23 de set de 2012

Capítulo 45


So far away, and I need you to know.



(N.A.: PLAY NO VÍDEO 1)
Danna apertou o sobretudo contra o corpo involuntariamente quando o vento frio bateu contra o seu rosto. Ela estava completamente agasalhada dos pés a cabeça, devido à manhã gélida do fim de dezembro. Enquanto dirigia para onde estava agora, ela viu algumas crianças fazendo algazarra com a neve, e outras, fazendo bonecos com suas famílias, em frente as suas respectivas casas.
Brincar com a neve era uma coisa que Danna nunca havia feito. Na realidade, quando criança, ela não brincava muito, pois não tinha com quem o fazer. Às vezes se dirigia para um parque que ficava perto de sua casa, sentava-se à sombra de alguma árvore e via seus colegas de escola brincando com seus pais, no balanço ou no escorregador. Ela não sabia exatamente por que fazia aquilo. Mas se lembrava com clareza desses momentos, por que eram esses em que ela mais sentira a falta de uma verdadeira mãe.
Mais tarde, já adolescente, ela não queria mais brincar com neve boba nenhuma. Passou a vestir apenas preto e arranjar briga com todos que podia. Revoltada, dificilmente ficava na escola, o que a fez repetir o primeiro ano do ensino médio. Lembrava-se claramente do dia em que recebeu o boletim, e Jenna, irritada, brigou com ela como nunca havia brigado antes. Berrava, gritava o quão inútil ela conseguia ser, mas Danna não chorava. Havia prometido que nunca mais choraria na frente de Jenna, promessa essa, que claro, teve de ser quebrada. Mas o argumento que fez Danna abrir os olhos e se empenhar no colégio estava claro em sua mente como se estivesse sendo dito naquele mesmo momento: “É isso que você quer? Se você não prestar ao menos para se formar no ensino médio, nunca sairá da minha casa!”.
Foi um mês depois disso que Danna fotografou a primeira vez, e teve certeza de que era isso que queria para a sua vida. Sair da casa de Jenna e fotografar.
Arrumou alguns empregos e ficou sem lanchar no colégio por um ano até comprar sua primeira câmera, enquanto ainda fazia o curso de fotografia gratuito que sua escola havia disponibilizado durante a tarde. E, fotografar foi, na verdade, a única coisa que Danna fez e nunca ouvira Jenna criticar. Quando mostrava suas fotografias a ela, Jenna apenas bufava e saía pela porta. Então a adolescente deixava um sorriso aparecer em sua face, acreditando que seu trabalho era realmente bom, uma vez que nem mesmo a pessoa mais crítica do mundo conseguira colocá-lo para baixo.
“Você devia tentar mesmo” Jenna havia dito a Danna, certo dia, enquanto elas jantavam junto a Robert, “o marido da vez”. Quando estava perto de alguém, Jenna geralmente não era tão carrasca. “Posso dizer ao seu pai que você está se interessando por arte.”
Danna apenas balançou a cabeça. Jenna vivia dizendo aquele tipo de coisa quando não estava gritando que ela havia arruinado sua vida. Ela tinha algum tipo de contato com Josh e, dependendo do que Danna estava começando a se interessar, Jenna poderia tirar mais algum dinheiro dele. Bem típico.
Deus! Como Danna odiava aquela mulher. Lembrava-se claramente da fase de sua vida em que queria, queria com todas as forças que Jenna mudasse e fosse uma mãe normal. Quer dizer, não era pedir nada demais! Ela só queria... uma mãe. Uma mãe de verdade. Uma mãe que ajudasse na lição de casa e a levasse para fazer bonecos de neve no parque. Ela queria de todo o coração poder amar Jenna, mas ela não lhe dava escolha. Fizera a própria filha, fruto de sua carne, odiá-la mais do que tudo que havia na vida. E Danna odiava, odiava tanto! Odiava com toda a força que tinha!
Mas sua vida ultimamente estava sendo tão boa que Danna se esquecera desse ódio. Nas poucas vezes que se viu pensando em Jenna, não sentiu mais aquele ódio irreversível. Sentiu... pena. Vergonha. Repulsa. Mas não o ódio que lhe domava por completo como fazia não tão antigamente.
E, talvez por isso, por não odiar mais, ela estivesse onde estava agora. Em suas mãos, um ramalhete de rosas brancas que havia comprado no caminho. Não sabia como os floricultores conseguiam conservar as flores nesse inverno terrível. De qualquer maneira, lá estava ela. Andando entre as lápides, procurando uma em especial, e não precisou andar muito até achá-la. Suspirou longamente.



Never feared for anything. Never shamed but never free. Alive to hear the broken heart with all that it could.
(Nunca teve medo de nada. Nunca se envergonhou mas nunca foi livre. Vivo para ouvir o coração partido com todas as forças).

Lived a life so endlessly. Saw beyond what others see. I tried to heal your broken heart, with all that I could.
(Viveu uma vida tão interminável. Viu além do que os outros veem. Eu tentei curar seu coração partido com todas as minhas forças).



Ao lado da lápide ainda havia alguns vestígios de flores, secas pelo gelo, tentando aguentar a nevasca que se dera nos últimos quatro dias. Daqui a algum tempo, não haveria mais nada, a natureza já haveria feito o seu trabalho. As flores só ainda estavam ali por que o enterro fora realizado há apenas três dias antes.
De repente, o flash da manhã anterior passou pela cabeça de Danna como um raio, fazendo-a respirar fundo.
Era uma manhã comum, porém, fria. Danna estava com um moletom grosso que pegara de Hector, embrulhada em um edredom e tomando chocolate quente. Havia acabado de tomar café, mas Hector fizera questão de preparar um chocolate quente especial para os dois, já que estava tão frio. Enquanto ela bebericava seu líquido, Hector terminava de ler o seu jornal, já que Danna não o havia deixado durante o café da manhã, prendendo sua atenção e enchendo sua paciência a todo o momento. Não que ele não gostasse, é claro.
Mas de repente, enquanto lia, Hector empalideceu. E engolindo seco, entregou o jornal à namorada:
— Danna... essa nota — ele apontou para o canto do papel. — Olha. Lê essa nota.
Ela estranhou o tom de voz do namorado, e franzindo o cenho, pôs-se a ler. A coluna era a de acidentes de trânsito, e estava particularmente cheia, pois mostrava os acidentes que ocorreram no último dia 25. Como sempre, as pessoas tendem a ser mais imprudentes em datas comemorativas. Com o natal não poderia ser diferente.
“Um carro capota tragicamente na pista I-40 W/Nashville, matando duas pessoas.” Era o que estava escrito na nota em que o dedo de Hector apontara. Danna umedeceu os lábios, continuando sua leitura: “Kyle Hudson, 45 anos, está internado em coma profundo no Southern Hills Medical Center, e seu estado é grave. Jenna Rice, 42, e Hilary Matson, 40, morreram na hora.”.
Danna sentiu sua respiração cessar e o jornal caiu de suas mãos rígidas pelo frio. Em sua cabeça, a frase que acabara de ler ecoava em sua cabeça.
“Jenna Rice, 42, e Hilary Matson, 40, morreram na hora.”
Jenna... não pode ser.
Jenna estava morta?


