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18 de nov. de 2013

Por onde andei?

 



Há coisas que a mente avista, entende, registra e comanda, tal como existem outras que ela simplesmente deixa passar.  Renato ouvia música e cantava alto, muito alto, sem se importar com o trânsito relativamente fraco na BR 020. Ele calculou uns quinze minutos para que chegasse em casa e contasse a novidade à sua mãe. Escutava a mesma música há quase trinta. E enquanto pensava em tudo isso e na canção que o preenchia, sobrava em sua mente algum espaço que se dedicava a acelerar, frear, pisar na embreagem, dar a seta, mudar a marcha, girar o volante, olhar para frente, olhar para trás pelo retrovisor, ligar os para-brisas para espantar os insetos, aumentar o volume do aparelho de som.

A mente é só uma, e mesmo assim Renato designava a si mesmo tantas tarefas que quando fazia a curva que dava acesso à pista de entrada para Planaltina, bum!, bateu. O cinto de segurança machucou seu peito, mas a dor nem se comparava ao susto e a força com que pisou no freio. Desfivelou o cinto e saiu. Estava inteiro. Céus. A lateral direita não estava. Já era. Merda. O carro não tinha seguro. Comprou o ágio do primo que não conseguira pagar as prestações. Agora, além dos setecentos reais por mês, tinha de pagar um mecânico também. Já podia esquecer o happy hour da noite de hoje.

— Porra, cara! — Renato se virou, quase se esquecendo do outro carro em que batera. Tecnicamente, a culpa fora sua, porque fizera a curva sem passar pelo acostamento e nem perceber que havia um Eco Sport vermelho vindo a pelo menos 80 quilômetros por hora. A garota estava com raiva, mas Renato decidiu que não iria brigar. Já dizia seu pai que nunca se deve brigar no trânsito. É a decisão mais idiota que alguém pode tomar. Mesmo com uma mulher. — Olha só o que você fez! Acabou com o meu para-choque! Meu farol! Porra! Você ficou cego ou o quê?

Dava para ver que o airbag dela tinha aberto. Que bom, ao menos ela não se machucara. Passou pela mente de Renato que, se seu Celta fosse um carro inglês, ele provavelmente teria quebrado a perna e algumas costelas. Percebeu que era um pensamento idiota e sequer deixou-se sorrir por ele.

— Eu pago, relaxa! — disse ele, sabendo que agora era que estava fodido mesmo. Mais uma dívida para a coleção. — Foi mal mesmo!

— Foi péssimo, né, colega — ela balançou os óculos de sol em sua mão esquerda e tentou colocar no rosto, até perceber que uma das pernas da armação havia quebrado. — Ah, merda.

— Estava olhando para o caminhão do o outro lado, não vi você chegar... — ele suspirou. — A gente pode ir no mecânico agora, ou você pode ir até lá e depois me passar a conta... te dou meu celular, e...

— Não — ela o interrompeu. Renato franziu as sobrancelhas, surpreso. As expressões do rosto dela haviam suavizado praticamente do nada. Ela fechou o óculos quebrado na mão e suspirou, indo até o seu carro e ligando  o pisca-alerta. — O seguro cobre acidentes.

O alívio que ele sentiu foi tão grande que não pôde deixar de sorrir e murmurar um “graças a Deus”. Nem imaginava como faria para pagar o conserto do carro da mulher. Já podia até pensar nela levando seu carro até o mecânico mais caro da cidade e pedindo para que ele não maneirasse no preço, afinal, “aquele idiota tinha que aprender uma lição”.

Renato amaldiçoava sua própria imaginação, às vezes.

— Nossa, tu tá quebrado assim? — ela agora estava rindo audivelmente da cara dele.  Sorrindo, Renato assentiu com a cabeça, sem negar sua triste situação financeira. Não devia estar tão na cara assim que ele comprara o ágio de seu primo e agora ralava para cumprir todas as prestações. — Relaxa, muito dinheiro é dado pra essa companhia de seguros. O mínimo que ela pode fazer é cobrir os nossos carros. Desculpa gritar contigo, ok? Não quis te chamar de cego... nem de porra, nem de nada. É que o dia tá sendo bem doido.

