17 de mar de 2013

Capítulo 8


Sanidade






E vocês não estão acreditando nos seus olhos.
MAS ACREDITEM, POR QUE EU, SARAH, ESTOU AQUI, NO MESMO DIA, COM TRUCKKKKKKEEEEEEEEEERRRRR!!!!!!!!!!!!
ASÇOIJQKÇWOISJÇOQIHEÇLUOIÇHQWOIJSAÇOPQIKWÇASOPJAS
Não vou falar nada nessas notas por que to acabada. Só o que o seguinte: comentem pra mim, ok? Eu mereço, poxa. Poucas pessoas leram o capitulo 7 e tudo mais, então, mais do que justo comentar nos dois, ok? <3
Só isso mesmo <3
Amo vocês, leiam com o coração.




Uma das coisas que aprendi enquanto babá é que criança gosta de diversão — não importa o quão absurda e idiota ela pareça a você, adolescente bem resolvido que é. Isto significa que se o seu Filho Provisório (é como eu gosto de chamar os bebês encarregados a mim) quiser que você pule entre os tapetes como se o chão estivesse coberto de lava e tubarões — Isabelle não acreditou na minha teoria de que tubarões não poderiam nadar em lava sem virarem peixe frito —, você tem de fazê-lo. E, se por acaso, seu Filho Provisório quer que você imite o sapo da história — “por favoooor, Hayleeeeeey” —, você não tem outra escolha senão imitar. Por que aos olhos da criança, você não está passando uma vergonha imensuravelmente grande.
Só está se divertindo.
Por isso aprendi a gostar desse emprego. Às vezes, é muito complicado ser um adolescente, ter responsabilidades, escola, coisas com que pensar. Por metade do meu dia, tudo o que preciso fazer é pensar como uma criança e me divertir como uma. Além disso, só fazia duas semanas que eu trabalhava para os Farro, mas Jon e Belle me aguardavam furtivamente na porta toda vez que eu chegava. Aquelas crianças me amavam. Tanto quanto eu aprendi a amá-las.
Mas como toda criança, Jon e Belle tinham seus pontos que as diferenciavam do resto do mundo. Hoje, por exemplo, enquanto preparava sanduíches de manteiga de amendoim e deixava-os entretidos com o meu Tijolo Telefônico, uma coisa engraçada aconteceu:
Jon: Haayleeeeeeey, você tem aquela música no seu celular?
Eu: Que música?
Jon segurando o celular com suas mãozinhas: Aquela música... que passa na tevê...
Eu retirando as cascas de uma fatia de pão por que Isabelle era chata: Têm um bocado de músicas que passam na tevê, Jon.
Jon, choramingando, enquanto Isabelle colocava meu Tijolo Telefônico na boca: Mas é aquela... I... set them up, set them up, set them uuup....
Eu, largando o que estava fazendo e me dirigindo a Isabelle para retirar o celular de sua boca: Belle, por favor, você sabe que não é certo colocar celulares na boca. Lembra do que te falei?
Belle: Hmm... não.
Eu, lhe lançando um olhar incriminador: Não?
Belle suspirando: Não colocar coisas na boca que não são de comer.
Eu: Celular é de comer?
Belle: Não, mas eu queria saber o gosto!
Eu: Mas o que foi que conversamos?
Belle, suspirando: Não colocar coisas na boca que não são de comer.
Eu: É isso aí.
Jon: Hayleeeeeey! Você tem ou não tem a música?!
Eu: Que música?
Jon: Eu já te falei!
Eu: Qual?             
Belle para Jon: Aquela que tem a mulher de olho azul?!
Jon, entusiasmadíssimo: É!
Então eles passaram a cantar a música para mim e eu concluí que se tratava Startruckk, cantada por 3OH!3 com a participação de Katy Perry (a mulher dos olhos azuis, como Isabelle deliciosamente ponderou). A letra basicamente falava sobre uma pessoa que não aderia ao amor e usava as outras pessoas em sentidos, no mínimo, sexuais.
Na minha época, as crianças cantavam músicas sobre passarinhos.
