23 de set de 2012

Capítulo Bônus

Like An Avalanche...





Josh se olhou no espelho, passando a mão pelo cabelo relativamente curto, mas não tanto. Seu rosto também estava limpo, ele havia acabado de se barbear. Ficou por alguns instantes encarando a si mesmo no espelho do guarda-roupas, e então foi até o criado mudo, abrindo a caixinha de veludo. Retirou o piercing de dentro.
Voltando para frente do espelho, Josh encaixou o piercing no lábio inferior. Pronto. Agora ele quase parecia com o adolescente de pouco mais de dois anos atrás. Com sua calça jeans azul desgastada nos joelhos, a camiseta xadrez que agora realçava um bocado os seus bíceps, os tênis converse all star sujos e o piercing no lábio, ele quase parecia com o guitarrista que tinha ótimos amigos e amava muito sua namorada de anos atrás.
E Josh continuava a se olhar no espelho, procurando aquele rapaz que ele um dia fora. Mas ele sabia que não encontraria. A cicatriz nova em seu braço mostrava isso. O quanto ele havia crescido e ganhado massa também. As imagens da guerra que passavam como um de já vu em sua cabeça — em especial, a morte de Nate — também mostravam o que Josh não podia mais fingir.
Dois anos e meio haviam se passado. Ele havia mudado. E não era pouco.
Suspirando e mordendo seu piercing, ele saiu de frente do espelho. Desceu as escadas rapidamente, encontrando Zac — agora, com dezoito anos — conversando com sua mãe. Ela gargalhava, e Josh logo viu que Zac estava fazendo palhaçadas.
— Soldado! — gritou Zac, quando o viu descendo. Josh abriu meio sorriso. — Sentido!
— Ok, Zac. Não tem graça. — Josh disse, mesmo que risse um pouco. Sentou-se a mesa e comeu o café da manhã que sua mãe havia feito.
A guerra havia acabado três semanas atrás, e Josh foi mandado para os Estados Unidos, assim como tantos outros rapazes. Josh havia sido uma peça valiosa para o fim da guerra, pois quando os planos dele chegaram aos olhos do Sargento, ele e outros superiores decidiram colocá-lo em ação. Fragilizado, não demorou para o Iraque concordar com as imposições da América e assinarem o tratado de paz.
Mesmo que Josh não fosse reconhecido como deveria — por escolha dele —, ele tinha a opção agora de seguir carreira no exército, caso se realistasse. E teria facilidade em subir de simples soldado para outras nomeações maiores.
Mas Josh não estava totalmente certo em voltar para o exército.
Não antes de acertar tudo, pelo menos.
Então, com a ajuda de Zac, Josh ficou a par de tudo o que acontecia na cidade. Já que as cartas da Sra. Farro não eram objetivas em relação a isso, Josh logo pensou que todos estavam com muita raiva dele. Não tirou a razão dos amigos, claro, por que Josh sabia o que havia feito. Para uma pessoa em especial.
Josh sabia que havia feito Hayley sofrer.
E isso o estava matando por dentro.
E Zac não tinha notícias dela. Tudo que sabia era que, dois dias depois de ele ir para a guerra, Hayley se mudara e ele nunca mais ouvira falar dela. Zac dizia que suspeitava de que Jason e/ou Sarah soubessem, mas ficava sem graça de perguntar. Ainda mais por que como Zac estudava em um colégio diferente da galera toda, não podia simplesmente aparecer e perguntar.
Mas Zac sabia que eles haviam se formado no ensino médio no ano passado. E se mudaram da cidade também, para fazer faculdade. Todos eles com a exceção de Sarah, que havia saído em turnê com a Panic! at the Disco. A banda havia lançado seu primeiro CD e ele era um sucesso.
Provavelmente Hayley estaria fazendo uma faculdade também, sabe-se lá aonde.
Mas Josh precisava saber mais. Viu o modo que ela estava quando eles conversaram pela última vez e viu o modo como Jason, mais que enfurecido, lhe acertou no rosto gritando que Josh não a merecia por fazê-la sofrer. Se Jason havia feito aquilo, tinha uma razão. E Josh precisava consertar.
Após terminar o café, Josh subiu para o seu quarto. Era incrível a forma que, mesmo depois de tanto tempo, o travesseiro ainda tinha o cheiro dela. O cheiro mais que vicioso dela. Aquilo apenas aumentava sua saudade.
