23 de set de 2012

Capítulo 48


Life is changing, for better or not.



“Prezado Sr. Luke Noah Davis
Nós, da COLUMBIA UNIVERSITY IN THE CITY OF NEW YORK, temos o prazer de informá-lo por meio desta carta, que sua matrícula em nossa universidade, direcionada ao curso de ADMINISTRAÇÃO IMPRESARIAL, foi APROVADA.
Aguardamos vossa confirmação. Congratulações,
À Reitoria.”



As palavras ainda ecoavam na mente de Luke quando, trêmulo, ele disse para os pais apreensivos o que dizia na carta. Continuavam a ecoar quando ele e Dan viraram a noite bebendo e comemorando, e ainda ecoava quando Sophie lhe deu uma bronca no dia seguinte. Continuavam ecoando quando, em prantos, Katt o ajudou a fazer suas malas e Jeremy lhe deu um cartão de crédito que dava acesso à sua poupança direcionada a faculdade que ele tinha desde que nasceu. Elas estavam ecoando agora mesmo, enquanto Luke observava sua garota dormir calmamente com a cabeça em seu ombro, dentro do voo Nashville — New York, 13h.
Ele sorriu ternamente e retirou uma mecha de cabelo vermelho que estava cobrindo seu rosto, fazendo um carinho calmo em sua bochecha logo depois. Já fazia uma hora e meia que eles haviam embarcado, mas Sophie adormecera assim que o avião decolou, exausta. Luke entendia, porém, o porquê de ela estar tão cansada. A verdade é que ela estava mais do que apreensiva pela sua audição na Juilliard School, que seria logo na segunda-feira, e por isso andara dormindo pouco e estudado muito. Além do mais, no dia anterior eles fizeram o show de despedida da Paramore nas Rock Friday Nights. Mesmo que não tivessem tirado as músicas do YouTube, eles haviam deletado a conta no Facebook e dito para as mais de mil pessoas ali, naquela noite, que a banda estava oficialmente acabando.
O que foi um baque muito forte, tanto para as pessoas ali (Luke vira algumas garotas chorarem em The Only Exception e We Are Broken), quanto para eles próprios. Luke ainda estava tentando descobrir como iria ficar sem subir em um palco. Estava viciado nisso, não negava para ninguém, e a única coisa ruim que iniciar sua faculdade trazia era realmente ter de acabar algo que ele gostava tanto como sua banda.
Mas ele tinha fé. Acreditava que nada era por acaso e a vida sabia o que fazia. Se agora ele estava se separando dos seus palcos, posteriormente ele iria voltar. Até mesmo por que Luke se julgava incapaz de deixá-lo definitivamente.
E essa fé na vida e no destino fazia Luke acreditar que tudo dali em diante daria certo, assim como em seus planos. Estava indo para Nova Iorque, provavelmente quase chegando, e havia sido aceito em uma faculdade da Ivy League¹! Sophie estava com ele, pronta para fazer sua audição para a escola de música mais conceituada do país e dentro de seis meses se mudaria para NYC com ele, para que eles pudessem iniciar oficialmente o seu futuro.
Por isso ele estava animado. Estava animado para levar uma vida independente ao lado da garota que amava, e não era só isso. As mudanças não estavam acontecendo apenas com ele, o que ainda o deixava mais feliz. Como por exemplo, Dan, que estava pouco mais a sua frente, no mesmo voo. Havia passado em Columbia também — não apenas passado. Dan tinha sido, em escalanacional, o vigésimo primeiro colocado no provão. Nem a própria mãe de Dan acreditou quando ele recebeu a carta de admissão —, assim como Marie. E, meu Deus, é impossível não se lembrar de que ele está noivo. Dan irá se casar em breve.
Sendo amigo de Dan desde os nove anos de idade, Luke sabia bem que essa era uma coisa que ele nunca imaginava que um dia aconteceria o que está acontecendo em sua vida agora. E isso era apenas... tão bom. Ver que tudo estava dando certo era simplesmente animador.
“Atenção, passageiros do voo Nashville — New York, 13h. Neste momento estamos sobrevoando a área de Brooklin, e estaremos aterrissando no Aeroporto Internacional John F. Kennedy dentro de cinco minutos. Permaneçam em suas poltronas.”
Luke endireitou o corpo em sua poltrona e respirou fundo. Com a ponta dos dedos começou a mexer no rosto de Sophie, tentando acordá-la.
— Soph... Soph... — ele sussurrou. Sophie mexeu levemente os olhos. — Ei, linda... acorde...
Ela abriu os olhos castanhos brilhantes e confusos, fazendo Luke sorrir. Deixou um pequeno selinho em seus lábios e murmurou para ela acordar novamente.
— Já chegamos? — perguntou ela, confusa, endireitando-se na poltrona e coçando os olhos. Seu rosto estava pálido, com a única exceção de suas bochechas rosadas. Estava realmenteadormecida.
— Não — ele respondeu. — Vamos chegar daqui a pouco, já estamos sobrevoando o Brooklin segundo a aeromoça.
— Já?! — ela perguntou num salto, arregalando os olhos sonolentos. — Eu só dormi por uns quinze minutos!
Luke riu.
— A gente já tá voando há uma hora e meia.
Sophie bufou, passando a mão pelo cabelo meio bagunçado e se espreguiçou.
— Detesto a relatividade do tempo — murmurou, fazendo Luke rir novamente.
Logo Sophie já estava acordada e tanto ela quando Luke, Dan e Marie, desembarcaram no Terminal 7 no aeroporto JFK, oficialmente na grande Nova Iorque. Mesmo no aeroporto, já era notável o ritmo rápido e constante da cidade, o que gerou naqueles jovens uma grande sensação de liberdade. É isso. Era esse o início.
Depois de quinze minutos esperando, eles finalmente conseguiram tomar um táxi. Simplesmente parecia que não haviam carros o suficiente para todas as pessoas do aeroporto, e mesmo que eles esperassem no ponto de táxi certo, tiveram de esperar uma vida para conseguirem um que estava livre, e nem é preciso mencionar a dificuldade que foi para fazer com que todas as malas coubessem dentro dele.
