23 de set de 2012

Capítulo 36

Heaven is a place on earth with you



Danna passou um bom tempo em frente a porta da casa de Hector procurando o molho de chaves dentro de sua bolsa. Quando finalmente encontrou, selecionou a chave correta e a enfiou na fechadura da porta, girando-a. Bufou ao ver que a porta não estava trancada. Tanto tempo perdido para nada!
Rodou a maçaneta e entrou, ainda se perguntando o porquê de a porta estar aberta. Ela tinha trancado quando saiu. Ou não?
Danna havia ido a uma entrevista de emprego para ser a fotógrafa de uma boa agência no centro da cidade, que estava contratando e precisava de fotógrafos experientes e talentosos. Danna decidira se candidatar e tinha marcado uma “experiência” para o dia seguinte.
Mas ainda assim, ela tinha quase certeza de que trancara a porta antes de sair.
— Olha quem chegou! — ela escutou a voz de Hector e se virou. Apertou os olhos, achando estranho ele estar em casa às seis horas da tarde, já que a mercearia do pai dele fechava às nove.
— Por que você não está trabalhando? — perguntou, ainda com os olhos semicerrados. Hector deu de ombros.
— Puxa, que baita recepção — ironizou. — Fui dispensado mais cedo pelo meu pai.
Danna fez que não com a cabeça.
— Seu pai não dispensa ninguém mais cedo — ela disse, lembrando-se da figura simpática do Sr. Marx, pai de Hector. Na realidade, ela se perguntava frequentemente o porquê de Hector ter o sobrenome da mãe e não do pai. Nas quase cinco semanas que morava ali, ela não tivera a chance de perguntar. — Se você saiu do trabalho mais cedo e ele deixou isso acontecer, foi por que você pediu e deu uma boa desculpa.
— Nossa, você fala como se conhecesse meu pai melhor do que eu — ele revirou os olhos.
Danna deixou um meio sorriso aparecer.
— O seu pai criou você, que é tão faz-tudo quanto ele. Portanto, ele dá muito valor ao trabalho. Se você tá aqui, é por que aconteceu alguma coisa.
Hector semicerrou os olhos.
— Você precisa parar de ser tão observadora.
— Me diz logo o que aconteceu! — Danna deu um sorriso nervoso e largou a bolsa no sofá da única sala de estar do lugar. Olhou para Hector logo depois, com uma mão na cintura.
Ele deu uma gargalhada.
— Tudo bem! — ele fez uma pausa, para parar de rir. Danna não sabia bem o porquê, mas também estava rindo. — Eu fiz uma coisa — disse, mordendo o lábio e juntando as mãos.
Danna esperou.
— Hum — resmungou, por fim.
— Não vai perguntar o que é? — Hector a encarou, sério.
— Imaginei que não seria preciso, ué — Danna se explicou. — Você vai me dizer mesmo assim.
— Quem disse? — ele perguntou, desafiando.
— Você. — Ela revirou os olhos. — Quer dizer, você tá todo animado. É só avaliar sua linguagem corporal.
— Mas gente... — ele a encarou. — Pare de avaliar minha linguagem corporal, ok?
Danna sorriu.
— Diz logo o que você fez! — disse, com impaciência.
— Não — Hector deu o melhor sorriso cínico que tinha e Danna revirou os olhos. — Eu não vou dizer. Vou mostrar.
— Então mostra, caram-
Ela não conseguiu terminar sua frase, pois Hector havia agarrado sua mão e a puxado pela casa, fazendo-a correr. Quando ele chegou a porta de um quarto que Danna na realidade nunca tinha entrado — pois a casa tinha três quartos, um era de Hector e o outro, dela —, ele soltou sua mão e sorriu como uma criança após brincar de pique-pega.
— O que diabos você tá fazendo? — Danna perguntou, tentando bronquear, mas não conseguiu e sorriu também. Era só que era tão difícil ver Hector sorrindo e não sorrir também.
Hector colocou a mão na maçaneta e a olhou no fundo dos olhos, antes de dizer:
— Você vai ter que pintar um pra mim, ok?
Antes que Danna pudesse assimilar a sua frase, ele já havia rodado a maçaneta e aberto a porta, mostrando assim um quarto.
Só que não era um quarto qualquer.
As paredes, pintadas de branco, tinham como decoração os quadros que Danna havia pintado e trazido da pensão da Sra. Turner. E espalhados pelo quarto não muito grande, haviam vários pedestais, cada um com um tela em branco. Tintas, pincéis, aquarelas. Tinha tudo lá.
Hector havia transformado aquele quarto em um estúdio de pintura.
Danna deixou seu queixo cair e não soube como conseguiu andar para dentro do estúdio. Um sorriso havia se formado em seu rosto, e ela não poderia estar mais surpresa. Hector... havia feito tudo aquilo para ela?
Ela não conseguia acreditar em tudo aquilo! Parecia tão surreal! Ver todas aquelas telas, aquelas tintas, aquela decoração, toda feita para ela por Hector! Isso sem esquecer das jasmins, que faziam parte da decoração do estúdio.