Will you stay?
Will you stay away forever?
(Você vai ficar?
Você vai ficar longe pra sempre?).



Danna sentou-se na neve, encarando a lápide em sua frente e apertando o caule das rosas com mais força do que o necessário. O flash da última manhã acabara em sua cabeça, mas ela ainda sentia suas mãos tremerem como tremeram naquele momento. O choque ainda não havia saído de sua mente. E mesmo encarando o túmulo, Danna custava a acreditar que o corpo morto de Jenna estava debaixo dos seus pés.
Ela perdera o enterro e o funeral, que fora organizado por sua avó materna. Precisou ligar para ela, depois de muito procurar seu telefone, para saber se o que lera no jornal era realmente verdade. A voz amarga e chorosa da mulher, chamando-a de ingrata, fora convincente o suficiente para Danna ter certeza de que sua mãe — mesmo que mais ausente impossível, ainda era a mulher que lhe dera a luz — realmente havia fraturado o pescoço naquele acidente horrível.
E mesmo que não fosse para ser, o sentimento de luto atingiu-a. Ela na verdade não sabia o porquê que se sentia daquele jeito com a morte de Jenna. Sabia que se por acaso fosse o contrário, ela não sentiria nada. Mas... Jenna não tinha um coração! Ela era doente, feita de pedra, vivia para fazer o mau às pessoas. Só era apaixonada por si mesma e não via nada além do seu próprio benefício. Danna podia não odiá-la mais, mas de qualquer forma, ela não poderia esquecer tudo de ruim que passara por ela. Não tinha por que sentir-se mal com a sua morte.
Mas quando Hector abraçou-a e ela deixou-se refugiar no corpo do namorado, ele disse algumas coisas que para ela fizeram bastante sentido:
“Você não é igual a ela” ele explicou, enquanto afagava seu cabelo. “Você é a melhor pessoa que eu já conheci. Você é sentimental, Danna, mesmo que não assuma isso. E apesar de tudo, foi ela que te deu a luz, e te criou à maneira dela... É natural se sentir mal. Mas... sabe, talvez seja melhor assim. Talvez o que ela tinha de fazer aqui na Terra já tenha sido feito. Ela fez muito mal a você e a outras pessoas... e onde quer que ela esteja, ela está colhendo o que plantou. Mas isso é o melhor que pode acontecer a ela.”
A religiosidade de Hector, mesmo que não fosse fixa, fazia sentido total na cabeça de Danna. Jenna havia feito muito mal a muitas pessoas. Mas se a justiça dos homens não deu seu jeito, a divina daria.



Plans of what our futures hold. Foolish lies of growing old. It seems we're so invincible, the truth is so cold.
(Planos do que o nosso futuro nos reserva. Mentiras tolas de "envelhecer". Parecia que éramos tão invencíveis, a verdade é tão fria.
A final song, a last request. A perfect chapter laid to rest. Now and then I try to find a place in my mind… Where you can stay… You can stay awake forever.
(Uma última música, um último pedido. Um capítulo perfeito terminado. Volta e meia tento achar um lugar na minha mente... Onde você possa ficar... Você possa ficar acordado para sempre).



Suspirando, ela passou as mãos encapadas pelas luvas na lápide, tirando a fina camada de neve que se fez por cima dela.


“Aqui jaz
Jenna Lee Rice.
Filha e amiga querida.”



