23 de set de 2012

Capítulo 31

You're not alone anymore



Satisfação.
Era esse sentimento que havia acometido o interior de Sophie naquela hora, de modo que ela até se permitiu dar um pequeno sorriso. Mas logo o apagou de sua face, afinal, mesmo que a música estivesse terminada, ela estava consideravelmente pequena e bem forte. Sophie sabia que havia pego pesado, tanto com a letra como com a melodia e a batida que ela pediria que Dan fizesse, logo depois. Mas ela não se importava.
Aquela música havia lhe libertado. Suas emoções, ao invés de saírem dos olhos e rolarem pelas suas bochechas, foram expressas em um pedaço de papel com tinta de caneta. E ela estava muito mais satisfeita com aquilo.
Oh, merda. Luke tinha razão outra vez.
Por que fora exatamente isso que ele havia dito para ela vários dias antes. “Se estiver carregada de sentimentos, componha, isso te fará bem”, ou algo parecido, Sophie não se lembrava muito claramente. Sua cabeça ainda estava super afetada pelos acontecimentos tão óbvios que não precisam ser citados. A questão era que, bem, ela estava mesmo carregada de sentimentos, e depois de descontar tudo no papel e gritar a música a plenos pulmões enquanto Joe estava na aula complementar e Nate havia saído para sabe-se lá aonde, Sophie se sentiu como se tivesse tirado um peso dos ombros.
Já não estava mais tão carregada assim. Sentia-se quase renovada.
Mas só quase.
Sentiu seu estômago roncar e foi até a cozinha preparar algo para comer. Optou pelo cereal e encheu um copo de suco de uva depois, como quase sempre fazia, já que sua mãe simplesmente não parava mais em casa nem para pedir comida japonesa. Sophie detestava tudo isso, mas não tinha coragem de ir conversar com Hayley. Sabia que ela só estava tentando ser forte, inibindo seus sentimentos com o trabalho excessivo.
Mas, droga, ela sentia falta da mãe. Hayley estava tão obcecada pelo trabalho que não parava nem quando estava de folga. Andava sempre com o computador nos braços, preparando tudo para “uma festa importante” que sempre existia. Chegava tarde, saía cedo. Todo dia. E parecia nunca estar cansada.
De modo que Sophie que tinha de lidar com tudo o que estava acontecendo sozinha. Ela duvidava muito que Hayley escutasse os gemidos e eventuais gritos que Joe dava a noite por conta de seus pesadelos horríveis, já que como ela dormia apenas cinco horas por dia, devia apagar completamente. Também duvidava que ela soubesse que Nate já não era mais o mesmo garoto feliz e sorridente que ela conhecia, desde a ida de Julia para a Europa. Duvidava até mesmo que Hayley soubesse que Joseph já não dormia mais no próprio quarto e dividia a cama com Sophie toda noite, pois se não fosse assim, se sentia sozinho e desamparado, e então começava a dar mais uma crise de pânico.
As crises dele estavam frequentes agora. De vez em quando ele voltava a sorrir e ser o garoto esperto e sensível que todos conheciam, mas não era sempre. Joseph havia se transformado em um menino triste e desanimado para tudo. Sophie tinha de insistir muito para ele comer ou sair de casa para um lazer, e ultimamente, nem à escola ele estava querendo ir. Havia pego medo do escuro e de ficar sozinho de uma maneira assustadora, e Sophie teve de aprender a dormir com dois abajures ligados. Ele também tinha pesadelos toda noite e acordava chorando, gemendo e tremendo. Às vezes gritava, às vezes sentia náuseas tão fortes que chegava a vomitar. Às vezes, ele se sentava no chão da sala de estar e apenas chorava. Não pegava mais seu notebook para escrever ou ler, e não via mais graça nem em assistir televisão.
Isso preocupava Sophie de uma maneira incalculável. Ela estava sempre com o irmão, tentando animá-lo e fazer com que ele ficasse feliz outra vez. Não era nada fácil, mas ela procurava dar o seu melhor para o irmãozinho. O levava para sair constantemente (mesmo contra a sua vontade) e estava sempre sorrindo, incentivando-o a sorrir também, o que vez ou outra funcionava, e isso já era uma baita realização.
Mas de uma coisa todos sabiam: apenas Sophie conseguia acalmá-lo. Apenas seu abraço conseguia fazer com que Joe parasse com sua crise. Apenas suas palavras tocavam o coração do menino. E, talvez, apenas ela conseguisse fazer com que ele saísse daquele estado. E ela ia dar tudo de si para que isso acontecesse.
Agora, Joe estava em sua aula complementar. Havia se inscrito no início do ano e ele até gostava, pois agora fazia aulas-reforço de inglês, participava do teatro e também de um clube do livro que discutia sobre literatura moderna e preparavam resenhas e opiniões sobre os livros sugeridos. Joe gostava muito até o acontecido. Agora estava um tanto desanimado para isso também.
Mas Sophie tinha fé que tudo ia melhorar.
Por isso continuava tocando com Dan e Luke — Nate também, mas ele faltava noventa e cinco por cento dos ensaios desde a partida de Julia, de modo que na maioria das vezes eram apenas os três. Era um dos poucos momentos da semana em que Sophie se sentia absorta de qualquer preocupação e problema. Era apenas Sophie, os meninos e a música, que a libertava para um mundo novo de imaginação, onde tudo era perfeitamente calmo e alegre.
Quando o ensaio acabava, ela recebia um banho frio de realidade e tinha de enfrentar tudo com a cabeça erguida. Mas já estava quase se acostumando a isso.
Após comer, Sophie encarou o relógio e viu que já estava quase na hora que os garotos tinham marcado como ensaio. Estava ansiosa para mostrar a música para eles, mesmo que suspeitasse que eles não fossem interpretar facilmente como se ela tivesse escrito uma música sobre um passarinho voando. A música toda era um tanto forte, mas como foi citado antes... ela não ligava. E achava que os garotos fossem gostar.
Decidiu tomar um banho antes de ir para a garagem de Luke. Após fazer isso, ligou para Joe e depois para Nate, apenas para saber se os dois estavam bem. Depois de uma breve conversa com os irmãos, Sophie pegou sua partitura, junto com uma tablatura que havia feito para Luke e, também, a letra da música. Com os papéis em mãos, ela seguiu para a casa que ficava a poucos passos de distância.
Como sempre, tocou a campainha apenas uma vez. Esperou alguns segundos até Luke atender a porta.
— Francamente, Dan, você poderia... — Luke ia dizendo quando abriu a porta e cortou a frase no meio, vendo que era Sophie que estava ali. — Ué, você?
Sophie semicerrou os olhos.
— Sim, eu. Qual é o problema? — ela o olhou como se Luke tivesse um problema mental.
— Faltam dez minutos para uma da tarde — ele disse e ela revirou os olhos. — Quer dizer, você, chegando na hora? Aliás, chegando antes da hora?
— Repito: qual é o problema?
— Nenhum — Luke sorriu, dando espaço para ela entrar. — Só estou achando isso meio milagroso, só isso.
— Você quer apanhar mesmo, ou...?
Luke gargalhou.
— Até parece que se você viesse brigar comigo, eu é que apanharia — ele deu de ombros.
— Claro que sim. — Sophie bufou.
— Claro que não. Você é fraquinha.
— Fraquinha? — Sophie abriu a boca em indignação.
— Sim! — ele ressaltou. — Qual é, nós já brigamos outra vez, lembra?
O pensamento de Sophie se dirigiu para um ano atrás, quando eles estavam no acampamento da escola e saíram no tapa por um lugar na barraca.
— Lembro, sim. Lembro muito bem que você só segurou minha perna enquanto eu te estapeava de todas as formas. — Sophie deu de ombros.
— Exatamente. A marca da minha mão ficou na sua perna, mas os seus tapas foram tão significativos quanto os tapas de uma formiga.
— Mentira sua — Sophie bufou. — Você sentiu dor, sim!
— Senti nada! Você é fraquinha. — Luke repetiu com um sorriso no rosto.
— Sabia que eu te odeio?
— Sabia — ele assentiu com a cabeça, quase sério. — Sinta-se lisonjeada em saber que o sentimento é recíproco.
— Idiota — ela revirou os olhos, mas estava com um sorriso no rosto.
Era estranho, mas quando estava discutindo com Luke, Sophie quase se esquecia de todos os seus problemas. Era como se nada estivesse acontecendo, ela apenas estava apta a discutir e levar uma conversação agradável e ao mesmo tempo desagradável com Luke.
Ele causava isto nela. Essa espécie de ódio esquisito que — oras, ela devia admitir — lhe fazia bem.
Seus pensamentos foram interrompidos pelo som da campainha. Luke já ia se dirigindo até a porta quando a mesma abriu, revelando um Daniel que estava com cara de que havia acabado de acordar.
— E aí, Noah — ele deu um tapinha nas costas de Luke, que sorriu. — Sabe, na boa, você poderia ter cancelado o ensaio de hoje ou então me deixado dormir na aula de química.
Luke revirou os olhos.
— Por que ele está com tanto sono? — Sophie disse, e Dan arregalou os olhos para ter certeza de que era ela.
— Red Soph?! Quatro minutos antes da hora?! — ele disse, completamente espantado.
Dessa vez, foi Sophie que revirou os olhos.
— Vocês todos merecem apanhar. — Bufou.
— Ele está com sono por que não tinha feito o trabalho final do semestre de biologia que foi passado um mês atrás. Então passou a noite toda fazendo e agora quer dormir. Mas nós temos ensaio. — Luke respondeu e Sophie teve certeza que ele estava sentindo prazer em dizer aquilo. Devia ter dado um verdadeiro sermão para Dan.
— Tá, tá — Dan revirou os olhos. — Larga de ser chato, Noah. Já fiz a parada e já entreguei. Você verá que o professor ainda vai me elogiar. — Luke riu, claramente duvidando. — O que eu quero saber é o que Red Soph faz aqui tão cedo.
— Compus uma música — ela desistiu de ameaçar Dan de morte e entregou a tablatura para Luke e a partitura para Dan.
Eles grudaram os olhos no papel e o analisaram por um momento.
— Parece simples — Luke disse e Dan concordou.
— É simples — ela disse. — Mas é... bem, ela é forte.
— Fiquei curioso, agora — Luke riu. — Vamos lá.
Não demorou muito e eles estavam na garagem de Luke, com todos os instrumentos e microfones plugados e devidamente afinados. Mas agora, apenas Sophie iria tocar. Os garotos haviam pedido que Sophie lhes apresentasse a musica para depois eles tocarem todos juntos, e ela concordou tranquilamente.
Com a letra da música e a partitura à sua frente, ela se aproximou do microfone.
— A música ainda não tem nome — ela disse, enfim. — Gosto de Brand New Eyes, mas não é nada permanente. A tablatura é simples mesmo, e isso é o que vai levar a música até o fim. — Sophie parou de falar e fez um pequeno solo. — Dan entra com a bateria, então. A partitura tá com ele.
— Agora você mostra a música — Dan sorriu e Sophie fez que não com a cabeça.
Então começou a tocar de verdade. Sentiu um arrepio percorrer todo o seu corpo, olhando a primeira estrofe. Fechou os olhos e ainda sentindo-se arrepiar, começou a cantar.