Danna simplesmente não tinha palavras para expressar a emoção que a abateu quando viu tudo aquilo. Virou-se subitamente para Hector, que estava na porta do quarto, com as mãos no bolso da calça jeans, e um sorriso sincero no rosto. Ela deixou seu sorriso aumentar.
— Você... — ela fez uma pausa, ainda sorrindo. — Você fez tudo isso pra mim?
Hector também deixou seu sorriso aumentar e deu um passo para frente, entrando de vez no estúdio.
— Quando eu vi as telas no teu antigo apartamento eu vi quanto talento você tinha — ele olhou novamente para um dos quadros dela, que estavam pendurados na parede do estúdio. — Então... bem, eu apenas soube que tinha que fazer.
Danna deixou uma risada escapar de sua garganta e passou a ponta dos dedos pelas telas brancas, como se ainda não acreditasse naquilo. Pegou um pincel na aquarela que Hector havia montado e o segurou com leveza.
— Isso é perfeito — ela disse, passando o pincel pela tela, mesmo sem tinta. — Tinha tanto tempo que eu não pegava num pincel, Hector... eu.. Obrigada.
— Não precisa agradecer, pequena Danna — ele disse, ainda com o sorriso simpático e puro no rosto.
— Mas...
— Mas nada — ele a cortou. — Fiz isso por que eu quis te ver feliz.
Danna deu um meio sorriso, deixando o pincel no lugar dela. E mesmo que o pensamento que veio a ela no momento fosse “é, você me faz feliz”, tudo o que ela disse foi:
— Eu estou feliz. Obrigada.
— Está? — ele se aproximou, os olhos escuros brilhando.
Danna deixou que seu olhar se prendesse no dele por algum momento.
— Estou — respondeu com convicção.
— Que ótimo — ele curvou os lábios no sorriso mais sincero que Danna já havia visto. — Então... já pode começar a pintar, não?
Ela deu uma risada.
— É, mas eu não sei o que pintar! — queixou-se.
— Hmm... — ele levou uma mão ao queixo, fingindo-se de pensativo. — Um latino sexy, que tal? — e arqueou a sobrancelha duas vezes, fazendo Danna rir.
— Boa ideia! Me mostre um que eu o pinto, então — ela deu um sorriso cínico e Hector fechou a cara, fazendo que não com a cabeça.
Danna apenas gargalhou.
— Sem graça — murmurou, fingindo-se de magoado.
— Foi uma brincadeira! — ela disse, defendendo-se e ainda rindo. — Tá, eu pinto. Mas... não agora — ela mordeu o lábio inferior. — Quero te mostrar uma coisa antes.
Hector esperou.
— Hum — resmungou.
— Não vai perguntar o que é? — ela o encarou, uma sobrancelha arqueada.
— Não imaginei que seria preciso, sabe... É só avaliar sua linguagem corporal. Ela diz que você vai me mostrar de qualquer jeito. — Ele deu um sorriso sarcástico e Danna revirou os olhos. Deixando uma gargalhada escapar de sua garganta, Hector se deu por vencido: — Certo, o que é?
— Não vou dizer — Danna o olhou, sapeca, e depois riu. — Vou mostrar. Vem.
Dessa vez, Danna agarrou a mão de Hector e o fez quase correr pela sua própria casa, até adentrar o quarto dela. Mandou-o se sentar enquanto ela pegava o queria mostrá-lo.
Danna realmente não acreditava que ia fazer aquilo. Ela ia mesmo mostrar a caixa para alguém? A única coisa que para ela realmente tinha valor?
A questão é que ela confiava tanto em Hector que achava que ele era merecedor de ver a caixa que ela levou tantos anos para construir. Quer dizer, ele estava mesmo com ela! Havia acolhido-a e oferecido um ombro amigo. Fazia de tudo para vê-la feliz, oras, ele tinha feito um estúdio de pintura para ela! Ele...
Ele merecia saber da caixa. Mais do que qualquer outra pessoa.
Foi por isso que Danna retirou a caixa de plástico do guarda-roupa e se sentou na cama, junto com ela.
— Humm... que isso? — ele perguntou, ainda com um meio sorriso brincalhão na cara.
— É a caixa — ela começou a explicar. — É a única coisa que eu realmente... tenho de valor, por assim dizer. Tipo... se alguém me dissesse que essa casa iria pegar fogo e eu só pudesse salvar uma coisa além da minha própria vida, eu salvaria a caixa.
— Nossa — ele levantou as sobrancelhas. — Por que nunca me falou dela? E o que ela tem de tão especial?
— Não falei por que, na verdade, essa é uma coisa que ninguém sabe, então... Enfim, não fique chateado, estou falando agora. — Ela disse e Hector riu, dizendo “ok”. — E ela é especial por que... bem. Dentro dessa caixa tem tudo o que eu pude juntar sobre o meu pai e a família dele. Tipo... tudo mesmo. Desde os meus treze anos que eu comecei a “investigar”, e tudo que eu conseguia eu juntava e colocava aqui dentro.
