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18 de nov. de 2013

Por onde andei?

 



Há coisas que a mente avista, entende, registra e comanda, tal como existem outras que ela simplesmente deixa passar.  Renato ouvia música e cantava alto, muito alto, sem se importar com o trânsito relativamente fraco na BR 020. Ele calculou uns quinze minutos para que chegasse em casa e contasse a novidade à sua mãe. Escutava a mesma música há quase trinta. E enquanto pensava em tudo isso e na canção que o preenchia, sobrava em sua mente algum espaço que se dedicava a acelerar, frear, pisar na embreagem, dar a seta, mudar a marcha, girar o volante, olhar para frente, olhar para trás pelo retrovisor, ligar os para-brisas para espantar os insetos, aumentar o volume do aparelho de som.

A mente é só uma, e mesmo assim Renato designava a si mesmo tantas tarefas que quando fazia a curva que dava acesso à pista de entrada para Planaltina, bum!, bateu. O cinto de segurança machucou seu peito, mas a dor nem se comparava ao susto e a força com que pisou no freio. Desfivelou o cinto e saiu. Estava inteiro. Céus. A lateral direita não estava. Já era. Merda. O carro não tinha seguro. Comprou o ágio do primo que não conseguira pagar as prestações. Agora, além dos setecentos reais por mês, tinha de pagar um mecânico também. Já podia esquecer o happy hour da noite de hoje.

— Porra, cara! — Renato se virou, quase se esquecendo do outro carro em que batera. Tecnicamente, a culpa fora sua, porque fizera a curva sem passar pelo acostamento e nem perceber que havia um Eco Sport vermelho vindo a pelo menos 80 quilômetros por hora. A garota estava com raiva, mas Renato decidiu que não iria brigar. Já dizia seu pai que nunca se deve brigar no trânsito. É a decisão mais idiota que alguém pode tomar. Mesmo com uma mulher. — Olha só o que você fez! Acabou com o meu para-choque! Meu farol! Porra! Você ficou cego ou o quê?

Dava para ver que o airbag dela tinha aberto. Que bom, ao menos ela não se machucara. Passou pela mente de Renato que, se seu Celta fosse um carro inglês, ele provavelmente teria quebrado a perna e algumas costelas. Percebeu que era um pensamento idiota e sequer deixou-se sorrir por ele.

— Eu pago, relaxa! — disse ele, sabendo que agora era que estava fodido mesmo. Mais uma dívida para a coleção. — Foi mal mesmo!

— Foi péssimo, né, colega — ela balançou os óculos de sol em sua mão esquerda e tentou colocar no rosto, até perceber que uma das pernas da armação havia quebrado. — Ah, merda.

— Estava olhando para o caminhão do o outro lado, não vi você chegar... — ele suspirou. — A gente pode ir no mecânico agora, ou você pode ir até lá e depois me passar a conta... te dou meu celular, e...

— Não — ela o interrompeu. Renato franziu as sobrancelhas, surpreso. As expressões do rosto dela haviam suavizado praticamente do nada. Ela fechou o óculos quebrado na mão e suspirou, indo até o seu carro e ligando  o pisca-alerta. — O seguro cobre acidentes.

O alívio que ele sentiu foi tão grande que não pôde deixar de sorrir e murmurar um “graças a Deus”. Nem imaginava como faria para pagar o conserto do carro da mulher. Já podia até pensar nela levando seu carro até o mecânico mais caro da cidade e pedindo para que ele não maneirasse no preço, afinal, “aquele idiota tinha que aprender uma lição”.

Renato amaldiçoava sua própria imaginação, às vezes.

— Nossa, tu tá quebrado assim? — ela agora estava rindo audivelmente da cara dele.  Sorrindo, Renato assentiu com a cabeça, sem negar sua triste situação financeira. Não devia estar tão na cara assim que ele comprara o ágio de seu primo e agora ralava para cumprir todas as prestações. — Relaxa, muito dinheiro é dado pra essa companhia de seguros. O mínimo que ela pode fazer é cobrir os nossos carros. Desculpa gritar contigo, ok? Não quis te chamar de cego... nem de porra, nem de nada. É que o dia tá sendo bem doido.

