23 de set de 2012

Capítulo 34

I think I really like you...



Pov. Sophie



Things are looking up, oh, finally!
Foi exatamente isso que pensei (ou cantei?) quando acordei de manhãzinha. Meu humor geralmente não é lá essas coisas quando acordo, a não ser que algo me anime logo de cara.
Olhar para o relógio e ver que já eram sete da manhã foi uma dessas coisas.
Não me animei por que olhei pela janela e vi que o sol brilhava no alto do céu como o maior dos milagres de Deus, ou qualquer outra dessas coisas que eventualmente se estuda na aula de literatura ou redação. Me animei por que me dei conta de que essa foi a primeira noite em quase quatro semanas que dormi inteira. E, se eu dormi uma noite inteira, claramente, Joe também dormiu. O que significa que ele não teve nenhum pesadelo.
O que, vou dizer, me parece um ótimo motivo para ter um bom humor matinal.
Me sentei na cama com cuidado, olhando para Joe esparramado do lado dele da minha cama (isso por que, como ele dormir aqui já estava freqüente, ele acabou criando o lado dele). Seus cachos loiros acobreados estavam desgrenhados pelo seu rosto pálido por causa do sono. A respiração dele estava calma e constante. Seu sono com certeza estava tranqüilo.
Tanto que até senti uma pontinha de pena por ter de acordá-lo. Droga de escola!
Mesmo assim mexi com o seu braço, fazendo-o abrir os olhos e praguejar, querendo dormir mais. Ele se sentou, se espreguiçou, e depois foi em direção ao banheiro.
Simples assim. Nem se deu conta de que tinha dormido bem.
Deixei um sorriso se formar no meu rosto. As coisas estão melhorando. Finalmente, as coisas estão melhorando.
Melhorando, é claro, na medida do possível. Ainda ontem, eu, Joe e Nate fomos ver o meu pai. Mas tudo correu bem, por incrível que pareça. Ele está morando de aluguel em um apartamento não muito longe daqui de casa. Confesso que é muito estranho pra mim (e provavelmente para os meninos também) ter que seguir essa rotina para ver o meu pai. Ter de marcar uma data certa para ir a casa dele, e ter de estar de volta no fim do dia. Eu sei que muitas — muitas — pessoas passam por isso, mas... eu simplesmente nunca imaginei que fosse acontecer comigo.
Mesmo assim, foi um dia bom. Bem melhor do que a outra vez que nos falamos, por exemplo. O clima não estava tão tenso, Joe estava sorridente — até mesmo feliz por ir ver papai —, e Nate também parecia bem normal. Normal o suficiente para pedir para o meu pai treinar um pouco com ele um pouco antes de irmos embora.
Quanto a mim, bem... meu ressentimento com meu pai já não é tão grande — mesmo que não seja inexistente. Mesmo assim, eu o amo muito, e me deixei levar pela felicidade de estar com ele. Eu sentia saudade, é claro. Antes eu o via todo dia, hoje não. E ele sempre foi um ótimo pai, mesmo quando estava apenas me protegendo. Ele me ensinou lições que vou levar para o resto da vida. E ele me conhece muito bem.
Sei lá, sabe? É muito difícil ficar com raiva de alguém que você ama tanto.
Teve um momento em que Nate e Joe estavam assistindo um filme, e eu fiquei sozinha com o meu pai na cozinha, ajudando-o a lavar as louças que usamos para almoçar. Não sei muito bem o que me fez começar a falar:
— Pai... posso te perguntar uma coisa?
Ele me olhou com um sorriso no rosto, enquanto enxaguava um prato que eu havia acabado de ensaboar.
— Pode — ele disse, tentando prestar atenção na louça.
— Como ela é? — mordi meu lábio inferior, ainda me perguntando se a pergunta era certa.
Ele hesitou.
— Ela? — perguntou, esperando complemento para a frase.
— É, ela. A sua filha. — Não olhei para ele nesse momento, apenas continuei esfregando as louças sujas com a esponja cheia de detergente. — Você já a viu... eu quero saber como ela é.
Meu pai parecia ter ficado mudo. Ele respirou fundo umas três vezes, como se procurando as palavras certas.
— Quer mesmo falar sobre isso? — ele perguntou em voz baixa.
— Joe está escrevendo um novo livro — falei, ainda prestando atenção na minha louça. — O livro todo é uma trama fictícia que envolve um menino triste por conta de seus pais que foge de casa e encontra a menina mais legal que ele já conheceu. Ela também é fugida, mas do orfanato em que a mãe a deixou. O pai da menina a abandonou — fiz uma pausa, procurando as palavras corretas. Suspirei. — Eu não queria nem sequer conhecê-la, sabe, mas de uns dias pra cá vim pensando sobre isso. Joe consegue pensar nela como uma... irmã incrível. E isso me deixou curiosa sobre isso. Sobre ela.
Papai soltou o ar que estava segurando. Notei que ele tinha ficado abalado.
— O nome dela é Danna — ele começou a falar. — E ela é uma ótima menina. Pelo menos, é isso que eu soube. A mãe dela me atualizava de como ela ia na escola e como a vida dela andava, mas eu descobri que não era verdade. Achei que ela cursasse Arte na Columbia, mas descobri que ela havia saído da casa de Jenna ainda com dezoito anos. Mas... pelo pouco que conversei com ela, eu notei que ela era uma boa menina.
Notei que meu pai não ia mais falar nada sobre ela daquela forma. Provavelmente era mesmo tudo aquilo que ela sabia.
Danna. Com certeza esse nome ficaria na minha mente a partir de agora. Danna era o nome da minha meia-irmã mais velha. E, aparentemente, “ela era uma boa garota”.
Mas confesso que o monólogo minúsculo de papai sobre ela me deixou meio cabisbaixa. Claramente, ele não sabia quase nada sobre ela, e... isso era tão horrível. Com isso, vi que a “raiva” que eu nutria por ela era completamente indevida, boba e infantil. A garota não tem culpa de nada, absolutamente nada.
— Você viu ela quantas vezes? — nem notei quando comecei a perguntar.
— Duas. Quando ela nasceu, e... alguns dias atrás.
Senti minha língua embolar. Suspirei, me sentindo triste.
Terminamos de lavar a louça poucos minutos depois, em silêncio. Quando meu pai colocou o último prato no escorredor, ele me olhou nos olhos. Pude ver nos seus globos castanhos que ele se arrependia. Que, se ele pudesse, voltaria atrás e arrumaria tudo.
Acho que pela primeira vez na minha vida, eu vi que meu pai estava completamente desesperado. Frágil. Pequeno. Triste.
E isso encheu os meus olhos de lágrimas, mesmo que eu não as tivesse deixado cair. Me impulsionei para frente e abracei a cintura de meu pai, já que era mais baixa que ele. Ele retribuiu o abraço e fez um cafuné básico no meu cabelo colorido, encostando seu queixo no topo da minha cabeça. Passou um braço pela minha cintura e me apertou.
Na verdade, não me lembro da última vez que abracei meu pai só por abraçar assim. Ainda assim, o nó continuava vivo em minha garganta. Senti que o meu pai também estava fragilizado com aquilo.
Ficamos uns bons segundos daquele jeito, apenas nos abraçando, ele mexendo no meu cabelo. Então eu me afastei, olhando-o nos olhos.
— Tudo isso foi muito errado — eu comecei a falar na voz mais calma que tinha. — E tá tudo sendo muito difícil... Mas se já está sendo difícil do jeito que está pra mim e pros meninos, pai... Eu não posso imaginar o quão difícil está ou estava sendo para ela. Eu não consigo imaginar como deve ser crescer... sem pai, sabe... por que você sempre esteve aqui. Mas ela merece ter um pai tanto quanto eu mereço. Eu sei que ela já é uma mulher feita, e tudo... mas... sabe aquilo que dizem? Nunca é tarde para se fazer a coisa certa. — suspirei, ainda olhando nos olhos do meu pai. Ele estava definitivamente abalado. Tenho certeza de que se ele não fosse quem era, teria chorado, ou estaria chorando. Mas, acho que eu estava dizendo o que ele precisava escutar, afinal. — Então... Sabe, procure por ela. Você não pode voltar atrás, não pode mudar o que você fez e não fez. Mas você pode tentar. E ela é sua filha, papai. Então... procure por ela. Sei lá.
Depois disso eu e meu pai não conversamos muito mais sobre isso. Ele ficou realmente afetado pelo que eu disse e isso foi óbvio, mas logo depois ele estava de volta a sala, separando a “briga” entre Joe e Nate, que queriam ver programas diferentes. O resto do dia conseguiu ser bem descontraído.
E eu realmente me senti bem em ter dito tudo aquilo para o meu pai. Pensando nessa menina e me colocando no lugar dela, eu acho que sentiria raiva dele pra sempre. Como eu disse anteriormente, é difícil sentir raiva de alguém que se ama, mas a garota nem sequer o conhecia. Então, eu no lugar dela, eu com certeza detestaria muito o meu pai.

