23 de set de 2012

Capítulo 51

Runaway with my love!



Com os olhos ainda marejados, ela sentou-se na larga poltrona, indiferente às pessoas que ao seu redor faziam o mesmo. Em suas mãos, havia apenas uma pequena mala, a única coisa que ela decidiu que precisava levar consigo. Escutou o som nada importante de uma mulher qualquer dizendo-a para apertar o cinto de segurança e o fez automaticamente, com cuidado para não deixar a mala cair. Não queria guardá-la no recipiente acima de si. Queria, precisava levá-la em seu colo, consigo, a todo tempo. Era sua última lembrança dele.
Não se importou em secar uma lágrima que desceu pela sua bochecha e fungou levemente. Afinal, o que era apenas uma lágrima dentre tantas que já haviam sido derramadas ao longo daqueles três dias? Ora. Era como secar apenas uma gota d’água de alguém que já estava completamente molhado. Uma lágrima, aquela lágrima, que havia saído dos olhos dela, já não tinha a mínima importância. Não depois dos três dias mais confusos, tristes, terríveis e culposos de seus dezessete anos de vida.
Dezessete anos, esses, que ela completava hoje. Vinte e sete de agosto. E ao invés de estar em casa, comemorando com seus familiares e atendendo todas as ligações de seu namorado, ela estava sentada e amarrada a uma poltrona de um avião.
Um avião com destino à Londres.
Sophie recostou a cabeça e apertou as mãos contra a barriga quando o avião decolou. Pegou-se encarando sua barriga pela, sei lá, ducentésima vez, logo depois. Havia uma criança ali.Mesmo que a ficha já tivesse caído, mesmo que ela já estivesse ciente de tudo o que havia feito e estava fazendo, ainda era tão difícil de aceitar... Tão difícil de aceitar e entender que um bebê estava dentro dela agora. Não havia como negar, Sophie estava com medo. Não com medo da reação das pessoas, uma vez que ela estava indo para longe de todas as que importavam, mas com medo de... bom, ela não sabia bem de quê. Talvez de alguém descobrir, ou de seu corpo jovem não estar preparado o suficiente para gerar uma criança agora. Tantos medos. Tantas coisas.
Mas apesar de tudo, Sophie sentia que estava fazendo o que deveria fazer. Mesmo carregando toda a culpa e as palavras de desgosto de Nate, de Danna, e de Jenny. Mesmo separando-se mais uma vez da sua família. Mesmo tendo visto, ainda há pouco, o rosto choroso de Joe dizendo que iria morrer de saudades. Mesmo vendo Hayley se controlando para não chorar também, e mesmo depois de ter abraçado Josh o mais forte que já havia abraçado em sua vida. Ainda assim ela sentia estar fazendo a coisa certa. Mesmo que para isso, ela precisasse ser tachada de egoísta e insensível. Preferia fazer com que todos ficassem com raiva dela do que arruinar suas vidas.
Lembrou-se de Danna mais uma vez. Lembrou-se da conversa que tivera com ela, e da cara surpresa que ela fez quando Sophie disse que não iria criar o bebê.
— Você... vai... abortar? — era o que Danna havia perguntado em voz baixa, pasma, ainda sem acreditar nas palavras da irmã. Simplesmente parecia que não esperava por aquelas palavras.
Sophie fez que não levemente, deixando-se suspirar.
— Não consigo — ela ainda negava com a cabeça, a voz completamente rouca e perdida. — Não consigo. — Ela repetiu, tentando impor melhor sua voz, mas ela apenas pareceu mais chorosa. Seus olhos já marejavam novamente.
Danna, por sua vez, mesmo que estivesse completamente paralisada, deixou que uma linha de preocupação se fizesse em seu rosto preocupado.
— Então...? — ela deixou a pergunta no ar, sem entender o que a irmã queria dizer com todas aquelas palavras. Sophie suspirou novamente.
— Não estou preparada para criar uma criança agora, Danna — confessou ela, olhando para as próprias mãos. — Nem eu, nem Luke. E nossa família não está pronta para lidar com uma adolescente idiota, irresponsável e grávida. Eu... não vou criar essa criança, por que... eu vou arruinar tudo. Todo mundo... — Sophie deixou a frase no ar, incapaz de continuar falando, pois sua voz já havia aumentado de tom e embargado-se pelo choro que subiu sem dó pela sua garganta. Precisou fazer uma pausa para deixar com que as lágrimas invadissem-na mais uma vez, incapaz de segurá-las. Droga, estava tão perdida... tão arruinada! E o pior era sua irresponsabilidade poderia afetar a todos ao seu redor, e ela não podia deixar isso acontecer. Foi por isso que, sem tentar controlar seu choro, ela voltou a dizer para a irmã: — Eu vou... pra Inglaterra... Laurent Louis... e vou deixar meu filho com uma família que esteja preparada para... lhe dar todo o amor e o apoio que ele... que ele precisa pra crescer...
Vendo Sophie cair em choro compulsivo novamente, Danna não conseguiu conter suas próprias lágrimas. Mesmo assim, uma ponta de indignação subiu pelo seu peito.
— Você não pode fazer isso! — exclamou a mais velha, com a voz praticamente normalizada, limpando as duas lágrimas que haviam caído de seus olhos rapidamente. — Sophie, o filho é seu, você não pode... escondê-loVocê é a mãe dele, você precisa criá-lo!
— Eu não posso! — Sophie quase gritou entre seu choro copioso. — Eu não consigo! Eu só tenho dezesseis anos! Danna... Eu não posso tirar Luke de Nova Iorque... eu não posso lidar com toda a reprovação... eu vou acabar... com o meu futuro, o futuro das pessoas... Eu não estou apta! E se eu ficar com essa criança, Luke vai ter que voltar pra cá, e vai dar tudo errado! Por que nós somos... muito novos!
— Mesmo assim — Danna disse, retrucando, a voz com um tom de desespero. — É o seu filho. Você não pode deixar de criar o seu próprio filho, Soph! Eu não posso deixar isso acontecer!
— Danna, pelo amor de Deus — Sophie continuou, sem se preocupar em parar de chorar. — Você é... um exemplo! Você sabe o que é crescer sem pai, você sabe o que é ser fruto de um casal jovem demais que foi irresponsável! Me responde, por favor... você não preferia ter sido criada por uma família adotiva que te amava ao invés da tua mãe de sangue que... não ligava pra você?
De repente, Danna havia ficado sem palavras. Abaixou a cabeça lentamente, sentindo as lágrimas saírem com um pouco mais de força de seus olhos, sentindo em seu íntimo que Sophie tinha e não tinha razão ao mesmo tempo. Estava confusa. Não conseguiu responder.
— Acima da... minha vida, da vida do Luke, e de todo mundo que nos rodeia, Danna... eu estou pensando na vida do bebê... ele não tem nada a ver com essa história... ele precisa vir ao mundo e ser... ser amado e criado por pessoas que tenham esse tipo... esse tipo de estrutura... — Sophie continuou dizendo, sem abandonar a voz completamente embargada pelo choro incessante. Danna, ainda de cabeça baixa, perguntou:
— Mas e o Luke?
Sophie deixou-se soluçar outra vez. Não respondeu de imediato à pergunta de Danna, mesmo que soubesse a resposta, mesmo que soubesse o que diria para Luke, pois era exatamente nisso que ela estava pensando desde o momento em que descobriu que estava grávida. Mas quando finalmente se sentiu apta a dizer seus pensamentos em voz alta, ela fungou:
— Eu vou ter que fazer isso... Eu... vou dizer... que não fui aceita em Juilliard e... — seu choro já estava compulsivo, e foi com um fio de voz que ela terminou a frase — ...e eu vou pra Laurent Louis construir meu futuro.
Danna olhou para baixo e passou uma mão pelo rosto. Não soube como conseguiu sussurrar:
— Você vai machucá-lo.
Sophie soluçou.
— Eu sei — ela disse, a voz oitavada, a dor cortando-lhe o coração como uma faca afiada. — Eu sei.
Posteriormente Danna havia abraçado-a durante um bom período de tempo, sem dizer nada, e Sophie não se lembrava de ter se sentido tão mal como se sentiu naquele momento. Era incrível como agora, dentro daquele avião, ela se sentia igualmente perdida. Como no primeiro momento em que descobrira sobre a gravidez.
Sophie sabia que iria machucar Luke. Sabia que iria machucá-lo tanto a ponto de que ele passasse a odiá-la para o resto de sua vida. E machucava-a, como machucava-a saber que ela estava fazendo isso com ele. Só Deus sabe a dor que invadiu seu coração quando ela atendeu o telefonema de Luke naquela mesma noite, pronta para ser forte e fria, pronta para dizer que ela iria para a Inglaterra na segunda-feira só por que precisava seguir seu futuro na música.
Mas no mesmo momento em que ela escutou sua voz doce, perfeita e viciosa, as lágrimas começaram a sair de seus olhos. E ela soube que se respondesse ao seu “boa noite, minha linda”, acabaria dizendo todos os seus problemas. Sabia que o que sairia de sua boca não seria um “Luke, eu preciso conversar com você”, e sim um “Luke... eu estou grávida”.
Foi por isso que ela encerrou a ligação antes de soluçar e desligou o celular em seguida. Não iria conseguir falar com Luke, ela... não era capaz.
Então, do telefone de Danna, Sophie ligou para Julia e lhe relatou toda a situação. Mas ao invés de julgar Sophie por não querer ficar com a criança, tudo o que Julia disse foi: “vai ser menino! Pode escrever o que eu estou dizendo, essa criança é um moleque!”.
Sophie apenas riu entre seu choro, enquanto escutava Julia fazer piadas e suposições sobre o sexo do bebê. Julia deveria ser a única pessoa no mundo que conseguia fazê-la rir independente da ocasião, mesmo que ela fosse a mais crítica possível.
Com certeza, sua conversa por telefone com Julia fora muito melhor do que sua conversa por telefone com Nate. Depois de ter relatado toda a mentira, Nate lançou-lhe todas as palavras de julgamento que tinha. Disse que ela estava sendo egoísta e insensível — ela esperava por isso — por estar indo para a Inglaterra por vontade própria. Por estar largando o amor da vida dela por que queria. Tentou convencê-la a ficar de todas as maneiras, mas Sophie apenas desligou o telefone quando sentiu que já não aguentava mais escutar a voz acusatória do irmão. Nate estava claramente julgando-a por fazer uma coisa que Julia fez por que não tinha escolha. Achava um absurdo. E Sophie não estava conseguindo lidar com toda a dor que sentia a cada palavra que Nate dizia, por que mesmo que o motivo fosse uma mentira, o fundo de razão cabia muito bem. Isso estava matando-a.
Quanto a Hayley, Josh e Joe, eles voaram de volta para Nashville o mais rápido que puderam, deixando duas entrevistas de Joe pendentes na Califórnia. Conseguiram encontrá-la no aeroporto, e Sophie passara a última hora se despedindo deles. Mesmo que Hayley se controlasse para não chorar, parecia que ia enlouquecer com outro filho longe dela, ela mesma havia dito isso. Sophie precisou repetir todo o seu monólogo sobre seguir seu futuro na música, dizendo que se ela não terminasse o ensino médio na Inglaterra jamais seria aceita novamente e, por isso, precisava ir imediatamente. Falou sobre sua audiência terrível na Juilliard School, argumentando que ela precisava seguir seu sonho conforme seus pais haviam lhe ensinado.
Claro que sua argumentação bem feita e bem ensaiada deu certo. Já havia dado quando conversou com eles por telefone, mas quando aquele Joseph com lágrimas nos olhos perguntou sobre Luke, Sophie simplesmente não conseguiu dizer nada. Já havia ensaiado milhares de desculpas antes, mas ela não conseguia mentir sobre isso. As palavras simplesmente não saíam de sua garganta.
Talvez, por entender isso, seus pais e seu irmão mais novo não perguntaram mais nada. Sophie fez Joe prometer que iria ficar bem e escrever muitas histórias, e Joe fez Sophie prometer que ligaria todo dia e seria a maior pianista de todos os tempos. Quando eles deram o último abraço, Sophie já estava chorando.
Agora o avião avançava para longe de sua família, seus amigos e seu namorado. Ou melhor, ex-namorado, já que Sophie tinha certeza de que ele iria detestá-la para sempre assim que lesse sua carta. Sim, por que ela fora fraca o suficiente para desligar todos os telefones que tinha e lhe mandar apenas uma carta, fria e inexpressiva, dizendo o porquê de estar indo embora para longe dele. Uma única carta, de uma única página, que ela havia levado cinco horas para escrever. Uma carta idiota e mentirosa, que não continha uma só palavra que ela realmente queria dizer a ele. Uma carta escrita em caneta preta, com uma caligrafia igual demais, sem nenhum “eu te amo” ou “eu vou voltar para você”. Uma carta mentirosa, fria, terrível, e que provavelmente cortaria o coração daquele que ela amava mais do que tudo em mil pedaços.
Depois da experiência exaustiva de escrever a carta, Sophie não a releu. Sentia-se enojada por ter escrito aquele monte de mentiras e friezas. Sentia-se suja por ter tido a coragem de colocar um “me desculpe” no canto inferior esquerdo do papel. Sentia-se, acima de tudo, acabada por estar realmente fazendo aquilo. E quando colocou a carta no correio, sentiu como se uma faca houvesse atravessado seu coração, e teve de se segurar para não começar a chorar novamente no meio de todas aquelas pessoas. Por que pareceu que só naquele momento ela teve a consciência de que Luke nunca mais seria dela. Ela nunca mais sentiria seu cheiro. Nunca mais sentiria as mãos dele em sua volta. Nunca mais tomaria seus lábios aos dela. Nunca mais faria amor com ele. Nunca mais riria ao ouvir suas idiotices, nunca mais olharia no fundo de seus olhos azuis e lhe diria, com todo o amor que tinha no coração, que o odiava, só para irritar. Nunca mais seria dele.
Ele não sabia. Ele não sabia, mas Sophie ainda o amava, e o amava mais do que tudo o que havia no mundo. Mais do que a si mesma e sim, mais do que tudo o que a rodeava. Ele não sabia, mas Sophie estava fazendo aquilo para poupá-lo de uma vida que ele não havia escolhido. Ele não sabia, mas Sophie não estava indo embora por que não o amava.
Ela estava indo embora por que o amava demais.
Passando as mãos pelos olhos molhados, Sophie abriu lentamente a mala que carregava. Ela sabia o que havia ali. Um notebook já carregado, fones de ouvido, um pen drive e uma carta. E, ah, três fotografias e um Woodstock de pelúcia. Sophie não havia conseguido colocá-los em outra mala.
Com os dedos trêmulos, a garota de cabelos ruivos estridentes segurou com delicadeza a carta e releu as palavras que estavam no envelope.


