23 de set de 2012

Capítulo 21

To let the flames begin



Sophie sorriu e assoprou a fumaça que saía de sua xícara de café, tomando um pequeno gole depois.
Recostou-se no pequeno balcão encarando o relógio de parede à sua frente. Ainda não eram oito da manhã e ela já estava de pé, tomando um pouco de café puro que ela mesma fizera.
Na verdade, ela mal conseguira dormir durante a noite. Depois de ter ficado estirada na grama, olhando a lua e trocando beijos com Luke, ela voltou para a casa de sua avó (onde estava hospedada) com um friozinho gostoso na barriga.
O que, segundo ela, não queria dizer que ela estava apaixonada. Por favor.
Era por causa da bebida. Isso. A bebida.
Quer dizer, ela não sabia o que estava acontecendo entre ela e Luke (mesmo que tivesse uma certeza absoluta de que não envolvia nada entre paixão e essas coisas). Aquela atração impossível de se controlar... Ela ainda sentia raiva dele também, oras.
Mas é claro que seria bem mais fácil odiá-lo se ele não fosse tão absolutamente lindo.
E se eles não tivessem tido a infância que tiveram.
— Alguém acordou cedo — ela sorriu ao ouvir a voz de Luke mais rouca do que o normal. Logo ele apareceu em seu campo de visão, coçando os olhos. Ainda estava com o terno da noite passada, apenas muito mais amassado, de modo que ela duvidava que ele percebera que sua camiseta social por dentro do blazer estava aberta até quase o meio. Seus cabelos pareciam não ver um pente há dias e seus olhos estavam fundos e vermelhos. Isso sem falar de sua palidez matinal, quebrada apenas pela cor forte vermelha nas bochechas. Seus lábios estavam bem corados e inchados, o que denunciava que ele apenas tinha escovado seus dentes e descido para ali. Sophie teve de admitir que mesmo assim que acorda, amassado, com cara de sono, Luke conseguia ser absolutamente lindo. — Tem café pra mim?
Ela encheu uma xícara de café e entregou para ele, que apanhou-a com as duas mãos e passou a soprar a fumaça quente, tomando um gole depois.
— Parece que alguém tá de ressaca — Sophie disse, fazendo-o dar uma risadinha.
— É preciso mais do que champanhe e uma dose de uísque pra me fazer ficar de ressaca — ele disse, recostando-se no balcão também e fazendo sua camiseta abrir mais. — Só estou com sono. Não dormi nem cinco horas direito.
— Eu duvido ter chego as três — ela disse, tomando um gole de café também.
— Onde aprendeu a fazer café? — ele disse, encarando-a. — Por que, sério, nem a minha mãe faz um café assim.
— Aprendi em Londres — ela disse e ele fez que sim com a cabeça, entendendo. — Eu fazia café pras meninas do meu quarto.
Luke riu.
— Você parece ter se divertido por lá — ele disse e ela riu.
— Não tinha muita diversão não... — ela comentou. — Tinha muito trabalho, isso sim.
— Não me admira você tocar tão bem então. Quer dizer, você escutou Adore só algumas poucas vezes e conseguiu tocar com perfeição, de primeira.
Ela riu.
— Não é difícil se você ficar repassando a música muitas vezes na cabeça — ela deixou uma risadinha escapar, terminando sua xícara de café. Como sempre, sentia-se quase outra pessoa quando ingeria um pouco mais de cafeína do que o natural. — Ok, você me deixou com vontade.
— De quê? — ele a encarou, com um meio sorriso no rosto.
— Piano — ela respondeu, levando a xícara até a pia e lavando-a rapidamente. — Vamos tocar.
— Vamos? — ele disse, deixando o meio sorriso se alargar. — Quem disse que eu quero?
— Não te perguntei se você quer — ela revirou os olhos. — Eu disse que vamos, então nós vamos. Sua opinião não tem validade pra mim. — Ela tomou o mesmo sorrisinho sarcástico, fazendo Luke encará-la com falsa indignação.
— Pois eu não vou — ele colocou a xícara vazia de café no balcão e cruzou os braços no peito, virando o rosto.
— Não me faça te obrigar — ela mordeu o lábio inferior, andando devagar e parando bem em frente a Luke.
— Hum... — ele murmurou. — Estou apenas calculando se o seu “obrigar” vai me trazer mais benefícios do que se eu for de boa vontade.