Mas mesmo assim, não era isso que ela tinha feito. E só isso me fazia sentir um pouco de admiração por ela, mesmo, agora, só sabendo o seu nome. Danna.
Terminando meu flashback inútil, eu me espreguicei e pulei da cama, pronta para o dia. Eu me sentia quase... leve. Como se não precisasse mais me preocupar com nada. Joe não havia tido pesadelo e eu havia escutado as risadas escandalosas dele enquanto Nate, provavelmente, o fazia cócegas. Ele estava escrevendo um livro e Nate estava indo bem na escola. Eu estava indo bem na escola, também.
Estava me sentindo leve de verdade. Até que uma pessoa invadiu meu pensamento, mostrando-me claramente que eu não estava assim, pronta para não me preocupar com nada.
Parabéns, você adivinhou certo. Foi Luke mesmo que me veio à cabeça.
Não posso negar que o que ele fez pelo Joe e — tudo bem, Julia tem razão — por mim me fez um bem que eu não podia imaginar que haveria. Luke havia, do seu jeito bobo, dado um brilho especial para a minha vida quase depressiva.
Também não posso desconsiderar o que aconteceu há pouco menos de um ano atrás. Nós tivemos alguma coisa. Mesmo que tivesse acabado mal, nós realmente tivemos algo. Não era algo apenas físico, oras, não era mesmo! Encaremos os fatos: havia sentimento. Havia muito sentimento.
E eu acreditei que tudo havia sido jogado pelos ares, até...
Bem, até anteontem.
Quando Luke me puxou e eu fiquei tão perto dele novamente, senti aquela mesma corrente elétrica me percorrer, junto com o desejo quase incontrolável de puxá-lo pela nuca e beijá-lo com tudo o que eu tinha. Droga, essa vontade me corroeu de verdade, e se Joe não tivesse chegado, eu o teria feito. Tinha mesmo me inclinado e tomado seus lábios aos meus.
Desde então, minha cabeça vem sido tomada com esses pensamentos. E se isso tivesse acontecido? E se Joe não tivesse chegado naquela hora e eu e Luke tivéssemos nos beijado? E seaquele lance de um ano atrás não tivesse acabado? E se eu não tivesse começado a namorar com Brad naquela noite? E se eu nem tivesse ido para a Inglaterra? E se tudo tivesse sido diferente? E se?
Não tenho ideia do que seria se qualquer uma dessas coisas houvesse acontecido. Só tenho certeza de uma coisa:
Esse sentimento, que está dentro de mim agora, seria o mesmo. Em qualquer uma das hipóteses.
Deixando um sorriso tomar lugar no meu rosto, eu fiz que não com a cabeça e entrei de vez no banheiro. Joe provavelmente estava fazendo o café da manhã, e se ele estava fazendo isso, o café seria bom. Além do mais, eu estou feliz! O que é bem incomum para uma segunda-feira, vou dizer.
Mas tenho um pressentimento de que essa segunda vai ser boa.



[...]