Tanto Jon quanto Isabelle ficaram muito desapontados comigo quando eu lhes disse que não tinha a música no celular — uma vez que ela fora um sucesso há pouco mais de dois anos atrás —, mas prometi a eles que poderíamos tocá-la no violão de Zac. Isso os animou muito. Jonathan quis gravar um vídeo para fazer sucesso na Internet, e eu disse que tudo bem, mas a verdade é eu provavelmente jamais jogaria uma coisa dessas no  YouTube. A facilidade de se lidar com uma criança é que, às vezes, você pode contar ume mentirinha aqui e acolá. Ele não saberá a diferença entre as coisas.
Por isso, por volta das cinco da tarde, depois de fazê-los comer seus sanduíches e beberem seus copos de leite achocolatado, e bronqueá-los pela quinta vez no dia por que ambos estavam brigando — veja só, está no meio do meu turno e eu só o fiz cinco vezes, não vinte, como antigamente — subimos as escadas em direção ao quarto de Zac. Peguei seu Fender (!) emprestado por alguns minutos e o levei ao quarto de Jonathan, que se encontrava menos bagunçado do que o da irmã.
— Eu nem sabia que a Hayley sabia tocar violão! — gritou o pequeno menino de cinco anos, entusiasmado, enquanto eu sentava-me em sua cama. Meus Filhos Provisórios, ao contrário, continuavam de pé. Ambos estavam muito animados. Antes mesmo de eu começar a tocar, já estavam cantando a música.
— Mas eu sei fazer tudo o que existe! Você já devia ter imaginado — disse eu, dando ombros. Jonathan me olhou como se percebesse imediatamente a mentira implícita no meu olhar.
— Mentira sua, Hayley! — gritou ele, aproximando-se de mim com suas perninhas curtas e seu olhar castanho incriminador.
— É sério, eu sei fazer tudo.
— Mentira!
— É verdade!
— Não — Isabelle se meteu em nossa discussão, aproximando-se também. — Você sabe contar até cem? Aposto que você não sabe contar até cem, Hayley.
Sorri para ela, deixando o violão de lado por um segundo para me ajoelhar. Ficamos então todos do mesmo tamanho.
— Sei sim — disse, passando os dedos pelo seu pescoço e fazendo-a encolher-se, rindo, de cócegas. Jonathan se colocou entre mim e sua irmã enquanto eu me sentava entre minhas próprias pernas.
— Hmm... mas eu aposto que você não sabe trabalhar!
Jon havia me confidenciado uma vez que o sonho de sua vida era, vejam só, trabalhar. Isso por que, para ele, o trabalho consistia em dirigir caminhões (a influência do veículo sobre as crianças Farro era absurda). Ninguém tinha mais caminhões de brinquedo nessa cidade do que Jonathan Farro.
(Talvez só o Rick.)
— Na verdade, cuidar de vocês é o meu trabalho, então eu sei fazer isso também. Já disse, eu sei fazer tudo — dei de ombros, segurando a cintura de cada Filho Provisório e sentando-os cada um em uma das minhas pernas. Jonathan passou os bracinhos pelo meu pescoço e Isabelle começou a brincar com o meu cabelo.
— Você sabe cortar cabelo? — perguntou ela.
— Sei. Eu mesma corto o meu.
— Já sei uma coisa que você não sabe! — Jonathan disse com tanta animação que seu grito com certeza poderia ser audível no andar de baixo. Isabelle ficou interessadíssima e perguntou “o quê?”. — Você não sabe consertar os carros que nem o Josh!
Estremeci só com a menção ao nome e em minha cabeça resmunguei o fato de Jonathan e Isabelle serem irmãos de quem eram. Minha crise de infecção Farro ainda estava presente, mas eu a tratava com o melhor antibiótico de sempre: a ignorância. Mas, é claro, essa é uma história que você já conhece. O que não contei a você é que ando fazendo isso há alguns dias.
— É — respondi sorrindo, fazendo cócegas no pescoço do garoto também. — Consertar motor de carros não é pra mim. Mas eu faria isso se quisesse aprender.