Com delicadeza, Sophie descruzou seus braços, escorregando suas mãos pequenas por eles e ficando na ponta dos pés para sussurrar em seu ouvido:
— Garanto que não vai — e depois deixou uma mordidinha no lóbulo de sua orelha.
— Vamos lá! — Luke disse, fingindo super empolgação e ela gargalhou.
— Você não presta — ela fez que não com a cabeça, indo em direção à sala de estar, enquanto Luke ria.
No fim da sala de estar da Sra. Farro estava o piano de cauda. Josh o havia comprado pouco depois de voltar da guerra, pois achava que o piano era uma das poucas coisas que ainda lembravam Hayley. Ele era idêntico ao que tinha na casa de Sophie.
Ela e Luke se sentaram ao piano, e ela deixou suas mãos passarem pelas teclas, fazendo algumas notas aleatórias e harmônicas.
— Eu gostei dessa melodia — Luke disse, apenas assistindo.
— Não é uma melodia completa — ela riu. — Apenas estou tocando.
— Segura nessa melodia em fá sustenido menor, então — ele disse. — Acho que eu tenho uma letra que cabe nela.
— Uma letra? — ela respondeu, ainda tocando a mesma seqüência que Luke pedira.
— Sim, mas eu a deixei em casa... — ele comentou. — Certo, é só refazer.
Sophie continuou fazendo a seqüência, deixando os dedos se movimentarem com delicadeza, fazendo aquela melodia fluir. Luke pegou um pequeno caderno de partituras que estava preso ao piano e logo após, pegou uma caneta numa mesinha que estava perto dos dois.
— Linda essa melodia — ele disse, voltando e se sentando perto dela. Sophie riu, fazendo que não com a cabeça. — Faz mais devagar, só um pouco.
Ela mordeu o lábio inferior e fez que sim com a cabeça, fazendo a mesma seqüência com um pouco mais de cautela. Luke começou a cantar devagar.
— This is... how we’ll dance when... when they try to take us down… this is what will be, oh glory. (É assim... que dançaremos quando... quando eles tentarem nos derrubar... É assim que vai ser, oh glória.) — Luke cantou com sua voz rouca e grave, fazendo um arrepio involuntário percorrer a espinha de uma Sophie Farro que quase se desconcentrou em seu piano ao ouvir aquela voz tão perfeita junto àquela frase tão pequena, e ao mesmo tempo tão profunda, tão bem feita, tão perfeita, tão...
Tão Paramore.
— Nossa — ela disse, boquiaberta, após Luke terminar de cantar. — Ficou... perfeito, sério.
— Um prêmio de melhor mentirosa para Sophie Farro — Luke disse, recebendo um pequeno soco no ombro logo depois.
— Estava te elogiando, boboca — ela fez que não com a cabeça e voltou a fazer a mesma sequencia pequena de notas, deixando a mão direita acrescentar alguns solos que couberam bem à melodia. Luke pegara um caderno de partituras e escrevia o verso entre as linhas muito juntas da partitura. — Essa parte que você cantou agora pode ser o refrão.
— E qual seria o início?
— É o que nós vamos ver agora — ela disse. — O que mais tinha na letra que você tinha composto?
Luke pediu licença e começou a fazer uma sequencia diferente, mas na mesma melodia, apenas mudando a ordem das notas. Começou a cantar, mas depois parou, e começou novamente, até a melodia se encaixar totalmente no que ele tinha em mente:
— What a shame, we all became… such fragile broken things… — ele parou. — Algo assim.
— Adorei — Sophie sorriu e tomou o teclado nas mãos, fazendo a mesma coisa que Luke. — What a shame, we all became... such fragile broken things... a memory remains... just a tiny spark. (Que vergonha! Nós nos tornamos… coisas tão frágeis e quebradas... uma memória permanece apenas como uma pequena faísca).
— Sim! — Luke disse, animado. — Caramba, ficou tão melhor na sua voz. Mas olha, isso cabe certinho... que aí entra o que eu tinha escrito...
— Que era...?
— All my oxygen I’ll gave for the let the flames begin, oh glory — Luke disse sem cantar, apenas para mostrar o que havia escrito.
— Que tal a gente mudar e deixar... — Sophie voltou a fazer a mesma sequencia. — A memory remains, just a tiny spark. I give it all my oxygen, to let the flames begin… so let the flames begin, oh glory… (Uma memória permanence apenas como uma pequena faísca. Eu dou todo o meu oxigênio, para as chamas começarem… então deixe as chamas começarem, oh glória...) — ela terminou de tocar. — Então a gente pula pro refrão... this is... enfim.