So your father told you once, that you were his princess.
(Então, seu pai lhe disse uma vez, que você era a princesa dele.)
But you won't see the castle… You cannot find your prince.
(Mas você não vai ver o castelo... Você não pode encontrar o seu príncipe.)

And now you've grown a lot, and your dresses don't fit right…
(E agora que você cresceu muito, e os seus vestidos não servem mais...)
Daddy's not a hero.
He stole your chariot.
(Papai não é um herói.
Ele roubou a sua carruagem.)



Luke não notou quando seu queixo simplesmente caiu. Ao escutar aquilo, ele teve a certeza de que Sophie escreveu a música para se libertar do que sentia. Indiretamente e diretamente, aquela letra era para ela própria. Sophie havia escrito uma música como uma mensagem para a própria Sophie.
Isso era triste, era forte. Mas... era também genial.



So here you are in pieces trying to prove to us it's real…
(Então, aqui você está em pedaços, tentando nos provar que é verdadeiro...)
The softness of your smile… 
And the lies you want to feel.(A suavidade do seu sorriso… E as mentiras que você quer sentir.)
The scales beneath your skin are showing off today…(As escamas embaixo de sua pele estão aparecendo hoje...)
There's evil in your heart.(Existe maldade no seu coração.)
And it wants out to play.(E ela quer sair para brincar.)



Sophie depositava toda a sua energia e vontade naquele teclado e naquele microfone. Tocava e cantava de olhos fechados, sentindo tudo o que dizia e colocava em melodia. Afinal, aquela música era mesmo tudo o que ela estava passando. Era na verdade um auto-retrato da própria Sophie, que sofria por tudo o que estava acontecendo.
Mas a música não era apenas para ela.
Era para seu pai, também.
Ela não podia negar aquilo. Quando começou a compor as palavras simplesmente saíram de sua boca, para depois serem escritas no papel. Ela mal encontrou dificuldade em colocar rimas. A melodia forte martelava em sua mente. Ela estava precisando escrever tudo aquilo.
E não se arrependia.
Por que era exatamente o que ela estava passando. Ela estava sim em pedaços e fingindo estar bem para todos com um sorriso falso. Querendo ou não, sim, existia maldade no coração dela.
E ela queria sair para brincar.



