23 de set de 2012

Capítulo 18

Stay with me...








Sophie agarrou a nuca molhada de Luke com as mãos ainda trêmulas. Estava tão concentrada no beijo que mal notou o momento em que o corpo dele foi recostado pelo seu. A mão direita de Luke, que segurava a nuca de Sophie, levemente, foi descendo para a sua cintura e a apertando mais contra si.
O beijo estava intenso, porém, não urgente. Os lábios de ambos estavam gelados pela chuva forte e pelo mergulho nas águas frias da cachoeira. O que não deixava o beijo menos gostoso do que estava. Talvez ele estivesse melhor por isso. Suas línguas se entrelaçavam com facilidade, como se fossem feitas uma para a outra. Uma corrente elétrica passava pelos corpos molhados dos dois. 
Como Luke estava sobre Sophie, ela podia sentir o seu coração batendo. Parecia estar a mil por hora, assim como o dela. Eles não sabiam o porquê de estarem fazendo aquilo, mas sabiam que não queriam parar. Luke havia sido... bem, nada mais e nada menos do que o cara que havia salvo sua vida. E...

Ele estava tão...
Tão Luke.
Não o Luke que ela odiava, não.
E sim aquele Luke que a havia ensinado a andar de bicicleta, aquele Luke que sempre a deixava ganhar no pique-pega, aquele Luke que brincava de guerra de travesseiros quando eles dormiam um na casa do outro, aquele Luke que sempre misturava o sabor dos sucos da tarde com ela.
Aquele Luke que ela amava. De todo o coração.
Por insistência dos seus pulmões, Luke se afastou devagar, deixando o seu lábio manter o contato com o dela o máximo possível. Seus olhos azuis claros brilhantes ainda estavam fechados, assim como os dela.
Então ele os abriu, encarando-a no mesmo momento.
Sorriu.
Em todo o momento em que esteve com Sophie, ele não se lembrava de ver os seus olhos castanhos tão expressivos e brilhantes. Nem mesmo quando ela pedalou a primeira rua sozinha, ou quando eles tocaram juntos pela primeira vez, quando ela tinha sete anos. Ele soube que... ela estava feliz e tinha gostado daquilo tanto quanto ele.
Deixou a cabeça afundar em seu pescoço e gargalhou de leve, fazendo-a rir também e apertar mais as mãos em seu cabelo molhado. Mesmo com toda a água, ele podia sentir o seu perfume e o calor de sua pele. Era uma ótima sensação.
— Por favor — ele começou —, me explica o que está acontecendo comigo.
— Eu explicaria — ela disse com voz suave, fazendo um pequeno carinho em sua cabeça. — Se eu soubesse o que está acontecendo comigo, pra começar.
E eles riram novamente. Luke apertou de leve a mão em sua cintura, relaxando totalmente o seu corpo que estava aninhado sobre o dela.
— Não fica se achando por isso — ele recomeçou —, mas o seu cafuné é muito bom.
Sophie sentiu o hálito quente de Luke bater contra o seu pescoço ao escutar ele dizer isso. Sorriu e levou as mãos ao seu rosto, puxando-o para perto novamente, fazendo-o se levantar um bocado e iniciar outro beijo.






Você tem muito a dizer, para aquele que se afastou.
Eu dou, você tira. É o jeito que sempre foi.
Oh, como eu vou saber se eu deveria ficar ou ir embora?
A conclusão é que isso eu nunca vou saber.

Fique comigo.
Fique comigo... ooh.