“De Luke; Para Sophie.
SÓ LEIA QUANDO A SAUDADE SE TORNAR INSUPORTÁVEL.”


Bem, se ela fosse analisar, o que mais havia nela agora, tirando toda a dor, insegurança, culpa e perdição, era saudade. Sophie estava simplesmente morrendo de saudades de Luke.
Ainda mais quando sabia que eles jamais ficariam juntos de novo. Ainda mais quando sabia que tudo havia sido arruinado no momento em que aquela carta foi posta no correio. Droga, por que tudo tinha de ser assim? Por que esse bebê não havia esperado um pouquinho, apenas mais um pouquinho para vir? Caramba, o futuro dos dois já estava traçado! Sophie amava tanto Luke, e eles já haviam planejado tudo! Por que, vida, você decidiu dar uma reviravolta tão grande? Por que, destino, você não agiu de acordo com o que era melhor para os dois?
Por quê?
Ah, Sophie sabia o porquê, entretanto. A vida havia dado essa reviravolta por que tanto Sophie quanto Luke haviam sido irresponsáveis. Burros. Inconsequentes.
E agora ela estava ali, chorando. Sabendo que, muito provavelmente, o garoto que ela amava estaria chorando também, dentro de um campus de uma universidade.
Encarando o papel em sua mão, Sophie respirou fundo. Sua mão ainda tremia quando ela abriu a carta que não era muito grande. Apenas uma página da letra itálica e desigual de Luke. Suas mãos estavam suando e ela limpou-as da melhor forma que pôde, antes de pôr-se a ler.