Mesmo assim, todos dentro do carro, Sophie deu o endereço ao homem para onde eles deveriam ir e logo o taxímetro começou a rodar. Eles estavam indo para um bairro que não conheciam, na área de Upper West Side. Brendon havia emprestado um dos apartamentos que tinha em Nova Iorque para eles por esse fim de semana, já que sabia que Luke, Dan e Marie iriam para uma das fraternidades do campus em Columbia assim que as aulas começassem na quarta-feira, e Sophie embarcaria de volta na terça (para não perder mais aulas que o necessário).
Do aeroporto até o apartamento de Brendon, pareceu sinceramente que eles demoraram mais do que demoraram no voo. Dan comentou isso com George, o taxista.
— Bem vindo à cidade, garoto — comentou o homem, bem humorado, parado em um congestionamento, mas completamente tranquilo. Parecia realmente habituado. — O tráfego nem está tão ruim hoje, já que é fim de semana. Tente passar por aqui num dia normal de trabalho! É um verdadeiro inferno! É por isso que a maioria das pessoas andam de metrô por aqui. Desde que se deslocar por cima se tornou exaustivo, as pessoas se deslocam por baixo.
Marie, que estava no banco de trás com Luke e Sophie, se pronunciou:
— E ainda assim foi quase impossível achar um táxi — murmurou, fazendo George rir outra vez.
— Sim, é, é complicado. Com o metrô, o fluxo de táxi abaixou. Mas sinceramente, eu não aguento a ideia de ser transportado por uma coisa que anda a duzentos quilômetros por hora e é movida por eletricidade. E se der um problema e uma daquelas coisas se chocar com outra? Todos morrem! — ele exclamou, fazendo com que os garotos rissem. O próprio George deu uma risada. — Agora se meu táxi se chocar com outro a vinte por hora, que é a velocidade que estamos andando aqui, o máximo que as mocinhas podem ganhar é um cortezinho no lábio.
Luke riu.
— Está querendo nos assustar no primeiro dia na cidade, George? — ele perguntou, fazendo o homem mais velho rir.
Acabou que entrar no táxi do velho George foi uma das coisas mais legais que eles fizeram no dia. O próprio homem se classificava diferente da maioria dos Nova-Iorquinos, estava sempre calmo e tranquilo com absolutamente tudo. Quando Dan perguntou se as fotos das crianças que haviam no táxi eram seus filhos e George disse que eram, na verdade, seus netos, os garotos não acreditaram. George era alto, tinha pele negra e havia acabado de completar sessenta e dois anos de idade, mas Sophie não se lembrava de ter visto alguém que aparentava tão pouca idade na vida. Apesar de ser simples, trabalhar com táxi há trinta anos e ter vivido a vida inteira no Brooklin, tinha um bom humor e uma inteligência difícil de se encontrar. Os cinquenta minutos de carro passaram mais rápido do que pareceram, e logo eles estavam de frente para um prédio luxuoso num bairro igualmente sofisticado.
— Chegamos — o velho George disse, com seu sorriso branco bem aberto.
Marie deixou o queixo cair lentamente, enquanto saía do carro.
— É aqui que fica o pequeno apartamento do seu padrinho, Soph? — ela perguntou bem devagar, enquanto os outros ficavam igualmente surpresos.
Sophie se virou para George.
— É aqui mesmo? — perguntou só para conferir.
— Bem que achei estranho vocês serem tão simpáticos para virem morar no Upper West Side — ele comentou, sem tirar o sorriso do rosto. — É aqui, sim. Seu padrinho deve ser uma figura.
— Ele é... — Sophie engoliu em seco. — Vocalista de uma banda famosa. A Panic! At the Disco.
— Ah, sei! Aqueles chatos! — George exclamou, fazendo com que os jovens rissem. — Eu tenho uma filha que era obcecada por eles. Tive que levá-la num show às onze da noite, uma vez, quando ela só tinha doze anos. Achei horrível, mas ela me agradece até hoje por isso.
Sophie riu.
— Eles são incríveis. Uma inspiração. — Disse, ainda encarando o prédio, enquanto via alguns homens vestidos iguais chegarem. Perguntaram se eles eram moradores e quando Sophie sibilou o nome de Brendon, eles logo foram pegando suas malas no carro de George e as colocando em um pequeno carrinho.
Depois de um amigável aperto de mão e pagar a corrida, Soph, Luke, Dan e Marie se despediram do velho George, contentes pela sua primeira experiência na grande Nova Iorque. Ao entrarem no prédio, Sophie conversou com o porteiro por um tempo e mostrou sua identidade, para provar que era a afilhada de Brendon Urie e Sarah Orzechowski. Então ela e os amigos se dirigiram ao elevador, com a informação de que o apartamento ficava no vigésimo oitavo andar. Que, só por acaso, era o último.
E quando chegaram à cobertura, a única coisa que passava pela cabeça dos jovens saiu da boca de Dan:
— Como é bom ser rico e famoso — ele disse, encarando a enorme sala de estar e vendo que a escada com o corrimão de vidro saía da sua visão. O apartamento devia ter, pelo menos, três andares. Um monte de quartos. E uma varanda que dava pra ver a cidade quase toda, inclusive, o Central Park que até parecia perto por aquele 

ângulo, mas Dan sabia que precisaria de no mínimo vinte minutos de carro para chegar até lá.

Ainda extasiados pelo tamanho e luxo do apartamento de Brendon, os jovens passaram a meia hora seguinte escolhendo os quartos e conhecendo o resto da casa. Luke, Dan e Sophie quase tiveram uma síncope quando viram a sala de música que ocupava o último andar quase todo. Dava para notar que a sala era toda feita exatamente para a música, certamente não deixava sair som. Haviam todas as espécies de instrumentos — desde bateria até o acordeão —, amplificadores, microfones, saídas, mesas. Era uma sala de música simplesmente completa. Luke, que trabalhara o ano passado inteiro no estúdio, nunca vira nada tão bem equipado daquela forma em um apartamento, seja ele qual for.