Luke não se manifestou. Queria isso também. Não sabia por que, mas queria. A queria. Queria prová-la mais uma vez, e mais uma vez, e mais uma vez. Queria sentir os lábios dela sobre os seus. Queria sugar a sua língua e se arrepiar por inteiro por isso. Queria sentir as suas delicadas mãos no rosto, enquanto os seus lábios vermelhos e gélidos lhe proporcionavam o melhor beijo que já havia dado. Queria senti-la, e queria isso mais do que tudo na vida.
Quando ele tentou se afastar por conta da respiração novamente, Sophie mordeu de leve seu lábio inferior, lhe deu mais três selinhos demorados e finalmente, o deixou se afastar para respirar, porém suas testas continuaram coladas. Luke não conseguiu deixar de sorrir, ainda com a respiração desregulada, ao ver os seus olhos fechados e ela tentar em vão tentar controlar a respiração.
Luke sabia que ela estava tentando controlar a vontade de se aproximar mais um pouco e beijá-lo novamente.
Por isso ele o fez, aproximando-se rapidamente e deixando-a surpresa.
Por que ele não conseguia manter sua boca longe da dela? Por que ele não conseguia simplesmente se afastar e odiá-la? Por que tudo nele, absolutamente tudo, insistia em continuar ali, sentindo-a, beijando-a, sentindo aquele prazer indescritível? Por que ele queria tanto continuar sentindo a pressão dos seus lábios sobre os dela?
Por quê?
Era uma pergunta irrespondível. Pelo menos ali, naquela hora. Por que cada partícula, cada molécula, cada célula do corpo de Luke, e cada pedacinho de sua mente, só queria continuar ali. Com ela.
Terminou o beijo com mais alguns selinhos demorados, sem querer se separar novamente. Ele gostaria de poder ficar sem respirar por uma hora inteira, apenas para continuar beijando-a.
E ele sabia que Sophie sentia o mesmo.
Depois de sorrir mais uma vez, Luke não falou nada. Apenas sorriu.
Ela sorria também.
E eles não sabiam por que estavam sorrindo.




Você tem muito a dizer para aquele que me empurrou.
Eu dou, você tira. Algumas coisas nunca mudam…
Apenas mudam.






— Se sente tão idiota quanto eu? — ele perguntou, ainda sorrindo, e com a sua testa colada na dela.
— Provavelmente — ela disse olhando para os seus olhos azuis perfeitos. Luke aliviou o sorriso, deixando-o apenas um meio sorriso.
— Eu juro — começou —, eu não sei por que eu fiquei com você naquele dia, e não sei o que está acontecendo agora. Mas eu juro, eu juro que não foi por que eu sou galinha ou algo assim.
Soph também aliviou o sorriso.
— Eu acredito em você — falou, fazendo Luke sorrir novamente.
Então num ato inesperado, Luke se levantou rapidamente e pegou Sophie no colo, afastando-a da rocha e se sentando primeiro, fazendo ela se recostar nele. Ela gargalhou, enquanto sentia seu corpo sendo erguido.
Depois sentiu seu corpo ser perfeitamente aninhado ao de Luke.
Lembrou-se de quando era pequena e eles se sentavam daquela forma para ver algum desenho animado. Ela tinha certeza de que Luke se lembrou também.
— Essa era a melhor posição para assistir Snoopy, lembra? — ele disse e ela riu, recostando a cabeça no peito (ainda nu) dele. — Você era apaixonada pelo Woodstock.
— Ainda sou — Soph riu mais um pouco.
— Lembra de quando nós fomos visitar o zoológico e você viu um passarinho amarelo?
— Sim — ela sentiu a pele estremecer um bocado quando as mãos de Luke passaram por sua cintura, deixando-a totalmente presa nele. — Eu fiquei muito chateada por não poder levar pra casa.
— Ficou mesmo... eu quase chorei com você. — Luke riu. — Nunca foi fácil te ver chorar.
— Lembra de quando você ia dormir na minha casa e o Nate ficava tentando te encrencar?
— Nate era a criança mais levada que eu já vi.
— Você parece que não convive com o Joe. — Ela riu.
— É da mesma linhagem de genes, então... — Luke riu da própria piada e Sophie lhe deu um pequeno tapa na coxa, que estava coberta pela calça jeans molhada. — Lembra de quando eu te ensinei a andar de bicicleta?
— Você não me deixou cair, como prometeu. — Ela lembrou.
— Foi, mas eu não podia deixar... Eu tinha prometido e andar de bicicleta era legal demais pra você simplesmente não saber. — Luke explicou e Sophie gargalhou, concordando.
— Lembra de quando nós tocamos Pressure pela primeira vez?
— Como eu ia esquecer a maior emoção da minha vida? — eles riram. — Lembro muito bem que a sua mãe quase morreu.
— Minha mãe é meio mole quando se trata de coisas assim... — ela suspirou, aliviando um sorriso.
Luke respirou fundo.
— Lembra... de quando nós nos casamos?
Sophie suspirou.
— Tem como esquecer? — ela riu sem vontade.
— Não, acho que não. — Ele riu também, sem vontade.
Mesmo que todo o casamento tivesse sido lindo, e que na inocência da infância eles realmente achassem que iam se casar de verdade... era dolorido se lembrar.
Por que isso tudo levava indiretamente ao que estava acontecendo com eles agora.
— Sabe, Luke... eu... eu vou ser sincera com você... — Sophie disse após um minuto de silêncio. Decidiu que tinha de falar.
— Tudo bem — ele a encorajou para dizer o que quer que fosse.
— Eu acho que a única razão pra eu... querer ter... — ela suspirou, tentando achar coragem para dizer — ...beijado você, foi... você sabe, por que você ainda lembra o garotinho que faria tudo por mim.
Luke deu mais um sorriso sem vontade.
— Eu faria qualquer coisa por você até três meses atrás, Soph — ele fez um carinho em sua cintura e pousou o queixo na cabeça molhada dela.
— Mas eu fui idiota demais pra perceber isso. — Luke ignorou os olhos que começavam a arder. A voz de Sophie estava um tanto estranha.
Então, num ato inesperado, Sophie se virou e agarrou a nuca de Luke, beijando-o profundamente outra vez. Luke pôde notar que seu rosto estava molhado. Soube então que a sua voz estava estranha por estar com vontade de chorar.