Eles não me escutaram por que estavam muito ocupados rindo por terem tirado a limpo a minha mentira deslavada de saber tudo o que podia. Nada como uma conversa em crianças para animar os ânimos, ainda que eles houvessem feito a menção ao nome.
(E ainda que eu soubesse que, a poucos metros de mim, um Josh Farro sem camisa e completamente manchado de graxa consertava motores e amortecedores e suspensões de carro exibindo toda a sua virilidade incrível, e tudo o mais. Ignorei isso também.)
— VAMOS LOGO, HAYLEY, VAMOS CANTAR! — disse o Jon, saindo do meu colo e começando a pular de um lado para o outro como se sua vida dependesse de não manter os pés no chão por mais de um segundo. Isabelle logo juntou-se a ele e começou a pular sem nenhuma finalidade, também, só por que era divertido.
É muito fácil se divertir quando se tem cinco anos de idade.
— O.k.! O.k.! — disse eu, vencida, voltando para a cama de Jon com uma leve dormência nas pernas por ter me sentado no chão. — Vamos lá, então. Já estão prontos para começar?
Enquanto Isabelle gritava o “siiiiiiiim!” mais audível da história do universo, Jon parara de pular e dissera:
— ESPERA, DEIXA EU PEGAR O MEU ÓCULOS!
Jonathan correu até a sua cômoda e revirou todas as gavetas até pegar um par de óculos escuros praticamente do tamanho de seus olhos. Colocou-os no rosto e eu imediatamente comecei a rir. Não me leve a mal, é que ele ficava a coisa mais bonitinha do mundo com aquilo.
— Tá, eu sou a Katy Perry e o Jon é aquele cara! — entenda como “aquele cara” os dois integrantes da 3OH!3. Assenti com a cabeça, fazendo uma nota no violão para garantir que ele estava afinado. Mas meu Filho Provisório olhou para sua irmã como se fosse assassiná-la. Não sei como consegui distinguir tal coisa com seu óculos escuros, mas o fiz. Talvez seja apenas meu instinto Maternal Provisório.
— Não! — gritou ele, irritado, virando-se para Isabelle. — Eu quero ser a Katy Perry!
Isabelle levou aquilo como uma afronta.
— Mas você é menino! — gritou ela.
— Não tô nem aí, eu vou ser a Katy Perry por que ela fica com as partes mais legais! — ele gritou de volta.
— Não! Eu vou ser a Katy Perry!
— Eu que vou, sua idiota!
— Não vai não, idiota é você, eu vou contar para a Hayley!
— Eu vou arrancar sua cabeça!
— Ei! — eu gritei, intervindo. Os olhos de Isabelle já começavam a marejar e não demoraria nada para ela chorar descontroladamente. Jonathan estava vermelho de raiva. Meu grito os calou, mas ainda assim, ambos estavam com muita raiva. Sexta vez no dia. Tudo bem, ainda é melhor do que vinte. Portanto, como de praxe, comecei a falar, bem calmamente (as crianças tem mais medo de você quando você demonstra calma absoluta do que quando grita como uma gralha): — Vamos esclarecer uma coisa aqui: ninguém vai ser ninguém. E, se eu pegar vocês discutindo de novo, não vai ter música, nem violão, nem Katy Perry, e nem nada. Vai todo mundo direto para a soneca. Estamos entendidos?
Isabelle coçou um dos olhos.
— Mas...
— Estamos entendidos ou não?! — minha voz ainda soava calma e profunda.
Ambos abaixaram a cabeça e assentiram.
— Eu não ouvi.
— Sim, Hayley — responderam em uníssono.
Encarei-os durante dez segundo inteiros — mais ou menos o tempo que você pode incriminar uma criança e dissipar parte do clima ruim —, e esperei que eles levantassem as cabeças e olhassem para mim. Isabelle já estava quase chorando de verdade, mas antes que ela pudesse fazê-lo, eu fiz uma introdução improvisada de Starstrukk no violão de Zac.
— E aí, vamos ou não? — perguntei.
