23 de set de 2012

Capítulo 33

Will you take my hand?



— Então, como vão as coisas aí, feiosa?
Sophie não pôde deixar de rir ao ouvir a voz fina e britânica da melhor amiga maluca. Estava jogada de qualquer jeito em sua cama com o celular pendurado na orelha. Eram exatas 14h em Nashville, e 19h em London. Julia não ligava sempre, até mesmo por que ela estar com o celular no colégio interno já era uma infração.
Não que Julia ligasse, é claro.
— Bem.
— Bem? — Sophie não viu, mas jurou que Julia tinha levantado as sobrancelhas num gesto irônico. — Soph, de verdade, como vão as coisas por aí?
— Bem, é sério — Sophie riu. — Ok, talvez não bem... Mas pelo menos, estão melhores.
— Melhores em que sentido, criatura? Meu Deus, você está boba.
— Vá a merda — Sophie revirou os olhos. — Não é só por que está longe de mim que pode me xingar assim. Quando eu for te visitar, descontarei todas as pancadas que te devo.
— Para de falar merda e me conta o que aconteceu.
— Ok! — ela exclamou. — Pelo amor de Deus. Londres mudou você.
— Eu tenho uma festa pra ir ainda hoje, e gostaria que a minha amiga vaca parasse de enrolar e me contasse como estão as coisas aí. É só uma pergunta simples! O que aconteceu?
— Festa? Num colégio interno? — Sophie perguntou, mas decidiu saber da resposta depois. — Bem... é uma longa história.
— Mas tem uma semana desde que eu te liguei! — Julia exclamou.
— Uma semana dá pra acontecer um bocado de coisa — Sophie retrucou. — Mas tudo bem. Tudo começou quando eu fui ver o meu pai, e aí quando voltei... bem, a Rosa me disse que o Joe tinha dado crise na escola.
— Ai, meu Deus...
— Aí eu fui pra lá na maior correria e no maior desespero, e quando eu chego... — Soph fez uma pausa, relembrando o momento. — Quando eu chego, Luke está abraçando Joe, e ele olha pra mim, sorri, diz que vai escrever um novo livro e pergunta se eu quero um BigMac, por que o Luke convidou ele pra ir ao McDonalds.
— O QUÊ? — Julia fez questão de gritar.
— É isso aí — Sophie ressaltou —, foi exatamente o que aconteceu.
— Espera... me explica — Julia parecia realmente confusa.
— Luke ficou sabendo antes de mim que Joe estava mal e foi vê-lo, então ele o convenceu a escrever um novo livro e comer no McDonalds — Sophie explicou, escutando outra palavra surtada de Julia. — De alguma forma que eu não sei, ele conseguiu em uma conversa fazer com que o Joe ficasse mais... leve. Então nós saímos e fomos para o shopping, ver um filme, no fliperama e na livraria. E... o Joe se divertiu tanto... Tanto que ele brincou e até brigou com a gente por que eu e Luke estávamos discutindo. — Soph terminou seu relato dando uma risada pequena.
— Não, calma aí — Julia ainda estava incrédula. — Luke convenceu Joe a escrever um livro, e fez ele se divertir?
— Isso — Sophie ainda sorria para o telefone. — E desde então ele tem escrito e se divertido. Luke tem ajudado o Joe e isso tá fazendo com que ele fique quase como era antes... Sabe, divertido, esperto, sorridente...
Sophie escutou uma risada sonora de Julia.
— Luke tem ajudado o Joe? — ela perguntou, mas não esperou a resposta. — Só o Joe?
— Ajudando o Joe ele ajuda a mim também, Juzy — Sophie revirou os olhos.
— Soph, você tava carregando o peso da tua família toda se desestruturando, e agora ele tá dividindo isso com você. Joe não é a razão principal disso. O Luke não tá ajudando só o Joe. Ele está te ajudando a ajudar o Joe, por que ele sabe que isso vai te fazer bem. Luke está ajudando você. — Julia parecia ter toda a convicção do mundo ao dizer aquelas palavras.