Hector deixou o maxilar cair levemente, surpreso.
— Isso é sério? — ele perguntou.
— Aham — ela concordou, sorrindo. — Não foi muito difícil começar a investigar... só precisei pegar um dos comprovantes de depósito que ela fazia para a minha pensão para descobrir o nome dele. Aí eu pesquisei nas escolas de Franklin, descobri a família dele por lá, joguei o nome dele na internet, procurei na lista telefônica... em menos de três meses eu soube onde ele morava e o que fazia.
— Caramba! — Hector disse, surpreso. — Você devia largar a fotografia e virar detetive, sabia?
Danna o olhou com os olhos semicerrados.
— Ha, ha. Muito engraçado — ela fez, ironizando. Hector riu.
Danna abriu a caixa e pegou um pedaço de papel amarelado pelo tempo, mas o sorriso em seu rosto havia aumentado consideravelmente.
— Esse é meu artigo favorito. Saiu num jornal há uns dezoito anos atrás, e logicamente, eu era muito nova e não pude pegar. Mas a minha sorte é que o jornal tem um site com um arquivo de todos os jornais até dez anos atrás para assinantes. Só precisei do RG da Jenna — ela explicou e Hector deu outra risada, fazendo que não com a cabeça. Segurou o papel, que era uma notícia. O anunciado era “Casamento Surpresa! Noiva não sabia que ia se casar até o momento que subiu no altar.”.
— Casamento surpresa? — ele disse, confuso.
— Lê a notícia — Danna apontou para o papel, com um sorriso enorme no rosto.
A notícia contava basicamente a história de um casal que nem sequer namorava, mas já tinha uma história antiga de amor. O noivo, Gen. Joshua Farro, utilizou de sua nomeação militar para pedir a promoter da festa, Hayley Williams, em casamento. Assim que ela aceitou, surgiram alfaiates que fizeram seu vestido em minutos e apareceu até um padre. A festa militar foi transformada em um altar em poucos minutos, onde os noivos puderam selar matrimônio. Foi, com certeza, o noivado mais curto que já existiu. Durou apenas meia hora.
— Nossa — foi o que Hector disse quando terminou de ler.
— Eu sei — Danna ainda mantinha o sorriso no rosto. — Surreal, né?
— Sim! — Hector riu. — Não sei se é mais surreal ter acontecido um casamento onde a noiva só soube que era noiva quando subiu no altar ou você saber de tudo isso.
— Pois é — Danna deu um meio sorriso. — Dessa caixa toda essa foi a única coisa que eu mostrei pra Jenna. Só pra ver ela dando ataque, sabe? Por que ela odeia de verdade a Hayley. A minha “avó”, mãe da minha mãe, que na verdade é só outra cobra, me disse uma vez que ela odeia a Hayley por que levou uma surra dela uma vez. Já gosto dela só por isso.
Hector riu, fazendo que não com a cabeça. Colocou a mão por dentro da caixa e retirou uma foto de uma criança vestida em trajes militares, fazendo uma continência. Mesmo muito pequeno, o garoto transmitia seriedade.
— Este é Nathaniel — Danna foi dizendo, ao ver Hector analisar a foto. — Nathaniel Farro. O nome dele originou do soldado Nathaniel Vanderburg, que salvou a vida do Joshua na guerra de Israel. Nessa foto ele tá com cinco anos de idade, na cerimônia de homenagem ao Nathaniel Vanderburg. Mas eu tenho uma foto dele mais recente por aqui... — ela parou de falar para procurar outra foto na caixa, até achar. — Aqui. Essa foto é dele no campeonato estadual de boxe do ano retrasado. Ele ganhou.
— Uau — Hector disse, olhando as duas fotos. — Ele parece muito com você.
— Parece nada — Danna deu um sorriso de canto e retirou mais duas fotos da caixa e se encurvando para mostrar à Hector. — Essa é Sophie. Não achei muita coisa sobre ela, e nessa foto ela tem oito anos, apesar de ela ser a mais velha, eu acho. Tudo o que eu sei é que ela toca piano e fez intercambio na Inglaterra durante um tempo. Mas... julgando o nascimento dela por nove meses antes do nascimento de Nathaniel entre nove meses depois do casamento, ela deve ter... uns dezesseis a dezessete anos.
— Os olhos dela — Hector disse. — Parecem com os do garoto e os seus. Parece que todos tem os mesmos olhos, meu Deus! — ele riu e Danna deu uma risada também. — Tem outro irmãozinho?
Danna fez que sim com a cabeça, rindo.
— Eu achava que não, até o ano passado — ela disse e lhe entregou uma outra matéria. — Essa eu tirei de um blog de Literatura. Como você pode ver, os olhos não são iguais, o que detona tua teoria.
— Ah, só por que eu disse... — Hector suspirou, fingindo decepção.