— Não quero mais! — gritou Isabelle, seu lábio inferior tremendo, sua raiva de mim e do seu próprio irmão exalando pelo seu corpo. Jon já parecia melhor e até recolocara seus óculos. Isabelle era sempre a mais difícil de se lidar.
— Bem, você pode ir dormir, então. Prefere dormir ou tocar violão?
Jon suspirou alto.
— Tá! Você pode ser a Katy Perry — disse ele, vencido, mas eu conseguia ver a esperteza naquelas palavras. Jonathan sabia muito bem que, se Isabelle preferisse ir para a cama, ele iria também. Como eu disse a você anteriormente, tudo o que uma criança quer é se divertir.
Exceto quando ela está de birra.
— Tá bom — disse ela, ainda cabisbaixa.
Eu fiz que não com a cabeça.
— Só vou começar a tocar quando vocês se animarem de verdade.
— MAS EU TÔ ANIMADO, HAYLEY! — gritou Jonathan e começou a pular de novo. Não consegui controlar minha gargalhada. — NICE LEGS, DAISY DUKES, MAKES A MAN GO, fiu, fiu. — Isabelle e eu desabamos a rir quando Jonathan tentou assobiar. Sentei-me no tapete outra vez, enquanto duas crianças tinham crises de riso comigo.
— O.k... eu vou contar até três, e no três vocês começam — eu disse e Jonathan gritou um “YEAH!” enquanto Isabelle apenas riu. — Um... dois... três!
Comecei a tocar um ritmo mais rápido, deixando uma versão acústica malfeita da música para que as crianças pudessem se divertir. Embora Jonathan tenha combinado de cantar a parte dos integrantes do 3OH!3, ambos acabaram cantando as duas partes, o que foi ainda mais divertido. A música toda consistia em gritos, o que deu-lhes a oportunidade perfeita para pular e mexer os braços enquanto cantavam.
E essa é só mais uma razão para eu amar esse emprego. Eu estava basicamente errando todas as notas, e eles errando toda a letra da música, mas ninguém se importava com isso. O que era importante era que Isabelle e Jonathan estavam dançando e brincando, os dois juntos, sem brigar, como os irmãozinhos que eram. O importante é que esse é o tipo de momento corriqueiro que você guarda na mente para sempre. O importante é que as risadas eram tantas que basicamente interceptavam a música inteira. O importante era a diversão.
Meus Filhos Provisórios estavam se divertindo, e isso era o bastante para mim.
Entretanto, é claro que algo havia que ter destruído o momento perfeito. E este algo, como vocês já devem ter imaginado, é justamente o irmão mais velho dessas crianças.
— ESTÃO CANTANDO E NÃO ME CHAMARAM? — Josh gritou assim que entrou no quarto de Jonathan e eu imediatamente parei de tocar. Seu cabelo estava preso atrás das orelhas, seu peito completamente à mostra, e eu podia ver o cós de sua boxer por que ele não se lembrara de colocar um cinto na calça jeans apertada e suja de graxa. Pergunto-me o que ele tem contra a uma aparência respeitável.
— JOSH! — tanto Isabelle quanto Jonathan gritaram e correram para os braços do irmão. Josh abaixou-se e pegou cada um deles no colo — como se isso fosse, tipo, muito fácil —, sorrindo para eles. Fechei os olhos por um segundo e senti vontade de morrer. Infelizmente, eu já sabia muito bem que todo mundo da família Farro amava e idolatrava Josh Farro. Rick, como vocês já sabem, orgulha-se dele pela sua força de vontade e seu trabalho árduo. Beth o ama pelo mesmo motivo, embora não confie inteiramente nele. Zac o idolatra simplesmente por que Josh o idolatra de volta. Quanto aos menores, Josh os conquistou com doces e carinho. Quer dizer, qualquer criança pode ser conquistada com doces e carinho. — A gente não te chamou por que a gente achou que você ‘tava ocupado consertando o carro! — Foi Jonathan quem disse.
Suspirei.
— Ah, mas eu sempre ‘tô livre para um karaokê — disse ele, colocando seus irmãos no chão. — Não sabia que você tocava, baby.