There's evil in your heart… and it wants out to play.
There's evil in your heart…
(Existe maldade no seu coração… e ela quer sair para brincar.
Existe maldade no seu coração…)

And I made a home here, for me.
(E eu fiz um lar aqui, para mim.)
But you'll burn it down with your fantasy, and I…
Made, a home here… for me.
(Mas você vai queimá-lo com a sua fantasia, e eu…
Fiz, um lar aqui... para mim.)
But you’ll burn it down… with your fantasy.
(Mas você vai queimá-lo… com a sua fantasia.)



Quando Sophie terminou de tocar, sentiu novamente o arrepio correr seu corpo. O que ela não sabia era que tanto Luke quando Dan estavam mais arrepiados ainda. Os dois estavam com os olhos arregalados e a boca entreaberta, mas ficaram uns bons trinta segundos sem conseguir dizer nada. Estavam mais do que perplexos com tudo aquilo, com aquela letra tão... intensa. E a melodia que havia feito o contraste certo com a letra, deixava tudo tão... perfeito.
Sem conseguir falar nada, tudo o que Dan conseguiu fazer foi começar a bater palmas.
— Isso. Foi. Incrível. — Ele disse, ainda batendo palmas. Luke assentiu com a cabeça.
— Completamente incrível — ele disse, ainda sem conseguir deixar a perplexidade de lado. — Tipo, eu... Caramba! Essa música é...
— Intensa — Dan completou.
— Isso! E...
— Legal.
— Também — Luke assentiu de novo com a cabeça.
— Ahn... obrigada? — Sophie semicerrou os olhos.
— Parabéns, sério — Luke. — A música ficou... nossa, sei lá. Perfeita.
— Isso aí. Parabéns, Red Soph... tipo... putz! — ele deu uma risada. — Quero tocar. Enquanto você cantava eu fiquei pensando nos batuques.
— Yep — Luke fez que sim com a cabeça. — Vamos tocar.
— Ok, então — Sophie disse. — Vocês estão com as partituras, só precisamos encaixar. Se importam se a gente só tocar essa música hoje?
— Por mim, beleza. — Dan disse, sentando-se à bateria.
— Por mim também — Luke concordou.
Com a linha forte de bateria que Dan fizera e a guitarra constante de Luke, pode-se dizer que a música ficou ainda melhor. Sophie se sentiu quase aliviada por tocar aquilo.
Simplesmente por que era a melhor maneira de ela se libertar. Sophie sabia que após esse ensaio, seus problemas a aguardavam com pudor.
E ela sabia que estava certa.



[...]



Quando Hayley saiu do escritório do advogado, sentia-se exausta. Sua cabeça latejava de dor e seus olhos ardiam. Estava até mesmo um pouco tonta, talvez pelo sono ou por saber da péssima notícia que Derek havia lhe contado.
Josh não havia assinado os papéis. Não concordava com a guarda das crianças e por isso procurou um advogado. E agora, Josh não concordava mais nem mesmo com a separação em si, de modo que não tinha como haver um Divórcio Consensual.
“Caso ele aceitasse e concordasse com tudo, o procedimento seria muito rápido” tinha dito Derek, casualmente, pouco antes. “ Pela legislação, o procedimento do Divórcio Consensual poderia ser simplesmente feito em um cartório, mas para isso tanto a Sra. como o Sr. Farro precisariam estar de acordo. Eu faria a Petição e em poucos dias, a Sra. já estaria divorciada. Entretanto, como ele não está de acordo e se recusa a assinar a Petição... Nós precisamos entrar em processo de Divórcio Litigioso. É necessário um juiz para esse divórcio, e o processo é demorado.”
Após Hayley perguntar o quão demorado era, Derek respondeu:
“Bem, existem muitos casos de Divórcios Litigiosos em andamento nos Estados Unidos, e a maioria deles são bem mais graves do que o da Sra., então será necessária paciência. Além disso, o Código Civil exige que os cônjuges estejam separados de fato há pelo menos dois anos em casos como esse.”
Foi neste momento que a cabeça de Hayley começou a doer de verdade.
Josh não ia concordar com o divórcio, ela tinha certeza. Ele adiaria isso o tanto que fosse necessário, pois ainda tinha esperança de que Hayley voltasse para ele.
Mas isso não ia acontecer! Hayley não ia deixar isso acontecer! Droga, quanto ela já havia sofrido por causa de Josh? Demais! Ela não podia... simplesmente... voltar para ele. Ela não confiava mais nele!
“Mas você ainda o ama.”
Hayley xingou mentalmente o pensamento imbecil que insistia em penetrar em sua cabeça. Não, ela não podia continuar amando-o mesmo após o que ele havia feito. Era só pensar na menina! Vinte e um anos, a vida destruída por não ter um pai. Não conseguia imaginar Sophie crescendo sem Josh, por exemplo. Não conseguia entender como Josh conseguia dar amor a uma filha deixando outra crescer sem nem sequer vê-lo.
Era só pensar nisso para toda a raiva e a decepção tomar conta dela de novo.
Não importava o amor, droga! Hayley se entregou ao amor quantas vezes em sua vida? Cinco. E quantas foram as vezes que esse mesmo amor a decepcionou?
A primeira com seus pais. A segunda com Josh, ainda criança. A terceira com Josh, quando ele foi para a guerra. A quarta com Jason, quando ela mesma basicamente estragou tudo. A quinta ao se casar com Josh, para depois, descobrir que ele tinha uma filha com Jenna fora do casamento.
Cinco vezes. De todas as vezes que ela se entregou ao amor, ela se decepcionou.
Então de que importava amar se o amor só fazia com que ela sofresse e se decepcionasse?
Hayley havia se cansado. Simples assim. Estava farta de sofrer. Estava exausta. Não queria mais.
E por isso estava com tanta raiva de Josh por ele não assinar o maldito papel. Assim que ele o fizesse, pronto. Ela nunca mais se entregaria e poderia ter, finalmente, um pouco de descanso desse amor.
Essa droga desse amor que só lhe fizera mal.



[...]