Tranquei a garagem onde havia acabado de estacionar o carro e segui para a casa vizinha. Podia escutar os batuques altos de Dan de onde eu estava. Sorri, pensando que Luke devia estar brigando com ele uma hora dessas e Dan revidava batendo mais forte. Ele conseguia ser bem irritante quando tinha baquetas nas mãos.
Afastei o portão e entrei na garagem sem bater. Dan parou de tocar e me olhou com um sorriso no rosto.
— Red Soph! — ele gritou. — Venha tocar conosco!
Olhei em volta. Apenas Dan estava na garagem.
— Conosco? — perguntei, arqueando uma sobrancelha. — Você criou um amigo imaginário ou algo assim?
— Valeu por me desconsiderar, irmãzinha — Nate apareceu de uma pilha de caixas, com uma palheta na mão.
Sorri.
— Olha, o turista veio tocar! — disse animada.
Nate revirou os olhos de início, mas depois deixou um sorriso aparecer em seu rosto. Coisa que estava quase rara de se ver, vou dizer.
— Não acredito que você ia mesmo começar a ensaiar sem mim — ele se fingiu de magoado.
— Você nunca aparece pros ensaios, ué — dei de ombros, indo ligar o meu teclado.
— Não é minha culpa! Estava atrasado na escola. — Ele tentou se defender.
— Mentira! — não fui eu que disse. Foi Luke, que apareceu com um punhado de cabos nas mãos. — Sei muito bem que você é o melhor aluno de quase todas as matérias.
— É, mas eu tô querendo entrar no colégio militar — Nate torceu os lábios. — Então eu precisava estudar mais.
Revirei os olhos, lembrando do tanto de vezes que ele disse estar estudando por que estava com média baixa. Mas a verdade é que ele nunca tinha média baixa.
— De qualquer forma — fui dizendo —, você não veio mais aos ensaios, portanto, não se finja de magoado.
Nate levantou as mãos na altura na cabeça, tentando mostrar uma submissão.
— Tudo bem, tudo bem — ele fez que sim com a cabeça. — Mas vim tocar hoje, né?
— É, veio, Pequeno Soldado — Dan fez um pequeno solo. — So let’s rock!
Deixei uma risada escapar com gosto enquanto Dan continuava a batucar. Então ele parou de repente, pulando e agarrando seu celular que estava no bolso da bermuda e atendendo-o.
— Ei, gatinha — Marie. Com certeza. — Hmm... oi?...Claro, claro que eu me lembro... aham, é lógico... Certo, nos vemos às seis então. Também te amo. Beijo. — Dan desligou o aparelho e levou a mão a testa. — Merda! — foi o que ele disse logo depois.
— O que houve? — Nate arqueou uma sobrancelha.
— Não vou falar — ele me encarou. — Ela é mulher, e mulheres fofocam. Não posso falar na frente dela.
Revirei os olhos, bufando.
— Como se eu não soubesse que você esqueceu o aniversário de namoro de vocês, idiota — disse com quase desprezo. Luke gargalhou.
— Não disse? — Dan se levantou, alterado. — Elas tem um sexto sentido que é feito apenas para incriminar! Maldição.
— Não vou contar nada, bobão — bufei novamente.
— Mas qual é o problema, afinal? — Nate disse.
— Eu esqueci que temos um encontro para comemorar hoje, e pior ainda, esqueci de comprar um presente. Estou ferrado.
— Não está — Nate sorriu. — Esquecer datas assim é super normal, mas as garotas jamais vão entender. O encontro é só às 18h, e ainda são 13h30. Dá tempo de ser romântico e criativo.
— Eu sou romântico e criativo — Dan revirou os olhos.
— Não o suficiente — Nate respirou fundo, como se tomasse paciência. — Você tem que mostrar o quanto a ama. Especialmente agora, no aniversário de vocês.
Dan olhou para Nate.
— E como eu faço isso?
— Eu sei lá — Nate umedeceu os lábios. — Quem ama minha prima é você, não eu. Você tem que descobrir a forma certa.
Dan passou a mão pelo rosto, respirando fundo.
— Namorar sério é complicado demais — ele resmungou.
— Amar é complicado demais — Nate disse. — Mas você precisa mostrar pra ela sempre que a ama apesar disso. Por que se por acaso ela for embora, você não vai se arrepender de não ter dito o que deveria dizer. Ou não feito o que deveria fazer.
Dan mordeu o lábio inferior e eu senti uma pontada de tristeza no meu coração. Abaixei a cabeça, enquanto Nate parecia falar aquilo como se não fosse por experiência própria. Era a coisa mais triste do mundo ver que ele tentava não sofrer por ter perdido o amor da vida dele. Vi que ele olhou para a tatuagem em seu pulso e deu um meio sorriso, quase imperceptível.
Mas as palavras dele pareceram surtir efeito em Dan:
— O Pequeno Soldado tem razão — ele sorriu. — Vou ter que faltar ensaio hoje. Tchau, vocês. Tenho poucas horas.
Então Dan saiu, com três “boa sorte” nos ombros. Eu e Luke olhamos para Nate, como se estivéssemos pensando a mesma coisa: Onde estava o garoto imaturo e brigão de um ano atrás?
Nate estava tão mais... maduro. Mesmo que eu soubesse de algumas garotas que ele havia ficado nas últimas semanas, ele parecia realmente mais velho e mais experiente. Aposto que Luke tinha chegado à mesma conclusão que eu, pois ele olhava para Nate com um meio sorriso no rosto.
— Que foi?! — Nate perguntou, estreitando os olhos.
— Nada — eu e Luke dissemos ao mesmo tempo, voltando nossa atenção para os instrumentos.
— Tipo, já que não vai ter bateria... o ensaio vai ter que ser acústico, né? — Nate disse.
— É — Luke respondeu. — Acho que poderíamos aproveitar para compor, também. Eu sei que Sophie tem uma letra...
Merda. Essa droga desse menino não esquece das coisas? Inferno. Eu não podia mostrar aquela música agora. Ainda mais com Nate aqui, ele...
— Eu tenho uma música praticamente pronta — Nate interrompeu meus pensamentos.
— Tem? — vi os olhos de Luke brilharem.
Obrigada, Senhor.
— Tenho — Nate deu uma risada de canto. — Tipo... eu comecei ela anteontem, mas achei que era melhor eu não mostrar pra ninguém. Mas já que eu tô com vocês mesmo... Tanto faz. Querem ver?
— Claro que sim! — eu quase gritei, e Luke riu, concordando.
— Vou lá em casa pegar a letra, a tablatura e a cifra — Nate disse, saindo da garagem quase correndo logo depois.
— Dá pra acreditar nisso? — Luke perguntou.
— Não — respondi, dando um sorriso. — Nossa, é... ótimo ver que ele tá até compondo. Ele parece normal, desde anteontem, mais ou menos. Antes ele tava esquisito.
— É, eu sei — Luke coçou a nuca. — Que ótimo que ele tá melhorando.
Concordei com a cabeça, e Luke pediu licença para ir pegar o violão no quarto dele no andar de cima. Não precisei esperar muito até tanto ele quanto Nate voltarem, ambos com um violão, e Nate com os papéis que tinha dito que traria.
Nos sentamos no canto do chão da garagem e eu pedi para Nate mostrar a música.
— Bem... ela seria bem rock — ele começou a explicar. — Por que eu queria descontar meus sentimentos numa melodia, já que no saco de areia não tava funcionando mais. — Nate deu uma risada. — Enfim. A introdução seria algo assim.
Nate posicionou os dedos no meio do braço do Gibson e começou a fazer um solo simples que só durou dois compassos. Depois fez uma batida rocker no início.
Simples. Porém, perfeito.
Ele parou.
— E aí começaria a letra, que levaria de início a mesma sequência de tab. — Nate pegou o papel e mostrou para Luke, que repetiu a mesma coisa que ele fez ainda a pouco.
— Adorei essa introdução — ele disse, refazendo.
— A letra — lembrei a Nate. Estava curiosa para saber como era a letra, oras!
— Droga, não queria cantar — ele disse.
— Você precisa — revirei os olhos. — Só enquanto eu não aprendo, vamos.
Nate suspirou e recomeçou a pequena introdução.
— Não tem um nome certo pra música — ele disse, prestando atenção em apertar as cordas do violão. — Mas pra todo caso, é Emergency.