Ah, sim. Josh não conseguia mais agüentar a saudade dela. Parecia que ia deteriorá-lo a qualquer momento. Na guerra fora mais fácil, pois ele estava muito ocupado com a própria sobrevivência. Mas desde que levou o tiro e estava parado, a saudade decidiu tomar conta de Josh. Tomava conta como se Josh não tivesse que fazer mais nada.
Mas o que ele podia fazer? Não sabia nem onde Hayley estava! E outra, ela provavelmente o odiava agora por tê-la deixado. Ela não o entendia! Não iria entender, mesmo que Josh nunca mais voltasse para o exército.
Suspirando e ainda sentindo o cheiro dela no travesseiro, Josh pegou o controle da TV no criado mudo. Apertou o botão de ligar e quase se arrependeu de ter feito aquilo.
A televisão estava no canal de áudio e vídeo, conectada ao DVD, e estava com a tela azul que mostrava a logomarca do aparelho. No canto direito superior da tela, as letras “STOP” estavam escritas.
Josh apertou play.
Então ele se viu na televisão. Não apenas ele. Ele e a Paramore, no festival de música de Franklin. A gravação não estava tão boa, havia sido feita por Ryan do canto do palco. A música que tocava agora era My Heart, e Josh se viu fazendo a segunda voz do refrão enquanto olhava para Hayley, que o olhava de volta com felicidade, mesmo estando tocando teclado e cantando. Ela conseguia ser tudo, afinal.
E estava linda. Como sempre.
Josh sentiu a garganta se fechar, enquanto via ele mesmo cantando na TV. Lembrou-se de relance de que naquela mesma noite, eles haviam ganhado, feito farra até de madrugada na casa da Panic!, e feito amor nesta mesma cama em que ele estava sentado. Afinal, o cheiro dela ainda estava impregnado na cama, nos travesseiros, no quarto inteiro.
Ao final da música, Josh secou a lágrima que havia caído sem que ele percebesse. Se lembrou do quanto ficou com vontade de dar um beijo na namorada após a música acabar, mas não pôde, por que precisava iniciar o próximo solo.
Olhou então para o lado, vendo sua farda pendurada no cabide. Ela era nova, na realidade. Josh havia usado na cerimônia de homenagem aos soldados mortos na guerra, poucos dias antes. Seu nome estava perfeitamente confeccionado no peito esquerdo e haviam duas medalhas presas a farda. Ao lado da farda presa ao cabide, o violão estava parado em cima da cadeira. O mesmo violão que tantas vezes ele tocara e compusera com e para Hayley.
Então, sem pensar, Josh saiu do quarto, pegando apenas as chaves no raque da TV. Desceu as escadas pelo corrimão e logo se viu na rua, indo em direção a casa do pai de Hayley.
Não demorou mais que cinco minutos para ele o fazer. Não passava nada pela cabeça de Josh — nada além de My Heart, que ecoava, palavra por palavra, nota por nota, verso por verso em sua mente. — Ele praticamente corria em direção àquela casa no intuito de chegar lá o mais cedo possível. Não sabia ao certo o porquê — talvez quisesse notícias de Hayley, talvez esperasse encontrá-la passando o fim de semana por lá, já que era sábado —, mas queria chegar lá mais do que tudo.
Quando deu por si, já havia tocado a campainha da casa do Sr. Williams. Colocou as mãos nos bolsos da calça jeans e engoliu sua própria saliva, repreendendo o nervosismo e a falta de fôlego por ir tão rapidamente até lá.
Quando Joey abriu a porta e viu quem estava lá em frente, quase não acreditou. Josh olhou para ele e Joey soube tudo o que o jovem pretendia com aquela visita.
— Josh — Joey disse e Josh assentiu com a cabeça.
— Bom dia, Sr — ele decidiu tratar Joey com a mesma formalidade que o tratava quando namorava Hayley. — Eu... poderia entrar?
Joey hesitou uns segundos antes de concordar com a cabeça e dar espaço para Josh adentrar a casa. Joey dirigiu-se a sua poltrona na sala de estar e Josh sentou-se no sofá.
Suspirou, então. Não sabia o que dizer. Mal sabia o que queria.
— Então... o que te trás até aqui, Josh? — Joey disse, e Josh o olhou.