Luke e Dan ficaram na sala de música ainda durante um bom tempo. Marie estava na cozinha preparando alguma coisa, já que estava faminta e queria por que queria trabalhar naquela cozinha enorme, enquanto Sophie tomava um banho na suíte que havia decidido dormir com Luke.
Ela estava exausta. Sua cabeça martelava a mil pensamentos a cada minuto e ela não dormira nem sequer uma hora nessa noite, ansiosa por voar para Nova Iorque e ainda sentindo a energia do maior e mais emocionante show que já havia feito em sua vida. Por isso tinha literalmente apagado no avião, e ainda assim sentia que era muito pouco para ela. Precisava descansar.
E esse pensamento só ficou mais forte quando ela sentiu a água quente correr seu corpo, relaxando-a e fazendo com que ela sentisse ainda mais sono. Sabia que os garotos iriam querer sair pela cidade, claro, ainda não eram quatro horas da tarde, mas ela achava sinceramente que iria ficar no apartamento e dormir um pouco.
Após o banho que demorou uns bons vinte minutos, Sophie se vestiu ainda no banheiro e andou até a cozinha que exalava um cheiro gostoso. Sorriu, sentando-se ao lado de Luke, que estava comendo panquecas de carne moída, obviamente feitas por Marie. Sophie sempre invejou o lado excepcionalmente culinário da prima.
— Oba! — disse ela, sorrindo. — Panquecas de carne.
— Estão perfeitas, Red Soph! — disse Dan depois de engolir. Que raridade. — A cada dia que passa mais eu tenho certeza que estou fazendo a melhor escolha do mundo em me casar com essa mulher.
Sophie e Marie riram.
— Os armários e a geladeira estão cheios — Marie disse, colocando um prato com duas panquecas na frente de Sophie, que estava sentada em frente a um balcão enorme. — Essa cozinha é o sonho de qualquer pessoa!
— Não de uma faxineira — Luke comentou, tomando um gole de suco de laranja. Sophie riu, servindo-se de um copo de suco também.
— Ai, não importa — Marie disse, com os olhos castanhos brilhando. — Vamos ter uma dessa na nossa casa, Daniel.
Dan mordeu o lábio inferior, fazendo que sim com a cabeça.
— Claro, amor, o que você quiser. Vamos adicionar a cozinha do tamanho de uma casa comum às três crianças comportadas e o husky siberiano — ele disse, usando seu tom irônico, fazendo Marie revirar os olhos e Sophie rir junto a Luke.
— Husky siberiano? — ela perguntou.
— É o cachorro mais lindo do mundo — Marie respondeu de imediato, fazendo-os rir novamente. — E eu vou ter um, não importa o que esse chato diga.
— Não se esqueça das três crianças comportadas — Dan se pronunciou novamente. — E a biblioteca, as empregadas para arrumar a casa, o carro grande, o puddle, a varanda, a sala de videogames...
— A sala de videogames é você quem quer — ela revirou os olhos para Dan, fazendo com que os outros dois rissem novamente.
— E eu achei que nós discutíamos muito o futuro — Luke murmurou, levando Sophie a rir mais uma vez.
Mas mesmo que fosse motivo de piada naquele momento, tanto Luke quanto Sophie sabia que isso divertia o casal. Eles se amavam demais e isso não era segredo para ninguém, afinal, Dan não havia pedido Marie em casamento sem motivo. Brincar sobre o que viria a seguir, sonhar, planejar, era algo que eles gostavam de fazer simplesmente por que tinham a certeza de que qualquer que fosse o futuro, eles o passariam juntos.
— Estou doido para ir dar uma volta na cidade — Dan disse, quebrando o pequeno silêncio que se fez.
— Quero conhecer o Central Park — Marie se pronunciou. — Gostaria de ir até o campus, na verdade, mas ainda é sábado. Estou mega ansiosa.
Luke riu.
— Eu vi umas fotos do campus na internet — ele disse, seus olhos brilhando vagamente. — Tô maluco pra conhecer também.
— Vamos passear, então? — Dan sugeriu, puxando Marie para ele e lhe dando um beijo na bochecha enquanto apertava sua cintura.
Sophie fez que não com a cabeça.
— Estou exausta, vou dormir um pouco. Ontem à noite eu não dormi um minuto sequer. — Queixou-se, torcendo os lábios.
— Qual é, Red Soph, toma um energético e vem com a gente! Você só vai ficar aqui três dias! — ele deu um pequeno empurrão no ombro da garota, fazendo-a rir.
— Eu vou voltar depois pra morar com vocês, esqueceram? — ela retrucou, bocejando involuntariamente. — Sério, Dan, preciso dormir. Amanhã a gente sai.
Dan deu de ombros para Sophie.
— E você, irmão? Vamos? — perguntou a Luke, que havia acabado de abraçar Sophie por trás.
Ele fez que não com a cabeça.
— Vou ficar com ela. Preciso dormir um pouco também. — Ele disse, deixando um beijo no topo da sua cabeça.
Dan bufou.
— Vocês dois são uns chatos — reclamou, fazendo Marie rir. — Então vamos, Jane?
— Aham — Marie concordou. — Vocês limpam tudo? — ela perguntou para Luke e Sophie, que assentiram.
Dan e Marie discutiram ainda mais uma vez por que ela disse que iria se arrumar e acabou demorando mais dez minutos — o que, no mundo das garotas, foi um tempo excepcionalmente pequeno. Mas não para Dan.
Mesmo que tivessem discutido, saíram do prédio rindo um do outro. Luke notara que Marie era a garota da vida de Dan assim que eles começaram a namorar, pois eles pareciam casados há anos mesmo na primeira semana de namoro. Era aquele tipo de amor arrebatador e raro de se encontrar, que envolve o casal e que provavelmente não termina nunca.
