23 de set de 2012

Capítulo 41

Love-sick, stick with pain.



Danna sorriu sem motivo.
E pode-se dizer que esse sorriso sem motivo lhe daria motivo para dar um outro sorriso irônico. E certo, isso poderia não fazer o menor sentido, mas para ela, sorrir para o nada era sim um motivo de piada. Afinal, quem diria que a incógnita, misteriosa e inexpressiva Danna Faith estaria sorrindo para o nada dois meses atrás?
Nem ela mesma imaginava.
Mas sua vida dera uma virada tão violenta que ela teve de se adaptar a novos costumes, ideias, e principalmente, sentimentos. E, caramba, ela gostava tanto dessas novas coisas a se adaptar. Agora, ela não estava mais sozinha. Ela tinha... uma família. Tinha... alguém para amar. Diferente de dois meses atrás, quando ela não tinha nada além de sua arte.
Danna nunca havia se sentido tão puramente leve, essa era a verdade. Seu coração estava tão tranqüilo que ela achava que tudo aquilo só podia ser um sonho, um logo e belo sonho do qual ela não queria acordar. Sua alma, antes impregnada por ódio, rancor, culpa e maldade, agora estava limpa e leve como uma pluma, envolvida por satisfação, alegria e até amor.
Quem diria, não é mesmo?
Quem diria a dois meses atrás que, ao invés de ficar de cá para lá pelo país lutando para viver de fotografias, Danna Faith estaria completamente apaixonada pelo homem mais gentil que conhecera e fazendo ovos mexidos para o café da manhã dos irmãos mais novos?
Ninguém jamais adivinharia que tudo que antes era inferno se passaria a céu no mundo de Danna. A vida, o destino, ou Deus — uma vez que ela já acreditava em sua existência —, havia feito com que ela se tornasse uma pessoa muito mais feliz. E sendo feliz, ela conseguia fazer com que os outros ao seu redor estivessem felizes também.
Foi por isso que quando Danna sorriu para o nada e colocou uma porção de ovos em cada um dos pratos que havia colocado no balcão, ela sentiu que não deveria estar em nenhum outro lugar. Ali acabava sua jornada em direção a felicidade e ao descobrimento de si mesma.
Danna Faith era uma Farro. E sim, ela era capaz de sentir algo bom, e fazer algo bom, e transmitir algo bom. Ela era... uma boa pessoa.
Quando o telefone começou a tocar, ela largou a frigideira de qualquer maneira no fogão e correu para colocar o gancho na orelha.
— Alô, posso falar com a Sophie? Diz que é a Jenny — foi o que a voz feminina disse do outro lado da linha. Danna assentiu e gritou para a irmã mais nova atender ao telefone. Sorriu ao ver que Sophie estava com uma escova de cabelo de um lado e com só com metade da jaqueta de frio colada ao corpo, além de segurar o par de converse all star vermelhos com a mão esquerda.
Largou os tênis no chão e colocou o telefone entre a bochecha e o ombro, enquanto de uma maneira quase ninja terminava de vestir a jaqueta e escovava o cabelo ao mesmo tempo.
— E aí, vaca — com a saudação “amigável” de Sophie, Danna novamente sorriu. De repente notou que suas duas próximas semanas seriam mais divertidas do que ela imaginara. — Tá, eu passo aí. Mas vê se para de se atrasar, por que pelo amor de Deus... O quê? Claro que eu já tô pronta — Sophie disse, calçando uma meia enquanto se recostava na parede e enfiando o pé dentro do tênis que estava no chão. — Sim, tá. Passo aí em quinze minutos. Ok. Tchau, feiosa. — Ela terminou de dizer e sem usar as mãos, levou o rosto até o gancho do telefone, largando-o e fazendo-o cair no chão. Revirou os olhos, pulando enquanto tentava calçar o resto do tênis. — Bosta. Vai ficar no chão.
Danna gargalhou.
— Posso dar uma dica? — ela disse, aproximando-se e pegando o telefone do chão. — Se você usar a sua mão para colocar o telefone no gancho, veja que curioso: ele não cai! Oh!
Sophie parou de pular e pisou no chão, com o tênis já nos pés. Ajustou a jaqueta e deu uma última escovada nos cabelos mais lisos que o comum.
— Prometo me lembrar da sua dica na próxima vez em que eu estiver usando uma mão para calçar um tênis e a outra para segurar a jaqueta no corpo e escovar o meu cabelo enquanto estiver quase atrasada — ela assentiu com a cabeça, fazendo Danna rir.
— Isso, lembre-se — Danna reforçou, fazendo agora Sophie rir. — O café tá pronto.
— Oh, my God! — Sophie gritou indo para o balcão da cozinha. — Ovos e bacon! Tem tipo, um século que eu não como ovos e bacon! Quer morar aqui para sempre?
Danna riu.
— Pra ser explorada? Eu não — ela deu ombros, e Sophie riu outra vez.
Desde a noite anterior, quando Danna deixou-os em casa e dormiu por lá, elas não paravam de brincar e conversar uma com a outra. Ela conseguia ser a adulta mais espirituosa que Sophie, Nate e Joe já haviam conhecido, e só esse fato já fez com que eles a amassem. Conversaram e brincaram até quase duas da manhã, mesmo sabendo que teria aula de manhã cedo para os menores e trabalho para Danna.
Mesmo assim, estavam todos felizes. Gostavam da companhia um do outro. Gostavam demais.
— Vou ter que comer rapidinho, tenho que pegar Jenny na casa dela e levá-la pra escola. Ela se atrasou. E provavelmente Luke também vá, mas ele é um enrolado, deve estar mexendo naquele cabelo ridículo agora. — Ela disse, revirando os olhos.
Danna riu.
— Vai querer que eu te leve? — ela disse.
— Não, eu tenho um carro — Sophie lembrou e Danna assentiu, rindo.
— Verdade — disse. — Certo, então vamos ao meu dia de dona-de-casa-mãe-de-três-crianças. Quais são as tarefas pra hoje?
Sophie gargalhou.
— A gente faz a coisa fluir em tarefas divididas entre mim e o Nate. São tarefas bem simples, já que limpar a casa e fazer o almoço (quando ela vem) é trabalho da Rosa.
— Entendi — Danna mordeu o lábio, vendo Sophie começar a comer os ovos. — E quais são as tarefas?
— Deus, isso tá muito bom — ela disse, apontando para o prato. — Pegar e levar a roupa na lavanderia e fazer as compras que a Rosa pede, mas as compras era minha mãe quem fazia.