— Pera, nossos carros?

— É, ué. A não ser que você queira pagar esse conserto aí. Você sabe que um martelinho de ouro não vai salvar sua lanterna, não sabe?

Uma garota que sabia o que era um martelinho de ouro?, pensou Renato.

— É, sei — e riu, sem saber bem como se portar. — Obrigado, então. ‘Brigado mesmo.

— Só esquece que eu te xinguei e estamos quites. Me ajuda a empurrar o carro pro acostamento enquanto eu chamo o guincho?

Acabou que Renato empurrou sozinho o Eco Sport para o acostamento, desfazendo o pequeno congestionamento atrás dos dois. Não que houvesse muita gente entrando em Planaltina agora. O horário de pico mesmo era quando as pessoas saíam dos empregos e voltavam para suas casas, o que aconteceria dali a mais ou menos meia hora. O horário de verão fazia com que o dia estivesse mais claro do que deveria estar às cinco da tarde, e o rapaz sentia o suor na nuca enquanto observava a mulher que batera no seu carro tentar consertar o óculos de sol para proteger os olhos castanhos dos raios ultravioleta.

Não funcionou e ela acabou jogando o que sobrou na grama.

— Só paguei vinte reais nessa bosta, mesmo. Feira dos importados. Meu irmão bem me disse que era dinheiro jogado fora, mas eu tava zerada, na época.

— Se não tivesse zerada tinha comprado um RayBan de novecentos reais? Duvido muito — ele girou a chave do carro na mão e se sentou no meio-fio. Seu carro batido piscava a poucos metros de distância dele. O dela também.

— Não sou do tipo que gasta mais de cem reais em um óculos. Meus irmãos que têm essa mania. Eu, sinceramente, posso encontrar formas muito mais criativas de gastar novecentos reais — agora ela estava sentada ao lado dele e brincava com o cabelo acobreado. A cor mais bonita tratando-se de cabelos, na opinião de Renato, que interessara-se por Luísa primeiramente por causa disso. Afastou a ideia, balançando a cabeça para um lado e outro, desejando uma lata de cerveja para extravasar a mente.

— Eu pagaria umas contas — ele disse, sorrindo.

— Bleh — a garota ao seu lado fez que vomitava, deixando-o rir.  — Eu falei sobre ser criativo, não sobre ser responsável.

— Eu poderia ser criativo — disse Renato, defendendo-se. — Só que depois eu ia ficar me sentindo muito mal, do tipo, “droga, gastei esse dinheiro no boteco quando podia ter pagado a academia e a prestação do carro”, sabe?

Ela riu.

— Sei —disse, mordendo um dos lábios. — De qualquer forma, eu falei sobre ser criativo e você falou sobre boteco. Isso já diz muito sobre você. Aliás, qual é o seu nome?

Renato sorriu.

— Isso não diz nada sobre mim, eu nem sou chegado a bares, só pra começar — disse. — É Renato. E o seu?

— Bárbara.

— Nome bonito.

— Obrigada — Bárbara olhou diretamente para o sol e tapou sua luminosidade com a mão. Renato percebeu que ela só estava vendo se o caminhão no fim da pista era do guincho, mas isso seria impossível. — Mas eu falo sério, Renato. Dá pra fazer muita coisa divertida e criativa com esse dinheiro.

Ele riu.

— Tipo...?

— Sei lá — ela deu de ombros. — Comprar um violão. Ir para o interior por um fim de semana. Pagar um show de um artista desconhecido. Comprar uma bicicleta e ir para o trabalho com ela. Pagar uma rodada de boliche para os amigos. Ou levar a sobrinha ao Nicolândia. Sei lá.

Renato não conteve sua gargalhada.

— Você é bem criativa — disse, sabendo que não era verdade. — Mas todas essas coisas não passam de duzentos reais, sabe. E, além disso, eu já tenho um violão e uma bicicleta.

Bárbara sorriu.

— Violinos e patinetes existem para quê?

— Você é maluca.

— Tá, só não diz isso para o cara da seguradora.