Eu acho que nós temos uma emergência.
Se você pensou que eu fugiria, você estava errado, porque eu não irei parar de esperar.
Então você está ouvindo? Então você está me assistindo?
Se você pensou que eu fugiria, você estava errado, porque eu não irei parar de esperar.
Isso é uma emergência.
Então você está ouvindo?
E eu não posso fingir que eu não estou vendo isso...
Realmente não é sua culpa. Mas ninguém se importa em falar sobre isso... Falar sobre isso...



Deixei meu queixo cair enquanto a voz de Nate ecoava pelo lugar. Olhei para Luke e ele me olhou sugestivamente. Não se ambos estávamos surpresos pela qualidade da música, ou da letra, ou da melodia, ou estávamos refletindo sobre o que ela representava. Emergência. Tão perfeito.
Nós temos uma emergência. Estamos em estado de emergência, por tudo que está acontecendo.
Realmente não é sua culpa, mas ninguém se importa em falar sobre isso.
Era como se cada frase daquele início de música fosse direcionado à um caso ou uma pessoa. Tipo Julia, Jason, meu pai, minha mãe...
Ainda olhando para Luke, tive certeza de que ele captou minha linha de pensamento. Engoli seco, enquanto Nate começava o refrão.




E eu vi o amor morrer tantas e tantas vezes, quando ele merecia estar vivo.
E eu vi você chorar tantas e tantas vezes, quando você merecia estar vivo.
Vivo...
Então, você desiste de cada chance que tiver, só para se sentir novo outra vez.
Eu acho que nós temos uma emergência.
E você faz o seu melhor para me mostrar o amor, mas você não sabe o que o amor é.
Então você está ouvindo? Então você está me assistindo?
Porque eu não posso fingir que eu não estou vendo isso.
Realmente não é sua culpa... E ninguém se importa em falar sobre isso. Podemos falar sobre isso?



Senti um arrepio forte percorrer com gosto o meu corpo inteiro. Meu Deus! Não podia acreditar que estava escutando Nate cantar daquela forma, com aquela emoção, aquela música que mais parecia uma bomba para toda a situação. O arrepio não parava de percorrer meu corpo enquanto ele cantava a musica à plenos pulmões. A essa hora, ele já estava repetindo o refrão, e a melodia tomava meu cérebro por inteiro.
Agora eu podia entender o que ele havia dito por descontar os sentimentos no papel. Com certeza ele estava descontando tudo o que podia nessa música.
Quando ele terminou de repetir o refrão, ele parou a música.
— Eu só tenho até aí — ele disse, mexendo no violão. — O que vocês acharam?
— Perfeita — eu e Luke dissemos em tom neutro, ao mesmo tempo. Nate semicerrou os olhos, revirando-os logo depois.
— Qual é — ele disse. — Enfim, estava pensando em colocar uma ponte...
— Scars, they will not fade away — Luke disse do nada, me fazendo olhá-lo com confusa. — Cicatrizes, elas não vão desaparecer. É uma ponte legal.
Então, a melodia se fez na minha cabeça de repente. Tive que cantar:
— Scars, they will not... fade… away… — cantei baixo, e Nate me olhou com um sorriso no rosto. Luke pegou o violão e fez um solo e pediu para eu cantar de novo. O fiz, junto com o violão dele.
Nate riu.
— Estou trabalhando com profissionais! — ele exclamou e eu dei um tapinha em seu ombro.
— Fala sério — disse, revirando os olhos.
— Cabe um solo legal aqui agora, nessa ponte — Luke disse, brincando com o violão.
— Sinto que não vou mais precisar mexer nessa música — Nate torceu a boca e Luke deu uma risada gostosa, fazendo que não com a cabeça logo depois.



[...]






— Olha, eu sei que vocês me amam, e tudo — Joe colocou o rosto entre os bancos dianteiros do carro. Olhei para a cara dele, achando graça do estado dos seus cabelos. — Mas nunca maisme levem num parque de diversões. Ganharia muito mais se tivesse ficado em casa escrevendo!
Luke deu uma gargalhada gostosa, enquanto girava o volante do carro. É, eu já estava me acostumando com a ideia de deixar ele dirigir de vez em quando. Especialmente à noite.
— Você deve ser a única criança do mundo que não gosta de montanha russa. — Luke disse.
— Devo ser a única criança no mundo que tem alguma coisa na cabeça e não gosta da ideia de morrer em um brinquedo idiota — Joe revirou os olhos, saindo do meu campo de visão.
Dei uma risada gostosa.
— Qual é, Joe. Foi divertido! — argumentei, ainda com a voz risonha.
— Não é divertido pensar que se vai morrer! — ele disse, indignado. — Nunca mais entro em nenhum daqueles brinquedos mortíferos.
— Você é meio dramático — Luke concluiu.
— Meio? — arqueei uma sobrancelha e Luke sorriu. Pude ouvir Joe bufar alto lá atrás.
Nessa mesma hora, nós chegamos em casa. Eu e Luke tínhamos levado Joe ao parque de diversões. Pagamos o passaporte e ele estava até animado. Eu bem suspeitei de que o medo de altura dele fosse se manifestar uma hora, e tive razão. Assim que saímos da montanha russa, Joe praticamente passou mal. Isso sem dizer que lá em cima tudo o que ele fazia era gritar para parar e ele descer.
Posso ser considerada má por ter rido disso?
Segundo Joe, sim, eu posso.
— Sabe — Joe disse, desprendendo o cinto de segurança —, eu não tive pesadelo essa noite. Acho que já posso dormir sozinho.
Senti meu sorriso se aumentar.
— Sério?! — Luke riu, arqueando as duas sobrancelhas.
— Aham — eu disse. — Notei isso assim que ele acordou, mas não falei nada.
— Então, eu acho que já posso dormir na minha cama. Tipo... eu tenho onze anos! É meio vergonhoso dormir no quarto da minha irmã. — Ele disse, fazendo que não com a cabeça. — Só não é pior do que dormir no quarto da minha mãe.
— Você tem razão — Luke torceu os lábios. — Achei que tava grande demais pra dormir na cama dos meus pais com oito anos.
— Viu?! Que horror! — Joe saiu do carro, assim como eu e Luke. — Até ele parou de fazer isso antes de mim; Decidido, vou dormir no meu quarto hoje.
Deixei uma risada escapar.
— Você que sabe. Mas se precisar...
— Eu tô bem, Soph — ele riu. — Sério.
— Tudo bem — sorri.
Entramos em casa e Joe subiu com Luke. Encontrei dois bilhetes na geladeira. Um era da minha mãe e outro de Nate. O da minha mãe dizia o seguinte:



“Vou chegar tarde em casa, mas não é por que tenho que trabalhar. Brendon, Sarah e Adam estão na cidade, e eles não conseguiram encontrar nenhum de vocês em casa. Nos vemos amanhã. Amo vocês. ♥”



Wow! Tio Brendon e tia Sarah estão na cidade?!
Sorri instantaneamente. Fazia três anos que eu não via Adam, e ele tinha quatro!
Não falei que essa segunda-feira iria ser boa?
Retirei o bilhete de Nate e o li:



“E aí, chata.
Fui a um encontro, ok? Então não se preocupa se eu não chegar cedo. Provavelmente não vou mesmo. Já liguei pra mãe, sabia que tio Brendon e tia Sarah tão na cidade? Legal.”




Revirei os olhos. Nate tendo um encontro, que legal.
Soube há um tempo que ele andou ficando com algumas garotas. O que era bem típico do comportamento dele antes de Julia.
Me lembrei do que ela havia me dito sobre isso antes de ir. “Temos que seguir nossas vidas, Soph. Então não vou ligar se ele for ficar com outras garotas, até mesmo por que eu também vou agarrar alguns ingleses por lá. Nosso amor é único e não vai acabar por que eu vou embora. É só uma situação temporária, portanto, vai acabar. E quando isso acontecer seremos apenas um do outro.”
Tinha de reconhecer que ambos eram extremamente fortes para encarar uma situação dessas. Suspirei. Melhor agora era não ficar pensando muito sobre isso. Afinal, Luke ainda não havia descido. Devia estar colocando Joe para dormir, ou...
Merda. Bisbilhotando minha agenda de músicas.
Xinguei baixo e subi as escadas correndo, indo em direção ao meu quarto. Quando adentrei o corredor, Joe me parou para desejar boa noite. Dei um beijo rápido em seu rosto e vi ele ir para o fundo do corredor, em direção ao seu próprio quarto. Adentrei o meu e Luke estava fazendo exatamente o que eu havia suspeitado, mesmo que tentasse inibir jogando a caderneta para a cama.
— O que eu te falei sobre não ler? — disse, indignada.
Ele sorriu.
— Você não me deixou ler, oras! Só consegui ler o how can... — ele disse, revirando os olhos.
Me aproximei e fiquei de frente para ele, olhando-o com raiva.
— Você está mentindo! — exclamei, levantando um dedo para o seu rosto. — Eu falei pra você não ler!
— Não estou — ele revirou os olhos. — Você tem que parar de aparecer do nada. Não deu pra eu ler.
— Mentira — continuava com o dedo apontado para ele.
— Sério, eu não li — ele revirou os olhos mais uma vez. — Não li nenhum how did we get here?, ou... I am screaming, on my own…
— Eu vou te matar — disse, sentindo meu rosto corar por inteiro.
Mas ele apenas começou a rir.
Dei um tapa em seu ombro, de raiva. Ele aliviou o sorriso e segurou minha mão.
— Sabia que bater nas pessoas é muito feio? — ele ainda segurava minha mão, mas agora olhava diretamente nos meus olhos.
Senti meu estômago revirar e, de repente, meu peito pareceu pequeno demais para o meu coração. Ele começou a martelar com toda a força, tão alto que eu jurei que estava sendo audível.
Engoli seco.
Luke subiu sua mão pelo meu braço, eriçando todos os pelos dali, até alcançar meu pescoço e segurar minha nuca. Seu olhar baixou do meu olhar para os meus lábios, e eu fiz o mesmo. Sua mão segurava minha nuca com firmeza e eu soube pelo pequeno tremor que passou por ela que ele estava quase tão alterado quanto eu. Ele respirou fundo e deu mais um pequeno passo, ficando agora, mais perto do que nunca. Eu podia sentir sua respiração frenética.
Minha boca ficou seca, claramente pedindo pela dele. A mesma vontade que eu havia sentido anteontem parecia voltar com força total, carregando o desejo que não vinha apenas daquele dia, mas sim de todos esses anos. Inclusive o ano passado.
Agora seus lábios estavam a poucos centímetros dos meus. E fixando meu olhar em seu rosto que estava tão perto, eu me lembrei de relance das outras vezes em que estivemos em uma situação parecida. Quando eu tinha dez anos e o beijei antes de subir naquele avião, quando estávamos na detenção e na cachoeira, nos ensaios da peça, no casamento de tia Belle...
Então me veio a lembrança do dia que “terminamos”. Lembrei-me de relance do sentimento horrível que se deu por mim naquele dia e do quanto eu chorei, na frente e por trás dele, por teracabado algo que sequer havia começado. Lembrei o quanto doeu pra mim falar com ele sobre Stephy e sobre o que tínhamos. Lembrei o quão horrível foi dizer que nada daquilo daria certo e parar de falar com ele por conta disso. Senti a dor me percorrer de súbito por causa daquilo.
Levantei os olhos e encarei os olhos azuis de Luke, que estavam tão pertos dos meus. Como se lesse meus pensamentos e se lembrasse daquela manhã, ele suspirou. Sua mão que estava na minha nuca se afrouxou e ele virou o rosto para o lado, olhando para baixo. Ele passou uma mão pelo rosto e depois me olhou.
— Eu não posso... — ele sussurrou, e eu vi seu pomo de adão subir e descer. Com aquele “eu não posso...” era como se ele dissesse “lembra do que aconteceu da última vez que fizemos isso? Doeu, não é?”.
Mas quando eu vi que ele havia se afastado de mim, me lembrei de tudo de bom que nós passamos de relance, dando uma atenção especial para as últimas duas semanas. Droga, ele havia me ajudado de um jeito inexplicável! Não só a mim, mas àquele que eu mais amo. Ele havia se tornado importante e indispensável pra mim, e...
Eu não podia negar que ele sempre foi.
Eu sabia que não podia mais negar o que eu sentia.
E não ia fugir desse sentimento, droga! Não de novo!
Foi por isso que eu comecei a falar:
— Sabe, Luke... — ele se virou para mim, olhando-me nos olhos. Respirei fundo. — Eu cansei. Cansei de verdade. Meus pais estão em conflito por que não sabem lidar com o que sentem. Nate está em conflito por que não sabe lidar com o que sente. Julia está em conflito por que não sabe lidar com o que sente. E sabe, eu cansei de ver isso tudo acontecendo e detestar, mas aí eu passo a olhar para mim mesma e vejo que... eu também estou em conflito por não saber lidar com o que eu sinto. Caramba, eu fui idiota! Eu tentei de todas as formas inibir e ofuscar esse sentimento. Usei coisas, usei pessoas. E eu cansei de tudo isso. — Respirei freneticamente, pronta para continuar com o meu desabafo. Olhei no olhos dele. — As últimas semanas foram muito intensas, Luke. Elas me fizeram crescer mais do que eu cresci nos últimos cinco anos. E quer saber de uma coisa? Eu não sou uma criança. Portanto, não vou agir como uma.
Dei um passo para frente, ficando bem a sua frente de novo. Engoli em seco antes de continuar a falar:
— Eu te odeio — disse, sílaba por sílaba. — Odeio sua percepção do mundo e odeio a forma como você arruma o cabelo. Odeio tua opinião sobre Jesus e odeio quando você banca o superior. Odeio ter de ficar discutindo toda hora com você por você ser a pessoa mais teimosa que existe e realmente odeio o seu sorrisinho sarcástico. Mas.. te odiar me faz bem. E de uma forma esquisita, eu aprendi a amar te odiar. Mas eu não vou ser como as outras pessoas e não lidar com o que eu sinto por você como eu fiz tantas vezes. Por que desde criança eu já sinto tudo isso, todo esse ódio-bom que ao mesmo tempo que me irrita, me faz maravilhosamente bem. E o primeiro passo para lidar com tudo isso é te dizer — fiz uma pausa pequena, para olhar diretamente em seus olhos. — Eu te amo, Luke Davis.
Ele sorriu.
Sorriu como se ao mesmo tempo que estivesse surpreso, estivesse contente. Sorriu como se fosse aquilo mesmo que ele quisesse escutar. Sorriu de uma forma que fez meu coração palpitar com mais força.
Então ele deu mais um passo para frente e passou um braço pela minha cintura, me puxando para ele.
Eu sorri também.
— Você é uma boba, sabia? — ele disse e eu ri, enquanto ele prendia uma mecha do meu cabelo na minha orelha. Com as costas da mão, ele passou a acariciar a minha bochecha. — Mas eu tô feliz de escutar isso. Por que desde que eu era pirralho eu já te amava, e isso não mudou. Nunca. Mesmo que você seja extremamente insuportável às vezes... eu amo te odiar. — Ele terminou de falar e encostou sua testa na minha. Meu coração pareceu que ia pular fora do peito, principalmente na hora em que ele sussurrou: — E amo você, também.
Então eu passei as minhas mãos pela nuca dele e juntei nossos lábios.



