23 de set de 2012

Capítulo 15

Fight, hate, and a hell of a busted!



Julia revirou os olhos rapidamente ao ver que Sophie e Luke estavam conversando, mas logo depois, Sophie simplesmente gritou e saiu com raiva, batendo os pés contra o chão. Julia suspirou.
Estava difícil juntar esses dois! Eles não cooperavam nem um pouco. Era sempre com essa história de “eu te odeio” pra cá, “eu te odeio mais” pra lá... Nada estava acontecendo para que algo melhorasse.
E olha que o destino estava ajudando! Quer dizer, eles já estavam juntos como Bella e Edward na aula de teatro, passavam a aula de música junto um do outro... Mas ainda assim, não saiam daquela implicância boba.
Ela poderia providenciar alguma coisa para essa viagem... é, poderia.
Mas Nate não estava lá.
Ela detestava admitir, mas ultimamente estava pensando em Nate muito mais do que deveria. Necessitando dele mais do que deveria. Gostando dele mais do que deveria.
E implicar com Sophie e Luke só tinha realmente graça se Nate também estivesse lá. Nem havia entrado no ônibus e já estava com saudades dele. Passar o fim de semana inteiro longe dele a deixava mais aterrorizada do que o normal.
Balançou a cabeça negativamente, tentando sair dos seus pensamentos, e passou a andar em direção a Sophie. Ela estava respirando pesado, visivelmente irritada. Irritadíssima, ela diria.
Porém, quando estava indo para lá, de repente, uma pessoa apareceu e elas se trombaram. Só depois ela percebeu que era Stephy que estava quase correndo.
— Ai! Olha pra frente, Bynum! — ela gritou, passando uma mão pelo ombro e encarando Julia com aqueles olhos por onde lágrimas falsas haviam passado a pouco tempo.
— Olha você pra frente! Aqui não é aula de educação física pra ficar correndo!
— Eu não estava correndo — ela rebateu, retirando a mão do ombro e a encarando com mais raiva. — E você tome cuidado com as palavras que usa.
Julia riu debochadamente.
— Desculpe, querida. Mas eu não costumo maneirar no vocabulário quando estou conversando com uma vadia. — ainda com um meio sorriso debochado no rosto, Julia terminou a frase. Stephy abriu a boca para retrucar, mas Julia foi mais rápida: — Ou você prefere o quê? Adúltera, traidora... Não, não. Vadia é melhor.
— Cala a boca, ou eu acabo com a sua raça aqui mesmo — Stephy bufou.
— Sério? — novamente, Julia provocou. — Da mesma forma que você acabou das últimas vezes que ameaçou, não é? — ela riu. — Sabe o que você é, Stephy? Frouxa! Uma vadia frouxa.
— Eu sou a vadia aqui, então? — Stephy sorriu da mesma forma que Julia. — Claro. Sou eu que estou ficando com o garoto que já beijou noventa por cento dessa escola. Ou você acha que é privilegiada? Aquele garoto já ficou com essa escola inteira! Agora só porque você é nova acha que o Nate vai te respeitar, ou ser menos idiota com você? Me poube, Bynum.
Julia a encarou, ainda com um sorriso no rosto.
— Sim, você é a vadia daqui, por que eu apenas estou ficando com um garoto que gosto, enquanto você, trai um dos caras mais legais daqui com um idiota qualquer. E se você falar do Nate outra vez, prepare-se para receber a pior surra que você já viu. — Julia trincou os dentes.
— Falar mais do Nate? Bem, eu não tenho nada mais pra falar... digo, nada que você não saiba, não é. Como por exemplo, além de ele ser o maior galinha, ele é uma criança. E vamos encarar, você é quase dois anos mais velha que ele... Mas tudo bem, eu acho que deve ser legal ser uma papa-fetos, né, Juzy?
Julia sentiu o sangue esquentar.
Aproximou-se e levantou a mão para diferir um belo tapa na cara de Stephy, mas algo a impediu.
Luke segurou sua mão e a encarou.
— Nada de brigas — ele disse com voz grossa e imposta. — E você, Stephy, só consegue me decepcionar cada vez mais. Agora escute aqui: Nate é meu melhor amigo e você não tem nada com a vida dele; Julia, sai.
— Não saio antes de dar uma bem grande na cara dessa vaca — Julia respondeu entre dentes e tentando soltar o braço da mão de Luke.