Renato assentiu com a cabeça e assistiu aos carros passarem por ele, em direção à cidade, sem se importar de estar praticamente gargalhando com a moça que batera no seu carro.  Bárbara havia dito que o dia estava meio doido. E como estava.

— Bati em você porque estava muito feliz — soltou ele do nada, porque sentiu vontade de contar a ela o que estava querendo contar a todos.

— Isso com certeza anula todos os estragos.

— Minha filha nasceu duas horas atrás.

Isso fez com que Bárbara literalmente calasse a boca. Olhou diretamente nos olhos de Renato, com uma genuína admiração e euforia que o deixou muito feliz. Era exatamente essa a expressão que esperava das pessoas. Muito diferente de quando ele contou a todos que Luísa estava grávida.

É engraçado. Na época, todos o olhavam como se ele fosse o maior irresponsável, mas depois que sua filha nascera, a euforia tomava de conta. O milagre da vida muda as pessoas, Renato refletiu.

— Puta que pariu, Renato, parabéns! — Bárbara disse depois e abraçou-o de uma forma tão verdadeira que quase fez com que Renato chorasse de novo. Já havia chorado hoje. Sua filha era mesmo muito, muito pequena, e muito parecida com as outras crianças do berçário, mas era sua filha, e ele percebeu que a amava quando colocou-a no colo. Foi o momento mais emocionante e apavorante de sua vida.

— Obrigado — disse ele.

— Você assistiu ao parto?

— Não, eu não pude. Uma regra idiota que inventaram nos hospitais públicos de Brasília. Não entendi. Levaria a Luísa até uma clínica se eu tivesse grana.

— Hospitais... — Bárbara deu um muxoxo de desprezo, o que fez com que ele risse outra vez. — Luísa é sua esposa?

— Ah, não. Ex-namorada.

— Puxa, sério? — Renato gostava da forma que Bárbara lidava com as situações. Sua surpresa parecia tão genuína. — Devo dizer que sinto muito? Bem, eu sinto muito, é claro. Não vai ser fácil criar sua filha sem viver na mesma casa que ela, eu acho? Sei lá, não tenho experiência com essas coisas.

— Tudo bem, eu e a Luísa somos amigos. E eu aluguei uma casa bem perto da casa dela. Digo, da mãe dela, porque ela não iria conseguir cuidar da primeira filha sozinha, né — Renato deu um sorriso fraco. Por mais que o término com Luísa não o afetasse mais, não conseguia deixar de ficar receoso e ao mesmo tempo animado ao pensar na filha e na sua nova vida. — E você? Casada?

Bárbara demorou certo tempo para assimilar a pergunta, até que deu uma espécie de pulo, meio surpresa.

— Ah, não! Noiva! — disse ela, muito rápido, mas então deu outro pulo. — Ex-noiva! Quer dizer, ex-noiva. Terminei meu noivado. Hoje.

— Puts, hoje?! — Renato surpreendeu-se.

— Pois é — Bárbara sorriu. O que era bastante esquisito tratando-se de uma mulher que rompera um noivado naquela mesma tarde. — Era o certo a se fazer. Tô me sentindo tão... livre.

— Tão livre que bateu na minha lateral.

— Ei, a culpa foi sua! — ela empurrou seu ombro.

— Eu sei, eu sei — Renato sorriu. — Só não quis perder a piada. — Isso foi antes de ele perceber que não perdera a piada, mas perdera o assunto. Quase um minuto de silêncio mais ou menos constrangedor se passara quando ele tentou retomar: — Então... por quê?

— Por que o quê? — Bárbara perguntou, olhando para ele como se houvesse sido retirada de um grande devaneio.

— Por que o noivado acabou?

— Ah! — ela deu um sorriso aberto, que era meio triste, meio relevador. — Hum... o Henrique era meio controlador. Meio... mente fechada. Desses caras, tipo, “dinheiro-trabalho-carros-mulheres-roupas-dinheiro” — ela engrossou a voz e fez aspas com os dedos. Renato deu uma gargalhada. — Aí teve um dia que eu acordei de manhã e pensei, “porra, eu vou casar com esse imbecil”.

— Meu Deus, como você o amava — Renato levou uma mão ao peito, fingindo estar emocionado.