Danna torceu os lábios e abaixou os olhos por um segundo, escutando a frase se repetir em sua mente. Obviamente fora a mãe de Jenna que providenciara tudo aquilo. Isso porque, talvez, ela fosse a única pessoa que realmente se importava com ela. Fazia sentido, as duas eram tão iguais...
Ela se lembrava de quando ligou para a avó. Sua voz estava inconsolável, e ela havia dito todas as atrocidades possíveis a Danna. Repetia, tantas e tantas vezes, que Deus era injusto por levar sua filha tão cedo. “Ela ainda tinha tanta vida pela frente! Havia acabado de completar seus quarenta e dois anos!”.
Na cabeça de Danna, ela acreditava verdadeiramente de que se Jenna tivesse se esforçado, mesmo que um pouco, para ser uma boa pessoa, ela não estaria enterrada abaixo dela agora. Se, talvez, ela tivesse algo de bom para dar... ela poderia estar viva a uma hora dessas.
Danna tentou imaginar como teria sido sua vida caso Jenna tivesse sido uma boa mãe. Será que ela se tornaria quem era agora? Provavelmente sentiria muita raiva de Josh. Será que teria conhecido Hector? Ou seus meios-irmãos? Será que amaria?
Mesmo sabendo que muito provavelmente tudo o que ela preza hoje não existisse caso Jenna tivesse sido uma boa mãe, essa era uma coisa que Danna queria que ela tivesse sido. Sempre quis. Mas já fazia muito tempo que perdera essa esperança.
E agora, isso era simplesmente impossível. Pelo menos nesta vida.
Danna viu algumas pessoas chegarem ao cemitério e sentarem-se, assim como ela, de frente para algumas lápides. Um rapaz, no máximo dezessete anos, juntara suas mãos e parecia estar fazendo uma prece. Mais a frente, ela pode observar, um senhor de no mínimo cinquenta anos se esforçava para andar na neve com uma garota segurando seu braço. Eles carregavam um ramo de rosas assim como ela.
Voltando sua atenção para a lápide de Jenna, ela leu mais uma vez as palavras que nela estavam escritas. Respirou fundo.
— Então... — ela começou a dizer. — Acabou. Foi isso que você fez com a sua vida, Jenna. Justamente o que eu disse que um dia você faria. Não aproveitou nada de bom, nenhum sentimento, nenhuma alegria verdadeira. Jogou tua existência no lixo. Droga, isso tudo valeu a pena? — ela perguntou sentidamente. Sua respiração estava acelerada, e o aperto no ramo de rosas conseguia ficar cada vez mais forte. — Valeu a pena ter sido tão... detestável? Tão má? Valeu a pena pra você, Jenna, não ter feito nada de bom para as pessoas que te amavam ou, como eu, queriam te amar? Caramba! Eu te odiei, sabia? Eu te odiei de verdade, com todas as forças que eu tinha no coração, no corpo e na alma. Te odiei mais do que tudo o que existia no mundo. — Danna suspirou, sentindo o nó se fazer em sua garganta. Fez uma pausa, esperando controlar-se. — Mas eu não odeio mais. Não odeio mais, mesmo me lembrando claramente de tudo de ruim que você me fez passar... a paz que eu passei a sentir dentro de mim é tão grande que... ela passou por cima de todo sentimento ruim que eu sentia em relação a tudo e todo mundo. Inclusive você. — Danna fez outra pausa, respirando fundo e afrouxando o aperto nas rosas. — Eu sei que onde quer que você esteja, você está recebendo o que você merece pelos pecados que cometeu. Mesmo assim, eu não te desejo mau, Jenna. Eu não quero que você passe o resto de sua eternidade sofrendo, ou queimando no inferno, ou algo assim. Apenas quero que você aprenda que machucar as pessoas não é nenhum caminho para a felicidade. Quero que você perceba que sentir e amar faz com que você seja amado de volta, e isso sim é o que você precisa para ser feliz. Se para aprender isso tiver que ser por meio de sofrimento, bem, Deus sabe o que faz. Mas... onde quer que você esteja, se estiver me ouvindo, saiba que você pode seguir em frente com o meu perdão por tudo o que você me fez passar, por que, com certeza, a pessoa que você mais machucou nesse mundo fui eu. — Danna passou os dedos pela lápide, engolindo o nó que só ficava cada vez mais forte em sua garganta. — Eu te perdoo, Jenna, e agora vou seguir em frente com a minha vida. Espero que você também o faça, estando onde estiver. — Danna suspirou novamente e se levantou, deixando o ramo de rosas ao lado da lápide. Encarou o túmulo uma última vez. — Descanse em paz, Jenna Lee Rice. Descanse com o perdão da sua única filha. Que Deus tenha pena da tua alma.



So far away... And I need you to know.
(Tão distante... E eu preciso que você saiba).

So far away... And I need you to, need you to know.
(Tão distante... E eu preciso que, preciso que você saiba).


[...]