— Acho que o Senhor sabe... — ele deu meio sorriso sem graça.
— Imagino. Mas me diga exatamente o que quer.
— Eu só... — Josh respirou fundo — Só quero reparar tudo isso... Quero saber como ela está, onde está... Quero... Consertar o que fiz de mal com ela... Quero que ela saiba que eu a amo mais do que tudo...
Joey pigarreou.
— Ouça, Josh — ele o encarou e Josh calou-se. — Foi difícil para Hayley quando você a deixou aqui e foi guerrear. Mesmo que você tivesse seus motivos e eu tenho certeza de que você teve, você errou em não contá-la, e... Ela sofreu muito. Teve que se mudar daqui, para longe das irmãs e dos amigos para tentar se reerguer. E mesmo quando eu ia visitá-la, ela parecia... um tanto abatida, triste. Você fez isso com ela, rapaz. — Joey fez uma pausa. — Eu nunca mais a vi tocando ou cantando. Não até poucos dias atrás, quando eu fui visitá-la. Soube que ela havia composto novamente, e ela mesma cantou para mim. — Josh mal conseguia continuar encarando o ex-sogro, enquanto ele falava. — Então, sim. Ela está bem, agora. Está fazendo faculdade e trabalhando, voltou a apreciar a música, e... está namorando um rapaz.
De repente, Josh não escutou mais nada. Foi como se o mundo parasse de girar por um momento e ele precisasse se manter muito firme para não desmaiar.
— Namorando? — ele disse muito baixo, quase imperceptivelmente.
Joey fez que sim com a cabeça.
— Sim, começou o namoro há poucas semanas — ele pigarreou novamente. — Por isso, Josh, por tudo que você já fez e, por ela... eu não quero que você vá “tentar reparar tudo isso” — ele fez aspas com as mãos. — Você só vai machucá-la mais, agora que ela está se reerguendo, finalmente, da queda que você a deu. Não posso deixar você estragar tudo.
Josh concordou discretamente com a cabeça.
— Eu... — ele não conseguiu formular uma frase. O choque ainda era forte, arrebatador.
— Não posso deixar que ela sofra novamente, Josh — Joey disse, outra vez. — Por isso... se você a ama, deixe-a ir. Deixe-a ser feliz.
Josh precisou refletir durante alguns momentos, até se levantar, quase inexpressivo, e olhar no fundo dos olhos de Joey ao dizer:
— O Senhor tem razão.
Joey o conduziu até a porta de casa e Josh saiu de lá desolado. Sentia vontade de chorar. Sentia raiva de si mesmo, de tudo.
Hayley conseguira levar sua vida sem ele. Havia sofrido, mas havia se reerguido. Agora estava estudando, trabalhando e namorando. Até voltara a compor.
E Josh não podia fazer nada. Nem tentar procurá-la, nada. Por que isso a faria sofrer mais ainda do que ela já sofrera, e Josh sabia que Hayley não merecia sofrimento algum. Seria egoísmo dele descobrir onde ela está e procurá-la.
Se você a ama, deixe-a ir.
Era isso.
Josh amava Hayley demais para deixá-la ir, mas amava mais ainda para fazê-la sofrer.
Ele não voltou imediatamente para casa, depois disso. Precisava pensar no que fazer de agora em diante. Era difícil imaginar seu futuro sem Hayley — por que, sim, ele ainda o fazia com freqüência. Era difícil pensar que ela estava com outro homem agora. Era difícil imaginar que ela estava iniciando sua vida independente e Josh não estava lá para acompanhar. Era... apenas difícil.
Os dias foram se passando, e Josh pensou no que fazer, ao certo. Decidiu se realistar, então. Ele não tinha formação em qualquer outro lugar e precisaria voltar a estudar caso decidisse ingressar em uma faculdade e fazer um serviço qualquer. As imagens da guerra ainda estava mais do que vivas em sua cabeça e ele precisava tratar aquilo tudo, mas não queria ir a um psicólogo — como fora indicado várias vezes —, então logo preparou seu realistamento. Seus superiores receberam extremamente bem a notícia, e Josh tinha mais uma semana até voltar a sua rotina do exército em Louisville. Este, a partir de então, seria seu lar. Mesmo que sem Hayley.