Fique comigo.

Fique comigo.
Nunca pensei que eu poderia ser assim.
Nunca pensei que eu poderia ir embora.



Se beijaram durante mais alguns minutos, totalmente domados pela emoção do momento. Sophie não queria se separar dali, daquele beijo cheio de emoções, de Luke por completo. Em muito tempo em sua vida, ela apenas queria continuar perto dele.
Ela só queria que ele ficasse com ela. Ali.
E foi por isso que quando a respiração a impediu de continuar beijando-o, ela abraçou o seu ombro nu. Queria sentir o abraço de Luke novamente. Como se pudesse se sentir protegida nos braços dele.
Ele suspirou e apertou suas mãos contra suas costas com força, aprofundando o abraço. Sophie estava com o rosto recostado nele. Sentia seu cheiro. Ela sabia que quando aquele momento acabasse, tudo seria apenas mais uma memória. Por isso ela o segurava com toda a força que tinha.
Luke passou a mão pelos seus cabelos, ajeitando-os e fazendo um carinho.
Soph não sabia o porquê daquilo tudo. Não sabia, mesmo! Mas Luke estava lembrando muito aquele garoto que ela tanto amou... E ele estava sendo tão... como dizer? Menos insuportável. A sensação que ela sentia quando seus braços a envolviam era a melhor do mundo. Ela sabia que o que quer que acontecesse, ela estaria segura. Estaria segura porque ele estaria ali e lhe protegeria. Nada lhe fazia melhor do que o seu cheiro e a pressão que as mãos de Luke faziam em suas costas.
Ela apenas não queria que aquele momento acabasse. Não queria deixar que aquilo se tornasse apenas uma lembrança para se esquecer, como todas as outras. Não sabia quanto tempo Luke continuaria sendo aquele Luke que ela... vamos encarar os fatos: ama. Não sabia de nada.
Só sabia que não queria deixar de sentir o atrito dos seus corpos ali, naquele momento.




Essas coisas levam tempo para crescer. Dizem que o tempo cura feridas...

Mas, não! Eu não serei controlado!
E assim esta história segue.

Fique comigo.