Luke deu uma última ajeitada no cabelo e saiu de perto do espelho, andando, quase pulando, até a porta de seu quarto. Atravessou o corredor contente e desceu as escadas no corrimão, sem tocar nos degraus. Pulou no chão e continuou sua caminhada alegre até a porta da frente da casa. Do modo que andava, quase dava para escutar I Feel Good ao fundo, como num filme de Hollywood. Luke riu do pensamento bobo.
Claro que ele geralmente não andava assim, quase saltitante de felicidade. Mas, oras, ele tinha um motivo! Aliás, ele tinha vários motivos para estar tão contente. Primeiramente: ele havia feito sua inscrição para o provão que o faria entrar em alguma faculdade Nova Yorkina e já comprara seu mundo de livros. Depois, oras! Era 31 de dezembro! Que pessoa não fica animada no último dia do ano?
Mas o maior motivo de sua animação era uma proposta que lhe fora feita quando ele foi visitar a escola para pegar seu histórico, e por acaso, deu de cara com o pai de um aluno que havia visto sua banda tocar no baile de formatura.
Luke ficou de ligar para confirmar depois, mas ele tinha certeza de que todo mundo simplesmente amaria a proposta. Estava louco para contar para Sophie.
— Merda! — Luke disse, provavelmente, o primeiro xingamento do dia. Já estava no meio do caminho de sua casa para a casa da namorada. — Esqueci o mousse que a mãe fez! Droga, droga, droga! Garoto avoado.
E, praguejando, ele fez o caminho de volta para a sua casa, mas ainda com o sorriso no rosto. Destrancou a casa, pegou o mousse de limão que Katt havia feito na geladeira, trancou a casa novamente e voltou para a casa de Sophie. Com direito a andar animado e cantarolar I Feel Good baixinho.
Kathryn o mandara pegar a sobremesa por que a farra de virada de ano seria feita na casa dos Farro, e como tradição, cada tradicional família americana levaria alguma sobremesa. O que, na verdade, era apenas uma grande disputa que acontecia em Katt e Dakotah, que estavam sempre discutindo sobre quem tinha o melhor mousse. No final, elas obrigavam os homens da casa a decidirem.
Luke deu uma risada, lembrando-se de que esse ano, Sarah provavelmente estaria na competição. Talvez Danna, também. Diferente de Hayley, que jamais entrava, por que dizia que era capaz de tacar fogo em toda a casa se tentasse. O que, oras, era bem esquisito se tratando de mousse, já que para fazê-lo você nunca usa nenhuma espécie de fogo.
Ignorando os pensamentos idiotas, Luke abriu a porta da casa dos Farro sem bater. Não era necessário, dava para escutar os gritos das crianças do outro quarteirão.
— Pseudo-primo! — Joe gritou, fazendo Luke gargalhar e bater sua mão com a do garoto.
— E aí, Joe — ele cumprimentou, e viu duas crianças passarem por ele correndo. Reconheceu Tereza, a pequena irmã de Dan, mas o outro garotinho menor ele não soube quem era.
— Adam! Pela última vez, pare de correr! — Adam. Ele soube quando escutou a voz aguda de Sarah ecoar, aquele era o seu filhinho. Claro. — Ei, Luke! Vai participar do “Melhor Mousseda América” também?
Luke gargalhou.
— Não — respondeu, abraçando a mulher logo depois. — É da minha mãe. Ela mandou trazer antes de eu sair. Aliás, cadê ela?
Sarah riu.
— Ai, sei lá — deu de ombros. — Por aí.
Luke fez que não com a cabeça, rindo, e murmurou um “obrigado”.
Saiu em direção à cozinha e avistou sua mãe, cozinhando com Dakotah, Jeremy, Taylor e Monica (mãe de Marie). Num canto, bebendo uma taça de vinho, Hayley, Josh, Nate e Spencer conversavam sobre alguma coisa.
Cumprimentou todo mundo e perguntou onde estava Sophie, Nate, e o resto das pessoas. Monica lhe disse que eles estavam na sala do piano, tocando e fazendo bagunça. Luke agradeceu com um sorriso e se dirigiu até lá.
Contando a novidade para Dan e Nate de uma vez, tudo ficava melhor.
O que Luke não sabia era que sua namorada não estava mais na sala do piano.
Assim que Luke atravessou a sala de estar, Sophie desceu as escadas com o seu Gibson na mão. Dan e Nate haviam pedido por que disseram que ensinariam Hector a tocar. Era provavelmente a única coisa no mundo que o latino não sabia fazer.
Desceu as escadas com um certo cuidado, por que tudo o que ela menos precisava era deixar com que o seu valioso violão caísse no chão ou batesse o corpo contra o corrimão. Já estava quase no fim quando percebera que Brendon estava atrapalhando sua passagem enquanto lia um papel.
— Ei, padrinho — ela disse, chamando a atenção do mais velho, que sorriu. — Dá licença aí, por favor.
— Little Soph — ele disse, rindo, estendendo uma mão e ajudando-a a descer os últimos degraus. Deixou um beijo na cabeça da garota. — Você leu isso?
Sophie encarou o papel na mão do padrinho e engoliu seco. Sorriu, nervosa, logo depois.
— Sim — respondeu num fio de voz. — Eu não vou, tio.
Brendon franziu a testa.
Ele havia acabado de ler uma carta direcionada a Sophie. Era da reitoria do Colégio Laurent Louis, na Inglaterra, onde a garota havia estudado durante tantos anos. A carta dizia que Sophie havia ganhado uma vaga para terminar o ensino médio por lá e se formar em música. Dizia também sobre o seu talento e o quanto ela seria valiosa para a escola.
— Por quê? — Brendon perguntou, ainda sem entender. Estudar na LL seria uma grande oportunidade para qualquer músico. Muitos dariam tudo para receber uma carta dessas.
Sophie, ainda com o sorriso no rosto, respirou fundo e apertou os lábios.
— Eles até me ligaram, sabe? — disse. — Falaram que eles gostariam muito de me ter por lá, por que além de inteligente eu tenho uma espécie de talento natural, e é por isso que eles procuram. E como já estudei lá... me deram uma bolsa. Tá escrito aí — ela apontou para o papel. — Mas eu não posso ir.
Brendon ainda não entendia, mas de repente o sorriso da garota lhe fez sentido em sua mente.
Deixou-se sorrir também.
— Luke — disse, enfim. — É por causa dele, certo?
Sophie olhou para baixo por uns instantes, afastando seus olhos dos do padrinho.
— Eu o amo demais — ela disse, deixando uma risada mínima sair logo depois. Olhou para Brendon. — Estava pensando em entrar para a Juilliard, em Nova York. É a melhor escola do país, se eu me esforçar muito... muito mesmo... talvez eu consiga, sabe? E aí nós moraríamos juntos lá.
— Juilliard? — Brendon abriu um sorriso. — É uma das melhores do mundo.
— Sim — ela concordou. — Se eu me esforçar bastante, e estudar bastante, eu posso fazer as audições alguns meses depois que me formar no ensino médio. A concorrência é enorme e o nível elevadíssimo, mas... talvez...
Brendon riu.
— Amor, eu já vi você tocando — ele disse, fazendo-a sorrir. — Não tem “talvez”. Você é a melhor pianista que eu já vi desde que tinha sete anos de idade, é como se fosse um dom que vem de você desde sempre.
Ela fez que não com a cabeça.
— Sem exagero, né, padrinho...
— Não é exagero — Brendon disse, ainda com um sorriso no rosto. — Por isso eu quis que você se empenhasse. Você é maravilhosa, Soph. — Ele mexeu de leve em sua franja, fazendo-a balançar a cabeça, já corada. — Espera um pouco? Eu tenho que fazer uma ligação.
Sophie apertou os lábios.
— Sim, eu sou vou levar o violão para...
— Não, espere aqui. Não saia. Volto já — ele disse, fazendo um gesto com a mão, e ela franziu o cenho. Concordou, sem muitas opções.
Recostou-se na escada e pousou o corpo do violão nos pés, segurando-o pela mão. Seu padrinho conseguia ser bem esquisito, às vezes. Mas ela não podia deixar de sorrir quando ele abria a boca para elogiá-la. Não só ele, mas todas as pessoas que o faziam. Quando estudava na Inglaterra, costumava deixar seus professores admirados com o seu talento, fizera muitas apresentações com os colegas, sempre se dedicara inteiramente à música. Por isso, talvez por isso, eles a quisessem tanto por lá.
Mas para a Juilliard ela era apenas uma de muitos pianistas que brigavam por uma vaga. Sabia que tocava bem, mas sabia também que muitas pessoas tocavam tão bem, ou melhor, que ela. Na LL ela tinha uma vantagem: era de casa. Brendon a colocara lá dentro ainda criança, e pelo seu tamanho, talvez, ela impressionasse tanto. Mas agora não. Sophie já era quase uma mulher, e tinha de brigar para conseguir o que queria.
Ainda esperou mais alguns longos minutos até Brendon reaparecer, brincando com o celular nos dedos. Sorria verdadeiramente.
— Certo — ele disse, aproximando-se. — Diga que me ama.
Sophie riu.
— Como é?
— Diga que me ama — ele repetiu, rindo também.
— Eu te amo — ela disse, erguendo os ombros, confusa. — Agora me explique o que está acontecendo.
— Eu tenho um amigo — ele guardou o celular no bolso e juntou as mãos. — Ele é um amigo antigo, estudou música comigo na Califórnia. Você sabe que eu conheci o Ryan em uma escola de música, certo?
— Eu sei, tio, continue — ela disse.
— Certo — ele riu novamente e Sophie fez que não com a cabeça. — Ele era bem melhor músico que eu, mesmo que eu tocasse mais instrumentos que ele. Eu ensinei acordeão a ele, mas ele é simplesmente o maior violonista que eu já conheci. Enfim — ele fez uma pausa para respirar de tão rápido que falava —, ele agora dá aulas na Juilliard e faz parte da equipe de auditores.
— Ai, meu Deus... — Sophie riu, olhando para cima, já tendo uma ideia do que seu padrinho iria dizer.
Brendon riu mais uma vez.
— Liguei para ele e expliquei tudo sobre você, sobre sua vontade de estudar em Nova York, sobre seu talento natural, sobre tudo. Dei realmente sua ficha. — Ele foi explicando, enquanto Sophie estava com uma mão no rosto. A outra ainda segurava a mão do violão. — Ele me disse que a auditoria para a Juilliard é muito complicada e severa, mas como ele confia em mim e você já estudou na LL, ele pode me fazer esse favor e arranjar uma audição especialmente para você. Ele vai ter que tirar o seu histórico escolar e lá da LL, por questões burocráticas, mas se a auditoria gostar de você e você for bem na prova escrita, entra na Juilliard assim que terminar o ensino médio. Agora diga que me ama outra vez.
Sophie deu um grito agudo, e mesmo segurando o violão, deu um abraço de urso no padrinho.
— Ai, tio, você é o melhor! — ela gritou mais uma vez, beijando seu rosto, fazendo-o rir. — Te amo, te amo, te amo!
— Eu também te amo, little Soph — ele disse, separando-se dela. — Agora trate de estudar e faça bonito na audição, ok?
— Eu prometo! — ela gritou, mais uma vez, extasiada.
— Ei! — eles escutaram uma voz e se viraram, vendo Nate e Luke se aproximarem. Sophie aumentou ainda mais o seu sorriso, ao contrário do irmão, que parecia bravo. — Você foi fabricar o violão, é? Estamos esperando há duas horas!