Paramore ecoava nos ouvidos de Luke.
Ele estava preguiçosamente deitado no sofá da sala de estar enquanto os fones em seus ouvidos tocavam That’s What You Get. Um sorriso singelo se fazia nos lábios do rapaz enquanto, mais uma vez, ele admirava cada instrumento de modo separado. A destreza da guitarra em perfeita sincronia com a linha de contra-baixo bem moldada, a bateria que dava toda a vida para a música, e claro, a voz forte e perfeita de Hayley que deixava o pacote Paramore mais perfeito do que poderia ser.
Pensando nos pais e tios gravando essa música, Luke não pôde deixar de pensar em Sophie, Dan, Nate, e nas tardes que eles estavam passando juntos. Uma segunda geração da Paramore.Loucura, sim, loucura. Mas Luke estava realmente se divertindo enquanto fazia aquilo.
Pensou na música que ele, Sophie e Dan haviam tocado menos de uma hora antes. Mesmo que o ensaio não tivesse durado até a noite (Dan estava caindo de sono), tinha sido uma pequena tarde bem aproveitada. Tocaram a música de Sophie — Brand New Eyes, provisoriamente — várias vezes e conseguiram terminá-la com perfeição muito mais de uma vez. A música era realmente perfeita! Forte, levava metáforas, e...
E... Era tão real.
Tão real que preocupava Luke. Sophie não estava bem desde o acontecido e ele sabia. Mesmo que ela se esforçasse para estar normal com Jenny, Marie, Dan e Max, com Luke aquilo não colava.
Mas ele não podia fazer nada senão esperar. Luke sabia que separações eram complicadas. Mas um dia, o pesadelo acabaria.
E... bem, Luke podia estar equivocado, sim, podia... mas ele achava realmente que Sophie só era ela mesma quando estava cantando, e... bem. Quando estava discutindo com ele.
Tudo bem que eles não tinham tido nenhum tipo de discussão tensa e irritante há um tempo considerável. Era mais uma implicância boba. Sophie até disse que o odiava com um sorriso no rosto, mais cedo.
De um jeito esquisito, ele se sentiu bem por tentar fazê-la se sentir mal. Por que isso fez bem a ela.
E, certo. Isso não fazia o menor sentido.
De repente, interrompendo seus pensamentos confusos, ele teve a impressão de ouvir a campainha tocar. Retirou os fones de ouvido e levantou a cabeça num ato involuntário, ficando alerta. A campainha tocou e ele teve certeza de que ela havia tocado anteriormente.
Correu até a porta e a abriu. Quem estava lá o surpreendeu.
— Luke! — gritou Rosa, a empregada dos Farro. — Onde está Sr. Jeremy? Preciso falar com ele! Onde está seu pai?
— Ele tá trabalhando, mas se acalma — Luke tentou tranqüilizar a mulher. Estava completamente alterada, segurando um telefone sem fio, respirando freneticamente.
— Acabaram de ligar do colégio de Joseph — ela foi falando. — A diretora me disse que ele havia dado uma crise lá! Não sei mais o que fazer, por que a Sra. Hayley está trabalhando, Nate saiu e Sophie precisou ir à casa de Marie.
— Crise? — Luke ficou confuso. — Não, espera. Crise de quê?
— De pânico, de choro, de depressão... eu não sei o que ele está passando — ela mexeu o telefone nas mãos, inquieta. — A diretora disse que ele estava chorando muito e não deixa ninguém chegar perto dele. Disse para alguém ir buscá-lo, mas eu mesma não tenho ideia de onde ele estuda, e como eu já disse...
— Rosa, se acalma — Luke tentou novamente tranqüilizá-la. — Eu vou lá, ok? Sei onde fica.
— Mas o menino está perturbado! — ela disse. — A separação do Sr. Joshua com a Sra. Hayley afetou demais a cabecinha dele. Ele é esperto, mas ainda é uma criança, e ele está em depressão...
— Eu já disse que vou lá, certo? — Luke gritou e pegou as chaves em cima da mesa de centro da sala junto ao celular e os jogou no bolso, saindo da casa e trancando-a rapidamente.
— Mas... O seu pai, ele poderia...
— Já tô indo, Rosa — Luke disse apenas isso e deixou a mulher falar sozinha enquanto quase corria em direção ao colégio de Joe.
Não ficava muito longe dali. Apenas há uns dois quarteirões de seu próprio colégio, por isso, ele chegaria lá bem rápido se caminhasse depressa. E era isso mesmo que ele estava fazendo.
Mas a história ainda era meio louca. Joe? Depressivo? Era tão difícil imaginar a figura de uma criança ativa e sorridente como Joe em depressão pelos pais estarem se separando.
Luke se preocupava tanto com Joe quanto com Nate. Eram como se fossem seus primos, já que considerava Hayley e Josh como tios. Viu Joseph crescer e sentiu imenso orgulho dele quando o próprio garoto de olhos verdes e cabelo loiro lhe disse que ia lançar um livro.
Não era justo que Joe sofresse ou ficasse depressivo. Ele era... uma pessoa boa demais. Luke se importava de verdade com ele.
Por isso, exatos oito minutos depois de Luke sair de casa, ele já estava na porta da escola. Entrou sem ser permitido e deu de cara com uma mulher que andava pelo corredor. Aproximou-se dela, educadamente:
— Com licença, estou procurando a... quinta série — Luke demorou um bocado para calcular a série de Joe. — Me ligaram. Vim buscar Joseph Farro.
— Ah, Joseph! — a mulher o reconheceu. — Você é o que dele?
— Sou... primo — Luke decidiu mentir. — Meus tios estão trabalhando.
— Certo — a mulher começou a andar em direção a sala que Luke supôs ser de Joe, então ele a seguiu. — Joseph está me preocupando, Sr...
— Davis. Luke Davis. — Ele disse seu nome, enquanto acompanhava a mulher.
— Sr. Davis — ela se corrigiu. — Ele estava desinteressado na aula-reforço de inglês, e a professora passou um poema para os alunos interpretarem, mas... ele começou a chorar. Se isolou e começou a chorar. Quando os colegas tentaram falar com ele, ele disse que não queria conversar. Quando a professora foi falar com ele, ele pediu desculpa e disse que não ia fazer a interpretação. Desde então ele não responde mais ninguém. Eu mesma tentei falar com ele, mas ele não responde, apenas continua chorando nos próprios braços.