— E isso fica para mim — Danna assentiu. — Tudo bem, apenas compras e café da manhã? Cuidar de uma casa não é tão difícil, então.
Sophie riu.
— Parabéns, mamãe — disse fazendo Danna rir novamente.
— Mas é sério, eu estava pensando no quão irreal isso está sendo. Eu cuidando de vocês, e tudo... — Danna disse, sentando-se de frente para Sophie e terminando de comer seus ovos.
— Pois é, mal nos conhece e já trabalha para nós — Sophie disse e ela riu.
— Não é isso, eu adoro vocês. Na verdade eu me ofereci pra cuidar de vocês. — Ela esclareceu. — A questão é que há dois meses eu jamais me imaginaria assim. Sabe, me sentindo tão feliz por fazer uma coisa tão... normal. E tudo aquilo que eu imaginava que nunca aconteceria comigo e que acontece com a maioria das pessoas não me parece tão surreal assim, mais.
— Tudo aquilo, tipo...? — Sophie perguntou, ainda comendo.
— Tipo... sei lá. Casar. Ter filhos. Essas coisas. — Ela disse, abaixando a cabeça, meio envergonhada.
Sophie terminou de engolir o café para sorrir e apontar para Danna com o garfo.
— Você vai ser uma ótima mãe — disse, antes de colocar mais um bocado do café da manhã na boca.
Danna riu.
— Hah... bem, obrigada. — Respondeu, sem jeito.
— Cheiro de bacon — Nate apareceu pelo corredor, acompanhado de Joseph, já vestido para a escola.
— Bacon — o mais novo disse, indo diretamente em direção ao balcão. — Tem eras que eu não como ovos e bacon. Oh, meu Deus. Quer casar comigo e morar aqui para sempre?
Danna gargalhou.
— Você é muito novo e, além disso, incesto é crime — ela encolheu os ombros.
— É cada lei idiota que inventam... — Joe resmungou e todos ali riram.
Sophie terminou de comer rapidamente e deu um tchau rápido para todos, pegando sua mochila e indo em direção à garagem. Enquanto caminhava, mandou uma mensagem de texto para Luke, que dizia apenas “cadê você?”.
Entrou dentro do carro e jogou a mochila no banco do passageiro, procurando as chaves em um dos bolsos da mesma. Quando finalmente encontrou, encaixou a chave na ignição e girou. Mas o carro não deu a partida.
— Ai, bosta — resmungou ela, girando a chave mais uma vez, e mais uma vez, e mais uma vez. Nada. Nem um sinal.
Passou a mão pelo rosto, suspirando irritada. Isso só acontece quando estou atrasada!, pensou.
Saiu do carro e gritou o nome de Danna até ela aparecer, acompanhada de Joe que já estava com sua mochila nas costas.
— Que foi? — perguntou ela, encarando a irmã, confusa.
— Meu carro não pega — ela disse, suspirando. — Tem como me levar pra escola?
— E mais uma tarefa de dona-de-casa-mãe-de-três-crianças adicionada à lista — ela disse, fazendo Sophie rir. — Mas o que houve com o carro?
— Não quer pegar. Eu girei a chave, engatei, fiz de tudo, mas não quer pegar. — Sophie revirou os olhos, sentindo o celular vibrar e lendo a mensagem de Luke: “dormi demais, tô chegando na sua garagem.”
— Hum — Danna resmungou. — Espera um pouco.
Ela tirou o celular do bolso e discou o número que já sabia de cor. Bateram no portão da garagem e Sophie disse “é o Luke”, indo para recebê-lo.
— Oi, minha pequena! — ela não pôde deixar de sorrir ao escutar a voz dele.
— Oi, pequeno Juan — ela disse, brincando, fazendo-o rir.
— Solitário Juan, né. Você me largou.
— Deixe de ser dramático, tá? Eu nunca vou “largar” você — ela deu ênfase, e mesmo que não visse, soube que ele estava sorrindo. — Enfim. Liguei pra saber se você entende de carros.
Hector riu.
— Entendo um pouco, sim. Sou eu que monto a maior parte do motor dos carros da loja. — Ele respondeu tranquilamente e Danna riu. Tem alguma coisa que esse homem não faça?
— Imaginei — disse, ainda rindo. — É que o carro da Sophie não quer pegar. Ela gira a chave, mas não dá nada.
— Ah, deve ser a bateria. Há quanto tempo ela tem o carro? — ele perguntou, atencioso.
— Oi, todo mundo — Luke cumprimentou após dar um selinho demorado em Sophie. Todos disseram “oi” e Danna sorriu para ele.
— Há quanto tempo você tem o carro? — ela se dirigiu à Sophie.
— Desde agosto — ela torceu os lábios. — Ganhei novo.
— Desde agosto, ele era novo. — Danna repetiu para o telefone.
— Certo, deve ser algo bem bobo na bateria mesmo. Vou aí depois do expediente para arrumar, pode ser?
— Vai ser ótimo — Danna riu. — Agora preciso levar os meninos no colégio, te ligo depois, tá?
— Tá certo, pequena Danna. Saudades.
Ela sorriu e colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha.
— Eu também. Tchau, beijo.
Ela ouviu Hector apenas rir antes de desligar a chamada de telefone, e ver quatro jovens encarando-a com um misto de surpresa e fofura.
— Quem era? — Luke perguntou.
— Hector — Danna respondeu, sentindo o rosto corar. Eles haviam parado tudo o que estavam fazendo para encará-la e ela não percebera.
— O namorado dela — Sophie esclareceu para Luke. — Awn...
— Ah, entendi por que o sorrisinho. Que fofo. — Ele disse.
— Não é meu namorado — Danna suspirou e entrou no carro o mais rápido que pôde. — Entrem rápido por que vocês estão todos atrasados.




[...]




— Vamos logo! — Jenny bufou impaciente. — Por que você não copiou a matéria de biologia na aula de biologia?
— Por que na aula de biologia eu estava copiando física — Sophie respondeu no automático, fazendo Jenny bufar novamente. — Calma, tô terminando.
— Vocês ainda estão aí? — ouviu-se a voz de Marie ecoar pelo lugar quase vazio. Só havia Jenny e Sophie na sala, e um garoto gótico sentado na última cadeira da última fileira, escutando heavy-metal no último volume dos fones.
— Sophie tá enrolando! — Jenny reclamou novamente.