Revirei meus olhos para ele. É como eu o tratava ultimamente. Na última semana, não respondi às suas provocações, piadinhas, e etc. Apenas ignorei-o como se fosse completamente irrelevante. Não disse nem sequer o seu nome.
Pode me chamar de Hayley Gelo Williams.
— Por que você chama a Hayley de baby? Ela não é um bebê! — Isabelle concluiu. Eu sorri, trazendo-a para perto de mim e abraçando-a por um momento, para mostrar a Josh que seus irmãos eram mais meus do que dele naquele momento.
— E, na verdade, você não está convidado — era a primeira vez que eu me referia a ele na semana. Josh contraiu os lábios e levantou as mãos acima de seus ombros definidos e nus, como se dissesse que eu havia ganhado a batalha.
— Mas o Josh canta bem! — disse Jonathan, acabando com a magia do momento.
Olhei para ele.
— De qualquer forma, já são quase seis da tarde e vocês estão nojentinhos. Vamos tomar um banho, tirar esse suor e essa manteiga de amendoim da pele, e dormir um pouco. O.k.?
É claro que não estava tudo o.k. Tanto Isabelle quanto Jonathan começaram imediatamente a reclamar alto, e dizer o quanto eu estava sendo má, que nós nem sequer gravamos o vídeo, que eu estava sendo chata, etc.
— Sem reclamações — disse eu. — Sua mãe não vai querer chegar em casa e encontrar vocês pregados de suor. Se vocês não tomarem banho, sabe o que acontece? Quando forem abraçar alguém, a sujeira vai grudar você nessa pessoa para sempre.
Josh gargalhou na porta do quarto de Jonathan. Ah, que ótimo, eu nem sequer posso lidar com minhas crianças em paz, agora.
— Ah, não, Hayley! — Jonathan reclamou de novo, choramingando.
— Que tal a gente fazer isso: — a voz de Josh ecoou outra vez na porta do quarto do garoto e todos nós viramos a atenção para ele — Hayley dá um banho na Isa e o garotão vem comigo. Estou precisando mesmo lavar meu cabelo. Você acha que pode me ajudar, cara?
De repente, Jonathan estava sorrindo.
— ‘Tá... — disse, ainda relutante, embora a situação toda houvesse me incomodado. Eu não precisava que Josh me ajudasse a fazer o meu trabalho. E não queria deixar de ficar de olho no Jonathan.
— Oba! Banho de garotas! — Isabelle jogou-se nos meus braços e eu segurei seu corpinho pequeno. Josh também já colocara seu irmãozinho no colo e agora brincava de jogá-lo no ar. Levantei-me, segurando a garotinha de quatro anos contra mim.
— Você vai mesmo dar um banho nele? — perguntei o mais desagradável que pude. Josh sorriu.
— Vou, ué. Jon vai me ajudar a lavar o meu cabelo, não é?
Fechei os olhos por só um segundo, pedindo paciência a Deus.
— Certo, então não o deixe molhado por muito tempo, por que ele pode ficar gripado. Não molhe o rosto dele com o chuveirinho e não deixa ele se ensaboar sozinho, por que ele não consegue. Não use o xampu normal e não o deixe coçar os olhos. Não coloque...
— Hayley, meu amor — ele me interrompeu, sorrindo. — Eu sei como dar banho nessas crianças. Cuidava deles antes de você.
A fúria nasceu nas extremidades e devagarinho tomou todo o meu corpo. Segurei Isabelle contra mim com mais força para não matar seu irmão com um soco bem no meio de sua fuça. Violência não seria um exemplo  nada bom para aquelas crianças.
Portanto, me controlei.
— Certo — pronunciei cada letra muito calmamente, deixando bastante claro que eu o mataria com os olhos, se pudesse. — Não demore.
E saí em direção ao banheiro principal. Não sabia onde Josh e Jon tomariam banho, mas tinha quase certeza que o quarto de casal era uma suíte, portanto não me preocupei. Passei a me concentrar ao máximo à tarefa de limpar o corpo da garotinha da qual eu estava cuidando, o que fez com que tudo fluísse com certa lentidão. Eu tentava, ao máximo que eu podia, não imaginar que Josh Farro estava no quarto ao lado tomando banho. Tentava mesmo.