Às vezes se eu me distraio, se eu não me vigio um instante, me transporto pra perto de você.
Já vi que não posso ficar tão solta... Me vem logo aquele cheiro, que passa de você pra mim... num fluxo perfeito.



Nosso beijo começou nem calmo, nem urgente. Parecia que queríamos apenas sentir o gosto da boca um do outro, e na realidade, era isso mesmo que eu queria. Queria que aquele beijo durasse o máximo possível, para que eu pudesse aproveitar e provar o máximo possível daqueles lábios e daquele gosto que eu tanto amava. Nossas línguas se entrelaçavam de uma forma sincronizada, como se ao mesmo tempo que estivessem se reencontrando, estivessem também se descobrindo. Nossos lábios se chocavam um com o outro com a maior naturalidade e, ao mesmo tempo, a maior surpresa. Beijar Luke era sempre uma nova experiência, ainda mais quando eu passara tanto tempo sem provar de seus lábios. Notei, então, que enquanto eu o beijava, me sentia completa.
O braço forte de Luke apertava minha cintura cada vez com mais firmeza contra si, me abraçando enquanto seus lábios me proporcionavam um beijo perfeito. Eu, em troca, segurava sua nuca firmemente e correspondia o beijo à altura, que pouco tempo depois não tinha mais nada de calmo. Luke mordeu levemente meu lábio inferior e nós retomamos o beijo com toda a voracidade, com mais vontade do que nunca. Uma corrente elétrica percorreu todo o meu corpo, e eu arranhei a nuca de Luke devagar. Ele ainda me abraçava com força, como se não quisesse me deixar sair daquele beijo perfeito.
Quando nossos pulmões pediram por ar, Luke separou nossos lábios delicadamente, deixando um selinho estalado neles. Então ele passou a beijar o meu queixo e minha mandíbula, até chegar até o meu pescoço, onde ele deixou um beijo molhado que arrepiou os pelos da minha nuca. Enterrei meus dedos nos seus cabelos enquanto ele me empurrava delicadamente até uma parede, aumentando seus beijos e adicionando pequenas e provocativas mordidas no meu pescoço. Deixei um suspiro escapar enquanto percebia que ele ia deixar uma marca ali. Arranhei sua nuca novamente e ele riu. Percebi que ele gostava daquilo.
Suas mãos que estavam nas minhas costas foram até a minha cintura, acariciando levemente ali. Inclinei minha cabeça para trás, recostando-me por inteira na parede do meu quarto. Luke colocou a mão por dentro da minha camiseta, acariciando minha cintura, enquanto beijava e sugava meu pescoço de uma maneira tanto prazerosa quanto delicada. Ele deixava seus beijos por toda a extensão do meu pescoço, arrepiando-me, me fazendo ansiar por mais.
Ainda encostada na parede, eu peguei seu rosto e o puxei para mim, começando outro beijo molhado e cheio de vontade. Nossos lábios se encaixaram como se fossem feitos um para o outro, completamente sincronizados, me proporcionando o melhor dos beijos. Luke sabia exatamente que movimentos usar quando me beijava, o que o fazia único. O que fazia com que eu quisesse estar com ele. Apenas com ele.
Retirei minhas mãos de sua nuca, arranhando de leve ali e correspondendo o beijo à altura. Fui passando a ponta dos meus dedos pelos músculos de seu ombro e braços largos, sentindo cada bíceps e tríceps delicadamente. Seus músculos pareciam se contrair mais a cada toque que eu dava. Passei minhas mãos pelas suas costas largas e as parei em sua cintura bem moldada, enquanto ele fazia questão de me beijar como se o mundo fosse acabar depois disso. Sua boca devorava-me com todo ardor, me arrepiando, e me fazendo querer mais e mais daquele beijo, daquele toque... dele em si.
De uma forma que eu não sei bem como, levantei minhas pernas e o abracei com elas, ficando “pendurada” nele. Luke, ainda me beijando daquela forma, segurou minha coxa, firmando-me naquela posição. Enquanto uma mão segurava minha coxa, a outra subiu para a minha nuca e segurou com firmeza ali, conduzindo o beijo também.
Os movimentos do beijo já estavam rápidos e estimulantes, de modo que nem notei quando Luke me tirou da parede e começou a andar em direção à minha cama. Apenas me dei conta disso quando ele me deitou delicadamente no colchão, e se separou por um segundo dos meus lábios, para logo depois olhar para mim, sorrir de um jeito que me derreteu por dentro, e voltar a me beijar com... amor.