— Vai sim. Não vale a pena, vamos. Você não quer uma suspensão agora. — Luke a encarou e Julia soltou o seu braço, bufando e saindo dali.
— Por que você fez isso? — Stephy perguntou alto e Luke a encarou, ainda com os olhos azuis frios.
— Julia não merece ganhar uma suspensão por sua causa — ele respondeu e saiu, deixando Stephy apenas com mais raiva.
Ela tinha raiva por que tudo estava dando certo e ela mesma estragou tudo. Tinha raiva dela mesma, assumia.
Mas tinha mais raiva de Andy, aquele amigo de Bill com quem ela já havia se encontrado diversas vezes. Ele a pegou um beijo de despedida, quando estava indo embora da casa dela, e justamente ali, Luke apareceu.
Mas estava decidida a pegar Luke de volta. Só precisava pensar.
E nisso ela era boa.

— O que aconteceu ali? — Sophie perguntou um tanto confusa para Julia que se aproximara.
— A vadia da Stephy esbarrou em mim e nós discutimos. Acredita que ela teve a coragem de falar do Nate?
— Claro que sim — Soph deu ombros. — Ela é uma whore.
— Exato. Se o Luke não tivesse chegado eu tinha mandado ela pro hospital. Ah, se tinha.
— E o que ele foi fazer lá, afinal?
— Impedir a briga, oras — Julia deu ombros. — Bom seria se ele tivesse ficado quieto no canto dele, aí sim.
— Vê por que eu o odeio tanto? — Sophie bufou.
— Ah, Soph, vamos lá — Julia bufou. — Ele me impediu de entrar em uma briga. Não se odeia ninguém por ser certinho demais.
— Não é por isso que eu o odeio. Eu o odeio por tudo.
— Odeia, certo — Julia fez que não com a cabeça. Já estava enchendo o saco essa história que Sophie tinha de odiar Luke. — Aliás, o que você foi falar com ele?
— Uma coisa da aula de teatro, não se preocupa. Já resolvi. — Sophie mentiu rapidamente, lembrando-se do real motivo de ter discutido com Luke.
Ele não tinha o direito de contar o que houvera acontecido naquela sala! Muito menos de usar Sophie para instrumento para aliviar a dor de cotovelo! Só mais um instrumento, afinal, ele estava beijando todo mundo.
Ela dizia para si mesma que não, mas Sophie estava com mais raiva de Luke por ter beijado aquela menina do que por qualquer outra coisa. Detestava ser apenas mais uma. Detestava. Ainda mais para Luke.
— Ok — Julia concordou, desconfiada.
Sophie tinha respondido rápido demais. Estaria mentindo?
Não teve mais tempo de pensar nisso, pois a coordenadora logo apareceu, chamando a atenção de todos os alunos, seguidos de todos os professores do colégio, ou pelo menos, todos os que Julia conhecia. Eram no mínimo doze funcionários, entre professores, a coordenadora e o novo diretor.
— Bom dia — ela começou, sorrindo. — Bem, vocês todos sabem porque estamos aqui. Vamos todos para a área florestal de Brentwood... Bem, a viagem é um pouco longa, vai demorar mais ou menos duas horas. Ficaremos o fim de semana inteiro, e hoje, faremos uma caminhada para avaliar o estado das rochas com o professor de geografia. Depois, se sobrar tempo, iremos à cachoeira — ela ouviu os alunos comemorarem. — Certo, certo, pessoal. Eu sei que vocês querem muito ver a cachoeira, mas nós só vamos visitá-la se sobrar tempo, ok? Os estudos vem em primeiro lugar, depois a diversão. E... bem, como alguns de vocês trouxeram violões, nós podemos fazer uma fogueira a noite, para dar o divertimento do acampamento — ela fez uma pequena pausa, tentando se lembrar de alguma coisa, ou apenas tomando fôlego. — Bem... nós ficaremos alojados em barracas de acampamento, mesmo. Já temos todas elas. Quando chegarmos lá eu lhes direi a lista, por que sim, já foram determinadas quantas e quais pessoas ficarão dentro de cada barraca... — outra pausa. — Eu acho que isso é tudo. Alguma pergunta?
Os alunos olharam uns para os outros, vendo se alguém tinha a mão levantada.
E na realidade, tinha. Dan levantou sua mão morena bem no alto.