— Pera, nossos carros?

— É, ué. A não ser que você queira pagar esse conserto aí. Você sabe que um martelinho de ouro não vai salvar sua lanterna, não sabe?

Uma garota que sabia o que era um martelinho de ouro?, pensou Renato.

— É, sei — e riu, sem saber bem como se portar. — Obrigado, então. ‘Brigado mesmo.

— Só esquece que eu te xinguei e estamos quites. Me ajuda a empurrar o carro pro acostamento enquanto eu chamo o guincho?

Acabou que Renato empurrou sozinho o Eco Sport para o acostamento, desfazendo o pequeno congestionamento atrás dos dois. Não que houvesse muita gente entrando em Planaltina agora. O horário de pico mesmo era quando as pessoas saíam dos empregos e voltavam para suas casas, o que aconteceria dali a mais ou menos meia hora. O horário de verão fazia com que o dia estivesse mais claro do que deveria estar às cinco da tarde, e o rapaz sentia o suor na nuca enquanto observava a mulher que batera no seu carro tentar consertar o óculos de sol para proteger os olhos castanhos dos raios ultravioleta.

Não funcionou e ela acabou jogando o que sobrou na grama.

— Só paguei vinte reais nessa bosta, mesmo. Feira dos importados. Meu irmão bem me disse que era dinheiro jogado fora, mas eu tava zerada, na época.

— Se não tivesse zerada tinha comprado um RayBan de novecentos reais? Duvido muito — ele girou a chave do carro na mão e se sentou no meio-fio. Seu carro batido piscava a poucos metros de distância dele. O dela também.

— Não sou do tipo que gasta mais de cem reais em um óculos. Meus irmãos que têm essa mania. Eu, sinceramente, posso encontrar formas muito mais criativas de gastar novecentos reais — agora ela estava sentada ao lado dele e brincava com o cabelo acobreado. A cor mais bonita tratando-se de cabelos, na opinião de Renato, que interessara-se por Luísa primeiramente por causa disso. Afastou a ideia, balançando a cabeça para um lado e outro, desejando uma lata de cerveja para extravasar a mente.

— Eu pagaria umas contas — ele disse, sorrindo.

— Bleh — a garota ao seu lado fez que vomitava, deixando-o rir.  — Eu falei sobre ser criativo, não sobre ser responsável.

— Eu poderia ser criativo — disse Renato, defendendo-se. — Só que depois eu ia ficar me sentindo muito mal, do tipo, “droga, gastei esse dinheiro no boteco quando podia ter pagado a academia e a prestação do carro”, sabe?

Ela riu.

— Sei —disse, mordendo um dos lábios. — De qualquer forma, eu falei sobre ser criativo e você falou sobre boteco. Isso já diz muito sobre você. Aliás, qual é o seu nome?

Renato sorriu.

— Isso não diz nada sobre mim, eu nem sou chegado a bares, só pra começar — disse. — É Renato. E o seu?

— Bárbara.

— Nome bonito.

— Obrigada — Bárbara olhou diretamente para o sol e tapou sua luminosidade com a mão. Renato percebeu que ela só estava vendo se o caminhão no fim da pista era do guincho, mas isso seria impossível. — Mas eu falo sério, Renato. Dá pra fazer muita coisa divertida e criativa com esse dinheiro.

Ele riu.

— Tipo...?

— Sei lá — ela deu de ombros. — Comprar um violão. Ir para o interior por um fim de semana. Pagar um show de um artista desconhecido. Comprar uma bicicleta e ir para o trabalho com ela. Pagar uma rodada de boliche para os amigos. Ou levar a sobrinha ao Nicolândia. Sei lá.

Renato não conteve sua gargalhada.