Luke escutou a provável diretora do colégio falar aquilo como se ela estivesse se referindo a outra criança. Não, aquele não era Joe. O garoto que chorava e não queria falar com ninguém? Não era Joe.
A única característica dele ali era pedir desculpas por não fazer o dever. Isso se parecia com ele.
Por isso, Luke seguiu a mulher até a sala de aula-reforço de Inglês. Não havia nenhum aluno lá — o que explicava o porquê de tantas crianças estarem correndo pelo pátio —, apenas a professora em sua mesa e Joe ao fundo, encolhido na cadeira, soluçando.
Luke sentiu seu coração apertar e viu que detestava ver aquele garoto tão bom chorando.
Quando a professora o viu seguido da diretora, silenciosamente se dirigiu até a porta. Vendo Luke, ela disse, meio surpresa:
— Esperava ver a irmã dele — ela disse baixo, para apenas os dois ouvirem. — Você é irmão dele?
— Sou primo — Luke repetiu a mentira.
— Certo... ele não está falando com ninguém... estou preocupada. Vê-lo assim dói o meu coração.
— O meu também — Luke concordou sem nem ver e se dirigiu até o fim da sala. Joe estava com a cabeça entre os braços e não notou Luke chegando lá até que ele colocasse uma mão em seu ombro.
Joe levantou o rosto vermelho pelas lágrimas e desfez a feição de choro por um segundo, surpreso por ver Luke ali.
— Luke? — ele disse com a voz totalmente embargada.
— E aí, amiguinho — ele sorriu, apertando o ombro de Joe. — Ligaram pra sua casa e a Rosa me avisou que você estava triste. Vim saber se era verdade.
Joe abaixou a cabeça e soluçou. Não disse nada.
— Ei, carinha — Luke apertou novamente os ombros dele e Joe levantou o rosto mais uma vez. — Você lembra da noite de natal no mesmo ano que Sophie foi embora?
Joe meneou que sim com a cabeça. Luke continuou:
— Você foi pra minha casa junto ao Nate e nós começamos com as histórias de terror. Mas o Nate pegou pesado e assustou você com uma história sobre lobisomens. Lembra? — Luke perguntou e Joe, confuso, fez que sim com a cabeça. — Então no meio da noite você teve um pesadelo e eu acordei com isso. Eu pedi pra você me contar o que estava acontecendo e você hesitou, lembra?
— Sim. — Joe respondeu, fungando. — Mas eu te contei quando você me pediu de novo.
— Isso. — Luke deu um sorriso simpático. — Você me contou do seu medo e pediu pra eu não contar pro Nate. Eu cumpri com a minha promessa, por que eu me importo contigo. Você é o irmãozinho que eu não tive. — Luke bagunçou seu cabelo, sem tirar a mão de seu ombro. — Então, Joe... me diz, carinha: qual é o seu medo?
Joe continuou chorando, mas levantou as mãos e tentou secar o rosto, sem muito êxito.
— Meu pai e minha mãe... eles... estão se separando, Luke. Mas eles estão brigados e não se falam mais. E papai já não fala mais com a gente... Mamãe só fica enfiada naquele trabalho, e... eles estão nos abandonando — Joe chorou mais ainda. — Eu tenho pesadelos com essas brigas deles... toda noite... e meu pai tem uma filha, e... às vezes eu sonho com ela também. Eu fico triste todo o tempo, por que... nada mais tem graça.
— Sabe, Joe — Luke se sentou de frente pra ele. — Muitas crianças passam por divórcio dos pais hoje em dia. Mas... entenda que isso não é tão horrível quanto parece ser. É triste por que está recente, e seus pais podem até estar magoados, mas... existe uma coisa que nunca vai mudar. Essa coisa é o amor que tanto tio Josh quanto tia Hayley sentem por você. — Luke passou a olhar bem nos olhos de Joe. — Você é forte, carinha. Você é esperto. Você pode superar isso.
— Não posso... — Joe discordou, ainda chorando. — Não consigo...
— Você tentou? — apesar das palavras intimidadoras, Luke mantinha o sorriso tranqüilizador no rosto. — Você precisa tentar, Joe. Precisa tentar de verdade.
— Como? — ele ainda fungava.
Luke se calou por poucos instantes, até seu rosto se iluminar e ele olhar no fundo dos olhos da criança antes de dizer:
— Escreva. — Ele sorriu, encorajador. — Escreva, Joe. Se liberte. Diga tudo o que sente na escrita, que é a sua paixão. Escreva a história de um garoto que passa por problemas na separação dos pais. Escreva a sua história e, quando chegar a hora, você vai saber o que fazer para que o seu personagem supere e aproveite o amor de seus pais e irmãos. — Luke novamente colocou a mão no ombro de Joe. A face do mais novo havia se iluminado por um instante, e Luke pensou ter dito a coisa certa. — Não se esqueça de citar o pseudo-primo maneiro.
Então Joe sorriu, mesmo que ainda fungasse por causa do choro. Achou graça do que Luke dissera. Gostara da ideia da história. Gostara da ideia de tentar.
— Uma história? — ele perguntou.
— Sim, que tal? Seu agente ia adorar, sabia? Se você escrevesse a história de um jovem que passa por problemas familiares e superasse tudo isso. — Luke ainda sorria, enquanto olhava no fundo dos olhos da criança. — Não há nada que vá te fazer melhor do que escrever.
— Acho que posso tentar — Joe passou os braços pelos olhos, tentando inibir o choro.
Luke sorriu.
— Só depois de eu te levar pro cinema e pro fliperama. Sabe o que eu queria, também? Comer no Burger King.
— Prefiro McDonalds. — Joe se manifestou, ainda fungando por conta do choro.
— McDonalds, então — Luke sorriu.
— E depois livraria?
Luke riu.
— Sim, e depois livraria. — Ele respirou fundo, sorrindo. — Agora me dá um abraço aqui, pirralho.
Ele deu um meio sorriso e se levantou da cadeira para abraçar Luke, que mexeu com seu cabelo e sussurrou que tudo ia ficar bem.
Foi nessa hora que os passos firmes de alguém fizeram com que eles se separassem e olhassem rapidamente para a porta. Uma garota entrou como um furacão, correndo, e os olhou com total preocupação.
Mas a face dela logo se aliviou quando Joe se separou de Luke e, olhando para ela, disse:
— Vou escrever outro livro, Soph. Quer ir ao McDonalds? Luke me convidou.