— Sim, Daniel — disse a coordenadora.
— Agora são dez e meia da manhã, e você disse que nós vamos chegar lá daqui a mais ou menos duas horas...
— Sim — ela concordou, confusa.
— Ou seja, na hora do almoço. O que vamos comer? — Luke mordeu o lábio para reprimir uma gargalhada enquanto Dan olhava para a coordenadora com a maior cara de pau.
— Estamos levando comida o suficiente para todos, Dan. Não se preocupe.
— Legal — ele sorriu. — Vão dar o café da manhã? Por que, sabe, eu não comi nada antes de sair de casa... e eu não trouxe comida na mochila, então...
— Vamos distribuir salgados no ônibus — ela respondeu, meio farta.
— Ah, que bom — Dan sorriu novamente. — E o que...
— Se a sua próxima pergunta se relacionar a comida — a coordenadora o cortou —, não precisa nem dizer.
Dan revirou os olhos e levantou as mãos, num gesto submisso.
— Ok, ok! Tá irritada hoje — ele sussurrou e Luke deixou uma risadinha escapar.
Após todos os alunos pararem de rir, acanhados, a coordenadora lhes disse que já poderiam subir ao ônibus. Todas as pessoas foram quase correndo até o ônibus. Luke e Dan esperaram um pouco.
— Você não consegue pensar em nada que não seja comida? — Luke disse, agarrando sua mala e andando calmamente até o ônibus.
— Claro que consigo — Dan esclareceu. — Passo muito tempo pensando em garotas e computadores.
Luke riu.
— Você está destinado a ser um sedentário, Dan — ele fez que não com a cabeça, ainda rindo.
Dan fez que não com a cabeça, negando.
— É aí que você se engana. Só o ato de beijar envolve 27 músculos, e acredita meu querido, faz perder um monte de calorias — Luke gargalhou da explicação de Dan. — Enquanto existir comida, garotas e videogames, eu não preciso de drogas.
Luke ainda ria.
— Essa vai ser a sua frase — fez que não com a cabeça, subindo no ônibus.
No ônibus, a viagem foi tranqüila. Dan deixou Luke no meio do ônibus e foi para o fundão cantar umas músicas idiotas durante um tempo.
Com toda a farra, o primeiro e o segundo ano mal viram o tempo passar. Logo o ônibus estacionou em um local com uma grande placa que dizia “Área florestal de Brentwood – TN”.
Os alunos saíram do ônibus e conforme as professoras diziam, se agrupavam. A coordenadora, novamente, se colocou a frente de todos eles. Luke notou que cada professor tinha uma caixa em mãos. Deduziu serem as barracas.
— Bem, gente, cada grupo de quatro alunos ficará com um professor. Essas barracas são bem grandes e cabem confortavelmente cinco pessoas. Só a barraca da professora de inglês, a Srta. Lílian Jones, é menor e cabem apenas dois alunos. Enfim, vamos começar a lista. Com o Sr. Marshwell, ficarão: Daniel Fletcher, Douglas Quinn, Tyler Ferguson, George Mason.
Luke ficou um tanto decepcionado ao ver que Dan não ficaria na mesma barraca dele.
A coordenadora continuou contando aos alunos com que professor ficaria. Falou, falou, e o nome de Luke não foi dito. Ele já estava sorrindo... de preocupação, claro.
O que ele não notou era que o nome de Sophie também não havia sido dito.
— Comigo, ficam: Kate Miller, Jennifer e Stephany Stewart e Julia Bynum.
— O QUÊ? — Julia gritou, sem nem ver.
— Algum problema, Srta. Bynum?
— Sim, há um problema bem grande. Eu me recuso a ficar na mesma barraca da Stephany.
— Bem, as barracas já foram destinadas e não há como mudar. Aconselho a Srta. a se comportar.
Julia bufou. Sabia que não se controlaria se tivesse de dormir no mesmo local que Stephy.
Sabia que uma hora ou outra, lhe daria uma bela surra.
— E por fim — a coordenadora continuou falando, sendo que já havia dito o nome de quase todos os alunos —, com a Srta. Lílian Jones, na barraca menor, ficarão Luke Davis e Sophie Farro.
Luke e Sophie arregalaram os olhos, sem acreditar no que haviam acabado de escutar.
— O QUE? — gritaram os dois ao mesmo tempo. — Não!