— Você é bem criativa — disse, sabendo que não era verdade. — Mas todas essas coisas não passam de duzentos reais, sabe. E, além disso, eu já tenho um violão e uma bicicleta.

Bárbara sorriu.

— Violinos e patinetes existem para quê?

— Você é maluca.

— Tá, só não diz isso para o cara da seguradora.

Renato assentiu com a cabeça e assistiu aos carros passarem por ele, em direção à cidade, sem se importar de estar praticamente gargalhando com a moça que batera no seu carro.  Bárbara havia dito que o dia estava meio doido. E como estava.

— Bati em você porque estava muito feliz — soltou ele do nada, porque sentiu vontade de contar a ela o que estava querendo contar a todos.

— Isso com certeza anula todos os estragos.

— Minha filha nasceu duas horas atrás.

Isso fez com que Bárbara literalmente calasse a boca. Olhou diretamente nos olhos de Renato, com uma genuína admiração e euforia que o deixou muito feliz. Era exatamente essa a expressão que esperava das pessoas. Muito diferente de quando ele contou a todos que Luísa estava grávida.

É engraçado. Na época, todos o olhavam como se ele fosse o maior irresponsável, mas depois que sua filha nascera, a euforia tomava de conta. O milagre da vida muda as pessoas, Renato refletiu.

— Puta que pariu, Renato, parabéns! — Bárbara disse depois e abraçou-o de uma forma tão verdadeira que quase fez com que Renato chorasse de novo. Já havia chorado hoje. Sua filha era mesmo muito, muito pequena, e muito parecida com as outras crianças do berçário, mas era sua filha, e ele percebeu que a amava quando colocou-a no colo. Foi o momento mais emocionante e apavorante de sua vida.

— Obrigado — disse ele.

— Você assistiu ao parto?

— Não, eu não pude. Uma regra idiota que inventaram nos hospitais públicos de Brasília. Não entendi. Levaria a Luísa até uma clínica se eu tivesse grana.

— Hospitais... — Bárbara deu um muxoxo de desprezo, o que fez com que ele risse outra vez. — Luísa é sua esposa?

— Ah, não. Ex-namorada.

— Puxa, sério? — Renato gostava da forma que Bárbara lidava com as situações. Sua surpresa parecia tão genuína. — Devo dizer que sinto muito? Bem, eu sinto muito, é claro. Não vai ser fácil criar sua filha sem viver na mesma casa que ela, eu acho? Sei lá, não tenho experiência com essas coisas.

— Tudo bem, eu e a Luísa somos amigos. E eu aluguei uma casa bem perto da casa dela. Digo, da mãe dela, porque ela não iria conseguir cuidar da primeira filha sozinha, né — Renato deu um sorriso fraco. Por mais que o término com Luísa não o afetasse mais, não conseguia deixar de ficar receoso e ao mesmo tempo animado ao pensar na filha e na sua nova vida. — E você? Casada?

Bárbara demorou certo tempo para assimilar a pergunta, até que deu uma espécie de pulo, meio surpresa.

— Ah, não! Noiva! — disse ela, muito rápido, mas então deu outro pulo. — Ex-noiva! Quer dizer, ex-noiva. Terminei meu noivado. Hoje.

— Puts, hoje?! — Renato surpreendeu-se.

— Pois é — Bárbara sorriu. O que era bastante esquisito tratando-se de uma mulher que rompera um noivado naquela mesma tarde. — Era o certo a se fazer. Tô me sentindo tão... livre.

— Tão livre que bateu na minha lateral.

— Ei, a culpa foi sua! — ela empurrou seu ombro.

— Eu sei, eu sei — Renato sorriu. — Só não quis perder a piada. — Isso foi antes de ele perceber que não perdera a piada, mas perdera o assunto. Quase um minuto de silêncio mais ou menos constrangedor se passara quando ele tentou retomar: — Então... por quê?

— Por que o quê? — Bárbara perguntou, olhando para ele como se houvesse sido retirada de um grande devaneio.

— Por que o noivado acabou?