— Ai, calma! — Sophie quase gritou, estendendo a palma da mão esquerda enquanto copiava com a direita. — Pronto, acabei, que coisa.
— Até que enfim — Jenny disse, bufando, e Sophie fez uma careta para ela.
— Sophie desorganizada como sempre — Marie comentou, fazendo Jenny bufar um “nem me fale!”.
— Não sei por que vocês ficam enchendo o saco sendo que a próxima aula vai ser vaga. O intervalo tá prolongado, e eu só fiquei cinco minutos a mais copiando a matéria, meu Deus. — Ela disse, revirando os olhos e caminhando junto às meninas até o refeitório.
— Aula vaga pra vocês — Marie disse. — A minha turma vai ficar essa aula toda reunida com a comissão de formatura para resolver umas coisas.
— É. E você é uma desorganizada mesmo, então cale a boca — Jenny disse, revirando os olhos.
— Você que tá toda mordida de mau humor matinal de segunda-feira e fica descontando em mim — Sophie rebateu.
— E você contribui muito pro meu mau humor me fazendo perder meu precioso intervalo, né?
— Ai, calem a boca, vocês! — Marie explodiu. — Eu estou de bom humor e não quero perdê-lo brigando com as duas vacas que não param de falar um segundo.
— Se ferra você também, Mary — Jenny disse e Sophie riu.
De repente, um rapaz se aproximou delas de repente e tampou os olhos de Jenny com as mãos, enquanto andava.
— Adivinha quem é. — Disse ele.
— Max, você está borrando o meu rímel — ela bufou, tirando as mãos dele e parando para encará-lo.
Sophie e Marie se encararam enquanto continuavam andando e pararam para encará-los. Jenny ainda gritava com Max.
— Quantos segundos você dá dessa vez? — Marie perguntou.
— Quinze — disse Sophie, olhando enquanto Jenny passava uma bronca.
— Aposto em dez. Quem perder paga um suco.
— Ok. Já se foram cinco. — Sophie disse. Max havia começado a rir enquanto Jenny continuava a bronqueá-lo.
Seu rosto enrubesceu de raiva. 7 segundos.
Max, rindo, disse algo que a fez dar um meio sorriso, ainda irritado. 5 segundos.
Ele se aproximou dela e disse algo em seu ouvido. 3 segundos.
Ela o puxou pelo rosto e o beijou. 1 segundo.
— Ganhei o suco — Sophie disse e as duas riram, seguindo direto para o refeitório. Suspiraram ao ver a enorme fila do lanche, mas Marie sorriu ao ver que Dan já estava bem na frente. Elas foram até ele e furaram a fila sem o mínimo de vergonha na cara.
— Vocês demoraram — Dan disse.
— Sophie estava copiando uma matéria atrasada — Marie esclareceu. Cadê o Nate e o Luke?
— Nate pediu para eu comprar para ele enquanto estuda, e o Luke... bem... — Dan mordeu o lábio, apontando para o fim do refeitório. Sophie imediatamente levou seus olhos para onde Dan apontava e precisou fechá-los e respirar bem fundo.
Isso por que Luke estava conversando com Stephy.
E tudo bem, Sophie admitia que sentia um ciúme incalculável de Luke, mas tudo se intensificava quando se tratava de Stephy. Sentiu a raiva que o ciúme a proporcionava correr pelas suas veias.
— Eu vou lá — ela disse, tentando se controlar, mas Marie segurou seu pulso.
— Não, não vai — disse, encarando a prima nos olhos. Puxou seu braço para longe de Dan, afastada da fila. — Isso não vai resolver nada.
— Ai, que se dane! — Sophie explodiu, dizendo mais alto do que deveria. — Eu vi isso acontecendo há um tempo atrás e não pude fazer nada, mas agora eu posso. Eu sou a namorada dele!
— Sophie, se você for lá, vai causar uma cena, Luke não vai gostar, vocês vão discutir sério e vão ficar dias sem se falar. — Marie disse, tentando mostrar-se racional. — Dan tem um milhão de ex-namoradas, acredita, eu sei disso por experiência própria. Engole seu ciúme, esfria sua cabeça, e conversa com ele depois. Armar barraco não vai ajudar nada.
Sophie suspirou. Marie tinha razão. Toda razão.
— Certo, você tá certa. Vamos voltar pra fila. — Ela disse, voltando.
Ainda com Dan e Marie, ela escolheu e pagou seu lanche, foi para a mesa, esperou Dan voltar da sala de Nate e ainda conversou um pouco com a prima. Mas Luke não saíra de sua conversa — que parecia interessantíssima — com Stephy, e isso estava realmente matando-a. Queria simplesmente ir até lá e arrancar a cabeça dela, mas as coisas não eram tão simples. Marie ficava repetindo que não era o certo, e Sophie sabia que não era, mas a inquietação estava de matar. Sua perna já tremia e ela não dava mais nenhum sorriso sequer. Apenas comia em silêncio, escutando seus próprios pensamentos assassinos.
Até que finalmente — finalmente — Luke se despediu da amiguinha e foi se sentar à mesa deles. Chegou com o mesmo sorriso nos lábios e deu um beijo na bochecha de Sophie antes de sentar. Começou a comer um sanduíche enquanto Dan contava uma história qualquer de uma sátira que vira no cinema um dia antes, fazendo com que todos rissem. Sophie também deixava uns sorrisos aparecerem — até mesmo por que era impossível não rir de Dan —, mas a raiva do ciúme ainda estava bem viva nela. Mesmo assim, o certo era esfriar a cabeça. Esfrie a cabeça.
Então Dan e Marie saíram da mesa, com o pretexto de repassarem a aula de álgebra. Marie era boa com números e ajudaria Dan com os seus problemas.
— Você demorou para chegar no refeitório, né? — Luke disse, virando-se para ela e colocando uma mecha de seu cabelo atrás da orelha.
Sophie tentou sorrir.
— Estava copiando uma matéria atrasada — esclareceu. Ele assentiu com a cabeça. — A propósito... sobre o quê você e Stephy estavam conversando, mesmo?
Luke a olhou, confuso.
— Nada — respondeu, apertando os lábios.
Sophie deu uma risada debochada.
— Então você ficou quinze minutos rindo, flertando e conversando com a sua ex namorada sobre nada? — ela levantou as sobrancelhas, usando de todo o sarcasmo. — Legal.
Luke se afastou dela e levou as mãos à mesa, fechando a cara.
— Para de ciúme, tá legal? — falou, seco, sem encará-la.