[...]



— Certo, eu desisto disso — Sophie disse, largando sua guitarra e entregando-a para Joe.
Já havia tentado tocar a música Welcome To The Jungle – Guns N’Roses pelo menos vinte vezes naquele fliperama. Mas ela não se dava bem com Guitar Hero. Sempre apertava as cores erradas e às vezes se esquecia de palhetar. Definitivamente, não nascera para aquilo.
Diferente de Joe e Luke, que competiam um entre o outro, para ver quem conseguia a maior pontuação. A sessão do filme só começaria dali a meia hora, e eles já estavam no fliperama há quase quarenta minutos.
— Você nem parece que tem uma ótima coordenação motora desse jeito, Soph — Joe fez que não com a cabeça. — Nem consegue nem tocar Guitar Hero!
— Não nasci para isso — ela torceu os lábios.
— Notamos — Luke disse e Joe deu uma risada gostosa.
A risada que mexia com o estômago de Sophie e fazia com que ela se sentisse completamente feliz.
— Vá se ferrar, Davis — ela revirou os olhos e Luke riu, colocando outra ficha na máquina e entrando em outra batalha com Joe.
Joe alinhou a guitarra de brinquedo no corpo e se concentrou em acertar as notas juntamente à Luke. Ambos riam e zoavam um do outro.
Ninguém diria que aquela criança estava chorando pouco tempo antes.
E isso fazia com que Sophie se sentisse completamente emocionada. Joe estava se divertindo! Havia esquecido de tudo por um tempo e estava sorrindo muito. Luke estava sempre fazendo piadinhas com ele e Joe sempre ria. Aparentemente gostava da companhia de Luke.
Sophie tinha de agradecer a Luke por aquilo. Essa era a verdade.
Só Deus sabe da angústia que ela sentiu ao chegar em casa e escutar Rosa desequilibrada dizendo que Joe havia dado uma crise. E apenas Ele sabe também do alívio que sentiu ao ver Joe abraçado em Luke e depois, convidando-a para comer no McDonalds. Coisa que eles ainda não haviam feito, pois os dois estavam muito concentrados em tocar a música certa. Nem sequer passaram perto dos outros jogos, foram direto para o Guitar Hero e estavam lá até agora. Já haviam gastado uma fortuna em fichas.
Sophie achava um roubo cobrar um dólar por cada ficha, já que ela própria, na primeira vez, não conseguiu nem chegar até a parte em que Axl começa a cantar a música. Nunca havia gastado cinco dólares tão rapidamente em sua vida.
Pelo menos Luke e Joe faziam o dinheiro durar.
Quando ambos terminaram de tocar uma música do Metallica, Joe começou a comemorar. Luke se deu por vencido, dizendo:
— Certo, você ganhou — ele suspirou. — E pensar que eu sou guitarrista de verdade.
— É, e pensar também que eu não toco nada e ainda assim ganhei de você! — Joe esfregava a vitória na cara de Luke.
— Tá certo, pirralho, não vem contar vantagem. Na próxima eu ganho, você vai ver. — Luke revirou os olhos.
— Veremos — Joe disse em tom desafiador e Luke riu.
— Podemos comer agora? — Sophie se meteu, fingindo estar entediada.
— Te acalma, sua chata — Luke revirou os olhos e Sophie lhe deu um soco fraco no braço. — Ai!
— Sem agressão aqui, por favor — Joe disse e pegou na mão de Sophie, enquanto eles se dirigiam para fora do fliperama.
— Diz isso pra sua irmã! — Luke disse e pegou a outra mão de Joe. — Ela vive me batendo.
— Você não liga — Sophie olhou pra ele e sorriu. — Eu sou fraquinha, lembra?
Luke riu sonoramente e fez que não com a cabeça.
— Espertinha.
Eles subiram pela escada rolante até a praça de alimentação, e enquanto Sophie pedia seu lanche e o lanche de Joe no McDonalds, Luke foi pedir um sanduíche com hambúrguer duplo no Burger King. Logo eles se sentaram em uma mesa que ficava perto da janela de vidro do shopping.
— Por que dois copos de refrigerante? — Joe perguntou mordiscando sua batata, referindo-se a Luke.
— Por que é de graça — Luke respondeu tranquilamente.
— Esse é o tipo de coisa que Dan diria — Sophie apertou os olhos. — Você anda passando tempo demais com ele. Vai acabar engordando.
Luke deu língua para Sophie para retrucar. Ela fez o mesmo.
— Vocês são tão maduros — Joe fez que não com a cabeça, rindo e molhando uma batata no ketchup. — Quando a sessão começa?
— Seis da tarde — Luke respondeu, mordendo seu hambúrguer.
— Nossa. Só vai acabar lá pras oito e meia! — Joe exclamou e Luke concordou. — Nossos pais não vão ficar bravos?
— Meu pai me ligou e disse que só chega depois das dez, e minha mãe tem uma festa e só chega de madrugada. Então, meus pais tão numa boa — Luke disse, sorrindo.
— Os nossos também — Sophie concordou. — Só preciso ligar para Nate, mas ele não vai dedurar.
— Que legal! — Joe disse. — Nunca fiquei fora de casa até tão tarde.
Sophie riu do comentário de Joe. Se sentia tão leve, tão... feliz. Joe estava sorridente e alegre, e... Isso a fazia tão bem.
Depois de comerem, eles foram até o cinema e pediram milk-shakes e apenas um grande balde de pipoca. Sophie e Joe pediram refrigerante, mas Luke preferiu não tomar. Já havia estourado a cota de líquidos com o refrigerante de graça do Burger King.
Quando entraram na sessão não haviam muitas pessoas lá. Ficaram comendo e fazendo palhaçadas até o filme começar de vez.
Eles iam ver uma nova comédia do Jim Carey que estava em cartaz já havia algumas semanas, mas nenhum dos três tinha visto. E acabou sendo uma das sessões mais divertidas da vida dos três.
Joe estava adorando o filme. Sempre era o primeiro a explodir em risadas e, às vezes, Sophie e Luke riam mais dele do que do próprio filme. Quando Soph e Luke faziam guerra com a pipoca ou discutiam em voz baixa, era Joe que os mandava calar a boca “por que essa parte é legal”. Eles apenas sorriam de canto e obedeciam a criança.
As duas horas e meia de filme — contando com os trailers habituais — passaram mais rápidas do que pareciam. O filme acabou e Joe fez Sophie e Luke ficarem até as luzes se acenderem para saber se tinha alguma cena extra. Terminou que não tinha, mas eles aprenderam duas musicas novas.
— Cara — Joe disse, quando eles já estavam novamente na praça de alimentação —, ninguém jamais será tão engraçado quanto Jim Carey é.
— Concordo — Luke disse.
— Também — Sophie riu.
— Agora livraria, né? — Joe se virou para Luke, esperançoso. — Você prometeu.
— Prometi — Luke fez que sim com a cabeça. — Certo, vamos pra livraria. Mas eu só vou te comprar um livro, tudo bem? Nada de falir o pseudo-primo.
— Tudo bem — Joe sorriu. — Posso falir minha irmã, então?
— Se você falir sua irmã, ela não vai ter dinheiro para te levar pra escola de carro — Sophie sorriu simpaticamente.
Joe riu novamente.
— Preciso de mais pseudo-primos — ele fez piada e todos riram.
Após descerem um andar na escada rolante, eles adentraram a maior livraria do shopping. Além de vender livros, vendia também computadores, Jogos, DVDs e CDs. Era quase uma loja de conveniência.