— A chuva já acabou, e daqui a pouco escurece... é melhor voltarmos para o acampamento. — Luke disse após alguns minutos, acariciando os cabelos de fogo de Sophie.
Ela sibilou um “aham” e saiu dos braços de Luke, contra a sua vontade.
Mesmo que não quisesse, ela tinha a consciência de que precisava chegar ao acampamento. E de que tudo o que havia acontecido ali não podia (e não iria) chegar aos ouvidos de ninguém.
Apoiou as mãos no chão e tentou se levantar novamente, mas sentiu a cabeça e o corpo doerem por inteiro. Ela ficou tonta e viu tudo ficar escuro. Seu corpo estava muito mole.
Luke segurou seu braço.
— Não pode ser... — ele sibilou. — Sente vontade de vomitar?
— Um pouco — ela disse fraca, agarrando-se ao braço de Luke para não cair.
— Tomara que você não tenha sofrido uma concussão — ele torceu os lábios. — Vamos, vem.
Luke a pegou no colo novamente. Sophie não reclamou, apenas agarrou o pescoço dele com toda a pouca força que tinha.
Sua lesão estava mais séria do que imaginara.
— Vai me levar no colo daqui até lá? — ela perguntou, vendo que Luke já havia, de uma forma muito ninja, diria ela, colocado a mochila nas costas enquanto a segurava.
— Você não pode andar, então sim. — Ele disse tranquilamente enquanto continuava a andar.
— Mas... não é melhor você me deixar aqui e procurar ajuda?
Luke riu, meio que debochando.
— Deixar você sozinha? Tá louca? — ele fez que não com a cabeça, já chegando ao chão gramado.
— Mas...
— Soph, eu vou te levar. E cala a boca porque você sabe que isso é o melhor pra você.
Sophie riu.
— Você não cansa mesmo de ser chato, né? — disse baixo.
— E você não cansa de ser desastrada e teimosa. — Luke apertou o braço esquerdo em suas pernas, para não deixá-la cair. — Se bem que se as suas coxas não fossem tão grossas seria mais fácil te carregar, sabe...
Sophie gargalhou, sentindo a bochecha esquentar.
— Quando foi que eu te dei liberdade pra brincar com o tamanho das minhas pernas, me diz? — ela se fingiu indignada.
— No momento em que a sua boca tocou a minha — ele sorriu, vitorioso. — E além do mais, não são pernas, são as suas coxas. Julia tinha razão. — Luke riu e Sophie xingou Julia mentalmente outra vez.
Luke continuava andando devagar, carregando a garota em seus braços. Não estava sendo difícil para ele, até mesmo porque Sophie era pequena. E a dor não o impediria de deixá-la segura. Nem em um milhão de anos.
Foram vinte minutos de caminhada até Luke avistar as barracas. Já havia passado das seis horas e o sol já se punha. Havia uma aglomeração em frente ao acampamento. Algumas pessoas passavam as mãos pelos cabelos, outras ficavam num pé e noutro. A coordenadora parecia que ia pirar a qualquer momento.
Dava pra notar de longe que os nervos estavam à flor da pele.
— Parece que notaram a nossa falta — Sophie sorriu fraco.
— É... pois é... — Luke concordou.
— Será que chamaram nossos pais? Quer dizer, se meu pai sabe de uma coisa dessas tá todo mundo ferrado.
— Ele vai saber por que eu acho que você sofreu uma concussão — Luke mantinha os olhos firmes no chão para não pisar em falso. — E você precisa ir a um hospital.
— Eu detesto hospitais! — ela se queixou e Luke torceu os lábios.
— Pena, por que você vai a um.