Sentindo parte do peso de seu corpo sobre o meu, o beijo se tornou quase melhor do que estava antes. Suas mãos percorriam todo o meu corpo enquanto seus lábios faziam o seu trabalho bem feito nos meus. Eu já estava segurando e arranhando loucamente a sua nuca e seus ombros, puxando-o mais pra mim sempre que podia. Sua boca sugava a minha de uma maneira quase luxuriosa, mas que ao mesmo tempo fazia com que eu me sentisse... única. Amada.
As mãos de Luke pararam no início de minha camiseta e passaram a puxá-la mais para cima, e notei que as minhas já estavam em suas costas também. Inclinei-me para cima e Luke impulsionou a camiseta, retirando-a. Fiz o mesmo com a camiseta dele, que ele logo retirou e atirou por cima dos ombros também.
Então ele se deitou por cima de mim, voltando com seus lábios espertos no meu pescoço descoberto. Embrenhei meus dedos em seus cabelos encaracolados, enquanto ele deixava uma marca naquele local.
— Eu te amo... — ele sussurrou, intercalando os beijos no meu pescoço e as palavras que parecia que ele não cansava de dizer. Eu repetia que o amava também, mas minha voz mais parecia um grunhido imperceptível, embargado pela vontade e pelo prazer que ele estava me proporcionando. Seus beijos eram precisos, espertos e bons, e me faziam ir até as nuvens e voltar. Era quase como se a boca de Luke fosse feita para aquilo, e para fazer tão bem, eu não duvidava que fosse.
Seus lábios já haviam estado por todo o meu pescoço quando chegaram ao meu colo. Ele beijou delicadamente ali, e eu continuei com as mãos em seus cabelos. As mãos de Luke, que estavam em minha cintura, subiram até meus seios ainda cobertos e os tocaram com muita cautela. Ainda assim, me deixei suspirar pelo toque.
Luke me olhou nos olhos, mas ele não precisava dizer nada. Eu sabia o que aquele olhar queria dizer. “Você sabe ao que isso pode nos levar, não é?”.
— Eu te amo — eu disse, devagar, baixo. — Eu te conheço. E eu confio em você.
Luke deu um meio sorriso e voltou aos meus lábios, deixando um selinho molhado neles. Abriu os olhos e olhou bem no fundo deles, para então, dizer:
 Eu te amo — ele me deixou outro selinho. — E vou fazer com que isso seja perfeito.
Então, delicadamente, ele levou uma mão as minhas costas e desprendeu o fecho do meu sutiã, tirando-o com cautela. Voltou aos meus lábios e me deixou mais um beijo molhado nos lábios, para depois descer o beijo até o meu queijo, pescoço, colo, e enfim, chegar aos seios.
Mordi meu lábio inferior para conter qualquer gemido, e Luke começou a sugar meu seio direito enquanto massageava o esquerdo com a ponta dos dedos, me proporcionando o maior prazer que eu já havia sentido até então. Uma corrente elétrica passava pelo meu corpo conforme sua boca sugava meu seio freneticamente, me fazendo suspirar e morder meu lábio com mais força. Luke parecia saber exatamente como me fazer ficar daquela forma — a beira da loucura, quero dizer. Seus lábios conseguiam ser a coisa mais perfeita quando estavam em contato com a minha pele, estando ela onde for. No pescoço, nos lábios, ou nos seios, Luke provocava a mesma sensação quando me tocava. Eu me sentia... amada e excitada ao mesmo tempo. E eu gostava daquilo. Realmente gostava.
Levei minha mão até a sua cabeça novamente, enfiando meus dedos nos seus cabelos, enquanto ele continuava a me sugar com vontade. Seus lábios e sua língua estavam basicamente me levando a loucura enquanto estavam em contato com meu seio já rígido, e sua mão também fazia muito bem o seu trabalho enquanto massageava o outro. Luke parou de sugar gradativamente, e foi passando a deixar alguns beijos molhados pelos meus seios, para depois levantar o olhar e seus olhos se encontrarem com os meus. Seus olhos nunca pareceram tão azuis para mim. Estavam claríssimos e brilhantes, e pareciam maiores daquele ângulo. Sorri, e então ele sorriu também, mostrando-me aqueles lábios carnudos e mais vermelhos do que o normal. A visão era perturbadora demais. Precisei puxá-lo para mim novamente.



Enquanto você conversa e me beija, ao mesmo tempo eu vejo as suas cores no seu olho, tão de perto.
Me balanço devagar como quando você me embala.
O ritmo rola fácil, parece que foi ensaiado.
E eu acho que eu gosto mesmo de você bem do jeito que você é.