Neste dia em especial, por insistência de Zac, Josh estava arrumado a ir para uma festa de aniversário. Um amigo de Zac estava fazendo dezoito anos e preparara uma festa enorme, com boate e banda ao vivo. Zac tocaria bateria na banda dele, recebendo um cachê básico, e ele pedira para que Josh o acompanhasse, já que Nate não estava lá. Mesmo sem querer, Josh acabou cedendo. Era sua primeira festa em anos de qualquer forma.
Zac conduziu o carro até lá. Quando Josh chegou não havia ninguém no salão que o rapaz havia alugado, afinal, a banda ainda faria uma passagem de som. Eles não eram uma banda em si, apenas se juntaram para comemorar o aniversário do rapaz e recebiam uma bonificação singela em troco disso. Além do mais, todos os garotos gostavam de tocar.
Eles tocariam durante quase duas horas. Haviam selecionado uma enorme lista de músicas, e os convidados ainda podiam pedir alguma que quisessem escutar.
Josh cumprimentou os outros rapazes e ficou vendo Zac tocar. Decidiu então ir se sentar ao balcão de bebidas do salão, mesmo que ainda não estivesse aparentemente aberto, já que ainda faltava uma hora para a festa em si começar.
No fim, o bar tender ainda conseguiu entregar uma cerveja à Josh. Sendo maior de idade — ele já tinha vinte anos —, assim como quase todos os convidados daquela festa, o álcool estava aberto. Por isso Josh apenas pagou o bar tender para servir antes da hora e tomou sua bebida tranquilamente, enquanto escutava a banda de Zac fazer um cover do Foo Fighters.
— Não acredito! — ele escutou uma voz feminina por trás dele e se virou. — Josh? É você mesmo?
— Oi! — ele respondeu, fazendo esforço para abrir um sorriso.
A loira veio para ele e o abraçou durante um tempo, depois parando para admirá-lo.
— Quanto tempo! — ela disse, enfim. — Nossa! Você está bem? Como vai você?
— Ahn... eu vou bem — Josh deu mais um gole da sua cerveja, enquanto ela se sentava no banquinho perto dele. — E você?
— Estou ótima! — ela abriu mais ainda seu sorriso. — Estou trabalhando, sabia? Faço faculdade lá em Nashville de moda e trabalho por aqui, desenhando vestidos. Estou até conseguindo um dinheiro bom com isso.
— Que bom pra você, Jenna — Josh não fez esforço para sorrir. É só que... bem, ele não precisava mesmo que Jenna enchesse seu saco agora.
— Pois é — ela aliviou seu sorriso. — Mas e você? Soube que foi bem difícil... lá... você sabe, com a guerra e tudo mais...
— Não é tão horrível quanto noticiam. A imprensa é muito sensacionalista... — Josh decidiu mentir. Não precisava dizer a todos quantos homens viu morrendo, quanto sangue viu sendo derramado, quanta enfermidade que havia lá, de Nate, ou mesmo do tiro que havia levado. As pessoas não precisavam saber. Era inclusive melhor que elas não soubessem. Elas não conseguiam lidar direito, na maioria das vezes.
— Ah... — fez ela. — Você é amigo do Jon? — Jon era o dono da festa.
— Zac é — Josh deu outro gole. — Me fez vir até aqui para vê-lo tocar. Volto pro exército daqui há uma semana.
— Hum... Isso explica o porquê de você estar aqui tão cedo — ela deu uma risadinha. — Jon é filho do chefe da minha mãe. Então ela veio mais cedo e me trouxe.
— Ah — Josh tentou prestar atenção em sua cerveja.
Não ligava se estava sendo frio com ela. Jenna sabia o que já havia feito para ele e para Hayley. E além do mais, Josh realmente não estava no clima. E desde que voltara da guerra e soubera dos últimos acontecidos, sorrir não era mesmo o seu forte. Mas oras! Ele tinha motivos.
E Jenna (mesmo que estivesse estranhamente decente) consegue ser realmente irritante.
— Bem, foi muito bom rever você — ela disse, sorrindo. — Boa sorte no exército.
Josh apenas acenou com a cabeça, enquanto ela se afastava em direção a um lugar do salão onde estava um pequeno aglomerado de pessoas.
