junto à Sophie, que parecia meio chateada por ter de voltar à Nashville sem ele. Luke sabia que era isso, e não a culpava, pois ele também estava chateado. Mesmo que soubesse que eles iam ligar todo dia, trocar emails e cartas, e se veriam pessoalmente novamente dali a poucos meses, a cada minuto que se passava um sentimento de perda se apoderava dele. Luke não entendia o que estava acontecendo. Mas era como se o seu subconsciente o alertasse a todo o momento que ele não deveria deixá-la ir de jeito nenhum, por que se ela fosse, ele iria perdê-la.
Em palavras desconexas, ele até tentou explicar isso à Sophie. Mas ela apenas sorriu e envolveu sua cintura com seus braços pequenos, deixou um beijo em seu pescoço e sussurrou que ele jamais a perderia. Disse que ela era completamente dele e nada, nunca, mudaria isso. Ele tentou acreditar, relaxou os músculos e beijou-a com todo o amor que tinha, mas ainda era complicado saber que ela iria estar tão longe durante tanto tempo. Ele se sentia um idiota por isso, mas a verdade era que o sentimento que tomava conta dele agora era... bem...
Era o mesmo sentimento que ele sentiu há seis anos e meio atrás, quando Sophie teve de ir para a Inglaterra.
De qualquer forma, ele tentou manter o sorriso no rosto. E conseguiu, uma vez que Dan não parava de fazer piadinhas. Tirou mais algumas fotos e viu Sophie se despedir de Dan e de Marie, antes de chamar um táxi e os dois se dirigirem ao aeroporto JFK.
Eles seguiram em silêncio, abraçados, e não deram muita chance de conversa ao taxista. Mas por algum motivo até o trânsito estava bom e eles chegaram ao aeroporto em trinta e cinco minutos. Luke ajudou-a a fazer o check-in e despachar as malas, e faltava apenas vinte minutos para o avião decolar. Sem mais nada para fazer, agora apenas lhes restava esperar pelo momento que iriam se separar.
— Definitivamente eu não gosto de aeroportos — Luke sussurrou, sentado em uma das poltronas de espera ao lado de Sophie. Deu um sorriso sem humor.
Ela também sorriu.
— Não quando só um de nós embarca — ela sussurrou no mesmo tom, suspirando, deixando seu sorriso morrer. Isso estava sendo mais difícil do que ela imaginara.
Luke se impulsionou para frente, no carrinho que Sophie carregava com apenas uma mala de mãos, e a abriu. Ela ficou confusa, vendo-o mexer na mala, até tirar um pequeno pacote de lá de dentro. Sophie não se lembrava do pacote quando havia feito sua mala. Luke o havia colocado lá?
— Eu fiz isso hoje de madrugada, enquanto você dormia — ele começou, entregando o pacote a ela, que fez menção de abrir. — Não abre — ele disse, com um sorriso no rosto. — Não abre agora. Eu quero que você abra no avião. Quanto à carta, eu quero que você só leia quando... a saudade apertar demais. Quando você sentir que não dá mais pra aguentar, eu quero que você leia essa carta. Eu vou estar com você, independente de onde eu esteja.
Sophie sentiu sua garganta se fechar levemente, encarando o pacote a sua frente, inibindo a imensa vontade de abri-lo.



“Passageiros do voo New York para Nashville, 11 horas, primeira chamada para o portão de embarque.”