— Adorei o que você fez no “oh glory...” puxando o falsete, sério — Luke disse rindo. — Vou escrever, ficou ótimo.



[...]



Luke e Sophie terminaram Let The Flames Begin pouco tempo antes de Jeremy e Katt acordarem. Quando isso aconteceu, eles saíram para visitar a casa dos avós de Luke, e eles estavam lá desde então. Já passava muito do meio dia quando todos na casa da Sra. Farro foram tomar café, por isso, o almoço foi interligado ao café. Agora, todos estavam na sala de estar, onde o som de Brighter em acústico ecoava alto. Josh segurava um violão, Taylor outro. Jason segurava um baixo acústico e Zac apenas assistia, com as mãos batendo freneticamente no banco, no ritmo da música. Era de sua natureza, ele não havia como segurar. Erich não estava mais lá, pois Zac havia passado toda a semana com ele, e agora era hora de ele voltar para a mãe.
Sophie estava cantarolando a letra da música tão conhecida, comentando e rindo ao lado de Marie e Julia. Era assustador a maneira com que sua prima e sua melhor amiga se relacionaram bem. Sophie desejou que o fim do ano chegasse mais rápido para que sua prima pudesse finalmente morar perto dela. Lembrava-se de quando era criança e elas costumavam brincar em alguns fins de semana como esses.
— A Paramore está reunida! Chegamos em boa hora! — disse Jeremy assim que adentrou a casa, seguido de Kathryn e Luke. Sophie soltou o ar que nem sequer notou que havia segurado em seus pulmões após ver Luke. Ele estava diferente... Ela não sabia dizer no quê. Seus cabelos continuavam desgrenhados, dando aquele ar jovial e casual típico de Luke. Seus olhos continuavam azuis brilhantes, profundos, penetrantes. Seu corpo continuava esbelto, alto e atlético, coberto pela calça jeans justa e a camiseta de gola V preta que ela nunca o havia visto usando ainda, mas que assim como qualquer outra roupa, o deixava lindo. Era o sorriso, concluiu Sophie. Seu sorriso que não estava completamente aberto, mas demonstrava total harmonia e felicidade, com alguma pitada de um sentimento que Sophie não conseguiu distinguir. Mas ela tinha certeza de que fora o sorriso meio tímido e fofo de Luke que havia feito com que ela paralisasse e prendesse tanto ar dentro dos pulmões que quando finalmente o soltou com um suspiro, seu coração até aumentou as batidas.
— Já era, Jerm — disse Taylor, que estava do lado de Josh. — Agora vamos escutar as crianças tocando.
— Mas tio! — Sophie tentou se pronunciar novamente da idéia de vê-la tocando. Depois de ela ter tocado Adore no casamento, todos tiveram uma súbita vontade de escutá-la cantando também. E ela não queria.
— Mas nada, Srta — Taylor fez que não com a cabeça. — Não era o combinado? Depois de Brighter, você ia tocar.
— Oba, Sophie e seu pianinho — disse Katt, sentando-se. — Oba.
— Tia! — ela bufou, passando uma mão pelo rosto. — Tá legal, mas eu só toco se o Nate tocar primeiro. — Ela sorriu marotamente para ele, que retribuiu com um sorriso sapeca bem maior.
— Eu toco, tranquilamente — ele disse, sem parecer se importar. — Mas só se depois que eu terminar, eu ver Sophie e Luke cantarem aquela música bonitinha que eu e Julia pegamos os dois compondo há uns três ou quatro dias atrás.
Sophie sentiu o sorriso sumir de sua face e o sangue subitamente parar de correr entre suas veias, paralisando-a.
— Música bonitinha? — Jeremy e Hayley disseram ao mesmo tempo, cada um olhando com curiosidade para seu determinado filho.
— É — Nate umedeceu os lábios, fazendo que sim com a cabeça e sorrindo. — Música bonitinha. Isso aí.
Agora, todos estavam encarando Luke e Sophie que estavam totalmente paralisados. Sophie deu um sorriso nervoso. Ainda bem que eles não sabiam de Let The Flames Begin!
— Apenas compomos — ela disse, tentando mostrar calma na voz. — Não foi nada, sabe? Eu estava com uma letra, tentando encaixar uma melodia. Daí o Luke apareceu...