“Querida Garota Chata, Insuportável, Estúpida e Boba.
Gostaria de saber como foi a sua reação depois de ver minha saudação amorosa. Quer dizer, eu acho que você deve ter rido, ou murmurado que eu sou chato, insuportável, estúpido e bobo também. Ou talvez ter pensado que vai me bater quando me vir da próxima vez, o que acho muito improvável, por que eu vou estar morrendo de saudades de você e só vou deixar você me bater depois de te matar de beijos.
Mas que merda, nós ainda nem nos separamos e eu já tô com saudades. ):
Bem, caso queira saber, são quatro e quarenta e dois da manhã de terça-feira e eu estou sentado naquela poltrona do lado da janela, escrevendo essa carta e te vendo dormir. Daqui a alguns minutos você vai embarcar naquele avião sem graça sem mim, e vai me deixar aqui desamparado e sozinho como um cachorrinho que não tem dono.
Certo, parei de drama.
Já te falei o quão linda você é dormindo? Meu Deus, dá vontade de te beijar inteira, mas não dá pra fazer isso por que você acordaria. Entende o meu dilema? Poxa vida, pare de ser linda assim enquanto dorme. Mentira, não pare. Caramba, você se mexeu e suspirou, quero oficialmente te morder agora. Você é perfeita demais dormindo, por favor, e depois ainda pergunta o porquê de eu tirar tantas fotos do seu sono. Mas entenda que é mais forte do que eu! Por que, meu Deus, você é linda dormindo. É linda de qualquer jeito, na verdade.
Tudo bem, eu sou idiota.
Mas é que é difícil falar alguma coisa bonitinha e que preste quando você é tão linda desse jeito.
Certo. É mais fácil elogiar você escrevendo, por que você não fica corada e nem me pede pra parar. Sabia disso? Acho que vou tentar mais vezes.
Enfim, me deixe ir direto ao ponto. Eu pedi pra você abrir essa carta apenas quando a saudade estivesse insuportável, então, você provavelmente está sentindo muito a minha falta.
O que eu quero que você saiba, Sophie, minha linda, é que eu também estou sentindo a sua. E quero que você saiba que não importa que dia seja hoje, a qual hora você esteja lendo isso, ou quanto tempo faça. Eu estou pensando em você. Isso por que você já se tornou parte de mim, e eu já te amo mais do que tudo.
Quando você sentir minha falta, releia isso, e repasse na sua cabeça: EU TE AMO. E nós vamos ficar juntos outra vez daqui a alguns meses. Já estou contando os segundos. Mesmo, é claro, que você esteja dormindo como um anjo perfeito aqui na minha frente.
Quanto ao pacote, que você já deve ter visto, eu não aguentei e mordi um chocolate. Estava ótimo. Espero que você tenha gostado do Woodstock, também.
Agora vai ver o que tem no pen drive (:
Um monte de beijos,
O Cara que Te Ama.”



Sophie terminou de ler a carta controlando-se para não soluçar, fungando. Conseguia até imaginar Luke quando escrevera essa carta, na poltrona cor de marfim que havia na janela do apartamento de Brendon, sentado em cima de uma perna e balançando a outra. Naquela noite ele estava usando o short verde musgo curto de dormir que Sophie gostava de zoar, por que deixava suas coxas maiores do que realmente eram. Ela apenas chorou outra vez, lembrando-se disso, de coisas tão pequenas e insignificantes, mas que para ela agora pareciam tão grandes, significativas e distantes. Droga, ela era uma idiota! Uma verdadeira idiota! Por que não havia usado a porcaria da camisinha naquele dia?! Por que não havia negado, ou qualquer coisa, qualquer coisa, para não estar onde estava agora? Ela sabia as consequências, caramba, ela crescera sabendo! Para que adiantaram os sermões, as aulas? Para ela acabar onde estava agora? No avião em direção à Londres, indo entregarseu filho para outra família? Merda! Por que fora tão burra? Por que fora tão irresponsável? Por que não pensara um pouquinho que fosse? Caramba! Ela não precisava estar passando por isso! Ela não precisava estar se separando do único homem que amava! Ela não precisava deixar toda a sua família e ir embora para outro país, inferno, ela não precisava!
Ela só precisava ter sido um pouquinho mais responsável. Um pouquinho.
Devagar, ainda fungando, ela ligou seu computador portátil, balançando o pen drive nos dedos. Os trinta segundos que o notebook demorou para ligar pareceram uma eternidade, e Sophie não esperou todos os programas iniciarem para conectar o pen drive em uma das saídas USB. A pasta se abriu cinco segundos depois e Sophie deixou com que mais lágrimas caíssem de seus olhos ao ver o único arquivo que nela continha.
Um vídeo. Um único vídeo.
Ela não conseguia identificar a miniatura, mas o nome estava bem legível. “Wherever You Will Go – Luke & Sophie”. Ela colocou os fones de ouvido e hesitou antes de clicar no vídeo, que tomou toda a tela do completo imediatamente.
Ao reconhecer a música Wherever You Will Go – The Calling logo na introdução do vídeo, seu choro silencioso se tornou mais forte do que já estava. A primeira tela era branca, com o nome dos dois escrito em vermelho. De repente, a música ganhou menos intensidade, e Sophie viu o rosto de Luke tomar a tela do computador. Ele sorria.



So lately, been wondering, who will be there to take my place. When I'm gone, you'll need love, to light the shadows on your face.(Ultimamente, tenho pensado, quem ocupará meu lugar. Quando eu me for, você vai precisar de amor, para iluminar as sombras do teu rosto.)




“Oi, minha chata” ele havia dito logo de cara. A câmera apenas tomava uma parte de seu rosto e pescoço, e tremia bastante. Ele com certeza estava segurando-a com uma das mãos. Luke riu, seus globos azuis brilhando mais do que nunca. “Tudo bem com você, linda? Bem, independente de quando você esteja vendo isso, eu realmente espero que sim. Mas eu... eu estou bem, se quer saber. Hoje é nosso primeiro dia em Nova Iorque, são cinco e pouco da tarde, e você está dormindo por que passou os últimos dias pilhada por causa da Juilliard e nós fizemos nossa última apresentação nas Rock Friday Nights ontem. Nós comemos panquecas, lavamos a louça, conversamos um monte e eu fiquei te vendo adormecer. Então, é, eu estou bem. Quanto a esse vídeo, eu não tenho ideia do que vai acontecer nele... mas eu já vou dizer que esse vídeo vai ter o intuito de você nunca esquecer o quanto nós somos ligados e o quanto isso é real. É pra você nunca esquecer do quanto gosta de ficar comigo.” Luke deu uma risada, mexendo em seu cabelo e fazendo a câmera sair de foco por alguns segundos. “Infelizmente, nós vamos nos separar, e... tudo bem, vai ser só por alguns meses. Esse vídeo vai ser mesmo pra você matar um pouco da saudade e se lembrar do quanto eu te amo. Bem, eu acho que vai, por que eu ainda não sei o que vou colocar nele, mas enfim, você já vai ver. Eu vou voltar no fim do vídeo com outra gravação final, eu acho”.
Sophie precisou levar as mãos ao rosto para tentar impedir os soluços de voltarem com toda a força. Não sabia exatamente o que estava sentindo — tristeza, culpa, desapontamento, perdição? —, mas nem sequer tivera tempo para pensar nisso. Logo o rosto de Luke saiu do computador e a música começou a tocar com mais intensidade, enquanto as letras em vermelho reapareciam no monitor.



“Você sabe que o nosso amor não é comum. Há sempre uma pitada de implicância... Mas o que seria de nós sem isso?”



Sorria” o rosto de Luke reapareceu na tela. Só que dessa vez, ele estava acompanhado dela, de Sophie, e ela se lembrou claramente desse dia enquanto via a gravação. Eles estavam na varanda de Brendon, na última noite em que ela passara em NYC.
“Estou sorrindo” a Sophie do vídeo respondeu a Luke, e fez um sorriso para a câmera que estava a sua frente. Luke sorriu também, mas diferente dela, seu sorriso parecia sacana. Sophie podia ver isso agora. “Não vai tirar essa foto?” ela havia parado de sorrir e se virado para Luke, que começou a gargalhar. “Você tá gravando?!”
Após isso, a imagem ficou completamente tremida, pois Sophie havia retirado a câmera das mãos do namorado. E enquanto assistia isso, a mesma Sophie que depois dessa cena havia batido nos ombros do namorado e xingado-o de idiota, estava controlando-se ao máximo para não soluçar. Segurava seu rosto com as mãos, fungando loucamente, sentindo a boca salgada pelo gosto das lágrimas incessantes que saíam de seus olhos.
Não dava para acreditar que ela nunca mais teria aquele tipo de briguinha boba com Luke. Não dava para acreditar que aquilo havia acontecido há sete dias atrás. Sete dias, droga! Uma semana apenas! Não dava para acreditar que tanta coisa havia mudado em tão pouco tempo... não dava para acreditar que essa onda havia atingido-a e transformado-a assim. Não dava para acreditar que tão pouco tempo havia passado para que sua vida virasse de cabeça para baixo dessa forma.
Não dava para acreditar que tão pouco tempo havia sido o suficiente para decretar que Luke nunca mais estaria em sua vida.