E esse tipo de amor não era muito diferente do amor que envolvia o casal que agora limpavam os pratos na pia por não saberem como ligar a lava-louças. O que Sophie e Luke sentiam um pelo outro era algo que ia muito além do amor que a maioria das pessoas consideram o suficiente para viver uma vida. Eles se amavam, sim, desde sempre, mas eram completamente apaixonados um pelo outro. Amar e estar apaixonado são coisas diferentes, mas que precisam uma da outra para fazer sentido. Sentimentos distintos, porém, dependentes. O amor é aquele sentimento puro e incondicional, que supera e passa por cima de todos os problemas, que é construído com o tempo e que tem como base a amizade, sempre. Estar apaixonado, entretanto, é o sentimento que produz aquele frio na barriga e faz o coração acelerar. É o que dá brilho aos olhos, é o que arrepia os pelos da nuca, é o que dá aquela sensação de paz. É o que move os beijos, os toques, os carinhos, o sexo. É o que inspira as músicas, os poemas e as poesias. É o que provoca os sorrisos abobalhados sem nenhum motivo. Estar apaixonado é aquele sentimento que indicia a loucura simplesmente por querer tanto alguém, por que, afinal, todos somos um pouco loucos, mas tudo se intensifica quando estamos apaixonados.
Essa era a diferença. Luke e Sophie se amavam incondicionalmente. Mas, além disso, eram apaixonados um pelo outro.
— Ainda bem que você sabe tocar — Luke disse, secando suas mãos numa pequena toalha de papel. — Morreria de fome se fosse trabalhar lavando pratos.
Ela dispensou a folha de papel e secou as mãos na camiseta de Luke, fazendo-o dar um grito de indignação. Mas é claro que isso só a fez dar uma risada.
— Olha só quem fala. Não fui eu que deixei todos os pratos cheios de sabão e precisei enxaguar três vezes para ficar limpo — ela deu ombros, seguindo em direção ao quarto que ficava no segundo andar do apartamento.
— Eu enxaguei mais de uma vez para que eles ficassem brilhando, mas gente. Já ouviu falar que a pressa é inimiga da perfeição? — ele rebateu, começando a subir as escadas.
Sophie gargalhou.
— Me desculpe, Luke, mas se tem uma coisa que a sua lavagem não ficou foi perfeita — ela disse, abrindo a porta da suíte e esperando Luke passar para que ela pudesse fechá-la.
Ele entrou correndo e se jogou na cama cuidadosamente arrumada, esticando suas pernas em seguida, conforme as molas do colchão o faziam balançar. Sophie sorriu enquanto ele abriu os braços e gritou um “vem!”.
— Não — ela respondeu, sorrindo.
— Qual é, vem! — ele falou novamente.
— Não sou uma criança — ela fez que não com a cabeça, sem tirar o sorriso do rosto.
Luke ajeitou um travesseiro debaixo de sua cabeça e se estirou na cama completamente.
— Por isso mesmo — ele rebateu. — Vem, pula!
Sophie riu e fez que não com a cabeça. Então correu e pulou, caindo no acolchoado macio da cama de casal, rindo alto como uma criança. Luke riu também e abraçou-a, fazendo com que ela se deitasse por cima de seu peito enquanto retirava as sandálias com os próprios pés.
Com a ponta dos dedos, ele ergueu seu queixo e lhe deixou um selinho longo e molhado, fazendo-a sorrir logo depois e fechar os olhos com força, sentindo o cansaço tomar conta dela e a sensação de paz somada ao cheiro de Luke levarem-na às nuvens.
— Tá cansada, não é? — ele perguntou, mexendo em seu cabelo e puxando a coberta. Ela apenas murmurou alguma coisa e assentiu com a cabeça, apertando sua camiseta num ato involuntário.
— Preocupada com a audição — ela sussurrou em seguida. — Acho que não me preocupei tanto quando fiz a audição para a Laurent Louis. Somando isso ao nosso show de ontem e a ansiedade de vir pra cá, não dormi nem um segundo.
Luke assentiu com a cabeça, mesmo que ela estivesse com os olhos fechados.
— Você precisa espairecer — ele disse, sorrindo, e fazendo-a sorrir também. Luke sabia que ela havia claramente se lembrado de três semanas atrás. Nem parecia que havia se passado tão pouco tempo desde o show da The Pretty Reckless.
— Eu estou bem — ela sussurrou. — Apenas estou com sono. Vai dar tudo certo. — Ela fez uma pausa, respirando fundo. — Tem que dar tudo certo.
— Ei — ele chamou sua atenção, fazendo-a abrir os olhos —, não se preocupa. Você é a melhor musicista que eu já conheci, já estudou na melhor escola da Inglaterra, e é uma garota maravilhosa. Não tem com o que se preocupar.
Ela sorriu abertamente, encarando os olhos azuis e esperançosos do namorado. Deixou-lhe um beijo doce nos lábios e abraçou sua cintura em seguida, agradecendo baixinho.
— Sabe — Luke falou novamente, mexendo em seu cabelo —, você nunca me falou de como foi... o tempo que você passou em Londres.
Ela suspirou.
— Não foram muito interessantes. Meu dormitório tinha duas beliches e eu só falava, basicamente, com as três meninas de lá. Não tinha muitos amigos, tocava o tempo todo, era a melhor de todas as turmas. Passava meu tempo livre escrevendo para você e para minha família. Só. — Ela resumiu, bocejando.
Luke mordeu o lábio inferior.
— Você teve algum namorado por lá, não é? — perguntou por pura e simples curiosidade.
Mas isso a fez rir.
— Não sei bem se você pode classificar como namoro. Mas tinha um garoto, Simon Harris, que vivia me enchendo o saco para pegar aulas de piano comigo, então eu tocava com ele uma hora por dia, mais ou menos. Ele era um carinha legal, e nós começamos a andar juntos, ficamos algumas vezes também. Todos diziam que ele gostava de mim e tal. Mas aí, teve um dia que ele me confessou que era gay. — ela disse e Luke deu uma risada alta. — E devo ter participado do jogo da garrafa umas duas vezes.
Luke ainda não parava de rir.
— Jogo da garrafa? — perguntou, incrédulo.
— Cynthia me carregava pra esse tipo de coisa — ela disse. — Ela era a parte de baixo da minha beliche. Era uma pessoa legal, mas... às vezes parecia que ela não gostava de mim como amiga. Me conhecia desde que eu entrei lá, mas eu não sabia nem o nome da família dela. E quando eu deixei escapar que achava um aluno do nono ano bonito, quando eu tinha uns doze anos, ela beijou ele. Aí eu perdi a confiança nela. As pessoas diziam que ela sentia inveja de mim, só não sei por quê.