— Eu tinha ido ver o Nate — Luke se intrometeu, contando a história. — Ela estava cantando e eu dei umas dicas de como seguir, sabe... e aí quando eu vi, a gente já tinha terminado a música e...
— Estavam jogados no tapete de lá de casa se encarando no maior climinha, pois é — Nate completou a fala de Luke, recebendo uma gargalhada de Julia como estímulo e um chute na perna de Luke que não foi nada estimulante.
— OK... — Disse Zac, ainda com o sorriso sapeca no rosto. — Primeiro Nate canta, depois o novo protótipo de namorados cantam sua canção de amor.
— Não é uma canção de amor, pelo amor de Deus! — Sophie se meteu, mexendo na franja com as duas mãos. — É a história de uma pessoa que viu uma estrela cadente! Caramba, vocês aumentam tudo.
— E nós não somos um protótipo de namorados! — Luke estava com os olhos azuis arregalados. — Dê logo o violão pro Nate. — Ele bagunçou mais o cabelo enquanto todos ali riam do modo como os dois estavam sem jeito naquela situação.
Nate se levantou, mexendo o cabelo não tão grande nem tão curto e pegou o violão da perna do pai.
— Vamos lá — ele fez duas notinhas, certificando-se de que o violão não estava desafinado. — Preparem-se para chorar — avisou ele, fazendo todos rirem. Nate pegou um banquinho pequeno e andou até onde Sophie, Marie e Julia estavam sentadas. Ele se colocou bem em frente à Julia, que o olhou sorrindo, como implorando “não me faça vergonha na frente da sua família inteira!”.
Mas foi exatamente isso que ele fez.
— Essa é pra minha pequena aqui... — ele disse, fazendo com que todos dissessem um “own” em uníssono. Todos, menos Jason e Leonard. Este último disse “canta logo a música, que coisa!”. — Never Gonna Be Alone, Nickelback.
Julia sorriu enquanto Nate começou a tocar o início da música, e logo após cantar, olhando no fundo de seus olhos e sorrindo daquele jeito maroto e encantador que apenas Nate sabia sorrir. Aquele sorriso que lhe trazia um calor no coração, uma calmaria, uma vontade quase incontrolável de chamá-lo de bobo pelas palhaçadas que ele fazia enquanto cantava alto que “ela nunca estaria sozinha, e que nunca a deixaria cair” e envolver seu pescoço com os braços, deixando-se beijar por aquele garoto.
Nate mexia a cabeça para um lado e para outro, utilizando de todo o seu charme ao cantar aquela música. Julia apenas ria mais do que bobamente ao vê-lo cantar para ela. Nate era extremamente palhaço, mas ainda assim conseguia ser o rapaz mais charmoso e romântico que ela já havia visto. Ela sabia que se não estivesse rindo de suas palhaçadas, provavelmente choraria. A voz dele era uma das coisas mais lindas que ela já havia escutado. Provavelmente coisa mais linda que ela já havia escutado.
Ele terminou de tocar a música e todos aplaudiram do modo mais forte que conseguiam.
— O amor é uma coisa tão linda... — Quem falou foi Marie, cutucando Julia com dois dedos. Ela a mandou ir para o inferno baixinho.
— Fica na sua, prima — Nate disse, apontando-lhe um dedo. — Sua invejinha tá me corroendo.
— Se manca, Nate — ela deu ombros. — Amem-se o quanto quiserem, eu prefiro ficar de fora dessa coisa toda de se apaixonar.
— Bom saber — Nate, pai de Marie disse. Marie apertou os olhos, encarando o pai que sorriu. — Que foi?
— Que foi que é a vez do nosso protótipo de namoradinhos cantarem — Julia interrompeu. — Por que esse foi o combinado, certo? Aliás, adorei a música, amor — ela piscou para Nate, jogando um beijo no ar para ele e enojando seu pai que não podia fazer nada. — Mas Luke e Sophie precisam tocar a musiquinha.
— O nome dela é Oh Star — esbravejou Luke, fazendo Julia dar um sorrisinho.
— Oh Star — ela se corrigiu. — Soph e Luke, cantem Oh Star agorinha pra gente, ok?
Sophie encarou Luke, que apenas fez que sim com a cabeça discretamente, como se dissesse “é melhor a gente acabar logo com isso, antes que eles acabem descobrindo que essa não é a nossa única música”.
Ela se dirigiu até o piano no canto da sala e Luke pegou o violão das mãos de Nate. Enquanto Sophie começava a fazer apenas o solo em seu piano, Luke fazia a base no violão. Então ela começou a cantar.