If a great wave shall fall and fall upon us all. Then between the sand and stone, could you make it on your own?(Se uma grande onda cair e cair sobre todos nós. Então entre a areia e a pedra, você conseguiria se virar sozinha?).



Logo a tela do computador foi preenchida por um punhado de fotos deles, que passavam conforme a música tocava. Sophie mal conseguiu se aguentar quando viu uma garotinha de dois anos de idade, com o cabelo loiro trançado delicadamente, sorrindo abertamente enquanto apertava a mão de um garotinho de quatro aninhos e cabelo castanho caído pelos olhos azuis. Ele segurava a mão da garotinha com a mão direita e segurava um bicho de pelúcia com a esquerda, enquanto sorria com gosto para a foto. Sophie, Luke, e Perry, há vários anos atrás. Sophie nem sabia falar direito, mas já sabia amar, e amava Luke, seu melhor amigo, com todo o coração. Logo depois a foto foi substituída por outra, de duas crianças magricelas, concentradas em um violão. O cabelo já mais acobreado de Sophie estava longo, caído pelas costas, e tapava metade de seu rosto. Luke, magrinho como nunca, estava com o cabelo bem curto, uma das poucas épocas da sua vida que seu cabelo não era totalmente esquisito. Ele devia ter uns nove anos nessa foto, Sophie nem se lembrava da existência dela. Depois, a foto foi substituída por um casalzinho tão jovem quanto poderia, que sorria, e mostrava suas mãos para a câmera. Mãos essas que continham pequenas alianças de papel no quarto dedo esquerdo. Sophie deixou-se soluçar, sentindo as lembranças daquele dia tomarem conta dela de uma vez, rapidamente, por completo. Era tão jovem, mas sabia que futuro almejava, e sabia que ele se encontrava ao lado de Luke.
O futuro que Sophie queria desde criança não seria mais o futuro que ela teria. Não mais.
Logo a foto foi tirada da tela, dando espaço à outra tela branca.



“Essas são nossas fotos de quando éramos bebês mais legais, não acha?
Você pode não acreditar, mas eu me lembro da história de todas elas. A primeira, eu tinha cinco anos, e o Perry havia descosturado uma parte do bico. Minha mãe estava arrumando isso quando e eu estava enchendo o saco dela, quando meu pai apareceu dizendo que tia Hayley estava “ganhando neném”. Lembro de ter perguntado pro meu pai o que era isso, e ele disse que ela ia ter outro filhinho.
Então meu pai trouxe você pra casa, já que ninguém podia cuidar de você. Minha mãe, pra aliviar a tensão, trançou o seu cabelo, e eu pedi pra ela tirar uma foto. Você dormiu na minha casa durante uma semana inteira (tia Hayley estava no hospital, se recuperando do parto cesariano, e tio Josh não saía de lá por nada), e acho que foi aí que eu descobri que amava você mais do que tudo e iria viver contigo o resto da minha vida.
A segunda, foi assim que eu aprendi a tocar My Heart. Passei quase duas semanas de treino intenso, tentando de todas as formas tocar bem certinho. Quando consegui, a primeira pessoa que mostrei foi pra você, e você pediu pra aprender também. Passamos o resto da tarde entretidos em apenas um violão, e meu pai achou tão bonitinho que tirou uma foto quando não estávamos olhando.
Quanto à terceira... bem, eu não sei se preciso contar a história, certo?”


Não, Sophie pensou, chorando, com o coração doendo tanto que mal conseguia respirar. Não precisa —, ela completou, esgotada pelo vídeo e pelas lembranças e culpas que ele lhe trazia, mas sem nenhuma coragem de parar de vê-lo ou desviar o olhar do computador. Mesmo que estivesse doendo, maltratando, machucando, corroendo, ela não podia parar de ver. Ela não podia, por que era aquela sua última lembrança de Luke, e da vida que tivera com ele. A vida que deveria ter com ele.
E que agora não teria mais.



If I could, then I would. I'll go wherever you will go.
Way up high or down low. I'll go wherever you will go.
(Se eu pudesse, eu iria. Eu vou para onde quer que você vá.
Bem lá em cima ou lá embaixo. Eu vou para onde quer que você vá.)




Sophie já não se importava mais em controlar seu choro quando a próxima tela apareceu. Agora, passavam-se fotos deles mais recentes, que haviam tirado em Nova Iorque, e junto a elas, palavras escritas em uma fonte simples e bonita.



“Sinceramente, linda, eu não acho que nosso amor tenha mais jeito. Por que, caramba... olha só tudo isso. Reflete um pouquinho sobre tudo o que nós passamos. Quer dizer, eu não conheço muitos caras de dezoito anos que podem dizer, com toda a certeza do mundo, que tem uma jornada com a pessoa que ama. Sabe? É uma coisa tão antiga, e tão pura. E eu não me vejo mais deixando de te amar. Por isso eu acho que o nosso amor não tem mais jeito, por que, fala sério, você me pegou. Me amarrou. Me enlouqueceu. Me fez virar um idiota confuso bobo e apaixonado. Me fez amar todos os seus defeitos, inclusive os que eu odiava.
E eu tenho pra mim que quando isso acontece, já era. Não tem mais jeito. É para sempre.
Mesmo assim eu tô meio apreensivo em ficar seis meses longe de você. E nós dois sabemos que você está vendo esse vídeo por que está com saudades. Por isso, eu quero que você saiba, que a cada dia que se passa, é um dia a menos. Continuarei te mandando cartas e te telefonando sempre, só pra ouvir sua voz perfeita. Vamos dar um jeito de amenizar isso.
Até o dia em que você for completamente minha.”




And maybe, I'll find out, a way to make it back someday. To watch you, to guide you… through the darkest of your days.
If a great wave shall fall and fall upon us all. Then I hope there's someone out there who can bring me back to you.
(E talvez, eu descubra, um modo de conseguir voltar algum dia. Para te vigiar, para te guiar... nos seus dias mais obscuros.
Se uma grande onda cair e cair sobre todos nós. Então eu espero que haja alguém lá que possa me trazer de volta para você.)




As fotos que eles tiraram em NYC continuavam passando sem parar, enquanto Sophie fungava copiosamente naquela poltrona fria daquele avião que rumava sem parar até outro país. Luke... colocara tanta esperança naquilo! Naquele futuro, tanta esperança nela. Sophie o amava tanto... mas não podia voltar, não podia dizer para ele e arruinar sua vida, ela... não podia fazer isso.
Lembrou-se da sua carta e sentiu vontade de vomitar, mas não o fez. Dessa vez não era o bebê que provocava seu enjoo. Dessa vez, era sua própria inconsequência e irresponsabilidade. A visão de Luke, seu Luke, desolado por ter sido largado por uma garota insensível que um dia dissera que o amava. Sophie nem conseguia pensar como Luke estaria agora, e nem queria, pois isso apenas contribuía para que ela se sentisse pior. Em relação a tudo.
Idiota. Irresponsável. Estragou tudo. Tirou ele de você. Seu amor. Tirou seu amor de você.



If I could, then I would. I'll go wherever you will go.
Way up high or down low. 
I'll go wherever you will go.
(Se eu pudesse, eu iria. Eu vou para onde quer que você vá.
Bem lá em cima ou lá embaixo. Eu vou para onde quer que você vá.)

Runaway with my heart! Runaway with my hope!Runaway with my love!
(Fuja com o meu coração! Fuja com a minha esperança!
Fuja com o meu amor!)