— Ah, filho, éramos carne e unha, almas gêmeas, um só coração, metade de uma laranja, e coisa e tal.

— Ficaria mais verdadeiro se você tivesse cantado a música — sugeriu ele.

— Ainda me resta alguma vergonha na cara — rebateu ela pouco antes de ambos dividirem uma risada. Dividir uma risada era quase tão bom quanto dividir um chope, pensou Renato. Talvez até melhor. — Quatro anos.

— De noivado?

— É — Bárbara juntou seu cabelo e jogou por cima do ombro direito. — Tempo pra cacete, né?

— Tempo pra cacete.

— Eu tô tão aliviada que seria capaz de gritar — ela deu uma risada. — Ia pra Planaltina justamente para contar isso pra minha melhor amiga. Mas puts, olha eu aqui acabando com o brilho do seu dia. Falando um monte de idiotice e você deve estar com a cabeça lá no hospital, na sua garotinha.

— Mais precisamente no tanto de frauda que eu vou ter que comprar.

Bárbara riu.

— Qual vai ser o nome dela?

— Luísa quer Ana Julia, mas eu não sei não... — Renato encolheu os ombros.

— Ô, Anna Juliaaa... — Bárbara começou a cantar a canção que Renato reconheceu na mesma hora como a razão de não querer dar aquele nome à sua filha: Anna Julia, dos Los Hermanos. Sorriu porque Bárbara claramente não sabia cantar, mas não deixou de negar com a cabeça, repudiando o gesto dela.

— E a vergonha na cara que te restava, cadê? — perguntou.

— Ih, já era — Bárbara deu de ombros e virou-se para ele, sorrindo. Foi a primeira vez que Renato realmente olhou para o seu rosto e se assustou com o quanto gostou das suas imperfeições. A cicatriz na sobrancelha esquerda, a covinha no queixo e os dentes levemente separados. Seus olhos eram mais claros ao sol. Ainda bem que o óculos dela havia quebrado, pensou Renato. — Que estranho.

— O quê? — perguntou ele. Bárbara tinha essa mania de falar as coisas abruptamente, sem aviso nem dica. Era como Renato não conseguisse acompanhar seu ritmo.

Mas ela riu.  — Por um segundo eu fiquei com vontade de beijar você — ela falava como se aquela fosse a coisa mais casual do universo. — O que não é muito legal, porque tem quatro anos que eu não beijo ninguém que não o Henrique, e eu rompi com ele hoje. Tipo... isso não pode ser certo. Eu devia... dar um tempo de homens?

Renato sentiu seu rosto meio quente e tentou dissipar o rubor. Simplesmente nunca havia conhecido alguém tão maluco quanto Bárbara e surpreendeu a si mesmo querendo beijá-la de volta.

— Eu... sei lá, não acho que é errado — diga algo menos idiota, por favor. — Por mim tudo bem, na verdade. Assim, se você ainda estiver com vontade — merda.

É claro que isso fez com que Bárbara praticamente desmaiasse de tanto rir. Ela segurou seu braço e gargalhou com tanta vontade que Renato não pôde deixar de sorrir um bocado, só por vê-la. Ao contrário dele, Bárbara estava muito pálida quando conseguiu controlar a si mesma, e pressionava a barriga tentando impedir o nascimento uma nova crise.

— Des... desculpa! — ela riu mais um pouco. — Sério. Você tá vermelho, desculpa, eu não queria te envergonhar, é que isso foi... — ela tentou conter outro riso. — Desculpa.

— Deixa para lá — Renato encolheu os ombros, sem conseguir se sentir mais idiota.

— Ai, não fica assim, vai — ela olhou para ele, ainda risonha. Céus. Ele simplesmente não sabia como agir! — Prometo que se a gente voltar a se encontrar um dia, te beijo. Hoje não. Você sabe, é um dia meio maluco para se sair beijando caras que porventura foderam o para-choque do meu carro.

— Vai ficar jogando isso na minha cara?

— Para sempre, baby.

Renato riu. Mais uma vez, para variar.

— Já te falei que você é maluca?