— Deixa de ser exagerado — Sophie revirou os olhos e entregou o Gibson ao irmão, que saiu bufando. Luke, atrás dele, já estava com um sorriso enorme no rosto. Ela jogou seus braços para cima e o abraçou, sentindo o seu cheiro mais forte e viciante do que nunca. Deu-lhe um selinho rápido e separou-se dele, pegando sua mão. — Eu tenho boas notícias — disse.
— Tem? — Luke sorriu.
— Sim. O padrinho... — ela começou a falar, mas Brendon interrompeu-a:
— Adivinha quem vai entrar na Juilliard assim que sair do ensino médio sem enfrentar concorrência? — ele disse, estragando completamente o monólogo de Sophie. Ela revirou os olhos, rindo, e Luke abriu a boca, dando uma risada de pura surpresa.
— O quê? Sério? — ele perguntou para Sophie, e ela fez que não com a cabeça, rindo.
— Não assim, né, tio, por favor! — ela disse para Brendon que riu. — Tio Brend tem um amigo na Juilliard e ele concordou em fazer uma audição comigo antes de eu terminar o terceiro ano. Assim, quando eu terminar, eu já vou direto para Nova York.
— O que vai diminuir bastante o nosso tempo separado um do outro — Luke completou, rindo. — Caso eu passe, é claro.
— Mas claro que você vai passar — Sophie deu um pequeno tapa em seu ombro, abraçando sua cintura logo depois.
— Olha — Brendon disse, com o mesmo sorriso no rosto —, eu enchi bastante a bola dela para o meu amigo, então, você vai ter que realmente se esforçar, hein, mocinha?
— Pode deixar — ela disse, com um sorriso enorme no rosto.
— Quando vai ser a audição? — Luke perguntou.
— Fiquei de ligar para marcar — Brendon disse, aliviando seu sorriso, e instalou-se um silêncio por ali.
Sophie umedeceu os lábios, pensando, e sorriu.
— Poderia ser daqui a seis meses, tio? — ela perguntou. — Luke vai se mudar para lá nesse tempo, mais ou menos, quando entrar para alguma faculdade.
— Se eu passar...
— Deixa de ser bobo, você vai — ela revirou os olhos e Luke riu. — Bem, se puder ser na mesma época, nós poderíamos ir juntos, até mesmo por que Dan e Marie também vão.
Brendon fez que sim com a cabeça.
— É, pode ser — ele disse, com um sorriso no rosto. — Vou ligar pra marcar.
— Papai! — Brendon ainda sorria para os adolescentes quando viu o garotinho de apenas quatro anos de idade correndo para ele. Jogou os braços para cima, e Brendon ergueu-o, pegando-o no colo. — O Joseph não quer me deixar ver os livros dele!
— Não quer? — ele perguntou a Adam, que fez que sim com a cabeça, parecendo indignado. — Vamos conversar com ele.
Sophie riu, vendo o padrinho se afastar com o pequeno filho nos braços. Como se isso fosse fazer Joe deixar que qualquer tipo de ser tocasse seus preciosos livros.
Virou-se para Luke, enfiando os dedos nos seus cabelos naturalmente ridículos e ficando na ponta dos pés para alcançar seus lábios.
Ele sorriu, apertando sua cintura, e aprofundando o beijo calmamente. Não fazia vinte e quatro horas que ele estivera com ela, mas ainda assim, não sabia como conseguira ficar tanto tempo sem aqueles lábios. O arrepio passava pelo seu corpo, e ele sabia que esse arrepio ele só sentiria com ela. Apenas ela tinha esse poder incrível sobre ele.
O que ele não sabia era que o poder que ele exercia nela conseguia ser ainda maior. A cada toque, a cada movimento de seus lábios, mais extasiada ela ficava. Sentia a corrente elétrica passar livremente pelo seu corpo, os pelos se arrepiarem, o coração passar a bater com o triplo da força necessária. Sentia uma vontade enorme de aprofundar cada vez mais o beijo, ou apenas não precisar respirar, para que ele pudesse durar toda a eternidade. Por que era esse o tempo que ela queria passar ao lado de Luke.
Lentamente, as mãos dele que estavam em sua cintura subiram para o seu rosto, segurando-o carinhosamente enquanto eles separavam seus lábios devagar. Ele sorriu e, consequentemente, ela também.
— Também tenho uma novidade — ele sussurrou, com a testa colada na dela, segurando seu rosto.
— Tem, é? — ela perguntou sorrindo, com a voz rouca.
— Aham — ele reforçou. — Uma pessoa importante viu nossa apresentação no baile há algumas semanas.
— Importante, hum... — ele disse, provocando-o. Luke sorriu, sem desgrudar suas testas.
— O que acha de tocar com a banda toda sexta-feira numa casa noturna? — ele perguntou e Sophie se separou dele por um segundo, encarando-o, confusa.
— Como é que é? — ela arqueou uma sobrancelha, fazendo seu namorado dar uma risada.
Aquela expressão confusa sempre o fazia rir.
— Vai abrir uma casa noturna aqui. Uma nova, entende? — ele perguntou, mas não esperou uma resposta. — O dono vai fazer com que as sextas-feiras sejam tipo... um dia especial para que as bandas de rock toquem suas músicas originais e alguns covers. Eu tinha visto alguns folhetos sobre as noites de rock na loja de música.
— E você tá dizendo que nós...
— Nós fomos convidados a tocar nessas “sextas-feiras do rock” — ele completou, fazendo-a rir e levar as mãos à boca. — Fiquei de combinar tudo com o proprietário depois, por que tinha que conversar com todo mundo. Nate e Dan já sabem e eles ficaram mais do que felizes, mesmo que o Nate vá para o colégio militar.
— Mas isso é incrível! — Sophie gritou, rindo. Luke riu também. — Quer dizer... tocar para um monte de pessoas que vão lá para nos ouvir, isso é... incrível!
— Você já disse — ele ressaltou, rindo tanto quanto ela. — Acho que você está de acordo, então?
— Luke, fala sério! Eu quase morri de nervosismo no baile, imagine tocar para pessoas que a gente não conhece?! — ela segurou seus ombros. — Isso vai ser...
— Incrível? — ele perguntou, fazendo-a rir e passar os braços pelo seu pescoço.
— É — ela disse, aproximando seus rostos. — Incrível.
Sorrindo, ele segurou sua cintura novamente, juntando seus lábios em mais um beijo calmo. Como sempre, o simples contato de seus lábios e sua língua fez com que ele sentisse todas as suas emoções e sensações virem à tona. Era apenas tão perfeito sentir os lábios dela colados nos seus, o corpo dela tão perto, o seu cheiro tão forte... era apenas perfeito senti-la em qualquer jeito ou aspecto. Era perfeito estar com ela, não por que ela era perfeita, ou ele era perfeito, por que eles não eram. Era perfeito por que eles estavam juntos.
Mais perfeito, é claro, seria se o celular de Sophie não tocasse no meio do beijo que os dois compartilhavam.
Ela deu um pulo com a vibração do telefone no bolso e separou-se do namorado para atender o celular. Luke bufou e passou a mão pela nuca, dando mais uma bagunçada básica no cabelo.
— Alô? — Sophie atendeu e depois pigarreou. Sua voz estava rouca pelos beijos de Luke.
— ADEUS ANO VELHO, FELIZ ANO NOVO, QUE TUDO SE REALIZE, NO ANO QUE VAI NASCER...
Sophie gargalhou.
— Juzy, aqui ainda são sete da noite — ela disse, passando a mão pelo cabelo e encarando o relógio de parede. — Sete e um.
— Ai, por favor, que estraga prazeres, você — Sophie gargalhou ao escutar a voz da amiga. Soube que ela havia revirado os olhos. — Bem, para mim, é um belo novo ano. Beijo aí.
— Também será para mim daqui a cinco horas, então, por favor — Sophie disse e deu uma risadinha, ao sentir os lábios de Luke tocarem o seu pescoço. Deu um tapa em seu ombro, desviando-se, e sussurrou: — Para!
Luke riu.
— Tá, claro. Mas me diga aí, como está comemorando a ida desse ano? — Sophie mal escutou as palavras da amiga, por que agora, Luke fazia uma espécie de careta triste por ter sido deixado de lado.
— Tá todo mundo aqui na minha casa fazendo bagunça — ela explicou, rindo de Luke. — E você? Como comemorou a ida do ano?
— Bem, a escola fez uma festa ridícula, então não teve nenhuma Social, mas os moleques levaram bebida. Susan está em coma aqui na cama ao lado. Tentei acordar ela para dar feliz ano novo, mas a menina tá apagadíssima. Então liguei pra você. — Sophie riu.
— Que bom que sou sua primeira opção — ela disse, fazendo a amiga rir do outro lado da linha. — Aqui não tá tendo exatamente uma festa ainda. Alguns adultos estão cozinhando, com a exceção de Danna e Hector, que estão na sala do piano.
— E onde está você?
Sophie deu outro tapa em Luke que atacava com seus beijinhos mais uma vez.
— Na escada — ela explicou. — Quer dizer, eu estava com Luke em frente à escada. Ele chegou faz pouco tempo, então...
De repente, Luke pegou o telefone da mão de Sophie e colocou em sua própria orelha.
— Estávamos no meio do beijo mais apaixonado que você já ouviu falar. Obrigado de verdade, Julia — ele disse, fazendo a britânica rir.
— Conte sempre comigo, cunhado! — ela disse de volta e Luke devolveu o telefone para Sophie, rindo.
— Esse bobão — ela disse, referindo-se a Luke. — Deixa, Juzy, pode ligar quando quiser. Ele precisa sofrer um pouquinho.
Julia riu mais uma vez enquanto Luke levava uma mão ao peito, sibilando um “ai, essa doeu”.
— Eu gostaria de sempre saber quando vocês estão de agarração, que aí eu ligaria sempre — ela falou e Sophie riu mais uma vez. — Tá, brincadeira, diz pro Luke que eu pedi desculpa e que o amo.
Sophie sorriu e retirou o telefone da orelha por um segundo.
— Ela pediu desculpa e disse que te ama — ela falou para Luke, que revirou os olhos e deu uma risada. — Tá, ele te ama também.
Julia riu.
— Tá. — Ela disse, fazendo uma pequena pausa. — Então tá todo mundo aí?
— Aham — Sophie respondeu. — Sabe, Tia Katt, Tio Jeremy, Tio Nate, Tio Taylor, Tia Dakotah, Tio Brendon, Tia...
— Ok, ok, muitos tios — ela disse e Sophie gargalhou. — E a garotada?
— Dan, Marie e Luke estão aqui... Ah, tá a irmãzinha do Dan também. E, claro, eu, Joe e Nate. Só os amigos.
Julia fez mais uma pausa.
 E o Nate... tá bem? — ela disse, hesitando completamente.
Sophie revirou os olhos, respirando fundo.
— Que foi? — Luke perguntou, notando a mudança de expressão da namorada.
— Espera um pouquinho, Juzy, minha mãe acabou de me gritar. Já te respondo. — Ela disse para o telefone e escutou o “ah, ok” da amiga.
— Ninguém te gritou — Luke disse, franzindo o cenho.
Sophie tapou o telefone com a mão para que Julia não escutasse.
— É, mas eu já tô cansada dessa frescura desses dois — ela disse e bufou novamente. — NATE! CORRE AQUI!
Luke arqueou as sobrancelhas e abriu levemente a boca. Cinco segundos depois, Nate chegou correndo.
— Que foi? — ele perguntou, franzindo a testa.
— Telefone pra você — Sophie disse, indiferente.
Nate arqueou uma sobrancelha.
(N.A.: PLAY NO VÍDEO 2)
— Quem é?
— Sei lá! — ela retirou a mão do telefone e saiu de perto, segurando a mão de Luke.
Nate revirou os olhos e levou o celular ao ouvido.
— Alô?
Uma pausa.
— Alô? — ele perguntou novamente e pôde ouvir uma respiração hesitante.
— Nate?