— Eu adoraria! Só que entenda que é difícil ver o meu namorado falando com a ex dele sobre algo que ele não quer me dizer durante tanto tempo! — ela deixou-se explodir, e Luke olhou para ela.
— Ela chegou e começou a falar, eu não tive como fugir! — ele explodiu também. — Caramba, eu só estava falando com ela, você põe como se eu tivesse traindo você.
— Eu não falei isso, falei? — Sophie encarou-o. — Só estava querendo saber o que vocês tanto falavam, mas se você não quer me contar, beleza.
— Pelo amor de Deus, Sophie — Luke passou a mão pelo rosto, respirando fundo. — Não era nada de importante, tá legal? Ela chegou e começou a falar, e toda vez que eu tentava vir pra cá, ela arranjava um novo tópico e eu não tive como fugir! Você sabe como ela é! Para de ciúme, meu!
— O mais incrível é que ela passou a merda do ano inteiro sem nem sequer olhar pra você direito, mas quando a gente começa a namorar, ela simplesmente acha milhares de novos tópicos de conversa! — ela explodiu novamente, fazendo Luke bufar.
— Para de falar desse jeito! — ele bufou. — Eu odeio quando você fala desse jeitinho irônico, caramba. Põe na tua cabeça que eu só tava conversando com ela, e era só isso, que droga.
— Luke, se põe na merda do meu lugar, você não sentiria ciúme também? Pelo amor de Deus!
— Sentiria, mas eu tentaria ser um pouquinho mais compreensivo! — ele disse, já brigando. — Você conversa direto com o tal do Brad, não é? Eu não fico enchendo por causa disso!
— Ai, Luke, eu mal troco um “oi” com o Brad, por favor — ela revirou os olhos. — E mesmo que trocasse. Não me importaria se você tivesse falando com outra garota, mas aquela é aStephy.
— Mas claro que você se importaria! — ele brigou. — Da Stephy pra outra garota, que diferença faz?!
— A diferença é que você não disse “eu te amo” para outra garota, e nem dormiu com outra garota. A diferença é que a Stephy já significou algo de verdade pra você. Essa é a diferença, Luke. — Ela se levantou, bufando. — Então, sim, caramba, eu estava sentindo ciúme, mas você podia se esforçar pra ser um pouco mais sensível e entender.
Então ela saiu, batendo os tênis fortemente contra o chão, cheia de raiva.
Luke passou uma mão pelo rosto e deu um soco na mesa, bufando. Respirou fundo e saiu dali em passos rápidos, quase correndo, em direção ao corredor de armários.
Quando a avistou andando rapidamente pelo corredor, correu para alcançá-la e segurou seu braço. Ela suspirou.
— Olha... — ele começou a dizer.
— Não quero conversar agora, Luke, sério. Vamos falar sobre isso depois por que eu não aguento mais... — ela tentou terminar a frase, mas foi surpreendida pelos lábios de Luke, calando-a e encostando-a nos armários.
Não pensou nada antes de corresponder o beijo à altura, enquanto ele segurava sua nuca com firmeza, entrelaçando suas línguas de um jeito quase feroz. Com os olhos fechados, sendo beijada por Luke daquela maneira, ela quase se esqueceu de toda a raiva e ciúme.
Quando seus pulmões pediram por ar, ele separou seus lábios, ainda colando sua testa na dela e segurando seu rosto com as duas mãos.
— Às vezes esse é o único jeito de fazer você calar e me escutar — ele sussurrou, sorrindo. — Escuta, me desculpa, ok? Eu não devia ter ficado tanto tempo conversando com a Stephy, mas você não precisa sentir ciúme. Enfia dentro dessa sua cabeça que é você que eu amo, e eu sou louco é por você. É contigo que eu quero estar, Sophie, não com Stephy ou mais ninguém. É você.
Sophie não pôde deixar de sorrir, sentindo Luke tão perto falando aquelas coisas todas.
— Eu sei — ela suspirou. — Me desculpa por dar crise, também. É só que eu te amo demais e ver você com ela... sei lá. Me enlouquece.
Luke sorriu novamente, colando seus lábios uma segunda vez, dessa vez vagarosamente, apenas para sentir o gosto do beijo daquela que ele tanto amava. Sophie segurou suas mãos enquanto elas seguravam o rosto dela, apenas dando firmeza àquele beijo devagar. Luke separou seus lábios quase em câmera lenta, tentando estender ao máximo a sensação de sentir sua boca junto à dela, e então levou seus lábios vagarosamente até o seu pescoço, deixando beijos ousados por lá. Sophie segurou seu cabelo e suspirou longamente, sentindo todos os pelos do seu corpo se arrepiarem pelos movimentos que Luke fazia em seu pescoço.
— Luke... — ela disse, a voz rouca, a cabeça enevoada. — Estamos na escola. Para... por favor.
Ele deu uma risada rouca e Sophie fechou os olhos, querendo tudo, menos que ele tirasse os lábios de seu pescoço naquele momento.
— Só se você prometer que vai ser minha para sempre — ele sussurrou no seu ouvido. Sophie sentiu os batimentos cardíacos aumentarem de um modo avassalador.
— Eu serei. Prometo. — ela respondeu com a voz igualmente rouca. Puxou o rosto do namorado para si e roubou seus lábios mais uma vez, dando nele um beijo rápido mas nem por isso menos gostoso ou apaixonante. Luke segurou sua cintura, correspondendo o beijo rápido à altura, para logo depois finalizá-lo com mais alguns selinhos.
E então o sinal bateu, fazendo-os suspirar por terem de se afastar. Logo aquele corredor ficaria cheio.
— Tenho que ir pra classe, tem uma reunião com a comissão de formatura — Luke disse roucamente, ainda distribuindo selinhos pelos seus lábios.
— Tá bem — ela respondeu, sentindo sua respiração se misturar a dele. — Até mais.
Ele lhe deu mais um selinho prolongado.
— Até mais — disse, e então saiu pelo corredor andando de costas e jogando um beijo no ar para ela, que sorriu como uma criança.
Vendo Luke se afastar e algumas pessoas aparecerem por lá ela deixou-se sentar no chão e passou uma mão pelo rosto. Droga! Era para ela estar com raiva, mas até uma crise forte de ciúme Luke conseguia resolver apenas com alguns beijos e umas palavras. Sophie levou a mão ao peito, sentindo o coração palpitar mais do que forte no peito. Tudo por causa de Luke.
Ele não tinha ideia do que fazia com ela.
You don’t have a clue. You don’t know what you do… to me.