— Quer dizer — Sophie recomeçou —, isso não pode! Ele é menino, eu menina, oi! Não pode.
Sophie procurou a primeira desculpa que veio a mente. Todas as pessoas estavam dormindo no mesmo local que uma pessoa do mesmo sexo. Por que diabos ela e Luke tinham de ficar juntos? Numa barraca consideravelmente pequena?
— Terá uma professora bem no meio de vocês, Sophie. O número de meninos é impar e a única barraca em que cabem mais garotos é a da Professora Jones.
— Mas eu não posso ficar no mesmo lugar que ela! — gritou Luke.
— Não só pode como vai — a coordenadora bufou. — Não posso deixar uma barraca com apenas duas pessoas e apertar seis em outra. E assunto encerrado, Mr. Davis; Agora, vocês, vão ajudar seus professores a levantarem as barracas e depois iremos almoçar.
Luke ainda não acreditava no que havia acabado de escutar. Ele e Sophie dormindo no mesmo lugar? Durante dois dias?
Sophie ainda estava pasma. Luke iria dormir com ela! Mesmo com a professora na barraca, era tortura demais! Ela estava certa de que morreria de ódio.
Quanto a Julia, ela até estaria apta a zoar Soph até o fim dos tempos por isso. Mas sua mente estava tomada pelo desgosto de ter que dividir uma barraca com Stephy. E, bem, Jenny também, por ela ser prima de Stephy e já ter beijado Nate.
Nenhum dos três estavam felizes. Ah, não.
— Vocês dois — gritou Lílian —, vão ajudar ou não? Temos uma barraca pra levantar se quisermos almoçar.
Luke saiu de seus devaneios e foi até a professora de inglês, pegando a caixa da mão dela e pousando-a no local onde a professora sugeriu que acampassem. Ficava há uns três ou quatro metros de onde estava sendo montada a barraca do professor de biologia, Benjamin Marshwell.
Sophie o seguiu.
— Como se faz isso? — ela perguntou, vendo Luke abrir a caixa e retirar um grande pano colorido. Se referia a como montar a barraca.
— Tem um manual de instruções — Luke debochou, fazendo que não com a cabeça e retirando um papel da caixa.
— Eu não sabia, idiota, para de debochar — ela retrucou, bufando.
— Eu não disse nada pra você, garota estúpida! Cala a boca!
— Ei — Lilian repreendeu-os. — Parem com isso! Onde já se viu? Dois adolescentes brigando como crianças.
Os dois bufaram e viraram de costas.
Depois de algum tempo, com a professora lendo o manual e dando as coordenadas para os alunos, a barraca foi levantada. Luke e Sophie não proferiram uma palavra um com o outro, mas também não deram um sorriso. Estavam ocupados demais sentindo raiva um do outro, e abusaram de caras feias e olhares assassinos.
Lilian não sabia do ódio eventual dos dois alunos, mas decidiu perguntar depois. As brigas infantis eram realmente tediosas.
Era uma mulher bonita, até, a professora de inglês. Luke a considerava a mais bonita de todas as professoras. Não estava fora de forma, e ele suspeitava que ela fazia academia. Além de um corpo bonito, ela tinha olhos verdes. Fez alguns garotos do primário se apaixonarem, inclusive.
— Tudo certo aí, garotada? — só agora Sophie tinha notado que o Sr. Marshwell havia chegado perto. Ela acabara de buscar a mala de dentro do ônibus, e agora, Luke havia ido.
Ele se recusava a entrar no ônibus com Sophie lá dentro também.
— Tudo sim, Benny — Lilian respondeu abrindo um sorriso, que o professor retribuiu à altura.
Sophie apertou os olhos, confusa. Benny?! Ela mal se atrevia a falar o nome inteiro dele! Quanto mais apelidá-lo com nome de... sei lá, ursinho de pelúcia.
— Benny? — ela repetiu muito baixo para si mesma, como se tentasse entender.
— Conseguiu erguer bem a barraca? — ele se aproximou um pouco da barraca, mas sem quebrar o contato visual.
Sophie nunca o havia visto sorrir tanto. Julia o havia apelidado de Professor-Gato-Porém-Chato.
Mas agora parecia tão simpático quanto um vendedor de balas sortidas.
— Sim, os meninos me ajudaram — ela se aproximou também.
— Sei... bom, chame os garotos e venham almoçar... eu vou organizar um estudo as rochas ainda hoje.