— Eu repito: ajudando o Joe, ele ajuda a mim. Mas não diretamente. — Sophie bufou. Detestava quando Julia bancava a psicóloga.
— Não diretamente, sério? — Julia riu. — Aquele garoto te conhece melhor do que ninguém. Vai dizer que ele não teve uma conversa diretamente com você desde que ele começou a ajudar o Joe?
Sophie pensou durante um segundo. Sim, ela havia conversado com ele sobre isso.
Na verdade, tinha chorado na frente dele enquanto falava sobre isso. E o abraçado durante bastante tempo. É.
— Sim — mas foi apenas isso que ela respondeu.
Julia gargalhou.
— E rolou beijinho? — perguntou, com voz sapeca.
— Vai à merda! — Sophie gritou de imediato, furiosa. Sentiu o rosto esquentar ao dizer aquelas palavras, mas Julia só parecia rir mais.
— Quem vai à merda? — Sophie sentiu o sangue gelar quando a porta de seu quarto se abriu abruptamente, mostrando um Luke com um sorriso no rosto.
— Rolou ou não rolou? Seja sincera, sua vaca.
— O quê? — Sophie se viu dividida entre a ligação e Luke. — Não, claro que não! — respondeu para o telefone.
— Não o quê? — Luke levantou uma sobrancelha.
— Nada — Sophie respondeu para Luke. — Julia está no telefone.
— Quem está aí? — Julia perguntou.
— Luke — Sophie respondeu para o telefone.
— Ah, então é a Juzy que vai à merda... — ele deu uma risadinha. — Diz pra ela que eu disse oi.
— Luke está aí? Oh, falando no diabo, né...
— Cala a boca — Sophie disse para o telefone. — Ele disse oi.
— Põe no alto-falante!
— Ela disse oi também — Sophie forçou um sorriso para Luke. — Mas agora ela tem que desligar.
— Não tenho nada! Mentirosa, safada! Pensa que eu não sei que você e Luke tão de casinho, né? Você vai ver, sua... — Julia não pôde terminar de falar, pois Sophie já havia desligado o telefone. Suspirou de alívio. Estava ficando quase louca com aquela situação.
— E aí, como ela tá? — Luke perguntou, sentando-se na cama de Soph.
— Bem — ela respondeu. — Só parece mais louca do que nunca.
— Normal — Luke torceu os lábios. — Ela vai ligar pro Nate, também?
— Ah, não — Sophie sentou direito em sua própria cama. — Eles combinaram de não se falar mais a não ser pessoalmente. Ela me disse que seria doloroso demais escutar a voz dele e não poder abraçá-lo.
— Oh... — Luke suspirou. — Puxa, que chato...
— Você não tem ideia — Sophie fez que não com a cabeça. — Onde está o Joe?
— Acabei de passar no quarto dele. Está escrevendo, página trinta.
— Já?! — Sophie abriu a boca.
— É, eu também fiquei surpreso — Luke riu, coçando a nuca. — Ele tá muito animado com essa história.
— Tá mesmo — Sophie deu uma risada.
— Isso sem dizer que ela é... sei lá, perfeita. Me surpreendeu.
— Confesso que surpreendeu a mim também — Sophie desabafou. — Quer dizer... ele está escrevendo sobre... a filha do meu pai sem nem conhecê-la! Sério... eu nem mesmo imagino como seria encontrar essa mulher. Eu sei que não é culpa dela e tudo, só que... sei lá, é só difícil. Mas a história do Joe me fez ficar quase curiosa sobre ela.
— Eu entendo — Luke torceu os lábios novamente. — Acho que, me colocando no seu lugar, eu também acharia difícil. Mas... bem, vai que ela é uma Alison? — Luke riu. — E um dia você vai conhecê-la.
— Eu sei — Sophie deu uma risada sem graça. — Tipo, eu fico imaginando como ela deve ser, de vez em quando. Minha mãe já me contou sobre a mãe dela... então eu imagino que ela não seja exatamente como Alison. Não tenho ideia de como o Joe soube que a mãe da “Alison” não era uma boa pessoa.