Mas era difícil.
Decidi trançar o cabelo de Isabelle para me manter ocupada. Limpa, vestida e com o cabelo trançado, Isabelle estava completamente pronta para ir para a cama. Estava bocejando muito, também. Imaginei como estaria Jonathan agora. Provavelmente morrendo de sono assim como sua irmã.
Levei-a no colo até o seu quarto. Como agora ela praticamente não se aguentava em pé, não precisei contar nenhuma história, ou levá-la ao quarto de Jon para que ambos pudessem dormir juntos. Apenas coloquei-a dentre as cobertas e entreguei-lhe Bug, sua aranha de pelúcia. Menos de dois minutos depois, a respiração da garotinha já estava profunda. Beijei seu rosto, encostei a porta e saí dali.
Minhas pernas, as safadas, me levaram direto ao quarto de Jon, implorando para que o garoto já estivesse vestido e dormindo. Não sei se eu estava pronta para ver Josh trocando de roupa enquanto ajudava seu irmãozinho a tomar banho. Seria demais para mim. Demais para a minha mente maluca.
E, para dizer a verdade, eu não sei o que Josh estava fazendo em casa. Pelo que haviam me dito no Centennial, sua festa de aniversário era praticamente o Baile de Boas Vindas do colégio. Comparecia quem queria ao salão da Farro’s Carrier (já mencionei que esse é nome da empresa de Rick? Bem, estou falando agora. Original, não acha?), onde rolava todo tipo de diversão existente. “Cada festa é uma lenda”, foi o que Kevin Perkins dissera para mim semana passada, enquanto eu tentava aturar sua presença medíocre. Não me leve a mal. Só não consigo me dar completamente bem com geeks. A festa aconteceria daqui a três dias, mas ao invés de estar arrumando os preparativos, Josh estava me enchendo o saco.
De qualquer maneira, Jon estava bonitinho aninhado às suas cobertas, com os olhos vidrados na sua lâmpada azul. Não deixei com que ele percebesse minha presença e desci as escadas muito calmamente. Agora, como vocês bem sabem, era a parte de arrumar a bagunça que meus Filhos Provisórios deixaram na casa. Rezei com toda a fé que tinha no corpo e na mente para que Josh não estivesse lá embaixo. E, graças a Deus, não estava. Bem mais tranquila, dirigi-me a cozinha e tirei a mesa onde os pratos dos sanduíches ainda estavam pousados. Na pia, já havia uma frigideira suja por que assim que cheguei à casa dos Farro, Jon exigiu comer ovos mexidos. Aparentemente, Zac comera uma porção, mas esquecera-se de dar um bocado ao seu irmão menor.
Molhei as mãos e comecei a lavar.
— Te achei, baby — a voz ecoou atrás de mim. Virei-me imediatamente na direção dela, que vinha acompanhada do cheiro forte de desodorante aerosol. Josh estava a um metro de mim, com as mãos nos bolsos da calça limpa, o peito finalmente coberto por uma camiseta preta simples. Seu cabelo estava molhado. — Achei que não iria sair daquele banheiro.
Virei-me de volta para a pia e voltei a lavar a frigideira. Coloquei detergente sobre a esponja, molhei as mãos, esfreguei o cabo, liguei a torneira...
— O.k., Hayley, esse joguinho de “ignorar o Josh” já perdeu a graça — disse ele, com a voz mais presente dessa vez. Senti meu interior tremer, mas não falei nada. Apenas bufei. — Pare de lavar essa louça. — Ele se aproximou de mim e me forçou a olhá-lo. Larguei a frigideira na pia e deixei minhas mãos molhadas pingarem no chão, atordoada demais pelo seu olhar castanho, que estava tão perto.
Mas eu não podia me deixar levar de novo. Kathryn estava errada. Eu não seguiria seus passos. Jamais.
— O que você quer? — perguntei, fria.