— Já. E eu já te falei para não dizer isso para o cara da seguradora — ela deu de ombros novamente e olhou para o outro lado. Renato nem tinha percebido que o caminhão-guincho estava estacionando perto dos carros e amaldiçoou baixinho. Se estivesse sozinho, o caminhão certamente demoraria muito mais do que meros trinta minutos para chegar (principalmente porque o seguro era do carro de Bárbara, e não do dele).

Mas ele seguiu o conselho dela e não disse nada ao cara da seguradora. Bárbara havia murmurado “vamos brincar de teatrinho, e agora você é um motorista bravo dizendo que eu tenho que pagar o conserto do seu carro”, o que não funcionou de qualquer forma, porque Renato riu assim que ela terminou a frase. Precisou dos documentos para provar que era dono do carro. E, quando finalmente chegou a hora de se despedir dela, não hesitou em pedir seu telefone.

Bárbara estava lhe devendo um beijo, afinal.


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Nota: Nicolândia Center Park é o parque de diversões mais famoso de Brasília. Perdão pelos regionalismos!




18 de ago. de 2013

Ele veio me avisar que estava vindo




O lugar trazia uma incomum sensação de conforto a ela. Mesmo sempre receosa, ela deixou seus ombros relaxarem conforme o analisava com os olhos brilhantes, sobretudo naquele momento. Na memória, um lampejo de que o campo de roseiras lhe era familiar; muito embora ela não conseguisse se lembrar de como ou quando chegara ali.

Seus dedos passearam pelas pétalas das rosas brancas que davam-se ao seu redor, mas não precisou caminhar muito para perceber que algo ali estava fora dos eixos. Sentado em uma tora de madeira rústica, via-se a figura de um homem. De barba loura rala e longos cabelos penteados para trás, ele a encarava tão furtivamente que ela quase saiu correndo.

Mas não o fez. Ao invés, caminhou até onde ele parecia esperar por ela, meio assustada por tê-lo visto tão de repente, meio triste por saber que mais alguém estava no lugar que mais lhe transmitira segurança em todo o mundo. Chegando perto, ela notou, o homem não sorria, embora a observasse com certa ternura e divertimento nos olhos. O coração dela bateu forte dentro do peito e, antes de sentar-se ao seu lado — coisa essa da qual ela não estava certa que faria —, disse:

— Ei, que lugar é esse?

O homem deu de ombros.

— Não sei. Me diga você — respondeu ele, arrogante, mas sem deixar de encará-la. Sem poder afastar o modo como se sentiu ofendida pela má resposta do homem, ela conteve a língua e analisou o lugar pela vigésima vez. O campo de rosas parecia muito com o que havia no quintal de sua avó, mas ela tinha certeza de que ele não era tão extenso. Fazia vários anos que ela morrera. Desde então, a casa fora vendida e ela nunca mais cultivara rosas com a avó, coisa da qual sentia bastante falta. Inclusive, lembrava-se de estar pensando nisso pouco antes de dormir, noite passada...

— O que está fazendo aqui? — perguntou ela, virando-se para o homem mais uma vez, quase sem conseguir encarar seus olhos claros e penetrantes. Decidiu que não aceitaria um “não” como resposta, desta vez. Por mais desagradável que pudesse ser, ele era o único que poderia dizer-lhe onde ela havia ido parar.

O homem sorriu, pela primeira vez exibindo seus alinhados dentes brancos. Se não estivesse tão confusa, talvez ela até se atraísse por ele.

— Vim te dar um aviso.

— Você me conhece?

— Eu conheço todo mundo. Não quer se sentar?

Ela olhou para a tora de madeira ao lado de onde ele se sentava, mas não se sentia confortável ao lado do homem. Recusou, sem muitas cerimônias. Estava mais preocupada em saber de onde ele a conhecia; e esse foi seu próximo questionamento.

— Não te conheço de lugar nenhum — respondeu ele, parecendo retirar sujeira de suas próprias unhas.

— Você acabou de dizer que me conhece.

— E conheço.

— De onde?! — irritou-se ela.

— Lugar nenhum — repetiu ele, serenamente, sem se importar de ter de reproduzir a mesma fala mais de uma vez para a total compreensão dela. Muito embora ela não pudesse se imaginar mais confusa do que já estava.