— Você sabe sobre a mãe dela? — Luke levantou uma sobrancelha.
— Sim, seu pai deve saber também — ela explicou. — Parece que ela era só uma vadia. Minha mãe deu uma surra nela, inclusive.
Luke deu uma risada e não falou mais nada sobre isso. Dirigiu seu olhar até a caderneta que estava jogada na cama, ao lado de Sophie.
— Compondo? — ele perguntou, interessado.
— Ah — ela pegou a caderneta. — É, tentando. Comecei uma letra quando Julia me ligou.
— Posso ver? — ele fez sua melhor cara de cachorro pidão.
Sophie engoliu seco. Não queria que Luke lesse o que ela havia escrito.
— É que ainda não tá pronta. Quando ficar eu te mostro, prometo — ela tentou dar um sorriso despreocupado para contornar a situação, mas Luke deu um sorriso de canto e fez que não com a cabeça.
— Não. Quero ver agora. — Ele encarou Sophie com o mesmo sorriso no rosto.
— Não vou te mostrar — Sophie levou o caderno ao peito, apertando-o.
— Eu quero ver — ele continuava com o mesmo sorriso quase malicioso no rosto.
— Não — Sophie fechou a cara, apertando mais ainda a caderneta contra o peito.
Luke riu para o nada e mexeu no cabelo.
— Se você não me mostrar eu te tomo — ele disse tranquilamente.
Sophie teve que rir.
— Duvido — ela disse, desafiando.
— Duvida? — ele levantou as sobrancelhas. Sophie notou que ele havia tirado os tênis com os próprios pés. — Duvida mesmo? Olha, não me testa. Eu te tomo isso. — Ele ainda sorria.
— Não toma — Sophie aliviou seu sorriso.
Luke virou o rosto e sorriu para o nada mais uma vez.
E então se lançou para frente num movimento rápido, na tentativa de buscar Sophie. Mas essa já havia se levantado e pulado para fora da cama, pronta para correr para a porta. Luke deu um pulo maior da cama e só precisou correr três passos para alcançar a porta que Sophie estava abrindo. Porém ele a fechou antes que ela pudesse sair do quarto.
Sophie apertou mais o caderno contra o peito e se preparou para correr pelo quarto, mas Luke deu um passo maior, e segurando seu pulso com força, deu um puxão que trouxe ela diretamente para si, fazendo com que eles ficassem face a face. Luke sentiu o ar fugir dos pulmões quando sentiu a respiração ofegante dela bater em seu queixo. Fixou o olhar em sua boca, e ele sabia que ela estava fazendo o mesmo também.
Estavam perto.
Perigosamente perto.
Ele fechou os olhos.
— Ei, Luke — escutou-se uma voz fina ecoar. Sophie abriu seus olhos e se afastou rapidamente, enquanto Luke se virou para Joe, que havia acabado de abrir a porta de repente. — Quer jogar videogame comigo? Nate está estudando.
Luke, ainda com o coração martelando dentro do peito, tentou responder tranquilamente:
— M-M-Mas você não estava escrevendo? — ele não conseguiu deixar de gaguejar. Pigarreou.
— Você usou o verbo no tempo certo — Joe deu uma risada de canto. — Estava. Mas acabei o capítulo quatro, e agora preciso jogar. Chamaria a Soph, mas ela joga muito mal e ganhar dela toda hora enche o saco.
— Eu estou bem aqui — Sophie disse, dando uma risada nervosa depois disso, e sentando-se com as pernas trêmulas na cama. Seus dedos pulsavam contra o caderno.
Luke deu uma risada igualmente nervosa da piada do menino.
— Hmm... ok, vamos jogar — ele bagunçou o cabelo do garoto e escancarou a porta. Mas não saiu do quarto antes de dar um último olhar para Sophie.
Ela suspirou.
Tinha mesmo quase beijado Luke? De novo?!
Afundou a cabeça no travesseiro, sem forças sequer para gritar. Merda. Com tudo acontecendo, ela ia mesmo dar um beijo em Luke Davis? Certo, ela não tinha a menor vergonha na cara.