— Você era a melhor aluna da turma e provavelmente era bem mais bonita do que ela — Luke disse, rindo com a história. — Isso já basta pra uma recalcada.
Sophie riu também.
— Mas eu aprendi demais lá. Uma das coisas que me marcaram pro resto da vida foram as aulas com uma professora, a Sra. Felton — ela bocejou novamente. — Eu nunca a vi tocando, Luke. Ela tinha problemas nas mãos e supostamente estaria inapta para dar aulas. Mesmo assim ela foi a melhor professora de piano que eu já conheci. Ela era rígida, mas ao mesmo tempo dava aos alunos espaço o suficiente para terem sua personalidade ao tocar. E se você a chamasse de Sra. Felton ela ameaçava te bater. — Sophie riu, lembrando-se da mulher. — Eu a chamava de Camie, mas o nome dela era Camila. De qualquer forma... Se algum dia eu me tornar uma professora de piano, quero exercer meu trabalho bem como ela fazia. Ou faz, não sei. Perdi o contato com todo mundo.
Luke sorriu, ainda continuando o seu cafuné na cabeça da namorada. Não acreditava que nunca havia conversado sobre isso com ela antes.
— Por que você voltou? — ele perguntou de repente, depois do silêncio que se fez.
— Como assim? — Sophie perguntou de volta, sem entender a pergunta.
Luke respirou fundo.
— Você voltou em março, Soph. No meio do semestre — explicou. — Você poderia ter terminado o seu ensino médio lá. Não poderia?
Ela hesitou antes de responder:
— Poderia.
— Então por que não ficou? Essa é a única coisa que nunca fez sentido pra mim — ele perguntou novamente, e Sophie saiu de cima dele, abrindo seus olhos.
— Eu poderia sim, Luke, ficar lá até terminar meu ensino médio. Na verdade, dois dias antes de embarcar de volta para Nashville, eu tinha total crença de que eu iria terminar meu ensino médio lá. Eu... iria, realmente, estar lá neste momento. — Ela fez uma pausa, sem encarar os olhos do namorado. — Mas... teve um dia que eu... simplesmente não aguentei. Eu me dei conta de que estava tão... tão distante de tudo. Distante dos meus pais, dos meus tios, de você... eu não tinha amigos de verdade, minhas perspectivas eram tão pequenas... tudo que eu tinha era minha música, mas passou um tempo e isso não se tornou o bastante para mim. Eu estava longe de tudo que eu amava. E aconteceu uma coisa que simplesmente me fez ver isso, e eu não aguentei mais. Liguei pra minha mãe chorando e implorei para que ela me levasse de volta para Nashville.
Luke se ajeitou na cama, não entendendo aquilo. Encarou os olhos de Sophie que pareciam ter perdido parte do brilho enquanto ela falava isso.
— O que aconteceu? — ele perguntou então, fazendo-a respirar fundo.
— Eu não posso contar, Luke, não é uma coisa minha — ela explicou, dando um sorriso pouco sincero em seguida.
Luke encarou seus olhos.
— Você sabe que pode confiar em mim para qualquer coisa.
Ela tentou fugir do seu olhar.
— Sim, eu sei, mas... — Soph deixou a frase morrer. Luke iria saber de qualquer maneira, algum dia, é claro. Mas... ainda assim, não era certo que ela lhe contasse, e mesmo tendo completa consciência disso, ela disse: — Você tem que me prometer segredo absoluto. Ninguém pode saber disso. Tá?
Luke riu, tentando transmitir confiança.
— Eu prometo. Pode confiar, Soph. — Disse, e então ela suspirou.
— O dia não estava bom. Foi, na verdade, o pior dia do ano — ela começou a falar. — Tinha discutido feio com a Cynthia e me saído mal na prova escrita de teoria avançada, além de ter chegado atrasada na aula de matemática. Minha cabeça estava a mil pensamentos quando eu voltei pro meu dormitório, e então Joe me ligou. — Ela fez uma pequena pausa, umedecendo os lábios. — Ele estava chorando. Disse que tinha feito algo que não sabia se era certo ou errado e não sabia para quem recorrer, então me ligou, por que só eu o entenderia. Ele parecia completamente desesperado e confuso. Pedi pra ele se acalmar e me contar o que aconteceu, e então... então... — Sophie deixou a frase morrer, sem encontrar coragem para continuar. — Droga, Luke, você tem que prometer que não vai contar pra ninguém!
Luke riu, meio receoso.
— Eu já prometi, não foi? — continuou sorrindo. — Não vou contar pra ninguém, Soph. O que Joe disse?
Ela suspirou mais uma vez.
— Ele disse que... Joe ligou para me dizer que... por algum motivo... ele tinha... — ela tomou ar, tomando também um bocado de coragem. — Bem, por algum motivo ele tinha beijado um amigo dele.
Luke encarou Sophie com o cenho franzido no mesmo momento.
— Não, espera — ele disse, confuso. — Amigo?
— É — ela concordou, mordendo o lábio.
— Tipo, amigo? Amigo, mesmo, homem? Menino? — ele perguntou outra vez, para se certificar de que não tinha ouvido tudo errado. Quer dizer, meu Deus! Amigo?
— É, Luke — Sophie revirou os olhos. — Amigo. Homem. Menino.
Luke arregalou os olhos, finalmente se dando conta do que Sophie tinha dito. Sentou-se na cama, com o queixo caído, ouvindo as últimas palavras da namorada ecoarem em sua cabeça ainda sem fazer sentido. Deus! Joe... o pequeno Joe... era... é...
Puta merda.
— Eu não devia ter contado isso — Sophie se pronunciou novamente, levando as mãos ao rosto. — Não devia, não devia. Droga, Luke, por favor, você prometeu que não vai contar isso pra ninguém!
— Eu... não vou contar, eu... cara! — ele exclamou. — Ele... o Joe... Deus! Seus pais sabem?
Sophie respirou fundo outra vez.
— Não, ninguém sabe — ela disse. — Ninguém sabe e o Joe não pode saber que você sabe!