— Quero que você me conte o porquê de eu estar sendo ignorado — disse ele, me encarando duramente. Eu o encarava a altura, entretanto. — Só quero saber por que você não está falando comigo. Só quero saber por que você me odeia assim. Honestamente, Hayley, eu não me lembro do que eu fiz para te deixar tão irritada. E, tudo bem... eu posso te conhecer bem, ainda que você não queira aceitar isso, mas amor — ele se aproximou de mim, provocante, firme, me fazendo engolir seco — eu não leio mentes. Você vai precisar me dizer o que está te incomodando.
Meu coração parecia que ia sair pela boca, mais uma vez. Eu apenas bufei e não respondi novamente. De certa forma, Josh tinha razão por estar irritado, e eu me dei conta de que o havia beijado e depois lhe dera o maior gelo de todos.
Virei-me de costas, já que ele estava a uns dois passos de mim. Não queria olhar para seus olhos e encontrar todo aquele desejo, toda aquela vontade de respostas, de mim. Senti-me aliviada imediatamente por não precisar encará-lo, mas ainda assim, fraca por fazê-lo.
Josh riu baixinho.
— Você está me ignorando de novo, ou isso é um convite para eu olhar sua bunda? — eu quase pude ver o sorriso cafajeste pousado em seu rosto, como se ele estivesse contando a piada do século.
Não pude evitar. Agarrei a primeira coisa que vi na pia — o que acabou sendo a velha frigideira de Jon — e atirei contra ele com toda a força que eu tinha, meu peito inflando de raiva. Um barulho de alumínio batendo contra o chão, Josh gritou. Percebi que havia acertado seu ombro.
Ele gemeu por um segundo com a mão sobre o local atingido. Respirou fundo.
Então sorriu.
— Bela forma de estabelecer contato, baby, mas eu realmente prefiro que você me diga o que está acontecendo.
Eu já estava com raiva demais. Bati as mãos contra a pia e me aproximei dele com um só passo, dando um soco forte no seu ombro, onde havia batido a frigideira.
— Primeiro — fui dizendo assim que diferi meu soco. Josh sorriu e se afastou de mim. — Eu. Não. Sou. Baby. Meu nome é Hayley Williams e você sabe disso. Segundo — dei-lhe outro soco, que foi mais um empurrão. Josh deu um passo para trás. — Não me olhe como se eu estivesse nua. Eu não gosto. Terceiro — outro soco, outro passo para trás —, você é um garoto ridículo, e o fato de eu ter te beijado duas míseras vezes não significa que você me tenha completamente! Eu não sou uma dessas meninas que você simplesmente agarra por agarrar! Quarto...
Antes que eu pudesse diferir outro soco contra ele, Josh agarrou meu pulso, sorrindo.
— Você não é uma dessas meninas, Hayley Williams — ele me encarou por alguns segundos. Seu sorriso agora desaparecera de seu rosto. Eu via em seus olhos que ele falara sério. — A menos, é claro, que queira ser. Baby... — e lá estava o olhar cafajeste de novo, ainda que dessa vez ele estivesse carregado de outra coisa. Josh largou meu braço e concentrou-se em apenas me olhar. — Se você quiser ser mais do que isso, precisa me dizer. Eu não vou adivinhar que você está chateada comigo por que eu já namorei outras garotas. — Ele segurou minha mão delicadamente, e entrelaçou-a com a dele. Olhei para nossos dedos, juntos, encaixando-se perfeitamente uns nos outros. A outra mão de Josh segurou minha cintura mais delicadamente do que nunca. Quando meu olhar voltou ao dele, havia profundidade. Não sei como explicar. Simplesmente havia. — Eu sou um homem decidido, você sabe. E eu quero ter você. Por Deus, eu falo sério quando digo que nunca senti isso antes, e eu não estou a fim de parar. Se for o que você quer, linda, eu paro de ficar com as outras garotas. É só dizer e eu serei exclusivo — o rosto de Josh aproximou-se do meu, e eu inalei seu cheiro viciante, o calor de sua pele. Meu coração não conseguia voltar à normalidade. Eu senti sua barba malfeita pinicar minha bochecha, enquanto ele sussurrava, provocantemente: — Você me deixa maluco, Hayley Williams. Como consegue?