— Mas eu não quero.
— Mas vai.
— Não vou.
— Vai! Você sabe o que é uma concussão? — ele bufou. — Você precisa ir a um hospital e você vai, ora. Garota teimosa.
— Teimosa é a avó! — Sophie retrucou, mesmo que não considerasse uma atitude exatamente inteligente discutir com o cara cujo está te carregando nos braços há vinte minutos. — Eu não quero ir a um hospital!
— Não te perguntei se quer. Você vai.
— Não vou. — Ela revirou os olhos.
— Eu vou te obrigar a ir ao hospital, então cale a boca.
— Cala você! — ela bufou e nesse exato momento Jenny olhou em direção aos dois e gritou “olha eles ali!”.
Nessa hora, todos pareceram suspirar de alívio. Tirando, é claro, os olhares confusos de vários alunos ao ver a cena. Quero dizer: Luke Davis semi-nu com Sophie Farro nos braços. Ambos encharcados e selvagens.
Não é lá muito comum.
Especialmente para duas pessoas que dizem se odiar mortalmente.
Outras pessoas, porém, estavam tão ocupadas se preocupando que nem notaram a forma estranha em que aqueles dois avançavam para a aglomeração. Com outras pessoas, digo Lilian Jones.
Ela correu para cima dos dois e os abraçou ao mesmo tempo, praticamente gritando:
— Seus dois idiotas! — ela se separou deles, vendo Sophie tocar o chão com os pés devagar e sentir a dor de cabeça matante e a tontura abaterem-na, mantendo-se de pé apenas por segurar no braço de Luke. — Como vocês somem assim?! Querem me matar de preocupação?! Que idéia é essa de se separar do grupo, hein?! Meu Deus, que bom que vocês estão bem e vivos. Obrigada, Pai. Oh, meu Deus, obrigada. Seus grandes bobocas.
E então os abraçou de novo, fazendo Sophie rir um tanto alto. Pelo menos, o máximo que conseguia.
Atrás dela, todos os outros olhavam curiosos. A maioria dos alunos estava ali.
E também havia Angelina Dooley, que tivera a infelicidade de perder justamente a filha do General Farro.
Esta pobre mulher sentia em seu interior que aquela seria sua primeira e última viagem com a turma. Tinha quase certeza que estaria despedida.
— Avisaram nossos pais? — Sophie perguntou com voz rouca.
— O que é isso na sua testa, Sophie Williams Farro?! — Lilian a ignorou totalmente.
— Ela caiu — Luke quem respondeu, segurando-a na cintura para ela não cair. — Caiu da cachoeira, quando estava chovendo. Bateu a cabeça numa rocha, engoliu um bocado de água, e agora não consegue ficar em pé, tá com dor de cabeça e vontade de vomitar. Acho que foi uma concussão.
— Disse o Dr. House — Sophie fez uma pequena piada, mas ninguém riu.
Ninguém além dela.
E Luke até abriu a boca para retrucar, mas Lilian foi mais rápida:
— Nem pense nisso — ela o fuzilou com os olhos, fazendo um sinal particular para o Sr. Marshwell vir pegar a pequena garota de cabelos vermelhos.
Benjamin se aproximou junto da coordenadora, que olhou para o hematoma na testa de Sophie.
— Ben — ela se referiu ao Professor pelo apelido. — Sabe se isso é grave?
O professor Marshwell dava as disciplinas de Geografia e tinha mestrado em Biologia. Além disso, sua família quase inteira trabalhava no ramo de saúde.
E a coordenadora sabia disso, é claro.
Antes do professor responder, escutou-se o grito agudo de Julia, que vinha do outro lado do acampamento, correndo. Dan estava bem atrás dela enquanto ela corria.