Danna riu.
— O nome dele é Joseph, e eu não sabia da existência dele por que estava desde sempre sem informações. Mas aí, no ano passado, eu fiz minha habitual busca na internet e achei esse blog na página 9 do Google. — Hector precisou interrompê-la para rir. Danna revirou os olhos e continuou falando: — Ele é tipo... um menino prodígio. Só tem onze anos, mas já tem um agente e um projeto de livro para lançamento. Sai daqui a mais ou menos um ano.
— Jesus! — Hector exclamou. — A menina toca piano, o menino é campeão de boxe, o mais novo é um escritor. Que família mais talentosa, meu Deus.
— Não é? — Danna concordou, rindo.
— O que explica seu talento nato para o desenho, a pintura e a fotografia — Hector piscou um olho, e Danna revirou os seus.
— Para de mentir — ela disse, bufando. — Mas o talento dessas crianças pode ser explicado. Tanto Josh quanto Hayley tiveram uma banda quando adolescentes, lá em Franklin.
— Sério? — Hector arqueou as sobrancelhas.
— Sim. Eles fizeram uma apresentação no 2º Festival de Musica da cidade, e eu consegui dois vídeos — Danna retirou um CD de dentro da caixa, encapado, escrito em caixa alta: “PARAMORE — MISERY BUSINESS – MY HEART | HAYLEY WILLIAMS/JOSH FARRO/ZAC FARRO/JASON BYNUM/TAYLOR YORK/JEREMY DAVIS — FRANKLIN, TN”. — Esses foram um pouquinho difíceis de achar. Na verdade, consegui com um colega de escola, que a mãe gravou quase o show todo, e aí ele me emprestou o DVD e eu fiz uma cópia só de Paramore. O nome da mãe dele era... hmm... Jesse Lee, se não me engano.
— Paramore — Hector repetiu o nome, sem entender muito.
— Não me pergunte o significado do nome — Danna disse e Hector riu. — Eu realmente não tenho ideia. Já até procurei, mas tudo que tem sobre essa banda são os vídeos. O que é uma pena, por que eles são ótimos...
— Hmm... fiquei curioso, agora. Podemos ver os vídeos? — Hector não a esperou responder e já se levantou, indo em direção ao DVD. — E eu não esperei você falar nada por que sua expressão corporal já dizia “sim”.
Danna deixou uma risada escapar.
— Você nunca vai esquecer disso, né? — e revirou os olhos.
— Jamais, baby — ele fez piada e Danna riu outra vez, fazendo que não com a cabeça.
Hector ligou o aparelho de DVD e a televisão, logo depois selecionando os vídeos certos para serem reproduzidos. O primeiro começou com um apresentador falando um pouco sobre a banda, dizendo o nome dos participantes e falando que era a vez da Paramore se apresentar. Então tudo ficava escuro e de repente se iluminava, com um guitarrista fazendo a introdução forte de uma música igualmente forte. Não demorou muito para a garota de cabelos extremamente flamejantes começar a pular pelo palco para logo depois, cantar com todo o peito.
A música era um rock bem especial. E era realmente boa.
— Qual é o nome dessa? — Hector perguntou.
— Se chama Misery Business — Danna explicou, sem tirar os olhos da televisão. — Aposto que foi escrita para a Jenna.
Hector deu uma risada, no mesmo momento em que a vocalista da banda cantava a frase “once a whore, you’re nothing more, I’m sorry that will never change.” É, a probabilidade era boa.
Logo a primeira música acabou e ele selecionou o outro vídeo, que já começava com o fim de outra música que era bem rocker também. Porém, ele só pôde ouvir a frase “it’s getting closer now, we’re better off without me.”
— Que fim de música é esse?
— Não sei — Danna torceu os lábios. — Como eu disse, não tem muita coisa sobre Paramore que eu encontrei, então não tenho ideia de que música seja essa. Mas a próxima se chama My Heart.
Então Hector se dedicou apenas a ouvir a música que ao mesmo tempo que era rocker, era romântica. A letra conseguia ser muito bonita e a melodia era marcante, ficava na cabeça, e ele até se arrepiou um bocado.
No que Hector julgava ser o refrão, Hayley repetia com muita voracidade a frase “This heart it beats for only you, my heart is yours”, e um dos rapazes fazia um screamo ao fundo, e isso deixou Hector intrigado e maravilhado. Por que ao mesmo tempo que o screamo fazia com que a música fosse forte, a frase e a voz de Hayley dava a leveza ao transmitir um sentimento tão puro. Como se eles precisassem gritar para que a mensagem fosse bem passada. Por isso, quando a música acabou, Hector ficou com vontade de escutar outra vez.
— Nossa — ele disse, depois de uns instantes. — Sério... eles são...
— Bons — Danna completou, com um sorriso no rosto, guardando tudo o que tinha tirado da caixinha.
Concordando, Hector a ajudou a guardar tudo devidamente na pequena caixa de plástico, e depois Danna a colocou de volta do mesmo lugar que havia tirado, no guarda-roupas.