Todos escutaram a pequena e linda música ser tocada sem interferir, sem falar, apenas escutando a voz suave de Sophie acompanhada pela leveza do piano que fazia a harmonia perfeita com o violão. No refrão, Luke fez a segunda voz, deixando tudo ainda mais perfeito. Hayley, Josh, Jeremy e Katt em especial amaram aquilo tudo. Sentiam orgulho e sentiam que... se eles estavam compondo algo tão lindo assim, sozinhos, provavelmente era por que... o romance que eles tinham quando pequenos não tinha se esvaído. Em momento algum.
Ao final da música, eles arrancaram aplausos. Sophie olhou para Luke que apenas fez que sim com a cabeça, como se dissesse que não tinha sido tão ruim assim. E realmente não tinha. Tocar para a família era em parte até relaxante, ainda mais tratando-se de que eles eram músicos experientes e alguns deles até trabalhavam com a música (vulgo Jeremy, Taylor e ainda, Jason).
Não havia sido ruim, é claro. Não até começarem a falar.
— Essa é a música mais fofa que eu já vi — Hayley foi a primeira, sorrindo. — Vocês deviam gravar! Não é, Neguinho?
— Opa — Jeremy disse. — Gravação é comigo mesmo.
— Nem vem! — Luke levantou os braços. — Foi só uma brincadeira.
— Exatamente — Sophie concordou, voltando ao seu lugar junto à Julia e Marie. — A Oh Star foi só uma brincadeira. Não merece ser gravada em estúdio nem nada disso, não vamos sonhar.
— Crianças — Dakotah disse, enquanto a pequena Claire dormia em seus braços. — Parem de ser modestos. Essa música foi a coisa mais bonitinha, é sério! Vocês podiam fazer uma banda...
— Tia, de banda já basta a Paramore, por favor — Sophie fez que não com a cabeça.
— Posso fazer um comentário à parte? — disse Zac, se metendo na conversa. — Nem parece que a pouco mais de um mês atrás, eram esses meninos que fizeram essa Oh Star estavam gritando e brigando um com o outro numa mesma reunião dessa.
— Olha, ele tem razão — Alana se manifestou. — Pelo que eu me lembro, na última reunião da Paramore, eles faltaram se bater. Gritando “eu te odeio” e tudo mais.
Sophie encarou Alana e encarou Luke logo depois.
— E quem foi que disse que...
— ...nós deixamos de nos odiar? — Luke terminou a frase, recebendo um “é!” de incentivo de Sophie logo após.
— Tudo! — Alana exclamou. — Mas gente! Vocês escreveram uma música super fofa!
— E a Soph tocou Adore no casamento da Belle — Nate disse.
— E o Luke salvou a vida dela no acampamento. — Julia. — E...
— Ok — Soph interrompeu. Sabia que se eles continuassem argumentando, tocariam no ponto em que ela e Luke haviam se beijado. Não uma, nem duas, nem três vezes. — Mas isso não quer dizer nada.
— Mas claro que quer! — Hayley não se segurou. — Vocês dois tem que parar de bobeira e assumir que não se odeiam.
— Assim como Josh e Hayley há uns vinte e poucos anos atrás... — Zac disse despreocupado, prestando atenção em uma unha.
— Tá legal — Luke disse, mexendo no cabelo. — Talvez nós não sintamos mais aquele ódio mortal e tudo... Mas... isso não significa que ela seja uma criatura totalmente insuportável e chata.
Sophie o encarou irritada.
— E você continua sendo um idiota metido a playboy influenciável e debochado, obrigada. — Ela deixou a voz subir um oitavo, totalmente irritada com a situação.
— Mas olha só isso! — ele disse, a encarando com a mesma expressão irritada. — Não é assim que você devia tratar quem salva a sua vida, garota!
— Mas gente! — ela estava realmente irritada. — Eu apenas escorreguei, Senhor Sou-o-máximo-por-que-salvo-mocinhas-indefesas. E pra começo de conversa, eu só caí naquela bosta de cachoeira por que você fez a gente se perder.
— Eu?! — Luke levou uma mão ao peito.
— Tava demorando... — Nate fez que não com a cabeça. — Ei! Vocês dois se amam! Parem de discutir! Que coisa.
Com esse último comentário de Nate, cortando totalmente o momento tenso, todos caíram na risada. Exceto Luke e Soph, que encaravam a pequena cópia de Josh com a maior das faces irritadas.