— Ah! — ela deu um sorriso aberto, que era meio triste, meio relevador. — Hum... o Henrique era meio controlador. Meio... mente fechada. Desses caras, tipo, “dinheiro-trabalho-carros-mulheres-roupas-dinheiro” — ela engrossou a voz e fez aspas com os dedos. Renato deu uma gargalhada. — Aí teve um dia que eu acordei de manhã e pensei, “porra, eu vou casar com esse imbecil”.

— Meu Deus, como você o amava — Renato levou uma mão ao peito, fingindo estar emocionado.

— Ah, filho, éramos carne e unha, almas gêmeas, um só coração, metade de uma laranja, e coisa e tal.

— Ficaria mais verdadeiro se você tivesse cantado a música — sugeriu ele.

— Ainda me resta alguma vergonha na cara — rebateu ela pouco antes de ambos dividirem uma risada. Dividir uma risada era quase tão bom quanto dividir um chope, pensou Renato. Talvez até melhor. — Quatro anos.

— De noivado?

— É — Bárbara juntou seu cabelo e jogou por cima do ombro direito. — Tempo pra cacete, né?

— Tempo pra cacete.

— Eu tô tão aliviada que seria capaz de gritar — ela deu uma risada. — Ia pra Planaltina justamente para contar isso pra minha melhor amiga. Mas puts, olha eu aqui acabando com o brilho do seu dia. Falando um monte de idiotice e você deve estar com a cabeça lá no hospital, na sua garotinha.

— Mais precisamente no tanto de frauda que eu vou ter que comprar.

Bárbara riu.

— Qual vai ser o nome dela?

— Luísa quer Ana Julia, mas eu não sei não... — Renato encolheu os ombros.

— Ô, Anna Juliaaa... — Bárbara começou a cantar a canção que Renato reconheceu na mesma hora como a razão de não querer dar aquele nome à sua filha: Anna Julia, dos Los Hermanos. Sorriu porque Bárbara claramente não sabia cantar, mas não deixou de negar com a cabeça, repudiando o gesto dela.

— E a vergonha na cara que te restava, cadê? — perguntou.

— Ih, já era — Bárbara deu de ombros e virou-se para ele, sorrindo. Foi a primeira vez que Renato realmente olhou para o seu rosto e se assustou com o quanto gostou das suas imperfeições. A cicatriz na sobrancelha esquerda, a covinha no queixo e os dentes levemente separados. Seus olhos eram mais claros ao sol. Ainda bem que o óculos dela havia quebrado, pensou Renato. — Que estranho.

— O quê? — perguntou ele. Bárbara tinha essa mania de falar as coisas abruptamente, sem aviso nem dica. Era como Renato não conseguisse acompanhar seu ritmo.

Mas ela riu.  — Por um segundo eu fiquei com vontade de beijar você — ela falava como se aquela fosse a coisa mais casual do universo. — O que não é muito legal, porque tem quatro anos que eu não beijo ninguém que não o Henrique, e eu rompi com ele hoje. Tipo... isso não pode ser certo. Eu devia... dar um tempo de homens?

Renato sentiu seu rosto meio quente e tentou dissipar o rubor. Simplesmente nunca havia conhecido alguém tão maluco quanto Bárbara e surpreendeu a si mesmo querendo beijá-la de volta.

— Eu... sei lá, não acho que é errado — diga algo menos idiota, por favor. — Por mim tudo bem, na verdade. Assim, se você ainda estiver com vontade — merda.

É claro que isso fez com que Bárbara praticamente desmaiasse de tanto rir. Ela segurou seu braço e gargalhou com tanta vontade que Renato não pôde deixar de sorrir um bocado, só por vê-la. Ao contrário dele, Bárbara estava muito pálida quando conseguiu controlar a si mesma, e pressionava a barriga tentando impedir o nascimento uma nova crise.

— Des... desculpa! — ela riu mais um pouco. — Sério. Você tá vermelho, desculpa, eu não queria te envergonhar, é que isso foi... — ela tentou conter outro riso. — Desculpa.