Foram direto para a área de livros mais vendidos e Joe parecia perdido em um mundo encantado. A cada livro pelo qual passavam, ele dizia alguma coisa. Sempre soltava um “Ouvi muito falar dessa trilogia! Parece ótima!” ou “Olha, que maneiro. Sabia que vai virar filme, esse livro?” ou até mesmo “Meu Deus! Cinco milhões de cópias? Se tanta gente leu, deve ser bom!”.
Sophie passava os dedos pelos livros nas estantes até que Joe se aproximou dela.
— Caramba — disse —, agora eu me dei conta de que nunca li O Código Da Vinci. Acho que é esse que Luke vai comprar pra mim.
Os dedos de Sophie estavam parados na obra de Dan Brown que Joe queria ler. Ela riu.
— Tem certeza? Eu vi o filme... sei lá, parece meio fantasioso. — Ela torceu os lábios.
— O quê? O Código da Vinci? — Luke se aproximou, tirando o livro da prateleira.
Sophie assentiu com a cabeça.
— Aham, Joe quer levá-lo — ela disse. — Mas eu não sei... tipo, a história é legal. Mas acho fantasioso demais.
— Por quê? — Luke se virou para ela. — Convenhamos, a história pode ser inventada e tudo... mas tem fundamento.
Sophie apertou o olhar.
— Que tipo de fundamento pode haver em uma história que diz que Jesus se casou? — ela perguntou, impaciente.
— Todo! — Luke revidou. — Jesus é o símbolo de humildade e amor, não é? Qual é o mal em ele ter amado uma mulher? Acho super provável ele ter se casado com Maria Madalena, sim.
— Mas é claro que não! — Sophie bufou. — Jesus é sim o símbolo de humildade e amor aos próximos e, principalmente, à Deus. Ele é filho do Espírito Santo e a missão dele na terra não era... sei lá, procriar. Ele veio salvar os homens de si mesmos.
— Filho do Espírito Santo ou não, Jesus ainda era feito de carne. Ele era um homem! Com um coração tão cheio de amor que ele tinha, o que me garante que ele não tenha se casado?
— A Bíblia — Sophie revirou os olhos.
— A Bíblia foi modificada pela Igreja Católica — Luke bufou.
— Você não sabe o que está falando — Sophie o encarou com desdém.
— Ei.
— Sei, sim. Estou falando pela lógica e pela probabilidade. — Luke também a olhava com desdém.
— Ei, vocês! — Joe gritou. — Calem a boca! Essa é uma discussão que até os Acadêmicos têm, sabiam? Meu, Dan Brown quis vender um livro e escolheu um assunto polêmico, só isso. E não importa se Jesus se casou ou não, o importante é se ter fé nEle e em Deus e amá-los. Agora parem de discutir, por que isso irrita.
Sophie e Luke encararam o pequeno totalmente surpresos. Não falaram nada, de tão pasmos.
— Ótimo. Calaram. — Joe sorriu. — Posso levar o livro pro caixa?
— Tudo bem — Luke concordou, ainda meio pasmo, mas retirou os dólares necessários da carteira e os entregou a Joe, que saiu correndo até a fila do caixa eletrônico.
— Quer dizer... Como assim? — Luke se virou para Sophie.
— É — ela concordou. — Eu sei. Ele pode ser bem sábio, às vezes.
— A leitura constante muda as pessoas.
— Ou as deixa espertas demais para a idade.
Após Joe pagar seu livro, eles seguiram para o lugar na livraria destinado à leitura. Joe nunca havia lido por lá e tinha curiosidade, então nem Luke e nem Sophie se objetaram. Luke, por que estava se divertindo, e Sophie...
Bem, simplesmente por que não queria voltar para casa.
— Certo. Você lê em voz alta pra gente, Joe — Luke disse, sentando-se em um banco confortável que ficava de frente para uma mesa. Sophie se sentou ao lado de Joe.
— Não! — Joe se manifestou. — Não sou bom nisso. Depois de uma página, minha voz começa a falhar. Deixa a Soph ler, ela sempre faz isso.
— Mas...
— Então Sophie lê pra gente. — Luke disse.
— É melhor não — ela se manifestou novamente.
— Por favor, Soph — Joe pediu.
— Pelo seu amado irmãozinho, Soph — Luke imitou o timbre de voz de Joe e ela o encarou de cara fechada.
Pegou o livro da mão de Joe e, então, começou a ler o primeiro capítulo da obra.
Luke e Joe escutaram tudo muito atentos, até que Sophie sentiu a cabeça do irmão mais novo pousar em seu ombro. Ele estava adormecendo.
Sophie parou de ler. Luke estava tão absorvido na leitura que nem notou Joe cochilando.
— Ele sempre dorme — ela sussurrou e deu um sorriso pequeno. — Deve estar exausto.
Luke concordou com a cabeça.
— Até eu tô cansado — ele riu. — Vou levar ele até o carro.
E então Luke se levantou e pegou a frágil criança nos braços. Ele, Joe em seu colo e Sophie desceram os últimos andares de elevador e seguiram para o estacionamento. Sophie destrancou o carro e abriu a porta para que Luke acomodasse Joe no banco de trás.
— Vou ficar aqui atrás com ele — Sophie disse, suspirando. — Consegue dirigir à noite?
Luke deu um sorriso vitorioso e tirou a chave da mão da garota.
— Eu disse que ia dirigir essa coisa linda um dia! — ele exclamou.
Sophie deu uma risada sem humor.
— Ha, ha. Parabéns. Se morrermos a culpa é sua. — Sophie revirou os olhos e se sentou no banco traseiro do seu Nissan, alinhando o corpo de Joe ao dela. Ele recostou sua cabeça no ombro dela e suspirou.
No fim, eles não morreram. Luke conduziu o carro normalmente até a casa de Sophie e saiu para abrir a garagem dos Farro. Quando colocou o carro dentro da garagem e fechou o portão, Luke voltou para o carro. Colocou Joe nos braços novamente.
— Onde é o quarto dele, mesmo? — ele disse, começando a andar. Já estava na cozinha, em direção as escadas.
— Não importa, ele vai dormir no meu. — Sophie disse encarando os próprios dedos.
— No seu? — Luke estranhou um bocado.
— É — ela deu uma risada sem humor. — Deixa eu ir na frente, pra arrumar a cama pra ele deitar.
Sophie subiu as escadas rapidamente e Luke subiu devagar, imaginando o quão estranho aquilo era. Por que Joe estava dormindo no quarto de Sophie? Quer dizer... não fazia sentido.
Quando chegou ao quarto dela, ela já havia afastado as cobertas para Joe se deitar. Luke o colocou devagar na cama e Sophie retirou seus tênis e meias, depois o cobriu com o cobertor. Luke apenas assistiu enquanto ela o agasalhava com o cobertor. Depois olhou para a face angelical do irmão e deu um sorriso amargo. Passou os dedos pelos seus cabelos encaracolados e deixou um beijo em seu rosto.
Virou-se para Luke e sorriu falsamente. Daquela forma que não colava.
— Quer beber alguma coisa? — ela tentou ser simpática.
— Não sendo refri... — Luke fez uma piada e ela deu um meio sorriso, saindo do quarto e fechando a porta vagarosamente.
— Sophie? — ela escutou a voz de Nate vindo do seu quarto e fez um gesto com a mão para Luke parar. Sophie entrou dentro do quarto do irmão e Luke pôde escutar a conversa dos dois.
“Achei que você não voltava mais” Nate dizia e Sophie suspirou.
“Saí com Joe. Foi ótimo, inclusive.”
“Ah. Ele tá melhor?” Nate parecia preocupado.
“Melhorou muito hoje...” Luke percebeu que Sophie procurava as palavras para continuar falando “E você? Tá melhor?”