— Sério — Hector começou, levantando-se da cama dela —, você é boa mesmo nesse negócio de detetive.
Danna riu outra vez.
— Nem sou — ela negou, ainda com o sorriso no rosto, e foi saindo do seu quarto, com Hector a acompanhando. — Eu passei oito anos pra conseguir só isso de informação.
— É, mas você soube exatamente o que fazer para conseguir — ele rebateu. — Amariam você no CSI.
— CSI Tennessee — ela fez piada e ele gargalhou. — Oh, soa bem, não?
— Muito melhor do que CSI Las Vegas — ele concordou.
— Ou CSI Miami.
— Ou New York.
— Ou... — Danna parou de falar para refletir por um segundo. — Não tem outro CSI, né?
— Não — Hector torceu os lábios. — Quando eu virar cineasta eu providencio o CSI Tennessee.
— É só isso que falta de profissão pra você ser, né? — ela caçoou, e Hector deu uma risada.
Ainda sorrindo, eles foram em direção a sala de estar da casa de Hector. Danna se sentou preguiçosamente no sofá e arregalou levemente os olhos ao perceber que já eram quase 20h.
— Nossa! — ela exclamou. — Já é noite.
— Acho que passamos tempo demais vendo sua caixinha mágica — Hector disse, sentando-se do lado dela e relaxando-se no sofá confortável. — Estou com fome.
— Eu também — Danna concordou, assentindo com a cabeça.
— O que quer comer? — Hector se ajeitou no sofá para olhá-la.
— Hmm... — ela resmungou, pensando. — Que tal uma pizza pré-assada do teu pai?
Hector sorriu.
A pizza pré-assada da mercearia do Sr. Marx era simplesmente a melhor pizza que existia. Danna realmente duvidava que qualquer italiano pudesse deixar uma pizza tão gostosa quanto ele.
— Eu pré-aqueço o forno — Hector disse, levantando-se. Deu uma mão para Danna se levantar também.
— Eu compro a pizza — ela disse, agarrando sua mão e tomando impulso para se levantar. Enquanto Hector foi para a cozinha, ela pegou alguns dólares na bolsa que ainda estava por cima do sofá e saiu.
A mercearia do Sr. Marx ficava no fim da rua, numa esquina. Era um lugar pequeno para um mercado, mas grande para uma mercearia, por isso, também funcionava como padaria e lanchonete. Era lá onde Hector eventualmente trabalhava. Ele fazia boa parte dos pães e os salgados, mas os bolos, brownies e tortas quem fazia era a Sra. Betinez, uma mulher de aproximadamente cinqüenta anos e que conseguia ser a pessoa mais maternal que Danna já havia conhecido. Uma vez, pegou o Sr. Marx discutindo com ela por ter dado bolinhos a duas crianças sem que elas pagassem. Danna riu quando o Sr. Marx virou para ela e disse: “isso sempre acontece! Essa mulher tem o coração mole demais”.
De fato, todas as pessoas daquele lugar tinham uma peculiaridade. E Danna adorava aquilo. Adorava por que, de repente, achava que havia encontrado o seu lugar.
Não demorou nada para ela adentrar a mercearia e dar de cara com o simpático Sr. Marx atrás do balcão do caixa. Quando a viu, ele sorriu. Diferente de Hector, ele tinha a pele clara, cabelos lisos grisalhos, olhos cor de mel e corpo arredondado.
— Veja só se não é a Srta. Danna Faith! — ele disse, cumprimentando-a. Danna sorriu.
— Boa noite, Sr. Marx — disse, enquanto o homem saia de seu posto no caixa e ia em direção a padaria.
— Me chame de Charles, filha — o Sr. Marx disse, sorrindo. Danna assentiu com a cabeça. — Então, gostou do estúdio?
— Ah — Danna lembrou-se do que Hector havia feito para ela pouco antes. — Amei, de verdade. Eu... nem imaginava. E já fazia tanto tempo que eu não segurava um pincel, que... Enfim. Adorei.
Charles deu uma risada gostosa, posicionando-se atrás do balcão da padaria.
— O que vai querer?
— A melhor pizza pré-assada que o Senhor tiver aí, por favor — disse.
— É pra já — ele sorriu. — E já falei para parar de me chamar de Senhor, menina. Senhor está no Céu.
— Certo, desculpe — Danna sorriu enquanto o homem se curvava para selecionar uma pizza.
— Mas então... voltando ao assunto... Que bom que você gostou do estúdio. Juan passou umas duas semanas procurando e selecionando tudo para ficar perfeito — ele se levantou, pegando a pizza e colocando-a em cima da balança. — E eu até estranhei, sabe, filha... Juan nunca foi muito de se dobrar para agradar mulher nenhuma. Acho que na vida toda dele, ele só deu um ramo de rosas para a primeira namoradinha. E ele só tinha treze anos.