— Deixa para lá — Renato encolheu os ombros, sem conseguir se sentir mais idiota.

— Ai, não fica assim, vai — ela olhou para ele, ainda risonha. Céus. Ele simplesmente não sabia como agir! — Prometo que se a gente voltar a se encontrar um dia, te beijo. Hoje não. Você sabe, é um dia meio maluco para se sair beijando caras que porventura foderam o para-choque do meu carro.

— Vai ficar jogando isso na minha cara?

— Para sempre, baby.

Renato riu. Mais uma vez, para variar.

— Já te falei que você é maluca?

— Já. E eu já te falei para não dizer isso para o cara da seguradora — ela deu de ombros novamente e olhou para o outro lado. Renato nem tinha percebido que o caminhão-guincho estava estacionando perto dos carros e amaldiçoou baixinho. Se estivesse sozinho, o caminhão certamente demoraria muito mais do que meros trinta minutos para chegar (principalmente porque o seguro era do carro de Bárbara, e não do dele).

Mas ele seguiu o conselho dela e não disse nada ao cara da seguradora. Bárbara havia murmurado “vamos brincar de teatrinho, e agora você é um motorista bravo dizendo que eu tenho que pagar o conserto do seu carro”, o que não funcionou de qualquer forma, porque Renato riu assim que ela terminou a frase. Precisou dos documentos para provar que era dono do carro. E, quando finalmente chegou a hora de se despedir dela, não hesitou em pedir seu telefone.

Bárbara estava lhe devendo um beijo, afinal.