Retirou o rosto do travesseiro e respirou fundo, encarando o caderno. Pelo menos Luke não havia lido nada.
Sophie se sentou na cama e pegou a caderneta, abrindo-a onde estava escrevendo uma letra qualquer.



How can I decide what's right,
when you're clouding up my mind?
(…)
How did we get here,
When I used to know you so well?
But how did we get here!?
Well, I think I know.
(Como eu posso decider o que é certo,
Quando você está anuivando minha mente?
(...)
Como nós chegamos aqui,
Quando eu costumava te conhecer tão bem?
Como nós chegamos aqui!?
Bem, eu acho que eu sei.)



Era apenas o primeiro verso e o refrão da música (ou poema, ela ainda não sabia), mas era naquela letra que ela estava trabalhando sozinha. E ela não queria mesmo que Luke lesse aquilo.
Tudo bem que era só uma letra, e nem era relevante de qualquer maneira. Mas aí ele iria fazer perguntas, ela não iria querer responder, e ele podia pensar tudo da forma errada...
Ou, pior ainda: da forma certa.
Mas graças à Deus (ou não, ela ainda não sabia disso também), Joe havia aparecido no quarto e impedido-a de beijar Luke e, também, de ele ler tudo aquilo. Tudo que Sophie não precisava era que Luke soubesse daquela letra.
Teria mais cuidado com a caderneta a partir de agora.
Aproveitaria e colocaria um aviso de “bata antes de entrar” na porta, também.



[...]



Danna se sentou na cama, secando seu cabelo freneticamente com a toalha branca que Hector havia deixado em sua cama antes de sair. Na verdade, Hector não havia deixado apenas a toalha. Deixara também a roupa que Danna estava usando quando foi “encontrada” por ele naquele beco escuro. A roupa estava dobrada, passada e com cheiro de amaciante. Enquanto secava o cabelo e via um programa qualquer passar na televisão, apenas um pensamento se formava na cabeça da garota: preciso sair daqui.
Danna gostava e não gostava de estar ali. Gostava pelo fato de Hector ser a melhor pessoa que ela já conhecera e aconselhá-la e ajudá-la de todas as maneiras. Gostava por que ele tinha acolhido ela naquele lugar sem lhe cobrar nada. Gostava simplesmente por que era bom ser bem tratada por alguém.
Mas não gostava por que achava que não merecia aquilo. Toda aquela hospitalidade, aquela boa-vontade, fazia com que ela se sentisse pior do que já estava. Não gostava daquele sentimento. E não se deve abusar da boa-vontade das pessoas, também.
Por isso ela decidiu sair dali ainda naquele dia. Tudo bem que ela só havia acordado no dia passado, mas Danna tinha dinheiro para recomeçar agora.
Ela só esperava que a Sra. Turner não tivesse revirado seu quarto. Faziam quatro dias que Danna não aparecia, e se a velha revirasse tudo aquilo, provavelmente acharia o dinheiro e jogaria fora todas as coisas de valor que Danna tinha. Inclusive a caixa.
Ainda esfregando a toalha contra os cabelos castanhos, Danna se pôs a observar as flores em cima da cômoda. Hector havia lhe dito que eram jasmins, e significavam sorte e alegria. “Elas também são associadas a doçura, inocência, pureza e paz”, é o que ele havia dito um dia antes com um sorriso leve na face. Lembrando-se daquilo, Danna deixou um meio sorriso escapar entre seus lábios. Hector era mesmo uma pessoa única. Não bastava ele ter lhe salvado a vida, lhe levado para sua própria casa e conversado com ela sobre os problemas dela durante quase uma hora. Não.
Ele ainda insistiu em instalar uma TV e um DVD no quarto, forçara Danna a comer várias vezes durante o dia e ainda lhe ensinou sobre flores.