Danna riu, meio envergonhada, sem saber bem o que responder. O Sr. Marx era uma ótima pessoa, mas sabia bem como deixá-la embaraçada. Por isso, ela optou por não dizer nada.
O que, é claro, não impediu o homem de continuar a falar:
— Acho que ele tem uma queda por você — disse, colocando a pizza em uma sacola plástica e entregando-a a Danna, que riu.
— Que isso, Sen... Charles — ela se corrigiu no meio da frase, fazendo o homem dar uma risada. — Hector é uma ótima pessoa que me ajudou quando eu mais precisava e... na realidade, não merecia. Mas ele só quis agradar uma amiga, justamente por que ele é uma pessoa maravilhosa. Só.
— Conheço aquele garoto há bastante tempo, filha. Sei o que estou falando. — Ele disse, voltando ao balcão do caixa, com a mesma expressão descontraída. Olhou nos olhos de Danna para depois dizer: — Você tem uma queda por ele também.
Danna riu outra vez, sentindo as bochechas corarem.
— Somos apenas amigos, Charles — disse, colocando a mão no bolso da calça para pegar o dinheiro, pagar logo tudo aquilo e sair daquela cena constrangedora.
— Claro. Procure apenas não mentir para si mesma. — Charles disse, sentando-se em seu lugar no caixa. — E não precisa pagar. Diga para aquele moleque que vai sair do salário dele.
Danna deu outra risada, fazendo que não com a cabeça em descontração e guardando os dólares no bolso novamente.
— Ok. Até mais, então, Charles — ela disse, saindo da mercearia.
— Boa noite, filha! — ele acenou, sorrindo.
Danna fez que não com a cabeça e apressou o passo para chegar logo em casa, pensando nas palavras que o pai de Hector havia dito. Quer dizer... Será?
Ela bufou e repreendeu-se mentalmente. O que estava fazendo? Oras, parecia uma adolescente, refletindo sobre frasezinhas ditas por um senhor que só queria confundi-la! Deus do Céu, ela não podia ficar se fazendo perguntinhas bobas. Tinha mais de vinte anos na cara!
Suspirando e xingando-se mentalmente mais uma vez, ela abriu a porta e se dirigiu até a cozinha. Hector já estava lá, limpando alguma coisa como sempre. Danna achava incrível a forma que ele sempre achava algo para limpar na cozinha.
— Ei — ele disse, largando o pano por cima da pia. — Você demorou, hein? O forno já tá quente.
— Seu pai puxou assunto — Danna disse, sorrindo, tentando disfarçar.
Hector não comentou e apenas deu uma meia risada, pegando a sacola da mão de Danna e retirando a pizza pré-assada do plástico.
— Ah — Danna se lembrou —, e ele não me deixou pagar e disse que a pizza vai sair do seu salário.
Hector riu.
— Desse jeito não me sobra mais salário no fim do mês — ele torceu os lábios e colocou a pizza em uma forma reta de alumínio, e depois enfiou-a no forno do fogão. Virou-se para Danna, que estava recostada no balcão com as mãos nos bolsos.
— Vai demorar aí? — ela perguntou, fingindo-se de esfomeada.
— Um pouco — ele respondeu, com um sorriso no rosto. — Hmm... bem, já que estamos no “dia de mostrar as coisas pessoais” — ele fez aspas com as mãos —, vou te mostrar o meu lugar preferido na casa.
— Não é a sala de estar?
— Não — ele sorriu. — É outro lugar. Vem.
Ele saiu andando e Danna o seguiu até a área de serviços. Chegando lá, ele puxou uma corda que abriu uma parte do telhado e posicionou uma escada para a entrada.
— Sobe — ele disse para ela.
— Não sei se é uma boa ideia — Danna torceu os lábios.
— Tá com medo? — ele desafiou.
Danna semicerrou os olhos.
— Segura essa escada direito — disse, autoritária, e Hector riu concordando.
Ela subiu devagar até a entrada e viu que dava diretamente para o telhado da casa de Hector. Ele gritou para ela se sentar por lá e ela o fez. Não demorou muito para ele subir e se sentar ao lado dela, por cima das telhas.
— O que achou do meu lugar preferido da casa? — ele perguntou.
— Interessante — ela respondeu, abraçando os próprios joelhos por conta do frio.
Hector fez o mesmo, apoiando os tênis nas telhas de baixo.
— Sabe o que eu mais gosto aqui? — ele perguntou e Danna negou com a cabeça. — A lua. Hoje, especialmente ela está cheia, o que é a melhor época do mês. Acho que é por isso que eu adoro o outono, também. A lua de outono quando tá cheia fica lá a noite inteira, e quando eu acordo cedo pra ir trabalhar, ela ainda tá lá no céu. Ofuscada pela neblina do início do dia e os primeiros raios de sol, quase ninguém a nota. Mas eu passo um tempo considerável admirando-a.