— Claro, claro. Só vou esperar o Luke voltar com a mala.
— Nos vemos depois, então — ele sorriu, recebendo o sorriso dela de volta, e depois saiu, arriscando umas olhadas para trás.
Sophie revirou os olhos e fez que não com a cabeça, tentando afastar os pensamentos confusos da mente. Ficou de joelhos e engatinhou, entrando na barraca. Foi até um canto, onde o colchonete estava, e arrastou sua mala, colocando-a por cima dele.
Luke adentrou a barraca em seguida, com sua mala.
— Por que você está no meu lugar? — ele perguntou, irritado.
— Não estou no seu lugar — ela respondeu calmamente, abrindo a mala.
— Claro que está no meu lugar. Eu deixei claro que o canto esquerdo com o colchonete azul seria o meu lugar.
— Eu não ouvi e vou dormir exatamente aqui, no meu lugar.
— Sai, vamos — Luke já estava impaciente. — Eu vou dormir aí.
— Não vai nada — Sophie bufou.
— Sophie, eu não estou brincando. Sai do meu lugar, eu vou dormir aí. — Luke só ficava mais irritado.
— Você não vai dormir aqui! Eu vou!
— Sai. Eu vou dormir aí.
— Não vai — ela o olhou irritada, decidida a não deixá-lo dormir ali.
— Eu vou. — Luke cerrou os punhos e avançou para cima de Sophie.
— Se você chegar mais perto, eu juro que chuto essa sua cara idiota — ela ameaçou, vendo-o chegar mais perto.
Luke sorriu e continuou avançando, como se estivesse a desafiando.
— Não tô brincando, Luke — Sophie ameaçou novamente. Luke continuava sorrindo.
Até que ele avançou demais. Sophie bufou e lançou a perna para frente, tentando acertá-lo com um chute, mas Luke agarrou a perna dela e a puxou com força, no intuito de puxá-la do colchonete.
— SOLTA A MINHA PERNA, IDIOTA! — ela gritou e Luke não a soltou, puxando-a mais.
— VOCÊ VAI SAIR DO MEU LUGAR AGORA! — ele gritou de volta.
— NÃO VOU! AI, TÁ ME MACHUCANDO! — Sophie tentava puxar a perna de volta, mas as mãos de Luke pareciam de aço e não a soltava de jeito nenhum. Sophie sentia o lugar onde apertava arder.
Ela jogou o corpo pra frente e passou a diferir vários tapas e socos no ombro de Luke, tentando fazer ele soltá-la. Mas ele não o fez. Invés disso, passou a gritar.
— Para de me bater!
— Então solta... o... meu... pé! — ela gritou, fazendo as pausas para socar mais o ombro e costas de Luke que já estavam ardendo.
— Só se você sair do meu lugar!
— NÃO É O SEU... LUGAR! — ela continuava a bater nele, e ele a puxá-la do colchonete, quando a professora Lilian adentrou a barraca, furiosa.
— O QUE DIABOS ESTÁ ACONTECENDO AQUI? — ela perguntou gritando, fazendo Luke e Sophie se soltarem imediatamente. Sophie voltou para o colchonete e Luke tentou ajeitar os cabelos, olhando para baixo. — Respondam! O que está acontecendo aqui?
— Ela pegou o meu lugar! — Luke começou. — Eu só fui buscar a minha mala, e quando voltei, a insuportável estava no meu lugar!
— Não é o seu lugar! — Sophie retrucou, com raiva. — É o meu lugar! Professora, ele agarrou a minha perna e puxou!
— E depois ela me bateu!
— Mas em mim está doendo mais! — Sophie ainda gritava com raiva.
— Era essa a intenção! Sai do meu lugar!
— Eu não vou sair de lugar nenhum! É o meu lugar!
— Não é o seu lugar!
— Claro que é!
— Eu odeio você!
— Eu odeio mais!
— CALEM A BOCA! — Lilian gritou mais alto, de repente, com as mãos no cabelo castanho. — O QUE DEU EM VOCÊS?
— Ele é insuportável, professora! — Sophie se queixou. — E me machucou!
— EU NÃO LIGO! Vocês se odeiam? Problema de vocês! Mas eu estou querendo um pouco de paz!
— Ela pegou o meu lugar! — Luke se queixou, novamente.