— Quem é você, afinal?!

O homem sorriu, ameno.

— O amor.

Um momento de silêncio seguiu-se, então; por parte dela, puro espanto e descrédito. Por parte dele, a tranquilidade sempre branda, emanando.

— O amor?

— O amor.

A sensação de que aquele homem estava brincando com ela nunca estivera tão proeminente como estava naquele momento. Honestamente, ela não sabia se devia continuar surpresa ou irritada pela sua audácia. Mas, como geralmente fazia quando sentia-se desdenhada, sorriu.

— Tudo bem, então você é o amor.

— Sou.

— Em forma de homem.

— Este corpo é temporário, além de não ser físico, como você já deve ter sabiamente imaginado.

Ela o encarou, tendo a certeza de que, das duas uma: ou aquele homem era maluco, ou ela o era.

— Não, amor, eu não imaginei nada.

Perante seu descaso, ele, o declarado Amor, deixou-se sorrir — ainda mais desdenhosamente e sarcasticamente do que ela.

— Deixarei bem claro, portanto — sua voz era a de como se estivesse explicando a uma criança de cinco anos como usar o banheiro: — você está sonhando. Este é, minha cara, o lugar que você mesma desenhou como seu lugar seguro.

Ela fechou os olhos cuidadosamente, sem acreditar em uma palavra do que aquele homem estava dizendo. Tentou lembrar-se da última coisa que fizera antes de aparecer no estranho imenso jardim.

Ela pensava em sua avó.

— E o que você faz aqui, então?! — ela perguntou, novamente, com acidez. Se estivesse mesmo sonhando e houvesse projetado a si mesma para seu lugar seguro, não cabia a homem nenhum a autorização de visitá-lo sem seu consentimento prévio.

O homem sorriu outra vez.

— Eu vim te avisar que estou vindo.

Não havia uma forma de ela estar mais confusa do que estava naquele momento.

— Mas você já está aqui.

— Não foi isso o que eu quis dizer.

Ou talvez houvesse.

— Cara, você apareceu aqui do nada, diz que é o amor e que veio me avisar de que está vindo quando estamos aqui, conversando, cara a cara — disse ela, tentando mostrar em palavras o quão ridícula toda aquela situação era. — Você é maluco.

O homem, dessa vez, deixou-se rir com naturalidade. Como se a risada fosse parte dele.

— Lembre-se que este é seu sonho, minha cara — as rugas que se formavam no canto de seus olhos claros ficaram ainda mais evidentes. — De acordo com sua lógica, a única maluca aqui é você mesma. Deixe sua teimosia de lado, pelo amor de Deus.

Ela olhou para seus próprios dedos, chegando a conclusão de que, de fato, devia estar enlouquecendo, pois não havia uma explicação mais plausível. Ou isso, ou aquilo era simplesmente o sonho mais estranho e real de sua vida.

— Por que está aqui? — perguntou ela.

— Já lhe disse; vim avisar a você que estou vindo.

— E o que isso significa?

Pela primeira vez, o homem pareceu sorrir com ternura, sem sarcasmo ou divertimento no semblante.

— Significa que, em breve, você irá sentir o amor em sua forma mais pura.

— Então eu vou me apaixonar?

— Talvez sim; talvez, não. Eu tenho muitas variações.

A cabeça dela estava começando a doer.

— E qual é a necessidade de você invadir meu sono para me avisar de que está vindo?

O sorriso terno estava de volta ao semblante do homem, mas seus olhos haviam mudado de cor. Agora eram medianamente castanhos e a barba, anteriormente loura e rala, sumira de seu rosto. Como se ele houvesse rejuvenescido vinte anos em dois minutos, fora do alcance dos olhos dela.

— Faço isso com todas as pessoas. Preparo seus corações para avisá-las de que estou próximo.

— Sua aparência.

— O que há?

— Mudou. Você está mais jovem.

— Como eu disse, tenho muitas variações — ela pôde notar que os dentes do jovem homem diante dela, agora, eram menores e pouco mais tortos. E, mesmo assim, não conseguiu amedrontar-se. — Você me enxerga como quiser enxergar, minha cara. Todos o fazem.