Sophie sorriu e se levantou, abrindo seu armário com a senha. Pegou um papel qualquer que havia por lá junto com uma caneta também jogada e escreveu a frase. Poderia dar uma boa música se ela trabalhasse na letra.
Ela sorriu. Estava escrevendo músicas demais pensando em Luke ultimamente. Aliás, havia alguma coisa que ela não estivesse fazendo demais enquanto pensava em Luke ultimamente?




[...]




— Último set! — gritou a treinadora, apitando forte e fazendo os grupos de vôlei colocarem-se em seus lugares.
O ginásio estava relativamente vazio. Apenas o 2ºF treinava aquele jogo que estava sendo prolongado pelo placar: dois setes para cada time, meninos contra meninas. O que era uma vergonha para os rapazes, que alegavam com um sorriso no rosto que se deixaram perder. Como se isso fosse realmente verdade.
E foi com eles que a bola começou. Um saque, nenhum bloqueio ou recepção, um ponto masculino, uma piadinha competitiva para as garotas. Outro saque deles, um bloqueio, um ponto das meninas, uma outra piadinha. Tudo acontecendo aos gritos e olhos da treinadora mais dura do colégio.
O próximo saque seria de Stephany Stewart. A loira atirou a bola para o alto, pulando e dando-lhe o murro mais forte que conseguira. Mas a bola não foi para o outro lado da rede, não.
A bola acertou a cabeça de uma aluna, que, bufando e com a cabeça doendo, se virou com raiva.
— Me desculpa! — gritou em voz fina Stephy, com um sorriso nos lábios, semi-coberto pelas mãos que havia levado ao rosto.
Sophie, ainda com a cabeça doendo, bateu o tênis contra o mármore.
— Soph, calma — Jenny sussurrou, segurando seu braço.
Ela respirou fundo.
— Stewart! — gritou a treinadora. — Mais atenção! Ponto para os garotos!
Stephy deu um sorrisinho sonoro e grunhiu outro falso pedido de desculpas à Sophie, que apenas respirou fundo outra vez e voltou para o seu lugar na recepção das bolas. Era aonde ela jogava melhor, com certeza, uma vez que não tinha altura para o bloqueio ou técnica para sacar. Mas ela era uma das melhores em salvar as bolas com uma manchete bem feita.
E foi exatamente isso que salvou o time da revira-volta dos meninos, que não deixariam seu ego se rebaixar por perderem para as garotas. Durante o intervalo, tinham até apostado dinheiro, garantindo que elas jamais ganhariam pois eles eram grandes e mais fortes. Mesmo assim, o jogo se mantinha acirrado, e ninguém conseguia tirar mais de dois pontos de diferença. Mesmo que o saque dos meninos fosse mais forte, a recepção das meninas era mais esperta. E mesmo que o bloqueio dos meninos fosse bom, o ataque das meninas conseguia ser mais eficiente. Em suma, não tinha realmente como dizer qual time ganharia.
Agora o jogo já estava quase no ápice. Os meninos ganhavam com 22 pontos, enquanto as garotas marcavam 21. O último ponto havia sido delas, portanto, a equipe delas era a sacadora.
Sophie apertou o coque no cabelo colorido, sentindo o suor que se fez em sua nuca. Suspirou, esperando o saque do time em direção ao dos meninos e se preparou para salvar a bola caso eles a bloqueassem.
Mas não foi isso que aconteceu.
Pois a bola que saiu das mãos de Stephy Stewart, pela segunda vez, voou bem em direção à sua cabeça.
Sophie se virou, sentindo o ódio correr pelas suas veias, pronta para enfiar a mão com toda a força no rosto de Stephy. E ela iria fazê-lo se a voz da treinadora não a houvesse parado:
— Farro, parada! — ela gritou e Sophie bufou. — Stewart, fora! Essa já é sua primeira advertência verbal, você sabe como funcionam as minhas aulas. Se você vacilar outra vez, será suspensa por cinco dias. Agora vá para o vestiário.
Stephy murmurou um pedido de desculpas e obedeceu a treinadora, caminhando tranquilamente para fora do ginásio.
Mantenha a calma, Sophie murmurou para si mesma. Mantenha. A. Calma.
Tentou se concentrar no jogo e o fez, mas no fim, os garotos cumpriram sua promessa e conservaram seu ego. Ganharam pela diferença de dois pontos — já que a agressão de Stephy custou ao time feminino um ponto. E, claro, não era só Sophie, mas todas as meninas estavam com raiva dela por isso.
Sabiam que não havia sido sem querer.
Mesmo assim, enquanto seguia para o vestiário com o blusão nas mãos, ela repetiu em pensamento para si mesma que não deveria ligar para tal. Uma briga com Stephy lhe traria muito mais problemas do que o prazer de lhe dar uns bons tapas na cara. O sensato a fazer era deixar para lá. Sensatez. Use de sua sensatez.
Sophie entrou com as outras garotas no vestiário feminino, ainda trocando xingamentos com os garotos que se gabavam pela vitória. Sorria, até ver Stephy com um sorriso falso no rosto, encarando-a por cima do celular em que mexia. Aliviou seu sorriso, indo em direção a pia e lavando seu rosto com as duas mãos. As outras quatro meninas do time, mesmo tendo perdido, não pareciam tristes. Conversavam entre si tranquilamente, levando o jogo mais como um divertimento do que como uma competição. Diferente dos meninos, aparentemente, que provavelmente fossem esfregar a vitória na cara das garotas por pelo menos um ano.
Depois de rir um pouco com as garotas, Sophie concordou em dar sua vaga no chuveiro para as outras garotas, já que elas eram cinco e só haviam quatro duchas. Stephy já parecia ter tomado banho, já que mexia descontraidamente no celular e seu cabelo estava molhado e solto.
Sophie se sentou na pia e pegou seu celular que estava dentro da mochila, checando para ver se não tinha recebido nenhuma mensagem. Danna havia enviado uma dizendo que estava enrolada no trabalho e se ela não chegasse a tempo para buscá-la na escola, poderia seguir andando. Sophie suspirou. Já tinha estourado sua cota de atividade física do dia, ainda teria que andar?
— Desculpa mesmo pelas boladas lá na quadra — ela ouviu a voz irritante de Stephy respirou fundo. — Foi sem querer. — Ela disse, com um sorrisinho irônico nos lábios.
Sophie se levantou e encarou Stephy com os olhos frios.