A professora, sinceramente, achou que estava lidando com duas crianças. Pareciam que estavam no jardim.
— Quer saber? Agora esse é o meu lugar — ela solucionou, bufando.
— Mas...
— Mas nada — ela encarou Sophie e Luke fatalmente. — Sai daí, Sophie.
Ela bufou e pegou sua mala, engatinhando para outro canto.
— Mas eu achei que a Srta. ia ficar no meio! — Luke se queixou mais uma vez, agora que viu que teria de dormir do lado de Sophie.
— Não vou mais — ela continuou encarando-o da forma mais assassina possível. — Não tô nem aí se vocês se odeiam. Se virem, vão dormir um do lado do outro agora.
— Mas isso é pior do que tortura! — Sophie abriu a boca, de tão indignada que estava.
— Problema seu — Lilian passou uma mão pela testa.
— Srta. Jones, é sério — Luke tentou ser mais agradável. — Fica no meio... Eu odeio muito essa garota, e ficar no mesmo lugar que ela já é difícil.
— Eu já falei, Luke — ela estava séria. — Alguma vez você já me viu voltar atrás?
— Não — ele respondeu, suspirando.
— Então pronto — ela bufou. — Saiam dessa barraca e vão almoçar. E eu não quero escutar mais nenhuma discussão, e muito menos violência. Estamos entendidos?
— Tá, tá. — Sophie respondeu bufando e saiu da barraca.
Não se deu ao trabalho de olhar se Luke havia saído também. Estava com muita raiva e apenas foi para onde algumas pessoas já comiam.
Viu Julia de cara fechada em um canto, tentando abastecer o prato com o que parecia carne de soja, ou algo do tipo. Gritou-a e foi até ela.
— Eu odeio a vida — foi a primeira coisa que Julia disse. — A maldita da coordenadora me repreende a cada “ai” que eu falo para aquela vaca. E o pior, a vadia me xingou, e a filha da mãe não disse nada! — ela suspirou. — E pra piorar, o sinal de celular não pega. Não consegui falar com o Nate — ela entregou um prato de plástico para Sophie, sem deixá-la falar. — Odeio florestas. Odeio acampamento. Odeio vadias. Odeio professoras e odeio coordenadoras. Odeio falta de tecnologia. Odeio estar aqui.
— Acabei de sair na porrada com o Luke, e também odeio tudo aqui. — Sophie bufou e Julia a olhou, surpresa.
— Porrada? What...? — ela não desfez o olhar surpreso.
— Deixa pra lá — Sophie bufou. — Por que a coordenadora não te deixa falar nada com a Stephy?
Julia bufou, voltando a sua face carrancuda.
— Isso é falta de...
— Ei, meninas! — Dan disse alto com a boca cheia de algo farinhento. Provavelmente a carne de soja.
— Olá, Dan — Sophie disse sem entusiasmo. Depois da briga com Luke e da bronca da Srta. Jones, a última coisa que ela queria ver era a comida de Dan pré-mastigada.
— Engole isso, eca — Julia fez sua melhor expressão de nojo enquanto Dan terminava de engolir sua comida.
— Já arrumaram as barracas? — ele perguntou, preparando outra colherada.
— A minha, sim. — Sophie.
— A minha também — Julia bufou. — Mas estou detestando tudo aqui. Odeio comida vegetariana.
— Eu nunca tinha comido antes, mas enche, e tem um gosto bom de nada. — Dan sorriu, antes de comer mais um pouco de soja. — E...
— Coma de boca fechada, Daniel — Soph bufou, colocando um pouco daquela comida estranha no prato e dirigindo-se, junto a Julia e Dan até uma árvore grande, onde todos estavam comendo e conversando.
— Mas é sério, gente — ele terminou de engolir enquanto ia andando. — É até gostoso. Só precisa comer o suficiente.
— O quanto é suficiente pra você? — Julia perguntou, olhando-o.
— Quantos pratos desse você já comeu? — Sophie não o esperou responder.
— Esse é só o terceiro, acalmem-se — Dan revirou os olhos e comeu mais um pouco.
— Sério — Sophie começou —, se todas as garotas que são apaixonadas por você te vissem comendo, você estaria muito ferrado.
Julia gargalhou pela primeira vez em uma hora e Dan revirou os olhos.
— Mude seus hábitos alimentares ou então nunca vai se casar — Julia disse, entrando na brincadeira.