Danna até havia insistido que ficaria bem o tempo que ele precisasse ficar na mercearia/padaria do pai, e não precisava de nenhuma televisão. Mas ele não havia escutado, e ainda assim instalou uma tomada, afastou o guarda-roupas, fez um buraco no teto (por onde passou o cabo de sinal), e ainda concertou o aparelho de DVD que não estava ligando. Trouxe o raque, a TV e o DVD concertado e instalou tudo rapidamente. Danna viu que precisariam de pelo menos cinco profissionais e um dia inteiro para fazer o que ele fez em uma manhã.
Durante a tarde, ele apareceu cerca de três vezes, só para que ela comesse. Hector tinha dito que a Sra. Gonsavez, que era a enfermeira que cuidara de Danna no hospital, disse que ela precisava se alimentar muito bem. Aparentemente, ele havia mesmo se preocupado com isso.
À noite, Hector foi regar as plantas e passara quase três horas conversando com Danna. Obviamente, também havia feito ela comer mais uma vez.
E pela manhã, ele reapareceu ainda cedo, dizendo que como era sábado, ele só trabalharia na mercearia até o meio-dia. Deixou as roupas de Danna e a toalha, e lhe mostrou o resto da casa, já que agora Danna estava forte o suficiente para andar. Querendo ou não, as diversas refeições tinham reposto completamente suas energias. Mesmo assim, depois disso, Danna voltou a dormir. Acordou e foi tomar seu banho, e agora estava ali.
Ela retirou a toalha de seus cabelos e se dirigiu até as jasmins, sentindo seu perfume envolvente e uma sensação esquisita de paz preencher seu coração. Quando fosse sair dali, pediria à Hector uma daquelas flores. Danna realmente havia se dado bem com elas.
De repente, ela sentiu o estômago roncar. Comera o dia inteiro ontem sem sentir fome, e agora seu estômago pedia por comida. Devia ser um bom sinal. Nada mais de droga no organismo dela. Mas apesar disso, ela se sentia desconfortável de simplesmente invadir a geladeira e comer alguma coisa.
Levantou-se, sentindo o cabelo levemente úmido bater-lhe nos ombros e saiu do quarto. Sabia mais ou menos como era a casa de Hector. Era bem simples e muito bem arrumada, como uma típica pequena casa daqueles lugares. Onde ela estava, era mais comum encontrar imigrantes do que cidadãos americanos. Hector era considerado um cidadão americano e um latino, pois apesar de ter nascido em Nashville, seu pais se mudaram para o México quando ele ainda não tinha um mês de vida. Após a morte de sua mãe, ele e o pai (que é americano) voltaram para a cidade natal dele, quando Hector tinha nove anos. Ele crescera ali.
— Oi! — ela escutou uma voz preencher o lugar e se virou. Estava no corredor da única sala da casa, que ficava de frente para a porta.
— Oi — Danna cumprimentou-o. — Você não saía só ao meio-dia?
— Já olhou o relógio? — Hector apontou para o relógio de parede atrás de Danna. Marcava 12h21. Ela havia mesmo ficado tanto tempo dormindo, assistindo televisão e tomando banho?
— Ah — ela deu uma risada. — Bem... eu queria falar com você mesmo, que bom que chegou.
— Hum... — Hector levantou uma sobrancelha, curioso. — Pode falar, pequena Danna.
Danna deu uma risada. Ele insistia em chamá-la daquele jeito desde que a conhecera. Ela nem era pequena! Tinha até uma altura considerável.
Claro que ela não era nada comparado aos 1,80 de Hector e seus ombros largos, de tanto... bem, de tanto fazer tudo. Ele não tinha faculdade, mas fazia quase tudo que existia.
— Então, eu preciso ir embora — ela disse sem delongas. — Tenho que pegar umas coisas, pagar o aluguel... resolver minha vida.
Hector riu.
— Você não vai embora — e deu de ombros.
Danna revirou os olhos.
— Eu preciso. Como disse, tenho que resolver umas coisas.
— Isso não explica o porquê de você ir embora — Hector se dirigiu até a cozinha para deixar os pacotes que havia carregado. — Você pode resolver suas coisas, mas não precisa sair daqui.
— Preciso, sim — Danna respirou fundo.