Vamos, amor frágil, apenas aguente o ano. Derrame um pouco de sal, nós nunca estivemos aqui.
Meu, meu, meu, meu, meu, meu, meu, meu, meu, meu, meu...
Olhando para a pia de sangue e máscara quebrada. 



De repente foi como se ele tivesse perdido o chão onde pisava. Viu o mundo à sua frente girar bruscamente e se agarrou ao corrimão da escada para não cair — ou desmaiar. Todos os músculos do seu corpo se enrijeceram, e foi como o seu coração parasse de bater por um momento. Ele simplesmente não podia acreditar que havia escutado aquela voz. Será... que estava ficando louco? Será que era uma obra sem graça de sua imaginação? Será que era a saudade falando mais uma vez?
A sala a sua frente ainda não havia parado de rodar completamente quando ele, sem saber como encontrou sua voz, sussurrou:
— Julia? — ele soltou a respiração que ele nem notara que havia segurado. — Julia? É você mesmo?
Sua voz estava desigual e embargada, mostrando claramente que ele estava em um grande conflito interno de emoções. Ouviu, do outro lado da linha, uma respiração tão forte que dava para escutar perfeitamente.
— Nate — ele a ouviu dizer, parecendo tão emocionada quanto ele. — Sim, sim, sou eu, meu Deus! Eu... Sophie...
— Ela acabou de me dar o telefone sem falar nada, eu juro, eu não sabia — ele logo entendeu a situação e tratou de se explicar. — Eu...
— Tá tudo bem — ele a ouviu rir. — Eu... não fiz nada, de repente ela disse que a mãe dela tinha chamado ela e me pediu para esperar, e... eu... eu...
Nate riu.
— Ela tramou isso — disse, ainda rindo. E quase morreu quando ouviu a risada forte e contagiante dela do outro lado da linha.
— Tramou mesmo, aquela safada — ele ainda mantinha o sorriso no rosto, mas ainda parecia que o chão não estava mais debaixo dos seus pés. Era como se a excitação por falar com ela o fizesse flutuar. — Então... como você está?