___________
Nota: Nicolândia Center Park é o parque de diversões mais famoso de Brasília. Perdão pelos regionalismos!




20 de out. de 2013

[Think About It] Uma mensagem para a Sarah de 19 anos



Reprodução / We ♥ It



Oi, meus amores! Nem acreditam que eu vou começar um post supostamente informal aqui hoje, NÉ?
Nah, menos, Sarah. Bem menos.
Eu sei, vocês já olharam lá em cima, viram o nome do post, querem saber do que se trata tudo isso e o motivo de eu continuar falando tanto de ~mim~ por aqui. A verdade é que THIS IS MY BLOG, BITCHIES, SO I CAN TALK ABOUT ANYTHING I WANT mentira, nem posso, mas quero abrir uma exceção. Isso porque eu acabei de ter uma ideia legal, assim, do nada, e acho que deveria dividir com vocês porque vocês são boas pessoas que eu amo e considero. Eu sei também que estou devendo toneladas de posts referentes a QUALQUER COISA QUE NÃO SEJA UM PENSAMENTO BOBO DA MINHA CABEÇA OU UM TEXTO REFLEXIVO, mas vocês me conhecem e eu nunca cumpro minhas responsabilidades.
Brincadeirinha. Semana que vem adianto algo útil pra vocês. E vocês sempre podem contar com a maravilhosa equipe (con) para saber de coisas legais!
De qualquer forma, para poder agrupar esse tipo de post sem-noção-mas-com-noções-de-vida em uma categoria só, eu criei o "think about it", que é basicamente um lugar onde eu postarei algumas bobagens desse estilo. 
Agora, vamos falar rapidinho sobre o nome deste blog e como o "contexto" se aplica às nossas vidas. Para isso, responda a três perguntas super-hiper-mega-master-práticas:
1ª - Quantos anos você tem? (AND I KNOW THAT A LADY NEVER REVEALS HER AGE mas esqueça isso por um tempo)
2ª - Como é a sua vida hoje?
3ª - O que o "você" de três anos atrás te diria?
A sua perspectiva de qualquer-coisa muda quando você é inserido em diferentes contextos e sob novas experiências e ideias, sabe? Você é como um personagem não-onisciente, você tem um só ponto de vista e, para continuar vivendo, você meio que precisa mudar de acordo com o seu contexto - físico, motivacional, virtual, social, sei lá, vivencial em si - muda.
Isso pode estar ficando confuso.
Simplificando: você está em constante mudança, por mais que ache (e, às vezes, você acha) que vai SEMPRE continuar com os mesmos costumes, crenças e amores. Isso muda porque a vida te garante experiências e garante experiências para as pessoas que te rodeiam. 
O ponto é: você é capaz de registrar essa mudança? 
Claro que é. Você pode muito bem olhar para quem você era no ano passado e pensar algo tipo, "puxa, como eu era idiota", ou "puxa, eu era feliz e nem sabia", ou qualquer variação dessas frases, só que sem o "puxa" no início das frases, porque só eu falo isso. Não importa.
Vamos só questionar essa sua ideia mais uma vez.
Você é realmente capaz de registrar a mudança que acontece com você? A longo prazo?
Nah, eu acho que não. Porque, sabe, você pode lembrar que o seu "eu" de três anos atrás não precisava se preocupar com vestibular, e tinha uma paixão platônica por um dos Jonas Brothers, e costumava ser muito dramático. Mas você lembra de como o seu "eu" de três anos atrás gostava de pentear o cabelo? E qual era a sua camiseta favorita? E o que te fazia mais feliz? E quais eram as suas principais ambições? E o que o seu "eu" de três anos atrás diria para o seu "eu" de agora?