Não demorou muito e o lugar começou a encher. Quando a festa começou de verdade, Josh já havia tomado umas três garrafas de Heineken. Os rapazes faziam covers do tipo Foo Fighters, Coldplay, Oasis e outras boas bandas antigas para a época. A voz do vocalista era um bocado enjoativa, mas ainda assim, eles eram bonzinhos. Josh até deixava um sorriso escapar quando Zac se empolgava e deixava o solo de bateria mais carregado do que deveria estar, mas ainda assim, deixando tudo perfeito. Típico de Zac. Batucar demais e fazer ficar melhor do que o original.
Jenna, por outro lado, parecia ter esquecido de Josh. Ele confessava que achou isso um bocado estranho, já que a loira, pouco tempo antes, tinha uma quase obsessão por ele, fazendo tudo o que fez. Ficou feliz quando concluiu que isso eram tempos de High School. Vez ou outra ele a capturava com o olhar, dançando, conversando com uma amiga ou mesmo com a sua mãe, que também estava na festa. Também teve de notar o quão aquele vestido estava comportado em relação aos vestidos que ela costumava usar. E como ela parecia... menos adolescente. Sim, por que ela havia mudado um bocado. Josh jurava que ela havia crescido, também, mas talvez fosse apenas o salto alto.
Quase duas horas se passaram e a banda de Zac parou de tocar, dando espaço a uma música eletrônica que Josh não reconhecia. Ele logo veio para o lado do irmão.
— Melhorei, não é?
— Muito — Josh teve de gritar para o irmão escutá-lo. Zac deu um sorriso agradecido. — Quanto você ganhou por isso?
— Cinquenta dólares — Zac respondeu, e os dois caíram na risada.
— Duas horas tocando por cinqüenta pratas? É muito amor à profissão! — Josh brincou e Zac deu um tapa no seu ombro.
Josh amava isso em Zac. Era o único que o animava e o lembrava de que, dentro daquele soldado, Josh ainda estava lá.
— Ei, você foi ótimo lá em cima! — eles escutaram uma voz feminina e se viraram, vendo uma garota morena. — Sério, a música não teria ficado boa sem você.
Zac olhou significativamente para Josh e ele de repente entendeu. O lado bom de ser um músico não é o dinheiro.
São as garotas.
— Obrigado, linda — Zac deu o que ele chamava de “sorriso de flerte”. — Mas eu não toco tanto assim, você está sendo gentil.
— Não estou! É verdade, você arrasou. — Josh teve de rir da cara da menina.
— Sou Zac.
— Karen.
— Quer dançar? — Zac ainda estava com o sorriso de flerte no rosto, e logo a menina concordou. Enquanto levava a tal Karen para o meio do salão, Zac fez sinais com a boca e com as mãos, que ficariam totalmente confusos para qualquer pessoa, mas não para Josh.
Zac dizia claramente: “Você deveria pegar alguém, também.”
Josh deu um sorriso, sentindo o olhar pesar e o mundo girar levemente. As cervejas fazendo efeito. Sua fala já estava até arrastada.
— Uma vodca com limão, por favor — Josh se virou e viu Jenna, pedindo a bebida enquanto ria de algo que ele não tinha ideia. — Ah, oi, Josh!
— Oi — Josh acenou com a mão, mesmo que ela estivesse a centímetros de distancia. Ela riu, sentando-se no banquinho ao lado dele.
— É melhor ficar longe da minha mãe, vou avisando — ela disse, e Josh riu.
Sabia bem que a mãe de Jenna era totalmente desequilibrada.
— Obrigado pelo conselho.
Ela apenas riu, ficando sem falar nada por um quarto de minuto.
— Josh, você fica chateado se eu te perguntar uma coisa? — a fala dela parecia arrastada também. Josh já podia ver pessoas insanas de bêbadas, então, eles ainda estavam bem.
— Não, pode falar. — Josh se deu o trabalho de virar para ela e olhá-la.
— Você e Hayley ainda estão juntos? — ela deu um gole da vodca que havia chego. — Por que, sabe, depois que você foi pra guerra ela sumiu, e os amigos dela não disseram nada pra ninguém... Então eu achei...
— Não estamos, não — Josh disse. — Brigamos feio antes de eu ir pro treinamento. Desde então eu não sei dela.
— Ahn... — Jenna torceu os lábios. — Ela deve me odiar até hoje.
— Deve — Josh se deixou dar uma risada.
— Não a culpo — Jenna deu de ombros. — Fiz muita merda no colegial, meu Deus! — ela deu umas risadas. — Levei bonito na cara quando vi o que era a vida de verdade, também. Pelo menos aprendi.