— Olha aqui, Stephy. Se você tiver algum problema comigo, você vem resolver. Não por meio de joguinhos. Chega em mim e resolve, simples assim. — Ela disse, dura.
Stephy deu mais uma mini risadinha.
— Foi sem querer, desculpa! — ela disse com a voz mais irritante do que nunca. Sophie revirou os olhos e voltou a se sentar na pia, com a atenção voltada para o celular. Mas sua paz só durou meio minuto. — Então... eu vi você e Luke brigando hoje na hora do intervalo...
Sophie, com uma expressão entediada, não retirou o olhar do celular.
— Se viu isso, também deve ter visto a gente fazendo as pazes no corredor. — Respondeu com o tom de voz quase inexpressivo, mas sem esconder um sorriso vitorioso.
Stephy riu sem vontade.
— Isso eu não vi. — Respondeu, ainda com o sorriso falso no rosto.
— Que pena — Sophie disse mantendo o mesmo tom inexpressivo.
— Enfim, espero não ter causado problemas de verdade — Stephy retomou. — Só chamei Luke para conversar pra saber quando seria o baile de formatura dele, mas o assunto acabou se prolongando. Sabe como é, né, é bom relembrar os velhos tempos...
Sophie sorriu, inibindo completamente o ódio que lhe abateu naquele momento. Sentiu uma vontade bem grande de simplesmente se levantar e dar um soco em Stephy com toda a força que tinha no punho, mas não o fez. Ao invés disso, ela sorriu. Sensatez.
— Sim, sei como é. É realmente bom relembrar os velhos tempos já que nos tempos atuais não é você quem faz parte — ela disse, tranquilamente, agora encarando Stephy com um sorriso vitorioso no rosto.
O contato visual só durou um segundo. O suficiente para Sophie captar o ar de raiva que Stephy exalava e voltar sua atenção para o celular.
— Pois é — Stephy se recompôs, colocando o sorriso falso e irritante na cara novamente. Deixou que o silêncio reinasse durante um quarto de minuto. — Então... notei que você não veio exibindo seu carro hoje para a escola.
Sophie riu.
— Ele quebrou — disse, tranquilamente.
— Sim, eu vi que sua irmã te trouxe — ela retomou com o sorriso falso no rosto. Sophie levantou os olhos do celular, encarando Stephy sem o sorriso no rosto, mas com uma expressão confusa. Como Stephy sabia...? — Sim, eu soube da história. Luke me contou.
Sophie precisou fechar os olhos com força por um segundo, apenas para digerir aquela frase. Luke não poderia... Não. Não, ela estava mentindo. Luke não faria uma coisa dessas. Não.
Ou sim?
— Pois é, ela trouxe. E trouxe a Luke também. — Sophie tentou inutilmente esconder sua fúria e confusão. Para a felicidade de Stephy.
— Sinto muito. Sei lá, acho que eu ficaria realmente mal se soubesse que meu pai tem uma filha adulta fora do casamento e escondesse ela de todo mundo — ela disse e Sophie travou as teclas do celular, sentindo a raiva tomá-la gradativamente. — Mas você é forte. E o Nate, como ficou? Acho que não bem, já que ele nunca mais foi o mesmo, o baque foi forte, levando em conta que ele nunca mais foi o cachorro que sempre foi desde a partida daquela garota. Qual é o nome dela mesmo? Julia?
— Você sabe o nome dela — Sophie cortou, levantando-se da pia, sentindo pequenos tremores de puro ódio. — Ela te surrou, lembra?
Stephy apenas deu um sorriso falso, levantando-se também.
— Mas eu realmente acho que quem mais sofreu por isso foi o mais novinho, né? Como é o nome daquele, o loirinho? — ela levou uma mão ao queixo, fingindo tentar se lembrar. — Você sabe, aquele seu irmãozinho menor. O veadinho. Deve ter sofrido mais, acredito.
Sophie já não tinha mais controle dos seus atos quando sua mão atingiu o rosto de Stephy com toda a força e raiva que tinha. E mesmo que tivesse, mesmo que a raiva não tivesse controlado sua mão agora, Stephy passara dos limites. Todos eles. Havia falado mal não apenas dela e de Luke ou de Julia, mas havia falado mal de sua família. Seus irmãos. E, agora, Sophie iria fazê-la arrepender-se de tê-lo feito.
Stephy queria encrenca, pois bem. Era o que ela teria.
Sophie a sentiu segurando seu cabelo, puxando-o, e sentiu um bocado de dor ao ter certeza que ela arrancara vários fios, mas isso apenas serviu para deixá-la com mais raiva. Deu-lhe outro tapa no rosto com as costas da mão e, na volta, diferiu um tapa bem dado na outra parte do rosto. Stephy gemeu de dor e fechou a mão, acertando o lábio de Sophie, que agarrou o cabelo da loira e o puxou para baixo com toda a força que tinha, fazendo a cabeça de Stephy virar para o lado e gritando de ódio.
Sem ligar para o sangue que escorria no canto da boca, Sophie acertou o joelho na boca do estômago de Stephy, que largou o cabelo de Sophie e se curvou sem conseguir respirar. Sophie pegou seu cabelo, puxando-o com toda a força, e lhe deu mais um tapa forte no rosto, fazendo-a gritar de dor e ódio. Mas esse tapa não foi o único. Sophie diferiu outro, e outro, e outro, gritando, descontando toda a sua raiva.
— Isso é pra você aprender, vadia! — ela gritou, dando um outro tapa na cara de Stephy, que tentava a todo custo diferir outros golpes em Sophie. Já segurava seu cabelo com força e tinha tentado lhe acertar um chute também, mas Sophie lhe deu um chute com toda a força na perna, que a fez gritar mais uma vez de dor. — VOCÊ NÃO TEM NENHUM DIREITO DE FALAR NADA SOBRE A MINHA FAMÍLIA, OUVIU? — ela segurou o rosto de Stephy contra o seu, dando um outro tapa nele. — E se você fizer isso de novo, eu juro, que acabo com a sua raça! Eu... acabo... vadia! — ela disse as últimas palavras compassadamente, acertando mais tapas e socos em Stephy, que já tinha lágrimas nos olhos. Agora tentava arranhá-la com suas unhas enormes e bem feitas, mas a raiva de Sophie era grande demais para que ela se deixasse abater por isso, ou pelos tapas já não fortes, ou até mesmo suas puxadas de cabelo. Sophie continuava diferindo tapas e socos, especialmente em seu rosto, e Stephy já chorava de dor. Mal se agüentava em pé.