Luke passou as mãos pelo rosto, ainda chocado com a história toda.
— Eu... não vou dizer, eu só... estou... pasmo. Ele é uma criança!
Sophie assentiu, encarando-o.
— Luke, nós éramos muito menores quando descobrimos que amávamos um ao outro — ela disse devagar. — Ele podia ser uma criança, mas esse é o tipo de coisa que se descobre cedo.
Luke parou pra pensar um segundo. Sim, a primeira vez que ele pedira um beijo para Sophie ele só tinha oito anos e meio. Era apenas um menino.
— Eu sei... mas... é só... puxa vida, Soph! — novamente, ele não sabia o que dizer.
— Na hora foi um choque muito grande pra mim também — ela disse, ajeitando-se na cama. — Eu fiquei triste. Triste de verdade, sabe? Não por que ele havia ficado com um menino. E sim por eu estar tão longe e estar perdendo tanta coisa. Nós conversamos por umas duas horas e ele ficou bem mais calmo, mas quando eu desliguei o telefone, estava esgotada. Chorei durante a noite toda, por perceber... que eu estava perdendo tudo isso. Meu irmão de dez anos de idade havia me ligado para me dizer que tinha beijado outro garoto, e... ai, Luke, sabe o que é isso? Ele estava crescendo. Nate estava ganhando todos aqueles troféus de boxe, meus pais estavam envelhecendo... você estava tão... inalcançável... e eu não estava lá pra acompanhar. Eu estava tão longe. Da minha família, dos meus amigos, de você, de tudo que eu realmente amava. Então eu decidi que não dava mais e voltei.
Luke suspirou, passando a mão pelo rosto novamente.
— Mas então... Joe... ele é...
— Ele ainda não sabe — Sophie mordeu seu próprio lábio. — Joe é um garoto excepcional, mas existem alguns pontos em que... ele ainda é muito sensível. Ele não sabe o que sente, nós conversamos de vez em quando sobre isso. Mas... sinceramente? — ela perguntou para Luke, apertando os lábios. — Eu acho que sim. Se parar pra observar alguns pontos... ele... sei lá. Acho que só precisa de um tempo pra si mesmo. Para se descobrir.
Luke não falou nada durante um momento e passou a mão pelo rosto novamente, refletindo e digerindo toda aquela informação. Repassou em sua cabeça alguns momentos que passara com o pequeno garoto, e... ele tinha de admitir que alguns atos eram estranhos. Mas... ele nunca pensara... nunca passara pela sua cabeça que Joe seria... bem, gay.
— Isso ainda é... chocante — ele disse, enfim, e Sophie umedeceu os lábios mais uma vez.
— Talvez pra você — disse. — Mas acho que Nate já sabe. E talvez a minha mãe também... — ela deixou a frase morrer, suspirando. — De qualquer forma, isso é uma coisa que a gente vai saber com o tempo. Pra mim não muda nada. Ele continua sendo meu irmãozinho, e eu ainda vou protegê-lo do mundo se ele precisar.
Luke fez que sim com a cabeça e riu, puxando Sophie novamente e se deitando com ela na cama confortável naquele apartamento luxuoso da área de Upper West Side.
— Não que isso mude alguma coisa pra mim — ele disse, suspirando. — Ainda adoro Joe como se ele fosse o irmão mais novo que eu não tive. Eu apenas estou chocado, mas mesmo que eu soubesse o que ele era, o teria ajudado do mesmo jeito. Gosto demais dele.
Sophie se alinhou ao seu peito novamente, fechando os olhos, relaxando os músculos da melhor maneira que pôde.
— Pseudo-primo e cunhado, certo?
Luke riu, beijando o topo da cabeça da namorada.
— Certo.
Então ela apertou novamente sua cintura, e Luke ficou refletindo e observando até, poucos minutos depois, sua respiração finalmente se acalmar e ela ficar completamente adormecida. Ele ainda mexia em seu cabelo, vendo seu rosto tão angelical ficar tão calmo, sentindo uma ternura maravilhosa tomar conta de seu corpo e mente. Sophie era mesmo uma garota incrível, não era? Além de ser linda, talentosa e inteligente, havia segurado durante tanto tempo um segredo tão íntimo de seu próprio irmão e o protegido disso. Quantas vezes Luke não vira mães, pais de meninos se virando contra eles pela sua opção sexual? Era inclusive comum. Mas Sophie, mesmo assim, estava disposta a lutar junto a Joe quando ele decidisse o que ele realmente iria querer.
Luke suspirou e encostou a cabeça no travesseiro, fechando os olhos e recuperando-se do choque inicial. Joseph era realmente um garoto excepcional, todos sabiam disso. Talentoso, inteligentíssimo, e tinha um caráter enorme para um menino tão novo, além de, é claro, ter lançado seu livro poucos dias antes e já estar fazendo certo sucesso. Afinal, seu livro vendeu trinta mil cópias nos primeiros dez dias e Joe sairia em turnê pelo país muito em breve.
A verdade era que Joseph Farro era sim, a criança mais forte e incrível que Luke já conhecera. E não seria sua opção sexual que um dia mudaria isso.





[...]





Sentindo o peso dos olhares severos sobre si, Sophie respirou fundo e pediu a Deus que tudo desse certo e que ela fosse capaz de se concentrar o suficiente para tocar a partitura no pedestal a sua frente.
Então ela deixou seus dedos deslizarem calmamente pelas teclas do enorme piano de calda, entreolhando a partitura, sentindo completamente a música, movendo-se conforme a melodia exigia.
Agora, enquanto tocava o clássico Sueño de Amor, de Franz Liszt, ela era as teclas, as cordas, a partitura. Ela era a melodia, a harmonia, o ritmo, o timbre, o balanceamento. Ela era o compasso, ela era os tons. Enquanto seus dedos interpretavam uma das composições mais ilustres de Listz, Sophie era a música. Ela era a música que agora a guiava em direção ao seu futuro como a musicista que sonhava ser.