Eu digo ao meu amor para destruir tudo. Corte todas as cordas e deixe-me cair.
Meu, meu, meu, meu, meu, meu, meu, meu, meu, meu, meu...
Bem no momento dessa exigência exagerada.



Nate sorriu, umedecendo os lábios. Seu coração, que parecia ter parado há poucos momentos, agora parecia que iria sair de seu peito de tão rápido que batia.
— Estou bem! — respondeu até meio rápido demais, sem deixar de rir, completamente abobalhado. — Fui aceito no colégio militar, sabia? Vou para Louisville na segunda semana de janeiro.
— Sério? Nossa, Nate, isso é incrível! Você sempre quis ir, e, nossa, que legal! — ela ia dizendo, atropelando as palavras, falando tudo rápido demais, nervosa e emocionada ao mesmo tempo. Nate podia sentir a emoção na voz dela com tanta naturalidade que lhe dava vontade de chorar. Quase podia imaginá-la. Sentada em uma cama desarrumada por cima das pernas numa posição de Ioga, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha enquanto segurava o celular com força contra o ouvido. Linda, como era. Tão linda e tão dele.
E tão longe, agora.
— É, eu sei, é incrível mesmo. Vou ter aula integral, sabe? Estudei demais com a ajuda do meu pai, tipo, tô dentro agora. Foi bem... sei lá, difícil, mas foi legal. Vai ser legal. — Ele disse, fechando os olhos para sentir sua risada contagiante como se estivesse ao seu lado. — E você, Julia? Como você está?
Sua risada se aliviou.
— Eu estou bem — ela disse de repente. — As pessoas aqui são bem legais, e têm umas festas clandestinas maneiras.
Nate riu.
— Que bom, que bom que você está gostando daí — ele disse, rápido demais outra vez. — Tipo, pior seria se as pessoas não fossem legais com você. Aí eu teria que ir aí dar uma lição nelas.
Julia riu.
— Eu não iria reclamar — ela disse, escutando sua própria risada e a risada dele.
Nate fez uma pausa, respirando fundo, fechando os olhos com força.
— Eu sinto sua falta, Juzy.



E eu te disse para ser paciente, e eu te disse para ficar bem. E eu te disse para ser ponderado, e eu te disse para ser gentil. De manhã, eu estarei com você, mas será de um "jeito" diferente.
Pois eu segurarei todos os tickets, e você assumirá todas as dividas.