Existem mil outras perguntas que você pode fazer a você mesmo, porque, oras!, quem sabe da sua vida não sou eu. Eu estava tentando pensar como a Sarah de 13 anos e me dei conta de que ela provavelmente estaria orgulhosa de mim, hoje. Se fosse se comunicar comigo, daria pulinhos de alegria por eu ter conseguido escrever um livro. E terminar as OAV's. E ir ao show do Paramore! Ela ficaria satisfeita, eu acho, em ver que eu me sinto mais confortável no meu corpo do que ela se sentia no dela. Talvez ficasse um pouco chateada em saber que as amigas dela na época mal falam comigo hoje. E, bem, talvez torcesse os lábios quando eu lhe contasse que o Marcus, irmão dois anos mais novo, agora é dez centímetros mais alto. E me contaria da vida dela. De como ela estava ansiosa para o fim do ano, quando viajaria com a turma durante três dias, para a formatura. Do Guilherme e de como ela tinha se apaixonado por ele. De como a Ana Lívia era uma péssima companheira de quarto e do quanto ela mal pode esperar para ter um só pra ela. De uma fic nova que ela achava que era a melhor coisa que ela já havia escrito. De como ela mal podia esperar ir para o ensino médio. E de muitas outras coisas que eram a vida dela na época, mas que agora só me trazem nostalgia, e um pouco de "ainda-bem-que-isso-passou" (acredito que esse sentimento tenha um nome, mas você entendeu).
Pensando sobre isso, eu fiquei ponderando o que eu diria para a Sarah de 19 anos. Pensar sobre ela me deixa animada. Faculdade, carteira de habilitação, semi-independência? Melhores habilidades no violão? Ainda escreve? Ainda lê tanto quanto eu, agora, com 16? Tá gostando do seu curso? Você continuou com a decisão de fazer Letras, não é? E o inglês? Namorando alguém? Quem são os seus amigos? E quem não são mais? Em quem você votou esse ano?
Se eu pudesse falar com ela, perguntaria tudo isso, com um brilho nos olhos. Talvez ela não me responda satisfatoriamente nem metade dessas perguntas, devo dizer, tal como eu provavelmente não responderia muito bem algumas perguntas da Sarah de 13 anos. Mas, aí, eu contaria um pouco da minha vida pra ela, pra que ela se lembrasse de como era ser eu, aos 16. É, segundo ano do ensino médio, cara. Nenhum cursinho. No money for that. Nem fiz ENEM, também, mas acho que vou me arrepender disso depois. Namorando o Daniel. Sofia ainda é minha melhor amiga e irmã e todo o resto. Sem muitos amigos, mas muitos colegas. Tentando acreditar no certo e lutar por isso - o que envolve algumas causas feministas, anti-homofóbicas, anti-racistas, anti-opressivas, anti-bullys, e mais um monte de "anti's" sobre os quais tenho orgulho de falar, de vez em quando. Tentando ser mais gentil. Mais humana. E, ao mesmo tempo, tentando passar menos tempo no Facebook, e não procrastinar todos os deveres do colégio. Escrevendo o segundo livro, teoricamente mais maduro que o primeiro, que eu nem sei, honestamente, se vai ser lançado pra variar. Não que eu me importe. O que vale é a experiência. 
Experiência. No fim, é a experiência que faz valer a pena. Sabe, pensando melhor, se a Sarah de 19 anos aparecesse para mim, agora, eu não lhe perguntaria nada. Eu lhe daria um conselho:
Aproveita, por favor, as experiências que a vida te dá. E não para de escrever sobre isso (mesmo que indiretamente) e deixar você mesma saber do quanto você muda conforme os anos vão passando. É bom se re-essensificar. De vez em quando. Põe um sorriso no seu rosto. E deixa a Sarah de 22 anos saber quem foi a Sarah de 19.