Josh apenas deu um meio sorriso e olhou para o copo em sua frente.
— Se eu pudesse eu não faria o que fiz, sabe? — ela continuou. — Sei lá... quando eu vejo, foi tudo tão... infantil. Desde beijar o Tyler na tua frente, a implicar com ela, e fazer o negócio com o Van, procurar briga no refeitório... Olho pra trás e vejo tudo tão bobo.
— Foi bobo, mesmo — Josh concordou. — Mas eu também não posso dizer que só fiz coisas boas nos meus anos de colegial, também. Tive meus tempos de bad boy.
— Josh — ela se virou para ele. Josh teve certeza de que ela estava bêbada. — Você, Van e Tyler eram muito terríveis com todo mundo daquela escola. E antes de você namorar comigo, lembra o que fazia?
— Lembro — Josh torceu os lábios. — De qualquer forma, não me orgulho disso.
— Nem eu — Jenna disse, tomando o resto do líquido em seu copo. — Quer dançar?
— Não, eu prefiro ficar aqui.
— Josh, qual é! A festa tá rolando e você vai ficar aí parado? — ela apontou pra ele. — Você volta pro exército daqui a poucos dias! Vem dançar, droga!
Josh olhou para o lado e viu Zac beijando a garota com quem estava flertando a pouco tempo.
— Acho melhor eu ficar aqui.
— Ah, dane-se. — Jenna bufou e agarrou o braço de Josh, puxando-o. — Você vai se divertir antes de voltar para o exército.



[...]



Josh abriu os olhos e sentiu como se aquela fosse a pior escolha que já havia feito na vida. Sua cabeça latejou com uma dor nauseante. Tão nauseante que ele teve de se levantar e saiu correndo para o banheiro, que graças à Deus, ficava logo a frente do quarto. Após vomitar e sentir a cabeça doer mais ainda, Josh notou que não estava em sua casa, e estava sem roupas. Lavou o rosto e voltou para o quarto, achando uma loira completamente desgrenhada na cama.
Então os relampejos da noite anterior bombardearam sua cabeça, fazendo-a doer ainda mais. Não se lembrava de muita coisa, mas se lembrava vagamente de como havia chego ali. E o quehavia feito ali.
Achou sua calça perto da porta do quarto desarrumado e se vestiu, ainda com a cabeça martelando e um único pensamento ecoando: “Merda. Transei com Jenna Rice.”
Não que eles nunca tivessem feito aquilo antes, afinal, Josh e Jenna já haviam namorado. Mas Josh não gostava dela! Nem um pouquinho! Na verdade, desgostou dela durante muito tempo. Até a noite passada, para ser específico.
De repente, a cabeça de Jenna se levantou e ela abriu os olhos, parecendo sentir a mesma dor de Josh. Olhou para si mesma e depois para ele, confusa. Depois soltou um palavrão.
Josh teve, então, certeza de que eles dois estavam completamente bêbados.
— Que merda nós... — Jenna começou a falar, mas teve de colocar as mãos na cabeça, por conta da dor.
— Ficamos bêbados — Josh foi até a cabeceira da cama e pegou sua camiseta, vestindo-a.
Jenna se sentou na cama, cobrindo-se com o cobertor, e afundando a cabeça nos joelhos.
— Não acredito.
— Desculpe — Josh disse. — Não era a minha intenção...
— E você não gosta de mim desse jeito, eu sei, Josh. — Jenna não o olhou, apenas continuava com a cabeça baixa. — Aprendi que não posso te ter pra mim no colegial, ainda.
Josh suspirou.
— É melhor eu ir, então. — Após dizer isso, ele apenas apanhou seu celular e saiu da casa dela.


*****



O resto da semana de Josh foi, na verdade, bem comum. Ele não fez mais nada de diferente, nem foi a nenhuma festa, apenas ficou em casa, como vinha fazendo já há algumas semanas desde que voltara da guerra. De repente, ele até se viu ansioso em ir para o quartel em Louisville.
Quando foi preparar sua mala, ele colocou também o DVD do festival de música de Franklin e todas as gravações de celular que ele tinha das musicas ainda não prontas. Queria levar consigo toda lembrança de Hayley, e levou. Partiu para Louisville numa manhã chuvosa de segunda-feira.