A composição de Liszt não era fácil, verdade. Mas Sophie já a havia tocado um milhão de vezes, e ela sabia que toda vez que iniciava, acontecia a mesma coisa que estava acontecendo agora, naquela tarde ensolarada de segunda-feira. Ela iniciava a música e se perdia nela, tocando-a com todo o coração e alma, sentindo-a, envolvendo-se completamente na melodia, deixando-se levar pelas suas mãos que deslizavam pelo teclado suavemente, mas ao mesmo tempo, rigidamente. Sophie mantinha seus olhos atentos no pedestal quando seus dedos tinham de ser mais rápidos, tocando fusas e semifusas, e outrora os fechava quando seus dedos eram suaves em suas mínimas.
Enquanto tocava, Sophie não pensava em nada. Esqueceu-se de tudo, do que era, e tornou-se o que tocava. Tornou-se o que sentia. Seus olhos, mente e alma estavam presos da partitura as teclas e pedais do piano, e isso era tudo. O nervosismo que antes tomava conta de todo o seu corpo, agora havia se dissipado completamente. Sua mente vazia não ligava mais para as seis pessoas de rostos inexpressivos que a olhavam tocar enquanto rabiscavam atentamente em seus livros com suas canetas Parker, impecáveis. Um relaxamento indescritível tomara conta de seu corpo conforme ela se concentrava para tocar perfeitamente aquela canção da época do Romantismo.
O banho de nervosismo veio junto com o banho de realidade, assim que seus dedos saíram das teclas e ela se virou. A equipe de auditores não comentou, nem sequer demonstrou alguma satisfação (ou insatisfação) com o olhar, rosto, ou mesmo a expressão corporal. As seis pessoas continuavam lá, e só elevavam seus olhos inexpressivos para olhar enquanto escreviam em seus livros pretos, ou para encarar Sophie friamente e amedrontá-la por inteiro.
Ela respirou fundo mais uma vez e se dirigiu à cadeira que estava de frente para a enorme mesa de madeira que a separava da equipe de auditores da Juilliard School. Tentou não demonstrar seu nervosismo e deu um meio sorriso, cruzando as pernas e juntando suas mãos por cima delas.
— Então, Srta. Sophie W. Farro... — a mulher que estava à sua frente começou a falar. Era provavelmente a líder da equipe. Vestia um terninho rosa marfim e tinha cabelos grisalhos cuidadosamente amarrados em um coque, devia ter no máximo cinquenta e cinco anos. Ela ajeitou os óculos na ponta do nariz, antes de começar a falar, lendo uma espécie de ficha. — A Srta. acabou de interpretar a música Sueño de Amor, by Liszt, e...
— Dawn — Sophie disse, na voz mais suave que conseguiu. Relaxe. — Dawn, de Dario Marianelli.
A mulher assentiu levemente com a cabeça, enquanto o resto da equipe anotava.
— Explique-nos o porquê de ter escolhido essas duas obras para nos apresentar — a mulher juntou as mãos, e o resto da equipe encarou-a.
— Decidi tocar Liszt por que ele é uma grande inspiração para qualquer pianista, inclusive para mim. Sueño de Amor é uma das composições mais tocantes e imaculáveis que existem e durante muito, muito tempo, eu tive o sonho de poder tocá-la. Sou apaixonada por música clássica, e... me vi na obrigação de tocar uma das músicas que mais me marcou durante toda a minha vida — ela fez uma pequena pausa, o que deu tempo da equipe parar de dar atenção à ela e anotar mais alguma coisa em seus longos livros negros. — E, apesar de amar música clássica, também me identifico muito com a arte contemporânea. Por isso toquei a obra de Marianelli. Assim como Sueño de Amor, Dawn é uma música que me toca profundamente, além de refletir uma parte da minha personalidade.
A mulher só a encarou por mais dois segundos antes de voltar sua atenção para seu próprio livro negro. Sophie sentiu seu estômago revirar.
— Diz aqui... — a mulher recomeçou, revirando as páginas do livro — em seu histórico, que a Srta. já estudou na College of Music and Art Laurent Louis, em Londres.
Sophie assentiu.
— Estudei lá durante quatro anos — respondeu discretamente.
— Sim — a mulher manteve os olhos nos papéis durante alguns segundos. — E então, voltou para a América, deixando seu curso inacabado.
Sophie engoliu em seco.
— Precisei fazê-lo — ela ainda tentava não transmitir medo na sua voz. — Eu era apenas uma criança quando fui estudar na Laurent Louis.
— Entendo — a mulher ajustou os óculos delicadamente mais uma vez e, junto à sua equipe, encarou Sophie com a expressão dura. — Conte-nos, Srta. Farro... — ela recomeçou, pigarreando. — Por que a Srta. deseja se ingressar na Juilliard School?
Sophie respirou fundo, procurando na mente a resposta para essa pergunta que já havia ensaiado tantas vezes. Novamente, tentou dar um meio sorriso.
— A lembrança mais antiga que eu tenho é de ver minha mãe tocando piano para mim. Desde que passei a ter consciência da minha existência, a música está presente. Eu nunca encarei a música como uma simples diversão, ela sempre foi para mim algo a mais, algo mais profundo, que me inunda de sentimentos e me toca como nada mais pode tocar. Ela me eleva a outro estado de espírito, mais livre, mais solto. Quando eu toco, ou canto, ou tenho qualquer conexão com a música, eu... me transporto para outra sintonia. Minha mente é completamente limpa e a melodia passa a se tornar parte de mim. Eu não vejo o tempo passar, por que a música se torna... tudo o que eu preciso. A música é para mim... muito mais do que teoria. Ela é o que desperta meus sentimentos mais profundos e estabelece a minha conexão com algo superior. Música é... tudo pra mim; Eu quero estudar na Juilliard School por que eu sei que aqui eu vou ser entendida por pessoas que amam a música tanto quanto eu. Vou ter os melhores professores do país e vou poder me dedicar à música como eu sei que devo. Quero estudar na Juilliard por que é essa escola que vai aumentar meu amor e meu conhecimento em relação à música. Eu não me imagino trabalhando ou vivendo com outra coisa que não seja música, e sei que estudando aqui eu vou poder me tornar a musicista que eu tanto almejo ser. Aqui eu sei que posso seguir o meu futuro ao lado da música, que esteve desde sempre comigo, e que estará até o fim. — Ela terminou de falar, contente por não ter gaguejado nenhuma vez, e viu a mulher ao seu lado balançar levemente a cabeça. Sophie suspirou minimamente.