— Engraçadinhas, vocês — Dan fingiu achar graça, fazendo-as rir mais. — Fiquem aí fazendo piadinhas, vou lá falar com o Luke.
Dan sorriu antes de sair e fingiu não ter visto Sophie bufar.
— É sério — Sophie começou, depois de um tempo engolindo aquela soja toda. — Mais de sessenta pessoas! E eu tinha que ficar com o mais insuportável!
— Soph, para de reclamar. Eu estou na mesma barraca da vadia e da ex-namorada, então... por favor — Julia fez uma careta, terminando de comer.
Mesmo acreditando na tristeza da amiga, Sophie preferia estar na barraca de Julia. Estar com Luke era simplesmente insuportável.



[...]



— Maldito seja, Sr. Marshwell! — Disse Sophie muito devagar, jogando-se no seu colchonete.
Ainda eram nove da noite, mas ela, assim como todos os alunos, estava se estirando no colchão da barraca.
Isso porque o estudo as rochas foi uma caminhada sinuosa de cinco horas. E ainda, para tomar banho, eles tiveram de ir a cachoeira, que ficava longe pra caramba da barraca. Sophie não sentia as pernas direito. Tinha certeza de que nunca havia andado tanto na vida. E para piorar, por conta de uma queda, ela estava com um hematoma enorme na coxa.
Ela puxou o cobertor, pouco se importando se Luke ou o Lord Voldemort se deitaria do lado dela em seguida. Estava dolorida demais para ligar.
É claro que não demorou nada e ela sentiu-o encostar nela. Mas Luke estava igualmente dolorido, por isso, nem se deu ao trabalho de reclamar.
Tudo doía. Até os fios de cabelo doíam.
Por isso, ele pegou o seu cobertor e fechou os olhos, pronto para dormir o maior sono de sua vida.
— Que lindos vocês quando estão dormindo — Sophie escutou a voz da Prof. Lilian de relance. — Parecem até que não são dois adolescentes insuportáveis que passam o dia discutindo sobre quem odeia mais quem.
— Ainda... estou aqui. — Sophie disse baixo e Lilian sorriu, deitando-se ao lado dela. Sophie havia ficado no meio.
— Eu sei — Sophie ouviu a barraca ser fechada.
— Não está cansada? — ela perguntou ainda muito baixo, sem se dar o trabalho de abrir os olhos.
— Sim, mas não tanto. Eu faço caminhada regularmente — Lilian esclareceu e Sophie desistiu de falar, entregando-se ao sono.
Luke já estava dormindo.
A Professora ajustou o despertador do relógio de pulso para as 3h da manhã para tocar apenas uma vez. Não queria que Luke ou Sophie também acordassem.
Deitou-se em seu colchonete e fechou os olhos, procurando dormir, mas demorou um bocado para tal. A ansiedade não deixava.



A noite estava bem calma para a adolescente de quinze anos moída de cansaço no acampamento. Mas algo provocou o sono de Sophie, fazendo-a acordar no meio da noite. Notou ela, então, que estava longe do seu colchonete. Ela havia rolado para o colchonete da professora.
E ela não estava lá.
Onde estava?
Sophie ficou sentada, completamente confusa. Olhou para o braço de Luke e viu no relógio de pulso que ele usava que eram 3h45 da manhã. Onde a Srta. Jones teria se metido a tal hora?
Pegou a lanterna que estava debaixo do seu travesseiro e engatinhou até a porta da barraca, puxando o zíper e abrindo-a. Olhou para um lado e para o outro, iluminando com o aparelho, mas não viu nada.
Se confundiu ainda mais, com um pouco de medo. Ninguém some assim.
Voltou até o seu colchonete e decidiu acordar Luke.
— Ei, acorda — ela mexeu em seu ombro para frente e para trás, tentando acordá-lo. — Acorda aí, Luke.
Luke gemeu, rolando para o lado.
— Luke — ela bufou, mexendo com mais força. — Vamos, acorda!
— O que você quer? — ele perguntou com voz embargada pelo sono.
— A Prof. Lilian sumiu.
— Me deixa dormir — ele bocejou e fechou os olhos com mais força.
— Luke — ela iluminou o rosto dele com a lanterna, fazendo-o abrir os olhos com a claridade. — Acorda! A professora sumiu!