— É SÉRIO QUE ELES VOLTARAM?! SOPH! — ela gritava enquanto corria, aproximando-se rápido. Dan já havia parado e começado a andar. Não entendia como um ser tão pequeno como Julia conseguia correr tão rápido. — MEU! VOCÊS ESTÃO BEM? CARAMBA! COMO É QUE SOMEM ASSIM? MEU DEUS! — ela disse ao se aproximar. Depois de correr tirou a mão de Sophie dos braços de Luke e lhe deu um super abraço. Dan se aproximava devagar. — O que é isso na sua testa? — disse depois de se separar e ver o grande galo na cabeça da amiga.
— Pode ser uma concussão, como o Davis falou... — Foi o Sr. Mashwell que respondeu, fazendo que não com a cabeça. — Vamos levá-la para o hospital. Tem uma van ainda, não é?
— Tem — Angie respondeu.
— Eu não quero ir a um hospital. Só preciso descansar um pouco, ok? Se eu tiver uma boa noite de sono, eu acordo nova.
— Nada disso, mocinha — Benjamin. — Você vai a um hospital sim. Eu e o Jack vamos te levar na van.
— Mas...
— Mas nada — o Sr. Marshwell continuou repreendendo. — Vamos logo. Consegue andar?
— Sim, eu...
— Não consegue — Luke desmentiu. — Tá na cara.
— Certo — Benjamin disse e fez que ia pegar Sophie no colo.
Mas o garoto de olhos azuis foi mais rápido, passando a mão pela sua cintura e a puxando para cima, fazendo-a ficar nos seus braços. Sophie deu um grito de surpresa.
— Ou! Epa! O que você pensa que tá fazendo? — ela disse, olhando para Luke com certa raiva.
— Luke, é melhor que você deixe eu pegá-la para levá-la para o hospital...
— Eu vou também. — Ele disse sério.
E pra quem já estava um tanto surpreso, ficou muito mais naquela hora. Dan, Julia e Lilian arregalarem os olhos. De verdade. Estavam incrédulos.
— Não precisa, Luke — o professor disse.
— Sim, precisa — ele bufou. — Eu cuidei dela esse tempo todo e não quero deixar ela ir sozinha para o hospital. Eu vou junto e você não vai me impedir.
Julia jurou que seus olhos iam pular de tanto que estavam arregalados. Ela até deu uma risada rápida, de incredulidade. Realmente não sabia o que estava acontecendo ali. Como assim?
Mas foi Lilian que se manifestou:
— Mas se você a odeia porque está tão preocupado? — ela ainda não acreditava no que estava escutando.
E Luke, por um segundo, parou para pensar. Viu que era uma boa pergunta, mas não havia como responder.
— Tenho estima pela família dela e eu tô representando eles aqui — ele disse por fim, ainda firme. Gloriou-se mentalmente pela rapidez e inteligência da resposta.
O Sr. Marshwell rolou os olhos.
— Certo, vamos e assim você faz uns exames também — ele disse, ainda revirando os olhos. — Jack já funcionou o carro. Vamos logo.
E se virou, fazendo Luke com Sophie nos braços, seguir em direção ao carro que estava há uns cinqüenta metros de distância.
Quando já estavam na metade do caminho e Soph teve certeza que não havia mais ninguém escutando, disse:
— Sério, o que deu em você?! — ela disse.
— Eu vou te obrigar a ir ao hospital. — Ele sorriu e continuou andando.
— Eu odeio você — ela bufou.
Luke sorriu e levou uma das mãos ao seu rosto, fazendo um carinho em sua bochecha.
— Você sabe que eu também — e continuou sorrindo.
E Sophie também sorriu.
E mais uma vez, eles não sabiam por que estavam sorrindo.