“Oi, chatinha” o rosto de Luke apareceu novamente na tela, e a música ficou ao fundo, tocando baixinho. Sophie mal conseguia respirar, ao ver aquele rosto tão lindo, inchado de sono, o cabelo superbagunçado, o olhar mais escuro do que o normal pela pouca iluminação do único abajur do quarto. “Bem... infelizmente, esse é o fim do vídeo. Eu já juntei tudo o que precisava e espero que você tenha gostado da coisinha que fiz” ele deu uma meia risada. “Hoje é terça-feira, devem ser umas quatro e pouco da manhã. Você já está dormindo há um tempo. Nós passamos a noite toda falando bobagens juntos, apenas para aproveitar o pouco tempo que temos antes de você embarcar, daqui a algumas horas. Você estava doentinha e nós comemos macarrão com queijo sem queijo juntos... isso faz algum sentido?” Luke deu uma risada gostosa, o que fez Sophie deixar com que uma risada amarga saísse de sua garganta igualmente, acompanhada de um soluço. “Enfim... você vai embora. E... tudo bem, eu não achei que fosse me sentir tão... eu não sei, como se estivesse perdendo alguma coisa. Eu não sei se você já sentiu isso. Foi o que eu senti quando você foi pra Inglaterra, sei lá... é um sentimento... ruim. Como se o meu subconsciente gritasse pra mim que se eu te deixar ir embora daqui a pouco, eu vou perder você.” Luke, no vídeo, suspirou, e Sophie não conseguiu conter o soluço que escapou de sua garganta, abafando-o com suas mãos que ainda se encontravam coladas em seu rosto.Droga! Aquele instinto imbecil de Luke acabara tendo razão, era isso? Ela estava indo embora, indo embora para longe dele. E Luke sabia. Luke pressentia. Luke tinha colocado toda a sua esperança numa promessa de volta, mas pressentia que ela não se cumpriria. Droga, mil vezes droga. Como Sophie queria que tudo tivesse sido diferente. Como ela queria ter passado em Juilliard e voltado para NYC daqui a alguns meses. Como ela queria não estar grávida agora. Como ela queria que o pressentimento de Luke fosse bobo e jamais se profetizasse. Como ela queria que sua vida tivesse o rumo que ela havia escolhido. “Tudo bem, eu nem deveria estar falando isso. Você vai voltar, não é?” Luke sorriu sem humor. Mas isso apenas serviu para uma Sophie que estava se sentindo a pior pessoa do mundo soluçasse outra vez. “Enfim. Eu só quero que você saiba, ao fim desse vídeo, que eu ainda te amo. Mesmo que tenha se passado uma semana, duas, ou três, até você ver isso. E ao fim desses seis meses, eu vou apenas estar te amando mais. E daqui a seis anos também. Vou continuar te amando. Por que... você faz parte de mim assim como eu faço parte de você. E mesmo que eu não esteja com você agora, eu estou com você. Isso não faz sentido, mas... não é pra fazer” Luke riu outra vez. “Eu estou com você pra sempre. Eu ficarei com você pra sempre. Tente... controlar sua saudade, nós temos uma vida toda pela frente. Eu te amo.”



I know now just quite how my life and love might still go on, in your heart, in your mind.
I'll stay with you for all of time.
If I could, then I would. I'll go wherever you will go.
Way up high or down low. I'll go wherever you will go.

If I could turn back time… I'll go wherever you will go.
If I could make you mine… I'll go wherever you will go.
I'll go wherever you will go…
(Agora eu sei exatamente como minha vida e o meu amor poderão continuar, em seu coração, em sua mente.
Eu ficarei pra sempre com você.
Se eu pudesse, eu iria. Eu vou para onde quer que você vá.
Bem lá em cima ou lá embaixo. Eu vou para onde quer que você vá.

Se eu pudesse voltar no tempo... Eu vou para onde quer que você vá.
Se eu pudesse fazer com que você fosse minha... Eu vou para onde quer que você vá.
Eu vou para onde quer que você vá...)




Quando a música acabou, Sophie, esgotada, fechou o notebook e cobriu o rosto com as mãos, deixando-se soluçar. Todo o vídeo, a carta, tudo, ecoava e assombrava sua mente. O rosto de Luke, a letra de Luke, as palavras de Luke. Droga, droga, droga! O que ela havia feito? O que eles haviam feito? Sophie não o teria mais! Ela não o teria mais! Mais que idiota que ela fora, meu Deus do Céu, que idiota! Ele a amava, caramba! Ele a amava tanto, droga, ele a amava tanto, e... tudo estava destruído. Como Sophie aguentaria ficar tão longe de Luke? Já não fora difícil o suficiente da primeira vez?
Viver sem Luke seria um castigo. Um castigo que ela teria de aguentar por ter sido tão irresponsável.
— Menina — ela escutou uma voz fina ecoar e um pequeno peso se fazer em sua perna. Levantou os olhos, retirando as mãos do rosto. — Tá tudo bem? Mamãe, ela tá cholando!
Um garotinho. Quatro, cinco anos no máximo, olhos verdes e cabelo castanho claro. Parecia preocupadíssimo com Sophie, e só agora ela notou que a maioria das pessoas do avião olhava para ela. Não ligou, entretanto, e encarou o menino entre as lágrimas que insistiam em cair de seus olhos. Meu Deus, ele se parecia tanto com Luke quando era pequeno. O mesmo olhar — que apesar de verde — intenso, a mesma sinceridade na voz. Sua mãozinha estava pousada na coxa de Sophie, atenciosamente, e ela teve de limpar os olhos e tentar sorrir para ele.
— Tá tudo bem, querido — disse ela em voz baixa. — Tudo bem.
— Henry! — ela viu uma moça puxar o braço do garotinho, meio envergonhada. Parecia ser extremamente nova. Era a mãe dele, provavelmente. Quantos anos tinha? Vinte e três? Vinte e quatro? — Não seja mal educado, que coisa! — bronqueou a mulher.
— Mas ela tava cholando... — Henry, o menino, argumentou, e Sophie abaixou a cabeça. Ele era tão inocente, tão novo. Estava preocupado.
— Henry — a mulher disse novamente, repreendendo-o com o olhar. Virou-se para Sophie. — Me desculpe, é que ele costuma ser imperativo... e meio extrovertido às vezes.
Novamente, Sophie tentou sorrir para o menino.
— Não tem problema — ela disse e viu Henry sorrir, mostrando seu sorriso com dois dentinhos inferiores faltando. Nossa, se ele e Luke fossem parentes não seriam tão parecidos. Seu sorriso, mesmo inocente, era extremamente acolhedor.
— Você tér um biscoito? — Henry perguntou, elevando a outra mão que segurava um pacote de bolachas de chocolate. Retirou uma delas e ofereceu à Sophie. Sua mãe parecia confusa se deixava o filho conversar com a moça que parecia triste. — Meu papai semple diz que biscoito de chotolate cula qualquer dor.
Sophie riu e secou a lágrima que escorreu pela sua bochecha. Meu Deus, que criança mais linda. Tão novinho e tão preocupado em fazer com que uma estranha parasse de chorar.
— Obrigada, Henry — agradeceu ela, segurando o biscoito que Henry acabara de lhe oferecer. O garoto sorriu mais uma vez, parecendo extremamente contente.
— De nada — ele respondeu, voltando sua atenção para sua mãe que o ajudou a se sentar na fileira de poltronas à frente de Sophie, que tivera a sorte de sentar em uma sozinha. A mulher voltou sua atenção para Sophie, logo depois.
— Me desculpe outra vez — ela disse baixo, sem saber mais o que dizer. Obviamente aquela garota não estava bem e mesmo assim tinha sido muito legal com Henry.
— Seu filho é lindo — Sophie disse, tentando desembargar a voz e sorrir para a mulher.
— Ah, obrigada — ela disse, sorrindo de volta. — Ele é minha benção. Dá um trabalho danado, mas... só Deus sabe o quanto eu sou grata por tê-lo. — A mulher mexeu no cabelo castanho do menino, que Sophie agora não conseguia ver. — Você vai entender o que eu digo quando for mãe, também.
Sophie mordeu seu lábio inferior, controlando-se para não desatar a chorar na frente daquela mulher mais uma vez. Tudo o que menos precisava era que ela achasse que tinha feito ou falado algo errado, ou qualquer coisa assim.
Mal sabia ela que havia uma pequena benção dentro de Sophie agora.
— É... — Sophie concordou, evitando contato visual. Não conseguiu dizer mais nada para a mulher, que sorriu para ela, pediu licença e sentou-se à sua frente.
As palavras da mulher não pararam de ecoar em sua cabeça confusa e tola. Você vai entender o que eu digo quando for mãe, também.
Os olhos de Sophie se encharcaram outra vez. Não, Sophie não iria entender, por que ela não seria mãe agora. Não tinha experiência, não tinha idade, não tinha estrutura.
E, acima de tudo, não tinha Luke.