E Sophie continuaria batendo com toda a força que tinha até se cansar, se Jenny e as garotas não saíssem do chuveiro e separassem-nas acompanhadas da treinadora que aparecera ofegante.
Jenny segurou Sophie, gritando para ela se acalmar, mas Sophie só queria voltar e bater em Stephy até arrancar — mais — sangue de seu rosto. Não escutava mais os gritos de Jenny ou das outras meninas, ou mesmo da treinadora. A raiva era tanta que ela simplesmente havia perdido a noção de sensatez. Ah, a sensatez realmente não estava nem perto das noções que haviam em Sophie agora.
— Soph, caramba! — Jenny gritou, segurando seu braço com força e provavelmente deixando uma marca. Estalou os dedos na frente dela. — Acabou! Se acalma, inferno! Se acalma!
— Mas o que diabos vocês tem na cabeça?! — gritou a treinadora e Stephy começou a chorar copiosamente, enquanto Sophie lentamente ia acalmando a respiração (e o espírito). — Eu fico fora durante vinte minutos e vocês começam a trocar socos?! Por causa de um jogo de vôlei?!
— Não foi por causa do jogo! — Sophie gritou. — Ela procurou! Ela falou mal de mim, do meu namorado, da minha melhor amiga e ofendeu a minha família! Ela quis brigar, e ela teve o que quis!
— Abaixe o tom, Farro! — a treinadora gritou e Sophie bufou, lutando para se controlar. — Eu vou levar a Stewart para a enfermaria e você me espere na frente da sala do diretor, ouviu?
Sophie suspirou.
— Ouvi — respondeu, seca.
Então a treinadora foi levando Stephy — que ainda chorava — para longe junto a duas garotas, e Sophie se viu sozinha com Jenny e Caitlin — uma das meninas do time. Sentindo as mãos latejarem e a cabeça doer levemente, além do gosto de sangue na boca, ela começou a rir.
Jenny suspirou.
— Você é maluca! — disse alto. — Acabou de sair na porrada com Stephy, com certeza será suspensa e está rindo?
Ela não parou de rir e se virou para a pia, lavando o sangue que escorria pelo canto esquerdo de seu lábio. Preciso de gelo, ela pensou. Ou então vai ficar inflamado.
— Julia vai gostar de saber disso — Sophie disse, ainda com o sorriso nos lábios.
Jenny passou as mãos pelo rosto.
— Você e Julia são umas duas esquentadas que vivem caindo nas provocações imbecis da Stephy. Isso não deveria acontecer, Soph, por que a Stephy levou uns tapas mas ela sabe que isso vai te prejudicar — Jenny tentou esclarecer e Sophie revirou os olhos.
— Ela falou mal dos meus irmãos. E não importa o quanto eu me ferre por isso, Jenny, eu não vou escutar ninguém chamar o Nate de cachorro ou o Joe de veado sem que essa pessoa sinta o peso da minha mão no meio da fuça. — Sophie respondeu, encarando Jenny com fúria e passando o dedo pelo lábio inchado em seguida.
— Stephy achou seu ponto fraco — Jenny disse. — E ela vai usar isso novamente contra você.
— Então ela vai apanhar novamente, Jennifer — Sophie disse. — Não aturo esse tipo de coisa. Eu não aturo. Ninguém vai ofender minha família na minha frente e sair impune.
Jenny suspirou novamente, fazendo que não com a cabeça.
— Você é uma cabeça dura — ela fez uma pausa. — Mas assim como fiz quando a Julia fez o mesmo com a Stephy que você fez agora, eu digo que foi bobagem. Foi, sim, muita bobagem. Mas... ela mereceu.
Sophie sorriu novamente.
E então suspirou. Tinha que ir para a diretoria e assinar uma suspensão, então eles chamariam seus pais. Mas seus pais não estavam na cidade.
— Vou ligar para Danna. — Disse, meio chateada consigo mesma apenas por ter de fazer Danna passar por aquilo logo no primeiro dia cuidando dela e seus irmãos.
Ainda assim, não se arrependia. E achava sinceramente que depois de ouvir toda a história, nem Danna, ou mesmo Hayley iria repreendê-la por ter feito o que fez.
Enquanto o telefone chamava, Sophie não pôde deixar de pensar que havia perdido a cabeça por Stephy ter falado que sabia da história de Danna. Ela havia dito que Luke contara para ela.
Sophie negou com a cabeça, Luke jamais faria algo assim com ela. Não... ele não podia. Não podia revelar algo tão íntimo para alguém tão odiosamente terrível. Mesmo que no passado ele sentisse algo realmente forte por ela, isso não diria respeito a ele. Luke não faria isso.
Mas nem por isso ele aprovaria o ato de Sophie ao bater em Stephy. E isso era certeza.




[...]




Danna dirigia o carro enquanto Sophie segurava a bolsa de gelo ao lábio inchado. Quando recebeu a ligação da garota no trabalho, Dakotah havia liberado-a durante a tarde, já que ela trabalhara bastante para o casamento de Josh e Hayley e, além do mais, segunda-feira é um dia calmo. Mesmo assim, Danna ficou preocupada. Sophie não parecia do tipo de garota que brigava no colégio, mesmo que fosse um tanto cabeça dura.
Agora que ela havia narrado o porquê da briga, Danna apenas deixou com que seu queixo caísse.
— Ela... disse isso mesmo? — perguntou só para confirmar. Mas ela sabia que havia escutado bem.
— Disse — Sophie abaixou a cabeça. — Desculpa deixar você saber disso. Não é certo.
— Tá tudo bem — Danna manobrou o carro e apertou o botão que abria a garagem da casa dos Farro. — Eu... estou realmente chocada. Mas que vadia.
— Eu não me controlei. Nem vi o momento que meti o primeiro tapa na cara dela. Eu estava com tanta raiva, que... — Sophie suspirou, deixando a frase morrer. — Ela disse que o Luke disse isso pra ela. Sei lá.
— Acha que ele pode ter feito isso?
— Sinceramente? — Sophie abriu a porta do carro e saiu. — Não. Mas ele não quis me dizer sobre o que eles estavam conversando, e a pulga fica atrás da orelha. Confio nele. Mas... como ela iria saber?
— Ela não é prima da Jenny? — Danna perguntou. — Talvez ela tenha comentado com alguém e você sabe como funciona a fofoca, não é? Corre mais rápido do que fogo queima a palha.
Sophie riu.
— Bela comparação — disse.