— Eu vou deixar bem claro pra você — Soph começou bem calmamente, quando todos pararam de rir. — Eu não amo essa criatura.
— Olá! Eu tenho um nome, sabia?!
— Jura! — Sophie ironizou, encarando Luke com raiva.
— Você é insuportável — Luke suspirou. — Viu, Nate?! Como eu posso... amar... alguém tão insuportável? Por favor.
— Pois é — Sophie suspirava de desgosto, também.
Nate apenas deu uma risadinha e calou a boca. Sabia muito bem que aqueles dois se gostavam e não era pouco. Apesar, é claro, de terem esses ataques e discussões bobas.
Hayley e Josh apenas se encararam, levando suas mentes até anos atrás, onde eles faziam exatamente a mesma coisa. Discutiam. Diziam que se odiavam para não assumir. Na verdade, as discussões eram freqüentes até hoje, mas eles se amavam muito e assumiam isso.
Ainda encarando Josh, Hayley apenas disse:
— And here we go again. — E suspirou, dando uma risadinha.
Josh sorriu, fazendo que sim com a cabeça e pensando exatamente a mesma coisa.
— Ei, Pai — Nate disse, chamando a atenção de Josh. — Quando a gente vai embora?
— Quando começar a anoitecer — Josh esclareceu.
— Oh, droga... — ele disse. — Eu queria ir até a sorveteria e a pracinha antes de a gente ir.
— Aquela sorveteria tem história — Josh comentou, lembrando de relance tudo o que havia passado nela.
— Eu também queria ir — Julia se manifestou. — Todo mundo fala tanto nela.
— Certo, vão vocês, então — Josh disse. — E voltem antes das seis.
Eles decidiram que apenas os menores de vinte anos irem até a sorveteria. Depois de pegar dinheiro, Luke, 
Nate, Julia, Marie, Sophie, Leonard e Joseph foram a pé até a sorveteria onde serviam o melhor sorvete do mundo, segundo... todo mundo que já havia experimentado.

Nate e Julia iam na frente, de mãos dadas e rindo de qualquer bobagem que ele dizia. Marie de alguma forma havia feito uma amizade invejável com as duas crianças. De modo que apenas Luke e Sophie ficaram para trás, sem falar um com o outro, com raiva.
— Eu não sou metido a playboy — disse Luke do nada, de uma maneira que fez Sophie até rir.
— Sim, você é. Com esse teu jeitinho despojado e o sorrisinho sarcástico, você é — Luke bufou e ela riu novamente. — Mas tudo bem, se você acha que não é, eu peço desculpas.
Luke acabou rindo também.
— Desculpa ter te chamado de chata — ele disse. — Mas é que, sabe, às vezes, você é simplesmente um saco.
— Não foi isso que você achou ontem à noite, quando a sua boca tava sobre a minha à luz do luar. — Ela riu.
— Aposto que você adorou ter o playboy aqui por cima de você ontem à noite, fala sério — Luke rebateu, rindo.
— Tá vendo? — ela disse, depois de uns segundos de silêncio. — Eu só não entendo o que há entre a gente. Por que, de verdade, você é muito insuportável, mas...
— Ainda assim sou atraente pra você de um jeito inexplicável — ele completou. — É a mesma coisa comigo.
— Então! — ela exclamou. — O que há?
— Bem... — Luke pensou um pouco, ainda andando. — Atração.
— Atração — Sophie repetiu as palavras dele. — É isso.
— É — Luke concordou. — Quer dizer, cara, a gente não se gosta!
— Não mesmo — Sophie bufou.
— Mas a gente gosta de ficar junto às vezes.
— Por causa da atração.
— Isso aí — Luke concordou. — Por que da primeira vez que a gente se beijou, a gente se odiava muito!
— Mas a atração fez com que a gente se beijasse outra vez — Sophie fez que sim com a cabeça. — Saquei. É isso. — Ela suspirou. — Mas o que a gente faz agora?
Luke suspirou também, chutando uma pedra que apareceu em seu caminho para longe.
— A gente deixa rolar — ele parou e olhou para Sophie, que também parou de andar. — Me faz bem ficar com você e tocar com você.
— É, a mim também... — ela sentiu o coração acelerar um bocado quando Luke parou à sua frente.
— Vamos deixar rolar, então? — ele sorriu.
— Deixa rolar — ela sorriu, ficando na ponta dos pés para seus lábios se encontrarem.