— Não, não precisa — Hector a encarou com um sorriso quase sapeca no rosto. — E nem vai.
— Por quê? — Danna apertou o olhar.
— Por que faz parte da sua reabilitação — Hector disse e riu de si próprio. — Tá, tudo bem, sem graça. Mas você vai ficar aqui.
— Sério, Hector, eu não posso...
— Pode e vai — ele retirou um taco do pacote, entregando-o a Danna. Retirou outro para si próprio.
— Obrigada — ela disse, pelo taco. — Mas eu não posso. Preciso seguir...
— Pra onde? — Hector a encarou. — Olha, pequena Danna... eu garanti uma coisa quando a gente conversou ontem, e eu não vou medir esforços para isso. Então, come seu taco, que depois a gente sai pra resolver seus problemas.
— Mas eu...
— Você é muito teimosa — ele fez que não, sorrindo e mordendo seu taco com cuidado para não quebrar.
— Eu sou teimosa? — ela sorriu. — Sério? Eu sou teimosa?
— Sim. Agora termine de comer.
Danna revirou os olhos.
— Eu-
— E não vem com a história de sair daqui — Hector a cortou. — Eu não vou deixar.
— Você não pode me obrigar a ficar aqui — Danna o desafiou.
— E nem vou — ele riu. — Mas eu sou bem persuasivo.
Danna deixou uma risada escapar também, e mordeu seu taco. Estava bem gostoso, até.
— Gostou do taco? — ele perguntou.
— Não vai dizer que você que fez — Danna o encarou com incredulidade.
— Não, comprei no Taco’s Bell — ele deu uma risada, claramente demonstrando que conseguira exatamente o que queria.
Eles ficaram algum tempo em silencio, apenas comendo os tacos.
— Você não vai me deixar ir embora, né? — Danna perguntou de repente.
— Nop — ele respondeu com um sorriso no rosto.
— Nesse caso eu vou pagar aluguel — Danna disse, achando a solução que seria agradável tanto a ele quando a ela.
— De jeito nenhum! — ele negou imediatamente com a cabeça.
Danna o encarou com o olhar mais maligno que ela tinha.
— Sim, eu vou pagar aluguel. Ou então saio daqui agora mesmo. — Ela continuava encarando-o daquele jeito.
Hector continuou fazendo que não com a cabeça, parecendo completamente inabalado.
— Não mesmo — ele parecia firme. — Você não vai pagar aluguel.
— Sim, vou — Danna revirou os olhos. — Eu não sei até quando vou ficar sem emprego e eu deveria comprar um apartamento, portanto, eu vou pagar o aluguel pelo quarto que estou dormindo.
— Não, não vai — Hector encarou-a tão firme quanto ela. — Eu trabalho em um bocado de coisas e consigo pagar tudo tranquilamente, e ainda mais esse lugar é bem solitário às vezes. Você é minha convidada e não vai pagar nada.
— Não vem com papinho de solidão — Danna o encarou, decidida. — Vou pagar o aluguel e pronto.
Hector bufou.
— Sabia que é difícil lidar com você?
— Digo o mesmo pra você! — ela bufou como ele.
— Certo — ele se deu por vencido. — Mas faz assim, o dinheiro que você me daria como aluguel, você dá para o orfanato. Certo?
Danna umedeceu os lábios.
— Tá, Sr. Certinho — ela caçoou dele. Hector deu uma risada.
— Ótimo, chegamos a um acordo — ele terminou de comer o taco e limpou a boca com o guardanapo. — Vamos pegar suas coisas, colega?
Danna limpou a boca também.
— Vamos, pequeno Juan — ela fez uma piada e ele sorriu.



[...]



Danna fechou a porta muito devagar, quase sem fazer ruído. Suspirou de alívio quando viu que tudo estava intocado. Ainda bem também que Hector tinha salvo sua bolsa de canto, se não ela estaria sem chave.
— Que bagunça! — Hector disse e Danna deu uma risada.
— Psiu. Fala baixo, que eu não tenho dinheiro vivo pra pagar a Sra. Turner.
— Desculpa — ele sussurrou e Danna deu uma risada.