*****




Seu quarto estava revirado. Uma bagunça. Uma zona. Exatamente como o seu coração.
Lágrimas saíam furiosamente dos seus olhos enquanto ele via a pilha de lixo queimar. Seu punho direito sangrava e ardia, mas ele pouco estava se importando com dor agora. Sinceramente, queria que tudo se danasse. Não estava nem aí se o mundo acabaria agora, ou se uma bomba explodiria aquela merda de universidade em um milhão de pedaços. Não ligava se o fogo que se fazia na pequena lixeira de aço inoxidável incendiasse todo o dormitório. Ele queria mais era que a Terra os engolisse mesmo. Nada mais importava.
Viu, Luke? É isso que dá, parceiro. É isso que acontece quando você deixa seu coração ganhar. É isso que acontece quando você é bom demais. Isso que acontece quando você deposita seu coração, esperança, futuro, amor... em uma pessoa. Viu, idiota? Aprendeu agora? Aprendeu ou vai precisar de outra mulher para te ensinar? E aí, vai precisar da Sophie de novo? Ou da Stephy? Quem vai ser a próxima garota que vai te enganar e te quebrar de novo, idiota?
Luke soluçou e xingou pela centésima vez, amaldiçoando o dia em que conhecera Sophie. E o pior era saber que não era a primeira vez que ele chorava por ela. O pior era saber que ele se dedicara a ela, e fizera tantas coisas por ela, e... puta merda! Aquele inferno de pacote, meu Deus, como ele fora idiota! As músicas que ele enfiara a merda do seu coração dentro, as cartas, as promessas, as juras de amor... Tudo jogado às traças! O que tinha valido para ela? Bosta nenhuma! Tudo era lixo! Sempre fora!
Luke tinha mesmo era que deixar de ser idiota. Parar de ser bonzinho e de acreditar em tudo que uma garota diz. Parar de ser romântico e retardado e agir como um homem, desses imbecis, que nunca se machucam por que machucam os outros.
Ah, não, Luke! Seja você mesmo! Não faça isso!
Sim, claro. Então Luke continuaria um idiotinha e logo, logo, estaria chorando e esmurrando porta-retratos como um retardado. Continuaria sendo uma besta e diria “eu te amo”, carregado de tudo o que sentia, para depois ser largado e ficar tristonhozinho, queimando todas as fotos e cartas e músicas que lembrava a tal da menina. Ah, que meigo! Ele era tão sensível, não? Tão romântico! Tudo o que uma garota queria, não é mesmo? Lindo a ponto de fazer um vídeo dizendo para a garota de todas as formas que a amava! Ou elogiá-la de mil formas diferentes em uma carta toda enfeitadinha! Ou compor uma dezena de músicas para ela! Nossa, como ele era perfeito!
Era perfeito, romântico, sensível e o diabo a quatro, mas isso não conseguiu segurá-la. Isso não conseguiu fazer com que ela voltasse para ele. Não conseguiu fazer nem com que ela lutasse para seguir o plano.
Luke viu seu próprio rosto em uma fotografia se desintegrar no fogo e passou a mão pelos olhos, deixando com que os soluços fluíssem de sua garganta sem cerimônias. Merda, ele não podia enganar ninguém! Estava doendo. Estava doendo tanto que ele mal conseguia respirar! Ela não conseguia pensar nisso? Não conseguia entender? Inferno, o vídeo não fora o suficiente para que ele provasse que era total e completamente apaixonado e maluco por ela? Seu amor não fora o suficiente para que ela lutasse um pouquinho para manter o que os dois tinham combinado tantas vezes? O que aconteceu com tudo o que ela havia dito e jurado? O que aconteceu com o amor que ela disse que tinha? O que aconteceu com as promessas, as juras, os planos para o futuro? O choro, as risadas, o que aconteceu com os beijos deles? O que aconteceu com o amor?
Sophie havia jogado fora. Havia jogado tudo fora. Desligara o telefone, cortara todos contatos que havia com o cara que ela dizia que amava, e foi embora.
Foi embora.
E o deixou.



Te vejo errando e isso não é pecado, exceto quando faz outra pessoa sangrar.
Te vejo sonhando e isso dá medo, perdido num mundo que não dá pra entrar.
Você está saindo da minha vida, e parece que vai demorar. Se não souber voltar, ao menos mande notícias. Você acha que eu sou louca, mas tudo vai se encaixar.



Seguir o seu futuro. Era isso que ela havia dito, naquela maldita carta que ainda estava em suas mãos, para ele. Seguir. O. Seu. Futuro. Era tão ridículo que chegava a doer.
Luke encarava a carta molhada de lágrimas e sangue, relendo sem conseguir acreditar nas palavras infames que ali estavam escritas. Não acreditava que era verdade, mas lá tinha tudo. Tudo sobre Sophie não ter atendido suas últimas trinta ligações ou não ter respondido os mais de vinte emails. Oh, mas Luke, o bobinho, não estava achando que ela o largaria! Estava preocupado, sim, estava, mas não cogitava a hipótese. Nãosua garota linda jamais o evitaria.
Que idiota.



“Olá, Luke.
Eu me sinto mal em escrever isso, mas... eu preciso. Preciso deixar de ser fraca e abrir o jogo com você. Preciso parar de te deixar esperando ou criando expectativas.
Eu não fui aceita em Juilliard. Me enviaram uma carta de rejeição, dizendo que eu não cumpria o modelo correto de aluna por lá.
Eu... fiquei tão perdida. Não sabia como ia fazer para seguir meu futuro na música, como sempre quis fazer, e então eu recebi outra ligação da Laurent Louis.
Eu estou indo, Luke. Estou voltando para a Inglaterra. Lá, na LL, é o único lugar onde eu posso seguir meu caminho na música. Eu sei que deveria estar voltando para Nova Iorque para ficar com você, mas não consigo suportar a ideia de te ver trabalhando e eu... não. Eu não sou assim. Eu preciso ser a melhor, preciso me formar como a melhor, preciso seguir o meu sonho de trabalhar como musicista, e aí em Nova Iorque eu não vou conseguir.
Com você eu não vou conseguir.
Eu fui uma fraca por ter desligado o telefone. Fui mais fraca ainda por fazer com que Danna mentisse, quando você ligava para ela. Por favor, não entre mais em contato. Essa carta... é o fim, Luke. Eu sinto muito.
Já acertei todas as burocracias e, quando você ler isso, eu já devo ter ido. Vou seguir o meu sonho. Vou tocar. Como sempre foi para ser.
Me desculpe,
Sophie.”



Luke gritou com toda a força que tinha no peito após terminar de reler aquela carta. Já era pelo menos a décima vez que ele via aquelas palavras, por que tudo ainda parecia muito surreal.
É o fim, Luke. Eu sinto muito.
Caramba! Como ela tinha a audácia de pedir desculpas?! Ela não tinha o direito! Não tinha o direito de pedir desculpas, por que ela estava indo embora! Estava deixando tudo o que os dois haviam construído desde sempre! Inferno! Ela estava abandonando um passado de duas crianças que se amavam! Dois adolescentes que enfrentaram tudo para ficar juntos! Dois jovens que tinhamplanos para o futuro!
Ela tinha ido embora!
Causava náuseas em Luke saber que ela não estaria mais com ele. Seus planos já não tinham mais nenhum valor. Ele nunca acordaria de manhã, daqui a alguns anos, e a veria dormir ao seu lado. Ela nunca mais iria rir de uma palhaçada sua e chamá-lo de idiota. Ela nunca mais iria apertar seus ombros e sussurrar que o amava. Ela nunca mais iria ficar corada quando ele a elogiasse. Nunca mais tocaria para ele. Nunca mais faria amor com ele. Nunca mais embrenharia seus dedos no cabelo dele e comentaria pela milésima vez que aquele corte era ridículo. Nunca mais implicaria com ele. Nunca mais o beijaria.
Sophie nunca mais seria dele.
Isso, é claro, se algum dia ela já fora dele. Por que, pelo jeito, Luke para ela não fora nada mais do que um simples caso. Ora, que outra explicação havia para que ela lhe deixasse assim, sem nem se explicar com ele? Que outra explicação ela teria para ir embora, assim, do nada, se não fosse por que ela não amava Luke como dizia amar?
Mentirosa. Era essa a palavra que vinha ecoando na cabeça daquele jovem de dezoito anos completamente desolado e arrasado, que deixava sua mão direita pingar sangue por ter quebrado um porta-retratos de vidro com um soco. Mentirosa. Mentiu sobre o que sentia e sobre o que queria. Mentiu quando disse que voltaria. Mentiu quando jurou que o amava. Mentiu. Mentiu sobre tudo.Mentirosa.
E além de mentirosa, era egoísta. Luke se lembrou de quando pensava exatamente a mesma coisa dela, assim que ela iniciou seu namoro com Brad, em tempos antigos. Fútil, egoísta, fria, cínica, mentirosa. Era isso que ele realmente acreditava que ela era naquela época.
Quem diria que ele estava certo.
Luke soluçou outra vez e sem cerimônias atirou a maldita carta ao fogo. Viu, lentamente, as palavras frias e egoístas de Sophie se desintegrarem até se tornarem apenas cinzas. Assim como todas as fotos dos dois. Assim como outras cartas, bilhetes, lembranças. Apenas cinzas.
E era isso que Luke queria fazer com o amor que ainda sentia por ela. Queimá-lo, exterminá-lo, até não haver mais nada.
Nada além de cinzas.