*****



— Sinto muito — disse Julia, enquanto mexia no laptop da melhor amiga, que se arrumava para ir ao colégio —, não acho isso certo.
Sophie bufou, enquanto passava um risco de lápis por baixo dos olhos.
— Tá tudo bem desse jeito, Juzy — ela argumentou, piscando freneticamente, acostumando-se com a maquiagem. — Sério.
Julia fez que não com a cabeça. Já era segunda feira, e apenas agora ela tivera oportunidade de saber de Sophie o que estava havendo com Luke. Ela acabara de contar o que os dois haviam resolvido.
— Não nego que já seja um avanço, mas cara, não te condição de uma relação assim, Soph. Não vocês dois. Não se conhecendo do jeito que vocês se conhecem...
— Meu, não começa com essa historinha de amor de novo — Sophie suspirou. Julia gargalhou.
— Tá na cara que vocês dois estão apaixonados um pelo outro, Sophie! — ela exclamou.
— Só estamos ficando, ok? É uma coisa completamente física... não tem sentimentozinho, nem essas coisas. É só atração.
— Outro dia era culpa da carência, hoje é da atração — Julia bufou. — Vocês tem é que parar de besteira e aceitar. Caramba... dá pra ver nos seus olhos que você tá apaixonada por ele!
— Você tá pirando — Sophie fez que não com a cabeça, sentando-se para calçar o seu tênis.
— Quando você vê ele o seu coração dispara — Julia começou. — De um jeito tão forte que você se pergunta se dá pra ele ouvir. Você fica arrepiada só de pensar em como é beijá-lo. Às vezes você pensa nele sem nem notar que deveria. Sente que tem que estar bonita perto dele. Ao mesmo tempo em que estar com ele é nervoso, é calmo. E quando você o beija, geralmente, você esquece de tudo. Até mesmo por que ele tem o melhor beijo que você já provou.
Sophie respirou fundo. Aquilo era exatamente o que ela sentia.
Não que ela fosse assumir, é claro.
— Para de falar bobagem, Julia — ela bufou.
— Eu estou errada?! — Julia arqueou uma sobrancelha.
— Está. — Sophie bufou. — E, por favor, não quero mais falar disso. Minha relação com Luke continua na mesma, ok? Eu ainda detesto muitas atitudes dele, mas nós ficamos de vez em quando. Apenas.
Julia sorriu de canto.
— Ok — ela fez que não com a cabeça. — Vamos, se não a gente se atrasa.
Tirar aquilo de Sophie seria praticamente impossível. Ela estava decidida e não iria escutar ninguém.
O único modo era esperar ela entender sozinha.
Nate já havia saído de casa. Chegara mais cedo na escola por que, estando já no início de dezembro, logo ele teria seu baile de formatura do ensino fundamental, e estava correndo atrás das coisas que faltavam com seus colegas de sala. Dan já havia seguido com Luke. Por isso, as duas amigas foram sozinhas, colocando o papo em dia e falando sobre coisas como a peça de teatro que seria apresentada nesta sexta-feira.
As duas estavam um tanto nervosas, mas elas sabiam que tudo daria certo. A peça só ia ser exibida para os alunos da escola e alguns pais, nada mais. E depois, as aulas complementarem teriam fim para as férias de fim de ano e mudança de classe.
Julia até mesmo tocou no assunto do aniversário de dezessete anos de Luke, que seria dali a uma semana e pouco. Ele fazia aniversário no dia onze. Com isso, elas comentaram até mesmo o aniversário de Nate, que era no dia 10 de janeiro. Numa coincidência muito agradável, Nate nasceu no mesmo dia em que Nate Vanderburg, que originou seu nome, fazia aniversário (de nascimento e morte). Nate havia nascido prematuro de oito meses, e Josh teve de abandonar a cerimônia de homenagem ao amigo no meio para acompanhar o nascimento do filho.
Josh já tinha em mente chamar seu segundo filho de Nate, caso ele fosse homem. Mas com o garoto nascendo naquela tarde de 10 de janeiro, depois de uma gravidez um tanto complicada, prematuramente, e ainda assim saudável e forte, Josh teve certeza de que tinha a obrigação de dar à seu filho o nome do seu herói.
Essa era uma história que todos da família Farro sabiam.
O dia 10 já não demorava muito para chegar e Julia havia decidido fazer uma pequena festa para o namorado. Sophie concordou em ajudar tranquilamente, já que adorava fazer festinhas surpresas.