Uma pausa se deu depois que Nate disse o que sentiu e sentia, mais do que avassaladoramente, durante todos aqueles meses que passara sem ela. Droga! Maldita seja a saudade! Maldita seja a distância!
Ele mal estava aguentando. Doía tanto ficar sem ela. Doía tanto olhar para as suas fotos juntos, e se lembrar de cada toque, cada momento, cada brincadeira, cada declaração. Doía tantoquando os malditos flashes passavam em sua cabeça, e ele pedia, implorava a Deus para tê-la de volta.
Aquela saudade, aquela maldita saudade... doía. Machucava. Maltratava. De uma forma inimaginavelmente péssima.
— Eu sinto sua falta mais do que tudo no mundo, Nate — Julia disse, quebrando o silêncio e interrompendo seus pensamentos. Nate podia ouvir sua respiração desregulada, que ela tentava a todo custo controlar. Soube também que lágrimas estavam rolando pelo seu rosto agora.
Sentiu o peito apertar.
— Não esqueça... — ele respirou fundo, procurando controlar o nó que se fazia gradativamente em sua garganta. — Não esqueça, Julia, do que há entre a gente.
— Nunca — ela falou baixo, com a voz já embargada. Nate a ouviu fungar. — Nosso amor é como a tatuagem que está no seu braço agora, Nate, no mesmo lugar em que está a minha. Eu nunca vou me esquecer, por que faz parte de mim. Você sabe que não está só na minha pele, você está dentro de mim.
— Eu te amo — Nate sussurrou, fechando os olhos, deixando com que a lágrima caísse. — Para sempre.
— Eu te amo para sempre — ele ouviu ela dizer imediatamente e mordeu o lábio inferior. — E eu vou voltar pra você, eu prometo. Eu sou... sua, Nate. Eu vou voltar. Eu juro que vou voltar.
— Eu vou estar esperando — ele disse, com a respiração acelerada, o nó formado na garganta.



Vamos, amor frágil, o que aconteceu aqui? Alimente-se com a esperança do seu peito!
Meu, meu, meu, meu, meu, meu, meu, meu, meu, meu, meu...
A carga intratável está cheia; então diminua a rachadura.

E eu te disse para ser paciente, e eu te disse para ficar bem. E eu te disse para ser ponderado, e eu te disse para ser gentil.



Duas lágrimas já haviam rolado por sua face, quando ele escutou-a fungar novamente. Droga. Não tinha nada pior do que escutá-la chorando e não estar lá para secar suas lágrimas, abraçá-la, deixar que ela dissesse o que o incomodava enquanto apertava seu ombro, entregando-se as suas emoções. Por que ela sempre fora assim, mesmo que não assumisse. Julia sentia muito, intensamente. Era essa uma das coisas que ele realmente amava nela.
Mas agora ele não poderia secar suas lágrimas. Agora, ele não poderia abraçá-la, beijar sua testa, apertá-la, dizer que tudo ficaria bem. Por que agora ela estava chorando justamente por isso. Por que ele não estava lá.
— Nate, eu... — ela começou a falar, soluçando. Fez uma pausa, tentando se controlar. — Eu... droga. Preciso desligar. — Ela terminou de falar e Nate fechou os olhos sentidamente, sentindo mais duas lágrimas rolarem pelo seu rosto. Respirou fundo, sentindo o coração sangrar. — Eu te amo, por favor, se lembre disso. Eu te amo mais do que tudo, e sempre vou amar. Sempre, Nate, sempre.
— Eu também, Juzy — ele disse para o celular, tentando não transparecer seu choro. — Deus! Eu te amo demais. Eu... te amo mais do que a mim mesmo. Nunca se esqueça disso. Mesmo longe, é você que eu amo, é você que me ilumina. Eu vou estar te esperando quando você voltar.
A voz de Nate, mesmo que estivesse embargada, era sentida e cheia de convicção. Julia sentira isso, assim como ele.
 Eu vou voltar pra você — ela ressaltou, com a voz pouco mais calma. Nate sabia que ela ainda chorava, mas agora, se controlava para parecer forte como ele, mesmo que ela soubesse que ele também chorava e não se aguentara mais. Era como um instinto próprio. Ela tinha de ser forte para aguentar todo esse sofrimento, e tinha de passar para ele essa força que ela sabia que existia dentro dela. Afinal, era essa força que estava fazendo com que ela seguisse em frente. E essa força, que agora fazia com que ela cessasse seu choro, faria com que ela aguentasse os próximos anos e voltasse para os braços do único homem que um dia amara, e amará. — Fique bem, ok?
Nate sorriu, secando as lágrimas, mas algumas teimosas ainda insistiam em cair.
— Só se você me prometer que estará bem também — ele disse, arrancando dela uma risada sentida e chorosa. Mesmo que isso não fizesse o menor sentido.
— Eu prometo — ela disse, fazendo uma pequena pausa. Respirou fundo. — Preciso ir, Nate. Até mais.
Nate deu a mesma risada que ela havia proferido anteriormente. Lembrou-se, como um dejá vú, de quando ele a viu pela última vez, e com ela combinou de nunca dizer adeus.
Era apenas uma situação temporária.
— Até mais, minha Juzy — ele disse, e a última coisa que ele ouviu antes do toque irritante do telefone sendo desligado foi a sua risada.
A risada tão perfeita pela qual ele havia se apaixonado perdidamente.
Nate retirou o telefone do ouvido e ficou encarando-o, enquanto apertava o botão desligar a chamada. Secou os olhos com apenas uma mão, refletindo a última conversa que tivera com ela, repassando cada frase na mente e deixando-se chorar e rir ao mesmo tempo.
Sentou-se na escada, suspirando, ainda passando as mãos pelos olhos enquanto ainda escutava a voz dela, a doce e perfeita voz dela, ecoar em seu pensamento. A risada dela. O choro dela.O “eu te amo” dela. Nate sabia que eles haviam feito um acordo, e que a partir de agora, esse acordo teria de ser seguido a fio, ainda mais por que Nate se mudaria em menos de duas semanas. Mas ele sentiu em seu interior que escutar sua voz e declarar-se para ela mais uma vez fora o melhor presente que pudera receber.
Levantou-se, quando achou que já estava recuperado, seguindo para a sala do piano. Avistou Sophie e Luke em um sofá, rindo por conta de alguma coisa. Quando Sophie o viu, deu o sorriso mais maroto que ele já havia visto.
— Seu celular — ele disse, entregando o aparelho para a irmã. Ela riu e abriu a boca para falar alguma coisa, mas Nate interrompeu. — Olha, eu te odeio, ok? — ele disse, com a expressão dura, mas depois aliviou-a. — Mas obrigado. Mesmo.
Sophie deu um sorriso sincero, apertando a mão do namorado.
— Por nada — respondeu, ainda sorrindo.
Nate sorriu e saiu daquela sala, com o pensamento ainda direcionado a única garota que ele amara naquele ano que já estava indo, e que ele sabia, também seria a única garota que ele amaria por todos os anos seguintes de sua vida.



Vamos, amor frágil...
Meu, meu, meu, meu, meu, meu, meu, meu, meu, meu, meu...
Meu, meu, meu, meu, meu, meu, meu, meu, meu, meu, meu...

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