Tô aproveitando cada segundo antes que isso aqui vire uma tragédia.

E não adianta nem me procurar em outros timbres, outros risos.
Eu estava aqui o tempo todo.
Só você não viu.



Luke estava exausto. Exausto de pensar, chorar, sentir. Recebera a carta pela manhã e já era quase noite.
Limpou o rosto com as mãos e se forçou a engolir o choro. Não sentia a mínima vontade de parar, mas sabia que precisava deixar de ser bobo. Passou as mãos pelo cabelo e se levantou do chão em que estava agachado, vendo a lixeira de aço queimar tudo o que ele tinha sobre ela. Fungou, cessando os soluços, mas nem por isso impedindo a dor dilacerante de cortar o seu coração. Mas tudo bem. Luke havia aprendido.
Amara Sophie. Com todo o coração. Como sempre, isso só o havia ferrado. Pois bem. Sophie havia dito que iria seguir o seu futuro sem ele.
E já que era assim, era exatamente isso que Luke iria fazer também.



Só por hoje não quero mais te ver, só por hoje não vou tomar minha dose de você.
Cansei de chorar feridas que não se fecham, não se curam, não.
E essa abstinência uma hora vai passar.




[...]



O garoto esbelto de cabelos acobreados se pôs na ponta dos pés, tentando avistar melhor as pessoas que chegavam aos montes no aeroporto. Assim como ele, sua amiga morena e maluca tentava fazer o mesmo, mas com bem menos visibilidade do que ele, afinal ela era uma bela de uma baixinha. Para falar a verdade, ele já a havia zoado por isso hoje, e recebido um tapa de volta.
— Então — ele disse para a amiga, com os olhos ainda pregados na porta onde os passageiros saíam e pegavam suas malas na esteira. — Onde está sua amiga grávida?
Julia bufou.
— Olha, Tarris, você pode calar a boca com ou sem os dentes. A escolha é tua. — Ela disse, irritada, fazendo o amigo idiota rir. — Só procura uma garota do cabelo muito vermelho.
— Tipo aquela ali? — Tarris perguntou, bocejando em seguida.
Julia se aproximou dele, tentando seguir seu olhar.
— Onde? — perguntou, procurando Sophie com os olhos, sentindo seu coração se acelerar.
— Ali — ele apontou para uma garota que pegava uma mala enorme na esteira e a colocava no chão, arrastando-a.
No mesmo momento em que o olhar de Julia seguiu o de Tarris e avistou a garota, Sophie virou o rosto, fazendo com que seus olhos se encontrassem com os de sua melhor amiga que ela tantosentira falta.
Sorrindo, Julia nem viu o momento em que saiu correndo em direção à Sophie, dando-lhe o mais apertado abraço que já havia dado em alguém desde... bem, desde que saíra de Nashville.
Mal conseguia acreditar. Sophie estava ali mesmo! A feia da sua melhor amiga estava ali, mesmo, abraçando-a com força e fungando levemente em seu pescoço. Oh, droga, Sophie, você poderia não chorar agora. Não quando Julia estava tentando se manter firme conforme todo o seu passado passava diante dos seus olhos, junto com toda a saudade que sentia não só de Sophie, mas de tudo que envolvia sua estadia pequena, porém mais do que significativa, no Tennessee. Aí Sophie aparece, abraça-a e começa a chorar. Isso não ajuda muito para uma garota que está lutando de verdade para manter sua instabilidade emocional e não chorar mais uma vez na frente do seu amigo idiota.
— Que saudade — Sophie disse com a voz mais desigual do que nunca, sem parar de fungar. — Não sabe o quanto eu senti a sua falta.
Ótimo, Julia estava chorando também.
— Sua boba — ela disse, sem conseguir parar de apertar a amiga com mais força do que ela achava que seria capaz. Já estava quase distendendo um músculo, Julia sentia. — Boba, bobona, para de chorar.
— Eu parar? Você também tá chorando, sua vaca! — Sophie se queixou.
E então as duas começaram a rir. E chorar. Ao mesmo tempo. E sem se separar.
Realmente, um abraço era muito pouco para duas amigas tão próximas que estavam separadas há tanto tempo. Por isso elas não conseguiam sair dos braços uma da outra, chorando e rindo, como verdadeiras idiotas. Deus, tanta coisa havia mudado desde a última vez que se viram! E ainda assim Sophie sentia como se nada houvesse mudado. Entre as duas, com a amizade que as rondava, com certeza tudo ainda era o mesmo. Julia ainda era tão importante para ela quanto uma irmã.
— Feliz aniversário — Julia sussurrou, sem conseguir parar de rir ou cessar as lágrimas que escorriam pelo seu rosto. Sophie fungou, lembrando-se por instinto o que havia acontecido no dia vinte e sete de agosto do ano passado.
Joe fizera cupcakes e chocolate quente. Ela ganhara o carro. Soube que Julia havia perdido sua virgindade um dia antes. Passara o dia no shopping com as meninas. Ganhou um livro de Luke. Foi levada à força para o palco e obrigada a cantar Hate That I Love You num karaokê, com Luke. Foi dormir cansada, porém, leve como nunca se sentira antes.
Tanta coisa havia mudado. Seus pais haviam quase se separado, ela ganhara uma irmã mais velha do que ela. Vira Joe quase entrar em um colapso interno. Viu Julia indo embora, e consequentemente, viu Nate se tornar outra pessoa. Viu-se apaixonar novamente por Luke, e perder sua virgindade com ele. Viu tudo se acertar. Viu a Paramore fazendo um subsucesso. Viu-se decidindo que Luke era mesmo o cara que ela amava e com quem iria viver para sempre. Viu esse sempre acabar no momento em que descobriu que estava grávida antes do que seria capaz.
Tudo isso em apenas um ano. Um bendito ano havia transformado Sophie em outra pessoa. Havia transformado Julia em outra pessoa. Trezentos e sessenta e cinco dias foram o suficiente para que Sophie assumisse uma vida que ela jamais imaginaria que teria. E ao mesmo tempo que isso era bom, era ruim, e era... tão injusto.
Mas a certeza era que agora, enquanto Sophie estava abraçada com Julia, era o momento que ela se sentia mais calma e segura. O abraço da melhor amiga lhe trazia uma espécie de calmaria e conforto que Sophie realmente precisava. Como se tudo desse certo, desde que elas estivessem juntas, as irmãs inseparáveis que eram.
— Certo — Julia disse, separando-se da amiga por um momento. Secou as próprias lágrimas com os dedos, rindo nervosamente. — Você me fez borrar minha maquiagem, sua vaca.
Sophie também riu, segurando a mão da amiga assim que limpou suas lágrimas com a ponta dos dedos.
— Meu Deus, você tá tão linda! — ela disse, esticando o braço de Julia e olhando-a por completo. Seus cabelos ondulados estavam enormes, chegavam até o meio das costas. Ela estava vestida com uma calça jeans, botas, um casaco grosso e um cachecol.
— Eu sei! — Julia disse, fazendo Sophie dar uma risada alta. Meu Deus, como ela sentira falta daquilo. — Você também tá muito gostosa, meu Deus, olha só pra você! Eu tenho certeza de que ganhou mais corpo desde a última vez que a gente se viu.
Sophie apenas riu outra vez, chamando Julia de boba, mas agradecendo internamente por ela estar ali, agora. Talvez Sophie não conseguisse aguentar sozinha.
— Posso dar uma opinião? De mulher, eu entendo — só agora Sophie havia notado outro rapaz, meio loiro, atrás delas. Tinha um sorriso maroto e o tipo de olhar escuro que fazia qualquer um se derreter.
— Não pode, não — Julia se virou para ele. — Fica na sua, Pônei.
Sophie riu. Pônei?
— Ah, qual é! Você ainda nem me apresentou sua amiga gostosa, e olha que fui eu que te tirei da prisão, como diria Susan, e te trouxe pra cá.