No quartel novo, a rotina de treinamento foi dura, mas nada era como uma guerra. Josh, como sempre, impressionou seus coronéis por ser tão ágil, forte e inteligente. Ele era um soldado padrão, para dizer o mínimo.
Não demorou muito para ele passar de soldado à cadete. O desempenho dele na guerra já era conhecido por todos, e ele já era bem respeitado. Josh passava dia e noite se dedicando ao máximo ao exército, mas é claro, sem tirar Hayley da cabeça um só segundo.
O exército havia dado um fim de semana de folga para seus cadetes, e Josh junto a vários outros rapazes iriam passar ele na cidade de Louisville mesmo, já que não queriam voltar para a cidade natal por tão pouco tempo.
Ele estava arrumando a pequena mala para passar o fim de semana na casa de um dos cadetes, quase pronto para sair do quartel, quando chegou-lhe uma carta.
Josh achou estranho o fato de uma carta chegar do nada, mas sentou-se e a abriu. Os outros homens gritavam mais a frente do dormitório, mas Josh já estava acostumado àquilo.
E então, ele ficou mais do que assustado com o que viu. Abriu a boca, em total discordância.
— Há quanto tempo estou aqui? — ele gritou, fazendo com que os outros caras parassem de gritar.
— Eu que vou saber? — um deles respondeu.
— Quanto tempo, droga?!
— Uns dez meses, eu acho — respondeu o outro.
Josh murmurou um “merda”, suspirou e releu a carta. Na verdade, era uma foto de um bebê recém-nascido que dizia o seguinte, no verso:



“Linda a nossa filha, não é?
Melhor você vir ver pessoalmente, antes que eu decida mostrar ela para a vovó e os titios. A pequena Danna vai amar ver o papai dela aqui.
Jenna.”




— Vou voltar pra Franklin — Josh disse.
— Ué, cara, mas você não disse que...
— Preciso voltar — Josh disse, apenas. — Vejo vocês na segunda.
Então Josh saiu, deixando aqueles militares mais do que confusos. Mas logo eles voltaram as suas brincadeiras sem se importar, já que sabiam que Josh não era realmente normal.
Josh pegou o primeiro ônibus que levava até Brentwood e depois, outro até Franklin. Demorou toda a manhã e metade da tarde para chegar na cidadezinha, mas ele estava apavorado. Jenna havia tido uma filha... dele? Isso era...
Terrível!
Ele nem havia tido tempo de tirar sua farda. Apenas se viu batendo na porta da casa da mãe de Jenna, que não tardou a atender.
— Ah — fez ela. — É você. O canalha que engravidou minha filha.
Josh suspirou.
— Ela está?
— Está, sim. Ela e sua criança, seu idiota irresponsável. Igual a ela! Você vai casar com ela!
Josh, novamente, suspirou. Era impossível que ele fizesse algo assim agora! Se casar com Jenna? Por causa de uma criança?
Não, ele jamais faria isso. Não vivia no século XVIII.
Escutando as atrocidades e palavrões da mãe de Jenna, Josh se dirigiu para o quarto dela. Encontrou-a segurando o frágil bebê nos braços.
— Sabia que você viria — ela disse, abrindo um sorriso falso. — Ela tem os seus olhos, amor.
— Não, não tem — Josh disse seco. — Como vou saber se essa criança é minha?
Jenna deu uma gargalhada.
— Ah, só pelo pequeno fato de eu ter feito o teste de DNA — Jenna fingiu estar conversando casualmente. — Quer ver? Tá aí em cima da cômoda. É só ler.
Josh pegou o papel e começou a lê-lo. Notou que eram dois resultados de teste. Um com um tal de Craig J. Perkins, e o outro com Joshua N. Farro. Para um, negativo. Para Josh...
Bem, para Josh, o teste estava como positivo. Danna Elizabeth Rice, como constada no papel, era filha de Joshua N. Farro.
Josh passou uma mão pelo rosto, procurando uma solução para aquele problema todo.
Uma filha. Josh agora tinha uma filha!
Ele não podia ter uma filha agora! Estava prestes a ser promovido de novo no quartel, e além do mais, o que sua família pensaria dele se ele tivesse uma filha?
Josh não estava perto para cuidar dela. Josh... não estava pronto para ser pai.
— Quem é Craig Perkins?
Jenna apenas riu novamente.