O nervosismo ainda não saía de seu corpo, mesmo após ela ter dito toda a resposta para a pergunta que ela já esperava ouvir. Na noite anterior, quando parou de tocar com Luke e ensaiou mais uma vez o que queria dizer para que ele visse, ele até havia fingido enxugar os olhos por ter chorado de emoção.
Tudo parecia mais divertido quando estava ao lado dele. Por um segundo Sophie desejou que ele estivesse ali, sentado na cadeira ao lado, olhando para ela e piscando um dos olhos, como se dissesse “tá tudo bem, linda. Eles estão se amarrando em você”.
Na realidade, Sophie desejava que qualquer pessoa estivesse com ela agora. A sala da equipe de audição parecia mais fria do que o comum e ter a atenção daquelas pessoas inexpressivas causava calafrios na garota. Ela estava completamente paralisada de medo e puro nervosismo.
— Aqui no seu histórico escolar geral, Srta. Farro... — a mulher recomeçou, depois de anotar alguma coisa em seu livro negro. Sophie deu um meio sorriso. — Nós podemos notar... duas falhas. No dia nove de outubro do ano retrasado, é relatado que a Srta. foi posta em uma detenção por um professor de música... Sr. Christopher Collins. — A mulher virou mais uma página do livro, e Sophie engoliu em seco. Droga! Aquela detenção havia sido computada mesmo depois de todo o problema que girou em torno dela? O professor era um carrasco! Não sabia ensinar, Sophie apenas... ela apenas... Droga. — A Srta. pode nos explicar essa falha?
Droga, droga, droga.
— Essa detenção me foi dada injustamente — ela começou, sentindo o medo transparecer na voz. — O professor ficou bravo comigo por que eu lhe disse que ele havia errado em relação às ligaduras. Então me colocou em detenção.
A mulher assentiu levemente com a cabeça.
— A Srta. tem consciência de que o Sr. Collins foi formado pela Juilliard School? — Sophie entendeu a pergunta dela mais como um “como tem a audácia?”.
Engoliu em seco.
— Não, Senhora. Não tinha. — Respondeu apenas, sentindo o coração querer sair pela boca.
O resto da equipe escreveu algo em seu caderno e a mulher revirou novamente a folha, ajeitando os óculos na cara.
— Quanto à segunda falha, está bem explícita. Em 28 de outubro do ano passado, a Srta. recebeu uma suspensão de cinco dias. — Ela fechou um dos livros, encarando Sophie nos olhos. — Pode nos explicar essa falha, Srta. Farro?
Sophie sentiu o mundo girar por um segundo. Deus! Como ela pôde se esquecer? Como ela pôde se esquecer da suspensão que levara pela briga com Stephy? Como não pensara em nada para dizer caso fosse indagada sobre aquilo? Como pôde se esquecer daquele modo?
Droga! Ela estava encrencada, com certeza. Já não bastasse a detenção com o Professor Christopher... pelo menos essa ela podia explicar! E agora com Stephy... agora ela...
— Srta?
Sophie engoliu em seco mais uma vez.
— Eu... tive uma desavença com uma colega da classe de educação física — ela não soube onde achou voz para responder. — Nós duas fomos suspensas por isso.
Então a equipe escreveu em seu maldito livro negro, e Sophie desejou saber o que passavam pelas suas cabeças agora. Tentou estabelecer a calma. Eles não poderiam cortá-la da lista por conta de uma suspensão que não havia nada a ver com sua música, poderiam?
Poderiam?
— Aqui na Juilliard School, Srta. Farro, nós não toleramos nenhum tipo de violência — a mulher voltou a falar, e Sophie não viu quando a interrompeu:
— Eu entendo, Sra, e prometo que isso jamais se repetiria aqui... eu só... — ela deixou sua frase morrer, sem saber o que dizer a seguir. Odiou-se por isso, odiou-se por ter chegado àquele ponto. Odiou o sentimento de que estava tudo dando errado tomando conta dela. Odiou tudo.
— Certo — a mulher pigarreou outra vez, anotando e trocando olhares sugestivos com o resto da equipe. — Bem, Srta. Sophie W. Farro... eu e a equipe de audição vamos rever os vídeos que gravamos da Srta. tocando e vamos discutir sobre sua possível matrícula em nossa escola. A carta chegará a sua casa dentro de cinco a seis dias. — Ela se levantou, assim como toda a equipe, e Sophie se levantou também. — Obrigada pela sua presença.
Sophie tentou sorrir.
— Obrigada pela oportunidade — disse, doce, e apertou delicadamente a mão de cada uma das pessoas que ali estavam. Sem sentir suas pernas, levou-se para fora daquela sala no automático, descendo uma porção de escadas até chegar à entrada de escola, onde Luke esperava sentado em um dos degraus da escada do grande monumento pontiagudo que era a Juilliard School. Ignorou todas as pessoas que andavam ao seu redor e apressou o passo, quase correndo até alcançar os braços do namorado, que a apertou com toda a força que tinha, percebendo que algo havia dado errado.
Sophie sentiu seu coração se acelerar ainda mais enquanto apertava os ombros de Luke com mais força do que nunca. Queria com aquele abraço se sentir protegida, segura e salva — exatamente o que ela não estava naquela sala.
— Ei — Luke sussurrou, apertando sua cintura com um bocado mais de força. — O que aconteceu?
Foi aí que ela notou as lágrimas que haviam descido pela sua face, e disse, fungando:
— Acho que não fui aceita.


¹Ivy League é um termo originalmente usado no campo esportivo para designar o conjunto das oito universidades particulares mais tradicionais dos Estados Unidos, mas que hoje é usado como sinônimo de excelência acadêmica, rígida seleção e concentração de membros das elites sociais, todas características dessas oito universidades. As universidades que fazem parte da Ivy League são: Brown University; Columbia University; Cornell University; Dartmouth College; Harvard University; Princeton University; University of Pennsylvania; e Yale University.


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