— Você trouxe por que quis — Julia deu de ombros. — E vai se ferrar, ninguém está falando com você.
— É assim que você me agradece?! Vai se ferrar você! — Tarris encarou Julia como se fosse matá-la.
— Vai você! — ela retrucou.
— Galera — Sophie se meteu, com um sorriso no rosto. Esse... bem, garoto, parecia muito com Julia. No quesito temperamento, quero dizer.
— Me chamo Tarris Felton — o garoto se aproximou, segurando a mão de Sophie delicadamente e levando-a até os lábios, sem quebrar o contato visual intenso. Estava tentando seduzir Sophie, ou...? — Ao seu dispor.
Ela riu, retirando sua mão dos lábios do moleque.
— Certo — disse ela, estranhando.
— Que ridículo — Julia semicerrou os olhos que estavam grudados no amigo. — Você é absolutamente ridículo, Pônei. Ridículo.
Tarris não havia tirado seus olhos de Sophie, encarando-a com intensidade. Ela já estava começando a corar.
— Posso levar sua mala? — Sophie não sabia, mas achava que sua voz não era rouca e entonada daquela forma. Também suspeitava que seu sotaque britânico não fosse tão aparente.
— Isso, seja útil para alguma coisa e pegue a mala dela — Julia deu de ombros, segurando o braço da amiga em seguida. — Tome cuidado, Soph. Esse aí dá em cima de qualquer coisa que use uma saia.
Sophie riu alto, seguindo os passos de Julia e vendo Tarris segui-las.
— Ela só diz isso por que me ama! — escutou a voz do garoto que logo já alcançara Sophie, carregando suas duas malas como se elas não fossem nada demais.
Julia riu.
— Pobrezinho iludido — disse, dando ombros.
— Iludido nada. Sou um anjo na sua vida, querida. — Tarris parecia supertranquilo. — E da sua também, querida-número-dois. — Ele piscou para Sophie e se virou para Julia em seguida. — Contou do plano a ela?
Julia ergueu as sobrancelhas.
— Oh, o plano! — exclamou. — Não, ainda não.
— Que plano? — Sophie perguntou, mais uma vez se sentindo como uma estranha que não sabia de nada entre aqueles dois malucos. Sinceramente.
— Vamos tomar um suco enquanto falamos do plano — Tarris sugeriu, e essa devia ser a primeira coisa que Julia não criticava nele. Era realmente engraçada a maneira como ela implicava com tudo o que ele fazia.
Entraram em uma lojinha de café, dentre tantas que havia naquele aeroporto. Tarris ainda carregava as malas de Sophie e as deixou junto à mesinha a qual eles se sentaram. Pediram seus sucos, apenas para passar o tempo, e Julia e Tarris se entreolharam como duas crianças sapecas.
— Certo — Sophie disse, apoiando o rosto nas mãos. — Podem me contar.
— Bem — Julia começou. — Quando você me ligou, eu fiquei bem preocupada, você sabe. Tarris apareceu em seguida e eu acabei contando pra ele, só para... espairecer.
— E eu dei a solução perfeita, por que sou um anjo enviado do próprio Deus para você, minha cara — ele piscou outra vez, realçando seu sotaque.
— Cale a boca — Julia bufou. — Enfim, sim, ele deu a solução perfeita. E de boa, eu realmente acho que foi coisa divina, por que, nossa Senhora, sério.
— Vocês vão me contar o plano ou vão continuar orando? — Sophie perguntou, fazendo com que Tarris risse.
— Bem — Julia recomeçou —, a questão é que os pais de Tarris já estão querendo adotar uma criança desde...
— Sempre. — Tarris completou, bocejando.
Julia revirou os olhos para ele.
— Eu passei um fim de semana na casa do Pônei um tempo pra trás, e o tio Rapha e a tia Camie são os melhores, você não tem noção — ela sorriu. — Enfim, eles querem adotar uma criança, por que na verdade eles sempre sonharam em ter mais de um filho. Mas tia Camie tem um problema nos ovários, e na realidade, ter o Pônei já é um grande feito, por que as chances de ela engravidar eram de uma em um milhão.
— Sou um milagre de Deus — Tarris sorriu sedutoramente para Sophie outra vez e Julia apontou o dedo para ele, bufando de raiva.
— Se você me interromper outra vez eu quebro a sua cara — ela ameaçou, fazendo Tarris rir. Revirou os olhos. — E sinceramente, eu não acho que você seja um milagre de Deus. Acho mesmo é que tia Camie e tio Rapha cometeram pecados terríveis em uma vida passada e estão pagando agora, te aceitando como filho. — Julia deu ombros. — Além disso, não é aí que está a divindade. O tio Raphael é médico, e mais, não é um médico qualquer. Além de clínico geral, ele é obstetra. Ou seja: seu obstetra. E só para completar o pacote de perfeição, a tia Camila...
— É professora na Laurent Louis, de piano, e até já deu aula pra você — Tarris interrompeu Julia outra vez.
Enquanto ele tentava se defender dos tapas incessantes que Julia passou a lhe dar, Sophie foi se lembrando da figura de Camila Felton, seus cabelos castanhos escuros enormes e seu senso de humor imbatível, mesmo que ela tivesse sido separada da coisa que provavelmente mais amava no mundo — o piano. Pelo modo como ensinava, Sophie sabia que ela deveria ter sido uma pianista espetacular.
E... subitamente Sophie gostou muito da ideia de aquela mulher que ela tanto admirava ser a mãe do filho que ela não podia criar.
— Para, caramba! — Tarris gritou, e Julia bufou e se virou para o lado.
— Não me interrompa novamente — ela disse dura, e Tarris imitou-a fazendo deboche.
— Professora Camie — Sophie murmurou.
Tarris riu.
— Eu não disse que ela conhecia a mamãe?
— Todos nós já sabíamos disso, idiota. A própria tia Camie disse que se lembrava da Soph — Julia revirou os olhos e voltou à atenção para a amiga, que ainda estava meio aérea. — Enfim. Eu e Tarris conversamos com os tios, e eles simplesmente amaram a ideia. Tio Rapha vai fazer o seu tratamento completo até o parto de graça, e a tia Camie te conseguiu um dormitório sozinho na LL, para que nenhum dos seus ex-colegas descubra que você tá grávida. Segundo o tio Rapha, até a tua formatura daqui a três meses, sua barriga vai estar quase imperceptível. Você só precisa usar umas blusinhas mais largas.
Sophie sorriu.
— Isso é sério? — perguntou, controlando-se para não chorar novamente.
Hormônios chatos.
— Claro que é, gata — Tarris piscou novamente. — Bem, agora nós vamos te levar até a tua escola e você vai encontrar mamãe lá. Depois você vai “passar mal por causa da viagem” — ele fez aspas com os dedos —, e ela vai te levar até o consultório do papai. Nós dois estaremos lá. Aí você faz o seu primeiro pré-natal.
— É — Julia concordou. — Mas nós só vamos confirmar que a criança é um menininho daqui a uns quatro meses, com a ultrassonografia.
— Morfológica. Ultrassonografia morfológica. — Tarris bocejou. — E eu acho que é uma menina.
— Cale a boca, Pônei, você não sabe de nada — ela revirou os olhos. — Enfim, Soph, este é o nosso plano. E me agradeça por ajudar você nisso e não ligar para o Luke agora mesmo. Se eu não fosse extremamente egoísta e não te quisesse aqui comigo, nada disso aconteceria.
Sophie apenas assentiu com a cabeça e mordeu o lábio inferior, controlando-se para não chorar novamente. Sabia que Julia não concordava com nada daquilo, mas ainda assim era imensamente agradecida com a amiga por ter feito tudo. Sozinha Sophie jamais conseguiria. Jamais.
E para dizer a verdade, o plano de Julia era realmente perfeito. Especialmente a parte que Sophie não sabia.

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