Sophie se levantou seguida de Luke, e não pensou duas vezes antes de se jogar em seus braços, apertando-o com mais do dobro da força que normalmente usaria. Enquanto passava os braços pelo seu pescoço e Luke apertava sua cintura, ela sentia uma imensa vontade de chorar, ou simplesmente cancelar aquele voo e ficar ali com Luke.
— Eu odeio precisar ir embora — ela sussurrou, mantendo o nó na garganta, decidida a ser forte. Luke acariciou seu cabelo delicadamente.
— Eu também — ele novamente deu uma risada sem humor. — Mas... bem, tenho tentado pensar no lado bom.
— Eu vou voltar — ela sussurrou, interrompendo. — E aí nós vamos fazer nossa faculdade, comer no restaurante do Justin Timberlake nos fins de semana, voltar pra Nashville, refazer a Paramore, você vai trabalhar com o seu pai e eu vou dar aulas de piano. Então nós vamos ter uma filhinha e chamá-la de Kathryn Nichole. — Sophie falou tudo rápido demais, fazendo com que Luke e ela própria dessem uma risada de verdade.
— Parece um bom plano — ele sussurrou, colando suas testas. Sentiu a respiração dela se misturar a sua e um arrepio involuntário correu pelo seu corpo. Mas esse arrepio não era o mesmo que acontecia quando ele estava bem com ela. Esse arrepio era quase... doloroso. Como se ele soubesse que não fosse senti-lo outra vez. — Vamos ter um menininho também — ele sussurrou, fazendo uma risada sair da garganta de Sophie.
— E vamos chamá-lo de Lucas — ela completou, fazendo com que Luke, por sua vez, risse.
E eles não sabiam por que estavam fazendo piadinhas sobre o futuro e rindo, mesmo que ambos tivessem uma dor dentro de si. Era apenas... uma medida desesperada. Como se eles quisessem marcar aquele momento de alguma maneira, uma maneira boa. Diferente da última vez que fizeram isso e Sophie foi forte, enquanto via Luke, seu melhor amigo, se debulhar em lágrimas.
Agora era diferente. Não deveria ser triste. Não deveria ser triste da maneira que foi da última vez.
— Eu... — Luke começou, acariciando a maçã de seu rosto, enquanto suas testas ainda estavam coladas. — Eu... te amo. — Ele disse a primeira coisa que passou pela sua cabeça, como se ele nunca tivesse dito aquilo, como se fosse a primeira vez que aquelas palavras fossem proferidas pela sua boca. Suspirou.
Sophie passou a acariciar seu rosto da mesma forma que ele fazia com ela, passeando o polegar pela sua barba feita recentemente.
— Eu te amo — ela sussurrou roucamente, fechando os olhos, sentindo seu coração bater mais forte do que de costume. — Nunca se esqueça disso.
— Você vai voltar pra mim — ele sussurrou com a voz rouca, mas sua afirmação quase pareceu uma pergunta. Ou talvez uma súplica. Sua respiração estava acelerada, seu coração doía. — Promete que vai voltar pra mim.
Sophie sorriu, segurando seu rosto com as duas mãos.
— Não preciso prometer, Luke — ela sussurrou, quase encostando seus lábios de tão perto que estavam. — É o nosso destino. Você é meu, e eu sou sua. É você que eu amo. E é esse amor que vai me trazer de volta pra você, não importa o que aconteça.
Luke também sorriu.



“Passageiros do voo New York para Nashville, 11 horas, última chamada para o portão de embarque.”



Ainda segurando seu rosto, ele tomou os lábios dela calmamente, entrelaçando suas línguas sem pressa, movendo seus lábios vagarosamente. Luke não queria urgência, não queria rapidez, não queria voracidade. Ele só queria senti-la perto dele, queria sentir seu gosto, queria sentir os lábios dela pressionados contra os seus, queria saber que ela estava completamente entregue a ele, queria aproveitar cada milésimo de segundo e guardar cada peculiaridade daquele beijo com ele durante muitos e muitos dias. Queria beijá-la durante tanto tempo e tão apaixonadamente que seria capaz de sentir o gosto de sua boca mesmo depois que ela embarcasse naquele maldito avião. Com aquele beijo, Luke apenas queria que ela soubesse que ele teria paciência, e esperaria ela voltar, para que eles pudessem repetir a dose. Queria sentir seus pelos se arrepiarem, queria que a tão conhecida corrente elétrica passasse pelo seu corpo. Mas, acima de tudo, queria convencer a si mesmo de que aquele beijo não era o último.
Separou seus lábios devagar, da mesma maneira que os havia juntado, e deixou com que sua respiração se misturasse a dela novamente antes de abraçá-la mais uma vez. A voz feminina ecoou novamente, avisando que era a última chamada para Sophie entrar no avião.
Sophie abraçou a cintura de Luke e foi andando devagar até o portão de embarque correto. Mostrou seu cartão para a moça que sorriu para ela e disse qual era o terminal que o avião estava embarcando. Sophie segurou a mão de Luke e sorriu para ele, sibilando um “eu vou voltar”.
E enquanto olhava pela janela e via o avião dela decolar para longe dali, Luke quis, sinceramente, acreditar naquelas palavras.

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