[...]




Nate olhou para o relógio no celular e praguejou baixo. Apoiava o peso ora num pé, ora noutro. Estava mais do que ansioso.
Estava com medo.
Pela primeira vez na vida, Nate Farro assumia que estava com medo de uma garota.
Certo, não exatamente com medo da garota. Sim da sua reação depois da revelação que ele fizera.
Faltavam alguns minutos até a hora de ir até o colégio. Ele não queria sair cedo demais e parecer um idiota esperando sozinho na frente do colégio.
Não teve tempo para falar com Julia no fim de semana. Sophie passou sábado e o domingo inteiro no hospital, e Julia voltou para casa. Preocupado, ele não pôde conversar normalmente com ela.
Mas sim, ela respondera seu sms!
O problema é que a resposta foi apenas esta: “Não acredito que me mandou uma mensagem as cinco da manhã, seu chato! Mas eu sonhei contigo essa noite também, rs. Muitas saudades, muitas.”
E mais nada.
Nate deduziu que ela responderia mensagem por mensagem, assim como ela as enviou, mas perdeu o sinal para mandar as restantes.
E por isso ele estava tão nervoso.
Nunca havia sentido tal coisa por uma garota antes. Nunca se declarara de forma tão boba. Nunca se sentira tão embaraçado.
Mas toda vez que ele fechava os olhos ela vinha a sua mente, trazendo toda aquela sensação de paz. O aquecimento no peito e, ao mesmo tempo, o frio na barriga. A vontade incontrolável de sorrir e aquele aperto no estômago. Quando ela estava com ele, tudo estava bem, mas quando não estava, ele já sentia saudade de imediato.
— Nate? — ele levantou os olhos e viu Josh, vestido na sua farda costumeira, pegar as chaves do carro. — Estou indo para o quartel agora, quer que eu te deixe no colégio?
Nate sorriu.
Não por que queria ir a escola, claro.
— Pode me deixar no condomínio da Juzy, pai? Aí a gente desce pro colégio. É que eu não quero ir só, já que a Soph não vai...
Josh sorriu de canto, passando a mão pelo rosto barbeado.
— Sério que você quer me enrolar com essa história de que não quer ir sozinho, moleque? — ele fez que não com a cabeça. Nate riu. — Vamos, entra no carro.
— Valeu, pai — ele pegou a mochila por cima da mesa de centro e saiu rapidamente, entrando no carro de Josh.
Josh funcionou o carro que logo estava saindo da garagem e da rua residencial onde morava.
— Como andam as coisas com a Julia? — ele perguntou, tentando não sorrir e manter a atenção na estrada.
— Bem... Eu acho — Nate sussurrou a última parte, mas foi alto o suficiente para Josh ouvir.
— Eu acho por quê? — perguntou.
— Você vai achar idiota — Nate riu. — Eu estou achando idiota!
Josh riu, mordendo o lábio inferior de leve.
— Você disse que a ama, não foi? — Ele foi dizendo e sorrindo ao mesmo tempo, enquanto girava o volante.
Nate acabou rindo também.
— Foi. — Concordou, passando uma mão pelos cabelos não tão grandes.
— E por que acha que é idiota?
— Por que eu acho que foi... ah, pai, sei lá! — Josh gargalhou.
— Você realmente a ama?
— Sim — Nate suspirou. — Sim, realmente. Realmente mesmo... Sabe, o sentimento é totalmente esquisito, mas... Eu sei que não estou mentindo nem me enganando, ou enganando ela... É real, entende?
— Entendo — Josh riu. — Você não sabe o quanto eu entendo. Mesmo. Mas... sabe, você não precisa se sentir envergonhado ou “idiota” por isso. Quer dizer, assumir que eu amava a sua mãe foi a melhor coisa que já aconteceu na minha vida.
— É, eu sei, pai. Tipo, mas você conheceu a mãe quanto era um bebê, também...
— E você só tem treze anos, rapaz — Josh riu. — Ainda tem muito o que viver.
Nate passou alguns minutos sem nada dizer, apenas refletindo sobre aquilo.
— Como foi?
— Como foi o quê?
— Que você disse para a mãe que amava ela pela primeira vez? Digo, sem ser quando vocês eram crianças. — Nate olhava para a face do pai.
Ele sorriu.
— Era aniversário do Zac. Estava tendo uma festinha surpresa na casa da sua avó... Então, eu cantei uma música que eu tinha composto para ela e... me declarei pedindo-a em namoro. Oficialmente.
— Que música era? — Nate sorriu, perguntando.
— I Had a Revelation — Josh parou em um semáforo. — Acho que você nunca escutou. Não é Paramore.
— Sei... — Nate torceu os lábios. — Mas você e minha mãe foram feitos um para o outro, mesmo. — Ele brincou.
— É, isso é — Josh riu. — Mas quem garante que você e Julia não nasceram um para o outro também? — ele o encarou rapidamente antes de voltar a dirigir. — O amor veio pra mim quando eu era um bebê, Nathaniel. A vida deu o seu jeito e o tirou de mim mais de uma vez. Mas eu sempre dei um jeito e consegui amar novamente, uma única pessoa. Isso quer dizer que nada, absolutamente nada pode discordar que esse amor que você sente aí não é verdadeiro. E quando se tem um sentimento verdadeiro por uma pessoa, você deve dizer a ela e aproveitá-lo ao máximo.
Nate sorriu.
Era sempre incrível conversar com Josh.
— Por que você sempre tem que ter razão? — ele brincou, fazendo Josh rir.
— Deus sabe que na maioria das vezes eu não tenho razão — ele fez que não com a cabeça. — Mas filho, me deixa te dar um conselho.
— Mais um, é claro. — Nate sorriu.
— Se o sentimento for verdadeiro... não estrague tudo. — Josh aliviou o sorriso. — Evite o sofrimento seu e da pessoa que você ama.
Nate franziu o rosto, achando aquilo estranho.
Mas aprendera que Josh nunca dizia nada sem uma razão específica.