— Ela já é bem grandinha, e tira essa bosta de luz da minha cara — Luke grunhiu, colocando a mão na frente do rosto.
— Não vou tirar — ela continuou apontando a lanterna no rosto de Luke. — Vai que ela saiu e foi engolida por um urso?
— Ursos no Tennessee. Tá bom, Sophie, volta a dormir.
— Não vou parar de te atormentar até você decidir ir procurar a Srta. Jones comigo! — ela disse, decidida, e Luke bufou, sentando-se no chão e coçando os olhos.
— Eu odeio você. Eu odeio muito, muito, muito você. — Ele disse e abriu a mala, retirando um moletom rapidamente dela. Saiu da barraca, vestindo-o.
Sophie sorriu de satisfação e saiu em seguida, iluminando com a lanterna.
— Sério — Luke disse novamente —, eu odeio muito você.
— Ai, tá. Você sabe que eu te odeio amargamente também — ela bufou. — Mas eu não vou dormir tranqüila se não achar essa mulher.
— Vamos só dar uma volta, ok? Não tô a fim de me perder de noite.
— Tá, e se a gente não achar a gente volta e fala com a coordenadora.
— Ok — Luke concordou e respirou fundo, passando uma mão pelo rosto, tentando despertar. — É sério, eu te odeio.
— Eu te odeio mais, anda, vamos. — Sophie respondeu no automático e foi andando na frente, iluminando o lugar com a lanterna.
Eles andavam devagarzinho, sem fazer muito barulho, com os ouvidos muito atentos. Deram vários passos e se afastaram uns cem metros da barraca, até chegarem em um local onde havia uma rocha muito grande — Sophie havia estudado sobre ela de tarde.
Até que escutaram algo.
— Ouviu isso? — Sophie cochichou e Luke fez que sim com a cabeça. Atrás de um carvalho enorme, umas folhas se mexiam.
— Deve ser um animal — Luke sussurrou e Sophie sentiu o sangue gelar só em imaginar um urso.
Mas a frase “ok, para, acho que devemos voltar” desmentiu totalmente a crença dela de ser um urso. A não ser que existisse um urso que soubesse falar exatamente igual a Srta. Lilian Jones.
— Devemos? — Sophie apontou a lanterna para o próprio rosto e apenas sibilou. Luke pegou a lanterna da mão dela e desligou, fazendo um gesto para Sophie segui-lo. Ela fez que sim com a cabeça e os dois passaram a caminhar quase que imperceptivelmente.
Andaram apenas uns vinte passos, até dar para ver completamente o que havia atrás da árvore.
Luke deixou o queixo cair e Sophie começou a rir.
A Prof. Jones e o Prof. Marshwell estavam, atrás da árvore, agarrados, aos beijos.
— Eu sabia! — Sophie sussurrou muito baixo. — Eu sabia! Benny! Hah! — ela sorria baixinho, fazendo Luke sorrir com ela.
— Mano, que doideira! — Luke exclamou baixinho também. — O que vamos fazer com isso? — ele perguntou, depois de refletir e ver que ele tinha um baita flagra nas mãos.
— Eu não sei você — disse Sophie, ainda rindo —, mas eu vou tirar proveito disso.
Foi aí que ela pegou a lanterna da mão de Luke e apontou direto para o rosto dos pombinhos, que, lógico, imediatamente se separaram.
E escutaram a gargalhada alta de Sophie ecoar.
Luke acabou contagiado e riu também, certo. Não havia como não rir da situação.
— Que bonito! — ela gritou, deixando os professores com mais vergonha do que já estavam.
Eles simplesmente não conseguiam falar. Estavam paralisados.
— Sério — ela continuou, sem a mínima vergonha na cara. Continuava rindo, parecendo se divertir com a saia justa dos professores. — Tudo bem, vocês podem ter suas ligações fora da sala de aula e tudo, mas... num acampamento escolar? Coisa feia!
Finalmente, mexendo um músculo, a Prof. Lilian passou as mãos trêmulas pelos cabelos castanhos. Estava mais do que nervosa. Não queria que a situação chegasse aos ouvidos da coordenadora ou da diretora.
— Certo — Lilian disse, tentando manter o pouco de dignidade que lhe sobrara. — O que você quer?
Sophie sorriu. Era exatamente isso que ela queria escutar.
— Nada demais — ela manteve o sorriso. — Durma no meio.

Nenhum comentário:

Postar um comentário