— Obrigada — Danna sorriu. — Quando seus pais ligarem eu vou ter que dar a notícia, você sabe.
— Tudo bem. Com os meus pais eu sei lidar — Sophie deu uma risada e adentrou a casa. Nate e Joe já estavam lá dentro, pois Danna e Sophie ficaram até mais tarde no colégio resolvendo os problemas da suspensão que havia sido de cinco dias. Não quiseram aceitar Danna como responsável pelas duas não terem o mesmo sobrenome, mas ela apenas precisou brigar um pouco com a coordenadora para que tudo se acertasse. E isso demorou um bocado, então, provavelmente Nate e Joe já teriam terminado de almoçar.
Mas quando elas adentraram a sala, viram que não só Nate e Joe estavam lá, mas também estava Luke.
Sophie apenas precisou olhar para ele para saber que não estava tudo bem.
— Ah, Luke — disse Danna, assim que o viu.
— Oi, Danna — ele deu um sorriso educado.
Sophie se aproximou dele.
— Podemos conversar? — ele perguntou sério.
Ela assentiu, suspirando. Os dois seguiram em silêncio até o quarto de Sophie, e quando ela fechou a porta, Luke bagunçou os cabelos levemente.
— Então é isso? — ele perguntou, encarando-a.
— Eu sei que você não concorda com isso...
— É claro que eu não concordo, Sophie! — ele aumentou o tom de voz. — Brigar? Sair na porrada com a Stephy?! Pelo amor de Deus, eu achei que nós tínhamos resolvido isso!
— E nós resolvemos! — ela gritou de volta. — Mas ela me provocou, Luke! Ela ultrapassou todos os limites! Ela procurou a briga de todas as maneiras! Ela quis apanhar!
Luke riu, debochado.
— Ela provocou, Soph, por que ela é assim! A questão é que nós conversamos e até discutimos sobre ela, e você me faz acreditar que tudo tá bem, mas aí quando eu saio da sala e te procuro me dizem que você foi suspensa por mandar a Stephy para a enfermaria?! Sério?!
— E por que diabos você acha que foi por sua causa que eu briguei com ela, Luke?! — ela gritou, já sem se controlar. — O que nós discutimos, nós resolvemos, caramba! Ela me provocou por que ela me ofendeu e ofendeu a minha família!
— E o que de tão ruim assim ela fez para você quebrar o nariz dela, pelo amor de Deus?!
— ELA FALOU DA DANNA! — Sophie explodiu. — FALOU DA CRISE DO NATE! FALOU DA DEPRESSÃO DO JOE! ELA FALOU DE TUDO, LUKE, QUE EU SOFRI DURANTE ESSE TEMPO POR CAUSA DA SEPARAÇÃO DOS MEUS PAIS! E ELA DISSE QUE VOCÊ CONTOU ISSO PRA ELA, CARAMBA!
Luke se calou por um segundo, enquanto deixava Sophie explodir.
— Você acreditou nisso? — ele perguntou, encarando-a com um misto de decepção e tristeza.
Sophie passou uma mão pelo rosto.
— Não, eu...
— Sério, Soph, que você acreditou que eu tinha contado uma coisa tão pessoal assim que nem sequer me diz respeito pra uma menina que eu sei que você odeia? — Luke falou com a voz quase calma, porém sem poder estar mais decepcionada. — E aí, por isso, por base em uma mentira e em uma crise de ciúmes idiota, você saiu na porrada com ela?
— Eu não acreditei nela, Luke, mas você não quis me contar o que vocês conversaram no intervalo! — Sophie ainda estava com o tom alterado. — E, caramba! Eu tenho meus princípios, tenta entender! Eu não deixo ninguém falar mal da minha família na minha frente e ficar quieta, Luke, eu não consigo.
— ERA ISSO O QUE ELA QUERIA, SOPHIE! — ele explodiu. — Ela queria te irritar! Te tirar do sério! E ela achou seu ponto fraco!
— Achou mesmo, inferno! — ela gritou de volta. — Eu bati nela sim, mas isso foi por que ela fez questão de esfregar na minha cara o que conversou com você e ofendeu, ela ofendeu a minha família! Eu não deixo, Luke, eu não aceito! Eu bati nela e bato outra vez se for preciso!
— Você repetiria essa idiotice, caramba?! Você não entende que a maior prejudicada nisso tudo é você?!
— Ah, não — Sophie deu uma risada sem humor. — A maior prejudicada nessa briga com certeza não sou eu, Luke. Acredite em mim.
Luke fez que não com a cabeça.
— Você não é fria desse jeito, Sophie. — Ele ainda negava com a cabeça.
— Sou com as pessoas que merecem minha frieza — ela respondeu de imediato.
— CARAMBA! — Luke explodiu outra vez. — Quando você vai ver que partir pra violência com a Stephy nunca vai funcionar?! Isso é um ciclo, Sophie, não vai acabar nunca! Ela é assim e vai te implicar sempre batendo na mesma tecla!
— Eu sei que ela é assim, e é por isso que eu vou bater nela quantas vezes for preciso! — ela gritou de volta, com o rosto rubro de raiva. Luke também não estava muito diferente.
— E aonde isso vai te levar, pelo amor de Deus?! — ele já não controlava mais os gritos.
— Pouco me importa! — Sophie gritou mais uma vez, vermelha, controlando-se para não deixarem as lágrimas saírem dos olhos. — Eu só sei que não vou deixar ninguém, Luke, ofender os meus irmãos e ficar quieta! Sendo ela a Stephy ou não, concordando você ou não, tendo você algum sentimento por ela ou não! — ela terminou de dizer e duas lágrimas saíram pelos olhos dela.
— Sophie, caramba, eu já disse um milhão de vezes que amo é você! — ele gritou, bagunçando os cabelos pela milésima vez. — Mas eu não consigo amar essa parte fria, violenta e ciumenta sua!
— Então talvez você não me ame de verdade! — ela gritou de volta, deixando com que as lágrimas saíssem com toda a força de seus olhos.
Luke abriu e fechou a boca algumas vezes, sem forças para revidar. Sophie deixou um soluço sair.
— Gente — Danna abriu a porta do quarto, olhando preocupada para os adolescentes ali dentro —, o que tá acontecendo aqui?
Sophie se virou, passando as mãos pelos olhos enquanto ainda chorava.
— Nada — Luke disse frio. — Nossa conversa terminou aqui. — E então saiu pela porta em passos firmes.
Foi só ter a certeza de que ele não estava mais no quarto que Sophie precisou para desabar.

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