Reprodução / We ♥ It


HOMEWORK FOR YOU, KIDS! Mentira, vocês só fazem se quiserem. A ideia é: escrever, realmente, uma mensagem para o seu "eu" de três anos pra frente. Escreva o que você quiser. Pergunte, fale, ora, a vida e a mensagem são suas. Depois, guarde. Ou poste no Tumblr ou no seu blog pessoal, ou no seu Facebook, ou em qualquer rede/meio social que você queira. Agende um dia no ano de 2016 para você ler essa mensagem. Que não seja ano novo ou o seu aniversário, porque essas datas já são essencialmente nostálgicas e não precisam de um toque extra; é mais legal que seja um dia comum, sem significado. Faça um compromisso consigo mesmo e não leia a mensagem escrita até o dia em questão. E, aí, em 2016, você lê sua própria carta pra você e tenta se lembrar do que já foram seus valores e suas experiências imaturas. Vocês vão ver o quanto é gostoso mudar; e melhor: o quanto é gostoso perceber essa mudança. 
Muito amor, viu?, sempre ♥



29 de set. de 2013

Sobre a visão romantizada do amor adolescente

Fonte: We ♥ It
Nada a ver com o post, só tô com uma puta vontade de rever Gossip Girl. Queen <3




Eu sou adolescente, ora essa, e já diziam os adultos: "tudo é maior quando se é adolescente". Isso significa que, o quê, afinal? Que, por ser adolescente, eu supostamente deveria enxergar as coisas e situações sob uma perspectiva mais ampla que os outros nascidos antes de mim? Que, para mim, as músicas são mais altas? Que os livros são maiores? Que o choro é mais triste? Que a risada é mais engraçada? O ódio é mais rancoroso? E o amor, mais aterrador?
Então, eu nunca fui adulta, de modo que não tenho como responder qualquer uma dessas questões em teor comparativo. Se eu sinto mais do que meus pais, por exemplo, não sei. Não obstante, se existe algo que eu posso apontar em mim mesma e em certas pessoas de mesma faixa etária que conheço, é a constante expectativa que eu - e você, provavelmente - tenho sobre tudo. Escola, trabalho, a vida, amizade, amor, tudinho. Morria de ansiedade para entrar no Ensino Médio, por exemplo, e entrei, para então decepcionar-me. Queria amigos verdadeiros, e os tive, perdendo-os meses após. Desenvolvo opiniões e penso sobre coisas para caramba, e então mudo de ideia, porque a noção do que tá acontecendo agora é uma: as coisas mudam, e o "daydream" pede demais, mais do que eu tenho, e do que vou ter.
Assim, pelo tanto que eu li e assisti, por tudo o que aconteceu sob os meus olhos, e com um dedinho de influência dessa expectativa ansiosa que ocasionalmente toma de conta de mim, eu aguardava, mesmo que não assumisse para ninguém, que um sentimento aterrador me preenchesse quando eu passasse a amar alguém, da forma que uma mulher ama um homem (ou do que um homem ama outro homem, ou uma mulher ama outra mulher, conjugalmente falando, vocês entenderam meu ponto de vista).  E aí, taí, que não faz tanto tempo que isso aconteceu pela primeira vez e, adivinha?, aquele sentimento maluco e quase psicótico que as músicas e filmes e livros e etc. pregam não apareceu.
É engraçado eu dizer isso a vocês, mas eu sinto muito, parte do que escrevi naquelas fanfics era a mais pura romantização de um sentimento que eu nunca havia sentido, uma clara tentativa de se fazer acreditar em um protótipo literário completamente surreal. Sabe, você não se cega, e sua vida não muda tanto. Você ainda tem que estudar, por exemplo, e atualizar o seu blog. Ainda precisa lavar a louça do jantar e cuidar do seu priminho. Você ainda lê Harry Potter e ainda divide cola na prova de física. A diferença que se dá na sua vida é bastante clara, entretanto. A felicidade passa a te acompanhar. A calma, também, acompanhada de alguns medos, talvez. Ah, você passa a trocar mais mensagens de texto do que costumava. O tempo fica mais lento. As noites mais curtas. Os suspiros mais demorados. Você tem alguém com quem reclamar dos professores mais terríveis do colégio. Alguém pra abraçar forte. E, bem, a ideia torna-se acostumável, e quando tu se dá por si, indispensável.
Não tem algo que diga exatamente o que acontece, com a exceção de, talvez, a música "Wake Me Up", do Ed Sheeran. Porque nós sabemos e entendemos que ninguém entende de sentimentos como ele.
Eu amo, mas nem sabia que estava amando, porque a ideia polida de amor que eu tinha era mais louca do que a que eu sinto. E a calma de um beijo somada a euforia de um bando de palavras bonitas não tem absolutamente nada a ver com a ideia de coisa-louca-que-vira-tua-cabeça-de-cabeça-para-baixo que eu escrevi meses atrás. Sem poder estar mais feliz, eu admito, que é bem melhor. Só que mesmo depois de escrever durante anos sobre isso, e ler tanto, e ouvir tanta música, é esquisito que eu me sinta caminhando sobre um terreno completamente novo.
(Isso era para ser uma opinião e tornou-se uma espécie de confessionário, palmas para mim que não sei escrever textos profissionais para um blog que amo.)
Uma dica de amiga? Esqueça tudo o que você já leu. Nada daquilo é real. A realidade é bem mais confusa e confortadora. Quando chegar para você, me avisa, me deixa ficar sabendo, eu vou gostar de saber se você também chegou à conclusão de que tinha uma visão bobamente superficial da ideia de amor.
A conclusão desse texto, praticamente inexistente, é simples: talvez, bem, tudo seja mesmo maior quando se é adolescente. E a consequência de que o "meu primeiro ~amor~" está sendo tão gradativo, calmo e gostoso, talvez me faça acreditar que eu estou crescendo. 


P.S.: Baseada na ideia de visão romantizada do amor, adivinha quem começou a escrever um novo livro? Gostaria de saber nos comentários o que vocês pensam sobre o assunto e como é/são o/s relacionamento/s de vocês. Quero saber se meus argumentos têm algum fundamento! Mesmo se você não comentar com frequência no blog, deixa tua história aqui, vou adorar conhecê-la. Se não quiser se expor nos comentários, manda pra blogcontextuando@gmail.com, e um dia eu faço um grande post expondo e comentando nossos amores-não-esteriotipados (caso você não queira se expor, só avisar, não divulgo nome nem nada) :3
P.S.S.: É a primeira vez que eu escrevo sobre meu namoro aqui e tô meio envergonhada. 
P.S.S.S.: Se você é o Daniel, amor, não fique paranoico por causa desse texto. É sério. Tu ainda me mudou pra melhor e adicionou cor ao meu preto e branco ♥