Seu hálito invadiu meu olfato, o calor de sua pele me enevoava, confundia meus pensamentos. Meu corpo inteiro, cada célula, clamava por Josh Farro. Eu estava completamente arrepiada, completamente entregue. Eu queria beijá-lo. Queria dizer a ele que ele me deixava completamente maluca também, só de se aproximar, só de aparecer.
Mas ao invés disso, apelei para o pouco de sanidade que ainda me restava e saí de seus braços, dessa vez sem violência. Retirei suas mãos das minhas e fui na direção contrária a ele, por que eu sabia que o contato me enfraquecia. Josh só conseguiria me ganhar se tocasse em mim, por que quando isso acontecia, minha pele entrava em erupção.
— Me dê um tempo para pensar, tudo bem?! — eu disse, relativamente baixo, relativamente alto, enquanto minha cabeça rodava e minha carne clamava pela carne dele. Por algum bom motivo, dessa vez Josh não se aproximou. Suspirei e encarei seus olhos castanhos. Talvez eu só devesse ser sincera. — Não consigo confiar em você, Farro. E não quero me entregar a alguma coisa que vá me machucar, entende? Droga. Eu não sei o que eu quero. Por que ao mesmo tempo em que tudo o que eu quero é quebrar sua cara idiota, você me...
— Seduz? — Josh deu um sorriso cafajeste.
Quis bater nele, mas me contive.
— Puxa é mais adequado.
— Eu gosto do termo. Eu te puxo para mim — ele coçou seu próprio queixo. — Você me puxa pra você também, se quer saber.
— Não é voluntário.
— Eu sei — ele ainda sorria, feliz, acho, por estar tendo uma conversa civilizada comigo. Quer dizer, vocês sabem que é difícil manter uma conversa civilizada comigo.
— Eu só preciso pensar antes de fazer uma burrada, Josh — disse eu, suspirando. — Você é um completo idiota. Não quero ser só mais uma.
— Você não é! — ele passou as mãos pelo cabelo molhado e deu um passo para trás, meio irritado, meio confuso, meio louco pra acabar com a distância entre nós. — Baby, eu já expliquei que contigo é diferente! Não sei o que ‘tá acontecendo, tudo bem? Mas eu não quero parar. Se eu quero ficar com você, droga, eu vou fazer de tudo pra ficar com você. O que você quer?
— Eu não sei! — respondi, agradecida por ele não ter se aproximado de mim. Prendi os cabelos nas orelhas, num gesto nervoso. Eu estava dizendo a verdade. A mais pura e completa verdade. Não sei o que eu quero, por que embora eu o queira, não quero ter um relacionamento com o garoto mais idiota do universo, ainda que isso seja baseado no... contato físico. Simplesmente não quero ser a Kathryn! — Eu não sei, Josh. Preciso pensar.
Josh respirou fundo.
— Escuta, tudo bem — ele olhou para mim... compreensivo. Um sentimento bastante esquisito para se encontrar na expressão de Josh Farro. E, mais uma vez, eu estava agradecida por isso. O olhar comedor pode encher o saco, às vezes. — Vamos fazer um trato, certo? Eu não vou fazer nada que você não queira. Mas eu quero ter certeza absoluta de que você está fazendo o que quer. Pegue o tempo que quiser, pensa sobre isso, eu não me importo mesmo. Se você não quiser ficar comigo e eu ver nos seus olhos que é exatamente isso o que você quer, não vou me opor. Não vou te perseguir, ou provocar... nem nada.
— Certo — disse eu, adorando a proposta que ele me fizera. Parecia simplesmente incrível, embora não a porta de saída da qual eu precisava. Um espaço para pensar seria o bastante.
— Mas, Hayley, por favor — ele se aproximou de mim o bastante para seus olhos penetrarem os meus —, faça o que você quer fazer. A única dona da sua vida é você mesma.
Dito isso, Josh sorriu para mim e colocou uma mecha do meu cabelo colorido atrás da minha orelha, e então saiu. Não pude evitar acompanhá-lo com os olhos até ele sumir de vista escada acima.



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