Danna deixou seus lábios se curvarem em um meio sorriso e olhou para Hector. Seus olhos negros brilhavam à luz da lua que ele tanto admirava. Seus lábios carnudos também estavam curvados em um sorriso singelo e sua pele morena parecia mais brilhante e macia. Curvado, com aquele rosto de fascínio, Danna não se lembrava de ter visto um homem tão bonito.
Voltou sua atenção para o céu, olhando a lua grande e brilhante lá no céu.
— Às vezes, quando eu era adolescente — ela começou a dizer —, eu ia pra janela do meu quarto à noite e pintava enquanto via o céu estrelado e lua. Eu me sentia em paz conforme o pincel espalhava a tinta pela tela e o luar estava lá, bonito a minha frente. Era como se eu me transportasse do meu mundo ruim para um lugar melhor.
— Ela faz isso com as pessoas. Transmite paz. Eu quase sempre venho aqui para... pensar, meditar, descansar um pouco de tudo. Faz bem você só observar e pensar um pouco sobre tudo. — Hector fez uma pausa pequena, respirando calmamente. — E... sabe, a lua é tão linda que é difícil acreditar que ela não tem luz própria. É difícil acreditar que ela só brilha lá em cima por refletir a luz do sol. O interessante é que ela consegue aproveitar essa luz solar e transformá-la numa luz mais bonita, mais... revigorante. Quer dizer, eu acho isso.
Danna aumentou seu meio sorriso.
— Você tem razão — ela disse. — É como se ela pegasse o que lhe foi dado de bom e transformasse em algo melhor. Como se... recebesse solidariedade e irradiasse amor.
Hector parou de olhar para o céu e olhou diretamente para Danna, com um sorriso puro nos lábios. Porém não disse nada, apenas... olhou para Danna, assimilando o que ela havia acabado de dizer.
Danna olhou para ele durante um tempo e sorriu de volta, encarando seus olhos negros que refletiam a luz da lua. Sua expressão ainda estava surpresa e feliz ao mesmo tempo, mas havia algo em seu olhar que Danna não pôde decifrar.
Sentindo seu rosto corar, ela sorriu outra vez e voltou sua atenção para o luar, mesmo que ainda sentisse o peso dos olhos de Hector sobre si.
— Acho que... — ele começou a dizer — ...a pizza já deve estar boa.
— Não quero descer — Danna afinou a voz, como uma criança manhosa. — Pega pra nós dois?
Hector deu uma risada alta.
— De jeito nenhum! — ele disse, fazendo Danna bufar. — Deixa de ser preguiçosa e vem pegar comigo, vamos.
— Seu chato — ela se queixou, o que só serviu para fazer Hector rir outra vez.
— Vou descer primeiro e depois te ajudo, tudo bem? — ele disse, ainda sem tirar o sorriso do rosto.
— Tudo bem estaria se você pegasse pra nós dois — Danna se queixou mais uma vez e Hector ignorou, entrando no buraco no telhado e descendo as escadas rapidamente.
Danna se sentou na entrada e apoiou os pés em um dos degraus da escada, sentindo uma pontinha de medo atingi-la.
— Não pareceu tão alto na hora de subir — ela disse, fazendo Hector dar uma gargalhada.
— Medrosa. Desce de frente que eu te pego, vem — ele disse, parecendo bem melhor naquele ângulo, com certeza. Danna respirou fundo, procurando coragem e ficou de pé no primeiro degrau. Colocou a perna esquerda trêmula no segundo, e se preparou para colocar a direita no terceiro, mas o medo não deixou. Tinha quase certeza de que ia cair quando as mãos de Hector seguraram-na e a retiraram da escada, deixando-a suspensa no ar.
Danna segurou o ar dentro do pulmão e fechou os olhos num ato involuntário, sentindo o medo tomar conta dela. Mas isso só durou um segundo. Pois logo ela percebeu que eram as mãos de Hector que a seguravam, portanto, ela estava completamente segura. E não precisava colocar toda a confiança em seus braços fortes para isso. Bastou ela abrir seus olhos e encontrar os dele tão pertos dos seus, parecendo mais brilhantes e lindos do que nunca, para entender que se ele estivesse por lá, ela estaria sempre segura. Devagar, Hector a colocou em segurança no chão, mas mesmo quando os pés de Danna atingiram o piso, ela sentiu como se estivesse flutuando. Não conseguiu desgrudar seu olhar do de Hector, e aparentemente, ele também não conseguiu retirar as mãos de sua volta. Ele estava tão perto. Danna soltou o ar que havia segurado no pulmão e sentiu seu coração acelerar a uma velocidade incalculável.
Foi aí que Hector subiu uma mão para a sua nuca e aproximou seus lábios.