As mãos de Luke desceram até o meu quadril e o cós da minha calça, alcançando os botões e o zíper. As minhas mãos, que já haviam corrido por todas as suas costas largas, chegaram até o cós da calça dele também, e passaram pelas suas coxas e nádegas delicadamente. Luke sorriu entre o beijo e abriu os olhos, me fazendo dar de cara com aqueles globos azuis claros que pareciam penetrar-me a alma. Acho que ele não tinha ideia do que aquele olhar causava em mim.
Ele abriu o zíper da minha calça e a impulsionou para baixo devagar, com um sorriso no rosto. Retirei-a pelos pés e ele jogou por cima dos ombros novamente. Logo ele se livrou da própria calça e nós estávamos apenas de roupas íntimas.
Luke olhou diretamente para mim, como se perguntasse “tem certeza?”, quando suas mãos tocaram a barra da minha calcinha. Peguei seu rosto e puxei para mim mais uma vez, e então, senti que ele estava abaixando a última peça de roupa que me restava.
Ainda me beijando, Luke de alguma forma se livrou da boxer que usava. Ele parou de me beijar por um minuto e juntou nossas testas, ficando por cima de mim. Devagar, afastou minhas pernas para o lado e abriu seus grandes e intensos olhos azuis. Encarando-me, ele sorriu e me disse mais uma vez que me amava.
Então ele se introduziu dentro de mim.
Senti uma pontada de dor me atingir e mordi o lábio com força para não gritar. Ele passou a mão pelo meu cabelo e me deu um beijo profundo, enquanto aumentou o movimento devagar. A dor continuava lá, presente, mas ainda assim eu não queria parar. Sentia que era certo, sentia que Luke era certo, e sentia que ele não queria que eu me machucasse. A cada investida dele, eu sentia mais uma pontada de dor forte, e tentava me distrair beijando-o.
— Relaxa — ele sussurrou para mim, enquanto eu segurava sua nuca com força. Luke acariciava o meu cabelo com a mão direita e segurava o interior da minha coxa com a esquerda, investindo devagar e compassado. — Eu te amo, tá? Relaxe. — Ele ainda sussurrava, e seu olhar estava quase preocupado. Tentei sorrir e fiz que sim com a cabeça, mordendo seu ombro delicadamente. Luke deixou um beijo no meu pescoço e me penetrou mais uma vez, fazendo com que eu mordesse meu lábio para reprimir um gemido forte que queria sair.
Tentei seguir o seu conselho e relaxei o corpo o máximo que podia, tentando me livrar de qualquer tensão que havia nos meus músculos ou na minha mente. Puxei seu rosto para mim mais uma vez e tomei seus lábios nos meus, provando-os devagar, sentindo seu gosto com cautela. Luke investiu mais uma vez.
Mas dessa última vez foi diferente. Foi quase como se houvesse uma chama dentro de mim que havia acabado de ser acesa como num passe de mágica. Luke continuou investindo, e a chama parecia apenas estar mais e mais viva, correndo-me por dentro. Senti como se cada célula do meu corpo, uma a uma, explodisse.
Cravei as unhas nas costas de Luke e mordi meu lábio com força, impedindo os gemidos teimosos de escaparem. Luke continuava me penetrando devagar, sua testa continuava colada a minha e sua mão continuava acariciando o meu cabelo, como se mostrasse que não importava o que estivéssemos fazendo, ele continuaria a me respeitar. Porém o calor que invadia e tomava conta do meu corpo era muito maior do que a dor que eu sentia ainda agora — dor essa, que praticamente não existia mais. Quando mais nossos corpos se fundiam, mais eu sentia aquele prazer incontrolável tomar conta de mim como uma avalanche, e não duvidava que Luke estava sentindo a mesma coisa. Sua respiração estava muito alterada e ele estava suspirando loucamente, tanto que nossos beijos já não duravam mais do que cinco segundos. Seu corpo, assim como o meu, estava soado. Tinha certeza de que o prazer que ele estava me proporcionando, eu estava proporcionando a ele.
Comecei a mover meu quadril contra seu membro, sentindo a chama apenas aumentar dentro de mim. De repente, nada mais no mundo importava. Nada mais além de nós e daquele momento. Luke parecia saber exatamente o que e como fazer naquele momento. Parecia ter a ideia certa de como me levar à loucura, e como me fazer ficar mais apaixonada ainda por ele. Por que, oras, mesmo eu tendo assumido isso pra ele apenas hoje, é uma coisa que eu sempre senti. Sempre. Desde que nasci, praticamente. Portanto, sim, eu queria mais daquilo, por que eu o amava, mesmo que negasse isso para todo mundo. Naquele momento, nada importava.
Apenas Luke. E aquele meu momento que Luke proporcionava.



Até parece que você já tinha o meu manual de instruções, porque você decifra os meus sonhos.
Porque você sabe o que eu gosto, e porque quando você me abraça,
o mundo gira devagar.
E o tempo é só meu. E ninguém registra a cena.
De repente vira um filme todo em câmera lenta...
E eu acho que eu gosto mesmo de você bem do jeito que você é.



Não demorou muito e a velocidade de Luke começou a não ser o suficiente para mim. Mesmo baixo, pedi por mais, pedi por mais rápido, completamente ensandecida e fora de mim. Luke estava me levando a loucura a cada investida sua, e eu precisava de mais daquilo. Precisava de mais daquele prazer, daquele calor. Precisava mais dele. Precisava senti-lo dentro de mim mais.
E ele o fez com prontidão. Aumentou a sua velocidade e investiu com um bocado mais de força, fazendo um gemido involuntário escapar dos meus lábios. Ele riu, aparentemente zoando da minha incapacidade de me controlar. Deixei um tapa no seu ombro e depois cravei minhas unhas nele, pois ele havia me penetrado outra vez, e outra vez eu havia precisado morder meu lábio para impedir os gemidos. Luke levantou a minha perna esquerda para facilitar sua penetração, que ainda continuava. Meu corpo ainda estava em completo êxtase pela sensação que Luke me causava a cada investida sua.
Não sei bem quanto tempo ficamos daquela forma. Estar com Luke me fez perder completamente a noção de tudo que existia, e o tempo foi uma dessas coisas. Ele continuava a me penetrar com um pouco mais de exatidão, mas mantendo seu cuidado e seu respeito, como sempre fazia. Eu arranhava suas costas e ombros a cada investida sua e me controlava ao máximo para segurar os gemidos, mesmo que às vezes fosse quase impossível.
Luke sabia bem o que fazer. Sabia mesmo. Do jeito mais fofo que existe.
Então, como uma onda, uma corrente elétrica maior do que qualquer uma que eu há havia sentido, banhou o meu corpo e me fez estremecer de verdade. Luke sentiu isso e passou os braços pela minha volta, enquanto eu me contorcia por eles. Ele continuou a investir dentro de mim, até que eu impulsionei minhas pernas para cima e abracei a sua cintura, fazendo com que nossos corpos ficassem interligados. Luke prendeu sua testa na minha e, me olhando nos olhos, sorriu. Sua respiração estava muito desregulada, assim como a minha.
Ele deixou um beijo nos meus lábios ao mesmo tempo em que chegamos ao clímax juntos.
Nos separamos devagar, mas ainda nos beijando. Ele ainda acariciava meu cabelo com delicadeza conforme me beijava quase calmamente. Porém, devida a nossa falta de ar e cansaço, ele não durou mais de vinte segundos.
Luke se deitou ao meu lado e puxou o edredom para nos cobrir. Me posicionei ao lado dele e abracei a sua cintura, encostando minha cabeça sobre o seu peito, que subia e descia freneticamente. Olhei para cima e vi que ele estava com um sorriso no rosto. Deixei-lhe um selinho nos lábios.
— Isso foi perfeito — eu disse, baixinho.
— Se você soubesse tinha dito que me amava antes, não é? — ele caçoou e eu dei um tapa no seu peito.
— Idiota — revirei os olhos.
— Idiota que você ama — ele sorriu. Seus olhos brilhavam como nunca.
— É — concordei, tendo a certeza de que os meus também brilhavam. — Amo.
Apertei minha mão em sua cintura e ele deixou um beijo na minha testa. Então eu alinhei minha cabeça ao seu peito antes de adormecer.


Eu vou equalizar você... numa freqüência que só a gente sabe.
Eu te transformei nessa canção pra poder te gravar em mim.

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