— Vou me lembrar disso, pai, pode ter certeza — ele disse, dando um sorriso encorajador para o pai.
— Meu garoto — ele sorriu, estacionando o carro em frente ao condomínio de Julia. — Vou te deixar aqui, ok? Preciso ir trabalhar.
— Bom trabalho. Não seja tão mau com os soldados — Nate fez um cumprimento militar, fazendo Josh rir.
Pegou a mochila e saiu do carro do pai, adentrando o condomínio.
Não demorou cinco minutos e ele parou em frente a casa de Julia. Tinha ido até lá umas duas vezes e se lembrava do caminho.
Tocou a campainha.
— Nate — Alana sorriu, atendendo. — E aí, rapaz? Tudo bem?
— Tudo ótimo, Sra. Bynum. — Ele sorriu cordialmente.
— Soph tá melhor? — ela abriu espaço para ele entrar.
— Tá sim. Saiu do hospital ontem a tarde e já tá até brigando comigo! — Alana gargalhou da piada do garoto.
— Julia tá lá em cima. Pode subir — ela disse. Nate concordou (meio receoso, confessava. Tinha medo de que Jason entrasse a qualquer hora no quarto dela e o colocasse a pontapés para fora de casa­) e foi subindo as escadas.
Entrou no corredor e parou em frente a porta onde havia alguns recortes de revistas colado. Eram bandas de rock.
Muito Julia.
Bateu três vezes, após hesitar um pouco.
— Entra! — ele ouviu o grito abafado pela porta e girou a maçaneta, com o coração na mão.
Oras! Ele já estava “ficando” com ela há semanas! Por que estava tão nervoso?
Engoliu seco e adentrou o quarto.
Julia estava com os cabelos quase pretos soltos pelos ombros morenos. Vestia um short que ia até o meio da coxa e uma blusa regata. Estava descalça, porém, maquiada.
Obviamente ela se maquiava e arrumava o cabelo antes de vestir a roupa de ir ao colégio, já que esta, estava jogada na cama.
E Nate não se lembrava de ter a visto tão bonita.
E mesmo estando vestida com o pijama, Julia pareceu não dar a mínima, já que assim que viu a figura do rapaz adentrar seu quarto correu como um furação e pulou em cima dele, abraçando-o com as pernas na cintura.
Ele sorriu.
E eles não se soltaram facilmente. Ficaram ainda mais uns bons dois minutos se abraçando, apenas matando a saudade do calor do corpo um do outro, sentindo o cheiro viciante...
Apenas se abraçando.
Até que Julia não agüentou mais a distância e levou sua boca a dele, iniciando um beijo um tanto quanto urgente. Ele retribuiu a altura.
Não sabia o que aquilo queria dizer, mas se sentia feliz. Feliz de verdade.
Quando eles se separaram, Julia sorriu e colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha.
— Fiquei com saudade de você — ele disse, apertando as mãos em sua cintura. — Soph me disse que você arranjou briga no acampamento...
Julia passou a mão delicadamente pelo rosto de Nate.
— Eu amo você — ela disse, devagar, olhando-o nos olhos. — Eu amo muito você. Me perdoa não ter te respondido, mas... o sinal acabou e eu achei que tinha que te dizer isso olhando nos teus olhos. Eu te amo, seu chato. E eu não pensei em outra coisa a não ser você naquele maldito acampamento. Eu não posso ir à escola, mas estava me arrumando apenas para te esperar lá em frente. Já que você veio pra cá, eu posso dizer agora mesmo. Eu estou completamente apaixonada por você.
Nate sorriu. Sorriu como nunca havia sorrido em sua vida.
Começou a acariciar delicadamente a maçã de seu rosto com a mão trêmula, olhando-a nos olhos.
— É ótimo saber disso — disse finalmente. — Por que eu sinto exatamente a mesma coisa por você, e você sabe. Eu sou doido por você, linda. Eu te amo. Mesmo. E eu não quero que você pense que é mentira, por que não é. Eu nunca senti isso antes, Juzy, por ninguém.
Então ele se aproximou devagar e a beijou novamente, de uma forma calma. Ela retribuiu o beijo, passando as mãos pela sua nuca.
Quando seus pulmões imploraram por ar, Nate teve de se separar, mas continuou com a testa colada a dela.
— Seja minha — ele sussurrou. — Namora comigo. — Ele lhe deu mais um selinho. — Prometo comprar uma aliança hoje.
Julia riu sonoramente, mesmo sentindo o nó se formar na garganta e os olhos lacrimejarem.
— Eu já sou sua — ela respondeu, sentindo a lágrima escorrer pelo rosto. — É claro que eu namoro contigo, seu chato.
E então, sorrindo e com vontade de chorar, eles se beijaram novamente.

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