Era incrível como ela conhecia Hector há apenas um dia e meio e já falava com ele como se fossem amigos há anos.
— Vou pegar o cheque, então nós vamos ao banco, voltamos, pagamos, e pegamos as coisas — ela disse e ele concordou com a cabeça.
Hector já sabia de toda a história do cheque alto de Josh.
Danna foi até a cozinha. O cheque estava num pote em cima do microondas, e ela não demorou até pegá-lo. Ainda era surreal ver aquela quantia escrita num pedaço de papel para Danna, de modo que ela precisou de um instante para suspirar e enfiá-lo no bolso.
Quando voltou, pegou Hector com as mãos enfiadas nos bolsos, observando as pinturas que haviam em sua parede. Com certeza ele havia visto a assinatura de Danna no canto inferior direito de cada uma. Parecia extasiado.
— Danna, eu... — ele tentou falar, mas as palavras não saíam de sua boca e os olhos não desgrudavam das telas. — Você não... você não me falou que pintava.
— Eu não pinto — ela respondeu rapidamente, sentindo o rosto corar. — São só telas bobas. Eu pintava muito quando era adolescente, mas... não deu pra continuar.
— Mas você tem tanto talento! — Hector finalmente se virou para ela, com os olhos pretos brilhando.
— Pare, Hector — Danna sentiu o rosto ficar mais corado ainda. — Não tenho, era só uma forma de eu descontar minha raiva. Eu gosto delas, mas eu não tenho tanto talento, e... você está exagerando.
— Não estou — ele respondeu tranquilamente, convicto, e se aproximou de uma das telas, passando os dedos delicadamente por ela. — Você vai me dar uma de presente, né?
Danna deu uma risada nervosa.
— Pode escolher — ela disse.
— Srta. Faith! — os dois escutaram o grito histérico da Sra. Turner, acompanhados das batidas incessantes. — Eu sei que está aí! Sabia que ia voltar!
Hector torceu a boca.
— Eu posso? — ele deu um sorriso.
— Claro — Danna deu um meio sorriso também.
Hector foi até a porta e abriu tranquilamente, com sua expressão bondosa emanando de seu rosto. O simples fato de ver o rosto de Hector calou a boca da Sra. Turner por um instante.
— Quem é você? — ela perguntou, desconfiada, pouco depois.
— Juan Hector Estebán, é um prazer conhecê-la — ele deu um sorriso simpático e Danna sorriu ao ver a mulher desconcertada.
— Oi, Sra. Turner — ela acenou.
Ao ver Danna, pareceu que toda a raiva da mulher voltou com força total.
— Onde está o meu dinheiro, Srta. Faith?! Acha que...
— Sra. Turner — Hector interveio com seu tom de voz calmo e compreensivo. — Danna estava passando por alguns problemas, mas já está tudo resolvido. Vamos agora mesmo ao banco para que ela possa pagá-la com êxito. A Sra. pode acompanhar-nos, se preferir.
Hector terminou de falar com um sorriso simpático no rosto, exalando confiança e bom humor. Danna queria gargalhar ao ver a forma como a Sra. Turner estava desconcertada.
— Tudo bem — a mulher, ainda com a face carrancuda, cedeu. — Podem ir buscar o dinheiro. Mas saiba, Srta. Faith, que só entra aqui novamente se estiver em dia!
— Tudo bem, Sra. Turner — Danna fez que sim com a cabeça.
— Com licença — Hector acenou com a cabeça e foi até Danna, pegando sua mão e guiando-a até a porta, onde ele mesmo fechou.
E quando Hector segurou sua mão, Danna sentiu o calor que emanava da mão dele subir por todo o seu corpo, fazendo-a arrepiar-se. Fez que não com a cabeça, enquanto eles seguiam de mãos dadas para o fim daquela pensão. E, ainda sentindo o arrepio percorrer seu corpo, e rindo pela forma que ele lidou com a Sra. Turner, Danna não pôde deixar de pensar que Hector era provavelmente a melhor coisa que já havia acontecido em sua vida.

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