Coisa de família.
As duas garotas chegaram mais cedo à escola. Os alunos ainda estavam esperando os portões abrirem enquanto conversavam em seus grupinhos separados. Sophie e Julia já sabiam que Nate estaria lá dentro, em sua sala, mas ainda assim procuraram seus conhecidos com os olhos rapidamente.
Não demorou nada até os olhos delas encontrarem Dan flertando com mais uma garota num canto afastado, e... Luke conversando com Stephy logo depois.
Mas não era uma discussão. Luke estava rindo. E invés de ela estar esbanjando lágrimas falsas, ela também estava rindo. Ainda que timidamente, mas estava. Rindo. Com Luke.
Sophie fechou os olhos e os apertou, respirando o mais fundo que podia.
— Aquilo — Julia apontou para a direção onde os dois conversavam —, não é certo.
— Não entendo como ele pode rir com ela, depois do que ela fez a ele. — Sophie tentou ao máximo se controlar, e controlar a raiva, e a voz que queria por que queria aumentar o tom.
— Ciúme? — Julia a encarou, arqueando uma sobrancelha.
— Não — Sophie respondeu. — Ele apenas está sendo idiota... quer dizer, ela é uma vadia que fala mal dos amigos dele o traiu.
— Homens — Julia bufou. — Esquecem tudo por um par de peitos.
Sophie gargalhou perante tamanha verdade dita por Julia. Na verdade, precisava de uma piadinha da melhor amiga para acalmar os ânimos. Mesmo que a raiva queimasse dentro dela, junto com a vontade de matar Stephy, ela não achava que era ciúme. Não era.
— Vocês combinaram de “deixarem rolar”, legal — Julia recomeçou. — Mas eu acho que a concepção disso não inclui ficar com ex-namoradas, certo?
— Não na minha percepção — Sophie disse. — Mas eles não estão ficando.
— Não aqui — Julia disse e Sophie sentiu a raiva crescer mais ainda dentro de si.
Ele é um idiota, você já sabia disso. Ele é um idiota e vocês apenas se beijam. Apenas. Não sinta raiva. Ele é um idiota. A relação entre vocês é totalmente física. Você não tem o direito de...
— Ei, meninas — Sophie se virou junto à Julia, encontrando um Bradley Philips parado ali na frente delas, com seu sorriso largo e jaqueta do time de basquete cobrindo os ombros.
— Olá, Brad — Julia disse, sendo simpática. Sophie sorriu simpaticamente também.
— Oi, Brad — ela se virou para dar-lhe um abraço amigável. Julia saiu de perto com a desculpa de que ia comprar um suco ou algo assim.
— E aí, tudo bem? — ele perguntou e ela assentiu.
— Tudo ótimo.
— Ah, que bom. Eu queria falar contigo, mas você não entrou no skype esse fim de semana, daí...
— Eu estava na casa da minha avó, em Franklin, pro casamento da minha tia... — ela explicou. — Foi mal. Mas o que queria ficar comigo?
— É que o McFly marcou um show aqui em Nashville — ele abriu mais o seu sorriso.
— Sério?! — ela sorriu junto.
— Aham — ele sorriu. — Eu vou junto com minha irmã e mais umas pessoas daqui. Só ia te avisar, sabe, mas se tu quiser ir... só me dá o dinheiro por que vão vender os ingressos no meu trabalho. Eu consigo comprar a meia pra ti, por que eu sou funcionário.
— Ok — ela riu. — Vou perguntar pro meu pai. Mas valeu! Sério. Eu quero ir.
— Vai ser legal... tem boato de que vão gravar DVD.
— Maneiro — ela sorriu.
— Enfim, os moleques tão me chamando. Amanhã você me diz se vai!
— Tá legal. Até mais. — Ela apenas acenou quando ele já estava longe, indo para o seu grupinho de amigos.
Sophie virou o olhar, vendo Julia voltar com uma coca na mão e agora, Luke e Dan fingindo que não estavam encarando-a. Oras! Qual era o problema? Luke parecia nervoso. Mas ela não havia feito nada de errado! Apenas recebendo oferta de ingressos baratos de um amigo. Não estava rindo sobre algo super interessante com uma vadia!
Ela fez que não com a cabeça, bufando.
Isso não é ciúmes, pensou ela.
Do outro lado da rua, um garoto de olhos azuis e cabelos castanhos encaracolados pensava a mesma coisa.

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