“Estou ótimo”, ele pôde ouvir Nate dizer com a maior naturalidade do mundo.
“Mesmo?”, Sophie insistiu.
“Já não disse?”, Luke arregalou os olhos. “Certo, desculpa. Fui grosso de novo. Mas não se preocupa, eu tô bem. Só tirei nota vermelha em Espanhol e vou passar a noite estudando, ok?”
Houve um silêncio por um tempo até Sophie respirar fundo e dizer “Ok”.
Então ela saiu do quarto de Nate e fechou a porta. Deu de cara com Luke que estava com a mão nos bolsos, olhando-a sem saber o que dizer.
Sophie colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha.
— Comprei uma caixa de suco de uva pra mim mais cedo, ainda tem. Pode ser isso? Se você quiser a gente pega o iogurte da minha mãe, também.
Luke deu um sorriso sem humor.
— O suco tá ótimo.
Eles desceram as escadas em silêncio e pararam na cozinha. Sophie retirou o suco da geladeira e pegou dois copos na lava-louças — Rosa tinha um problema para guardá-los no armário. Encheu-os com o suco e entregou um para Luke.
— Não sei se está gostoso ainda — ela disse, com aquele sorriso. — Estava aberto.
— Tá bom, eu gosto assim — Luke encarou o copo a sua frente.
Sophie suspirou.
— Eu... quero agradecer você — ela começou e deu um gole do suco. Não estava tão bom assim, para falar a verdade. — Eu fiquei bem aflita quando soube que ele tinha dado uma crise lá no colégio e quando eu vi que você tinha falado com ele, eu... nossa — ela fez uma pausa. — Eu não via ele bem assim desde o dia que meu pai nos falou sobre a garota. Ele riu tanto, e... Sei lá, eu não consegui fazer com que ele risse desse jeito, mas você conseguiu, e também conseguiu convencer ele a voltar a escrever! E... nossa, sério. Obrigada.
Luke sorriu.
— Não precisa agradecer. Ele é como se fosse da minha família, você sabe disso. — Luke também fez uma pausa. — Eu... posso perguntar uma coisa?
Sophie hesitou, mas respondeu:
— Hm... Claro. — E tentou sorrir.
— Primeiro... bem, esse sorriso não cola pra mim — Luke a encarou. — Te conheço, então se você não quiser sorrir... não sorri, ok? — Ele ainda olhava nos olhos dela quando ela suspirou e assentiu com a cabeça. — Mas... o que está havendo exatamente? Joe está dormindo na sua cama, Nate... está tão estranho...
Sophie respirou fundo. Não queria falar sobre isso, mas Luke merecia saber. E além do mais, sinceramente, se ela não liberasse aquilo... ela achava que explodiria.
— O que está havendo realmente... — ela repetiu as palavras de Luke, procurando em si mesma palavras que explicasse sua pergunta. — Está... tudo desmoronando. — Ela disse, por fim. — Tudo, Luke. Tudo está vindo ao chão. Desde que meu pai trouxe a bendita notícia pra casa, tudo... saiu do controle. Joe começou a ter crises de pânico... ele não pode mais ficar sozinho ou no escuro. Ele tem pesadelos toda noite, toda santa noite, e eu tenho que dormir com ele para garantir que ele vai ficar bem. Mas eu fico tão preocupada que acabo não dormindo. Nate... está tão diferente... Ele se isola, Luke. Se isola e não diz o que sente pra ninguém. Vive enfurnado no porão lutando ou estudando ou no computador... ou então sai pra não sei aonde. A única pessoa que o fazia se abrir era Julia, e... ela foi embora.
Luke largou o copo de suco e se aproximou dela. Agora, tudo fazia sentido em sua cabeça. As coisas na casa de Sophie andavam muito mais complicadas do que ele imaginava.
— E quanto a tia Hayley? — ele foi cauteloso em perguntar.
Sophie respirou fundo pela milésima vez.
— Não sei o que há com a minha mãe — ela fazia esforço para não gritar. — Ela só trabalha. Só isso. Tá sempre ótima, não sei nem se ela liga. Mandou os papéis do divórcio pro meu pai e ele disse que ia assinar. E nessas últimas semanas eu só vi ele duas vezes. E essa última foi hoje, quando eu fui visitar a “Marie” — ela fez aspas com as mãos e fez uma página. — Eu fui forte, Luke. Eu agüentei tudo isso até agora. A depressão de Joe, o isolamento do Nate, a indiferença da minha mãe... Nessas últimas duas semanas eu não derrubei uma única lágrima, sabe? Vi Joe chorar muitas vezes e o tranqüilizei, e cheguei a ver Nate chorando sozinho também. Julia me contou que ele estava arrasado. Mas eu não chorei. Não chorei por que tinha de ficar forte pra passar segurança pros meus irmãos, por que senão tudo desandava de vez...
Luke escutava tudo com atenção, sem saber o que dizer. Sophie continuou:
— O pior foi o Joe, sabe? — os olhos dela começaram a arder. — Não existe nada pior do que ver ele chorando, por que ele não merece... Ele é uma pessoa tão boa... E ele chora muito. Ele acorda no meio da noite gritando e gemendo. Às vezes tem náuseas tão grandes que vomita. Sabe a angústia que eu passo quando isso acontece? Eu me sinto tão impotente, tão incapaz... Ele dá as crises de pânico e de choro e eu tenho que abraçá-lo forte e prometer que isso vai passar, quando... — Sophie precisou fazer uma pausa. As lágrimas, finalmente, começaram a sair de seus olhos. Seu rosto já estava vermelho e ela tremia. — Quando eu... quando eu não tenho certeza de que realmente vai passar. Não existe nada pior, Luke, nada... eu... — Sophie não conseguiu terminar a frase e caiu em choro compulsivo, começando a soluçar imediatamente.
Luke não pôde fazer outra coisa senão puxá-la pelo braço e dar-lhe o abraço mais acolhedor que já havia dado em sua vida. Sophie continuava chorando em seu ombro como uma criança assustada, e ele continuava apertando-a contra o seu corpo, mexendo em seu cabelo e sem dizer nada, apenas esperando que aquele abraço pudesse, mesmo que um pouco, tranqüilizar sua angústia.
— Eu sou f-forte — ela disse, gaguejando, com a voz embargada. — Eu sou mesmo, Luke... mas sozinha eu não sei se vou agüentar... eu não sei se vou agüentar tudo isso... é demais p-pra mim... eu não vou conseguir... sozinha eu não consigo... — Ela havia passado os braços em volta dos ombros de Luke enquanto chorava, desabava e desabafava.
Luke se separou dela por um segundo e a olhou nos olhos assustados, e disse, com total convicção:
— Você não está mais sozinha — ele continuou a encará-la. — Nós vamos fazer tudo isso voltar ao normal, Soph. Não se sinta mais incapaz, por que, a partir de agora, você pode contar comigo para o que for, ok? Você não está mais sozinha.
O lábio inferior de Sophie voltou a tremer e ela caiu em choro novamente. Luke a puxou mais uma vez e a aconchegou em seus braços.
— Obrigada — ela murmurou com a voz embargada pelo choro. Luke passou a mão pelo seu cabelo e sussurrou:
— Não precisa agradecer.
E realmente não precisava. Luke sentia que esse era, agora, como se fosse o seu dever. Ele estava certo ao dizer que Sophie não estava mais sozinha.
Ele iria ajudá-la a partir de agora, e as coisas iam melhorar. Isso era uma promessa.

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