Danna não estava totalmente surpresa com aquele ato, mas ainda assim, seu estômago revirou e em seu corpo passou uma corrente elétrica que nunca havia passado antes. Hector contornou seus lábios com a língua e ela lhe deu um bocado mais de espaço, pressionando mais os seus lábios e retribuindo o beijo à altura. Levou suas mãos até seus ombros largos e o apertou mais contra si, enquanto Hector abaixava o braço que não estava em sua nuca e envolvia sua cintura com uma firmeza inimaginável. O beijo estava calmo e singelo, as línguas se entrelaçando delicadamente, os lábios se movimentando com cautela. Ainda assim, tanto para Danna quanto para Hector, nunca existira um beijo tão maravilhosamente gostoso. Eles se sentiam deliciados e bem, apenas por estarem juntos, sentindo os lábios um do outro. Como se estivessem fazendo exatamente a coisa certa, na hora certa, no lugar certo.
Quando os pulmões imploraram por ar, eles separaram seus lábios com muita vagarosidade, mantendo-os juntos o máximo possível. Seus olhos estavam fechados, apenas sentindo aquele finalzinho de beijo com todo o ser. Seus corpos se arrepiavam pela corrente elétrica que insistiam em passar e repassar a todo momento. Com as testas coladas e sem abrir os olhos, Hector sentiu sua respiração se misturar com a de Danna e deixou um sorriso brotar em seus lábios, sem se agüentar e pressioná-los contra os dela novamente, mas dessa vez, apenas lhe dando um selinho demorado. Sentiu seu estômago apertar quando, enquanto os lábios de Danna se moldavam sobre os seus, ela segurou com força os seus ombros. Era como se ela não quisesse sair dali. Exatamente como ele.
Mas eles precisaram separar seus lábios novamente. E quando o fizeram, seus olhos se encontraram novamente, tão perto um do outro, mais brilhantes impossível. Danna sorriu, ainda sentindo o coração palpitar contra o peito. Olhou para baixo e mordeu o lábio inferior, tentando conciliar os sentimentos, os pensamentos e as sensações. Mas tudo fugiu de sua mente quando Hector segurou seu queixo, fazendo-a olhar para seu sorriso grande e imensamente feliz. Ele puxou seu queixo e lhe deixou outro selinho molhado e demorado nos lábios, apenas pelo prazer de senti-los tão perto. Então ele colocou uma mecha de seu cabelo castanho atrás de sua orelha, fazendo um carinho na maçã de seu rosto. Encarava-a com ardor e com o meio sorriso mais lindo que Danna já vira, e ela se deu conta de que o encarava com a mesma intensidade e seu sorriso era ainda maior e mais bobo.
Percebeu ela, então, que podia estar se apaixonando perdidamente pelo homem que salvara sua vida.


[...]



Danna saiu do banheiro secando os cabelos com uma toalha e deixando um sorriso se formar no canto de seus lábios.
Pela primeira vez em sua vida, nada parecia estar errado. Claro que Hector tinha a ver com tudo isso, mas mais recentemente, ela estava comemorando consigo mesma o fato de ter sido contratada na agência que havia feito o teste ainda naquela tarde. Ela havia trabalhado como assistente de uma fotógrafa muito simpática, chamada Dakotah Rae. Ela havia elogiado o trabalho de Danna e sua familiaridade com a câmera e as ferramentas de edição, além do seu jeito único de fotografar. E no fim do dia, assinou sua carteira de trabalho.
Então, bem. Danna estava empregada, havia encontrado seu lugar no mundo, e suspeitava seriamente que estava apaixonada pelo seu “colega de apartamento”. Na verdade, estava vivendo normalmente, e gostava disso. Gostava de ver as coisas dando certo. Gostava mesmo.
Ainda com o sorriso no rosto, ela fez que não com a cabeça e retirou a toalha dos cabelos, para deixá-los secar naturalmente. Ela nunca gostara muito de secadores, mesmo. Eles faziam barulho e deixavam seus cabelos frisados. E ela não tinha paciência para escovar, por isso, apenas deixavam com que eles secassem normalmente.
Era mais prático. Nada melhor do que a boa e velha toalha.
Interrompendo seus pensamentos, ela escutou três batidas precisas e curtas na porta de madeira da casa. Arqueou uma sobrancelha, achando aquilo estranho. Não podia ser Hector, ele sempre levava a chave. Ela não havia pedido nada, ou feito nenhuma compra. Então... quem seria?
Ainda achando esquisito, Danna foi até a porta, que acabara de ser batida mais três vezes. Destrancou-a e abriu-a tranqüilamente, pronta para dizer “pois não?”.
Porém qualquer frase que ela fosse dizer ficou presa em sua garganta quando ela viu quem estava na porta e agora, batia os saltos altos contra o concreto impacientemente. Danna sentiu o sangue parar de correr em suas veias e o rosto congelar no mesmo momento em que avistou a mulher, e seu único ímpeto foi dizer:
— Vai embora. — E fechar a porta.
Porém o salto alto da mulher ficou entre a porta e o encosto, e logo suas mãos reabriram a porta que Danna havia tentado fechar. Encarando-a com um meio sorriso maldoso no rosto, a mulher disse, quase calmamente:
— Vai mesmo impedir a sua própria mãe de entrar nisso que você chama de casa?

Nenhum comentário:

Postar um comentário