— Certo, então vamos começar a história de como a minha vida foi arruinada? Vejamos... Craig. Há dois anos eu vinha namorando um cara incrível chamado Craig Perkins, até que, olha que lindo! Eu engravido dele. Então ele me pede em casamento e nós ficamos noivos. Acontece, que quando a criança nasceu, ele não achou que ela era dele. Ele tem olhos azuis e é loirinho, eu também, então quando ele viu a criança moreninha o que ele pensou? — Jenna ainda mantinha o sorriso sarcástico na cara. — Que a menina não era dele, certo? Então o meu lindo noivo mandou fazer o teste de DNA, e adivinha: deu negativo. Perdi meu noivo e arruinei a minha vida por causa de quem? Ah, é, sua. E dessa criança.
— Minha? — Josh indignou-se. — Você dormiu comigo estando noiva? E a culpa é minha?
— Eu estava bêbada!
— Eu também, ora! — Josh tinha de se segurar para não gritar.
— Acontece que a conseqüência tá aqui, dormindo no meu colo — Jenna disse, bufando. — E já que minha vida tá arruinada mesmo, Josh, não pense que eu vou pensar duas vezes antes de arruinar a sua. Então é melhor você me convencer de não fazer isso.
— Ah, tá — Josh deu um sorriso sarcástico. — É assim que você mudou, não é? É assim que você deixou de ser aquela garota do colegial?
— Quero ver você se controlar depois de parir uma criança sem pai! — Jenna gritou, acordando o bebê, que começou a chorar. — Quero ver você se controlar tendo que agüentar esse chorinho o dia todo, a noite toda! Josh, eu não tenho mais vida! E eu acabo com a sua em um piscar de olhos se você não me ajudar!
— E o que você quer que eu faça?! — Josh esbravejou.
— Quero minha família perfeita de volta! — Jenna disse, enquanto balançava a criança nos braços, tentando acalmá-la.
— Se você não tivesse dormido comigo mesmo estando comprometida isso jamais teria acontecido! A única irresponsável aqui é você, Jenna!
— Vamos ver o que a sua mãe acha disso, então? — Jenna gritou.
Josh passou uma mão pelo rosto e respirou fundo.
— Olha, Jenna, é o seguinte. Nada de família feliz, afinal, você pode arrumar qualquer cara só piscando os olhos. Então eu te compro um apartamento confortável em Brentwood, eu faço com que vocês duas tenham uma vida ótima e pago os estudos dela até a faculdade, certo? Mas... eu não posso deixar com que as pessoas saibam disso agora. Eu não posso ter uma filha.
— Você acha que vai arrumar minha vida com dinheiro? — ela bufou.
— Eu pago uma babá pra criança também! — Josh gritou. — Mando pensão e tudo mais para ela, ok? Mas eu não posso registrá-la! Não posso deixar com que a minha família saiba disso!
Jenna parou de falar por um momento. Parecia extremamente balançada. Josh suspirou, procurando calma para prosseguir:
— Você cuida de educar a menina, e eu vou pagando por isso. Ganhei um ótimo reembolso por causa da guerra que está depositado e o que eu ganho no quartel não é pouco.
Jenna suspirou.
— Certo — ela disse, mesmo que parecesse um pouco insatisfeita. — Já que arruinei minha vida mesmo, que ganhe com isso. Mas já vou avisando: se faltar com a sua palavra, você está frito.
Josh fez que sim com a cabeça, respirando um bocado aliviado.
Naquele mesmo dia, Josh foi até o banco e transferiu uma quantia boa de dinheiro para a conta de Jenna. Não conseguiu olhar para o rosto da criança, e por isso, logo voltou para Louisville.
Ele se sentia mal por estar fazendo o que fazia, mas Josh não podia ter uma filha agora, que o pegara tão de surpresa. Iria atrapalhá-lo no exército, em sua casa, na sociedade em si. Josh não podia.
Mas ele estava errado.
Era uma pena que ele nem sequer imaginava que quatro anos depois viria a reencontrar Hayley e posteriormente casar-se com ela, transformando tudo isso numa grande bola de neve.
E esses são os problemas das bolas de neve. Elas podem começar pequenas, mas conforme rodam, ficam maiores e maiores.
E, vinte e um anos depois, quando Josh deu por si, já tinha uma enorme avalanche nas mãos.

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