Ela colocou a cabeça entre as mãos, tentando inutilmente conciliar os pensamentos. Não fazia, simplesmente, o menor sentido que o amor em pessoa aparecesse em seu sonho e lhe dissesse todas aquelas coisas. Para início de conversa, como poderia um sentimento assumir uma — ou duas, no caso — forma humana?!

— Se é mesmo o amor, por que é tão sarcástico e amargo?! — as palavras saíram da boca dela antes mesmo que ela pudesse contê-las. Se o amor era tão bom, como ao conversar com ela, seria tão antipático?

— Repito, outra vez, minha cara: tenho muitas variações. Também sou chamado de caridade, amizade, dor (muito embora o termo não se aplique somente a mim), ciúmes, e até mesmo... ódio — os olhos dele, mais escuros, crepitaram aos dela. Sentiu-se estremecer antes que pudesse engolir em seco. — Existem milhares formas de se amar e, queira você ou não, todos os fazem. Mesmos os corações mais escuros contém amor.

— E você cuida de todos eles — sugeriu ela.

— Não, eu estou em todos eles.

— E avisa a todas as pessoas que estão prestes a amar.

— Sim.

— Eu sou uma delas.

— Sim.

— Quem eu amarei?

— Quanto a isso, eu não posso lhe contar — ele levantou-se, mas não foi em direção a ela. Ao invés, retirou uma rosa da plantação e, sem importar-se com os dedos rasgados nos espinhos e no sangue que escorria, cheirou-a. — Meu trabalho é apenas avisar a você que estou vindo e que minha chegada mudará sua vida.

Talvez pela visão de sangue ou pelas suas palavras, ela sentiu-se estremecer outra vez. Fechou os olhos por apenas dois segundos, procurando buscar qualquer indício de sanidade que houvesse em sua mente. Mas, quando reabriu-os, o sangue sumira da mão do homem; ele se tornara um garoto de treze anos, cabelos ruivos dispersando-se por toda a cabeça, e as sardas no nariz e nas bochechas acentuaram-se quando ele sorriu para ela novamente.

— E se eu não quiser amar? — perguntou ela.

O menino retirou uma pétala da rosa.

— Não amará. Se nem Deus pode controlar teu livre arbítrio, não serei eu que o farei.

— Mas o amor cega e controla as pessoas.

— Tolice — o menino deu de ombros, arrancando outra pétala e jogando-a ao vento. — Os seres humanos nunca são corajosos o suficiente para assumirem seus próprios atos. Caso não queira amar, querida, você não amará. Mas isso não fará com que eu saia do seu lado.

— E quanto aos meus pais? Eles se amavam no início do casamento, mas agora mal se falam! Se você sempre vai estar ao meu lado, por que não pôde estar ao lado deles?!

O garoto atirou mais uma pétala ao vento, tendo o cuidado de soprá-la para fazê-la voar ainda mais alto.

— Não só tenho muitas variações como, também, posso ser instável. Caso eles tenham se amado no início do casamento, ainda se amam. Lembre-se de que também sou a dor. Se usardes mal de mim, pode não colher boas consequências. Sempre aviso a todas as pessoas, mas não é sempre que sou ouvido. Tome a si mesma como exemplo.

Ela não percebeu que queria chorar até duas lágrimas cruzarem suas bochechas, impiedosamente. Odiava falar sobre os pais. Odiava falar sobre o amor — sobretudo quando ele próprio estava a sua frente.

— Mas você faz todas aquelas pessoas fazerem loucuras por você. Deve estar orgulhoso — disse ela, quase enojada. — Milhões de músicas e poemas, todos sobre você. Livros, quadros, álbuns de músicas. E quanto a todas as pessoas que vivem para você? E quanto a todas as pessoas que morreram por você? E quanto a todas as pessoas que se tornam obsessivas compulsivas e matam, em seu nome, por sua causa?!

O garoto estava sorrindo, e ela pôde notar que, dessa vez, tinha aparelho nos dentes. Sua pele, anteriormente branca, quase avermelhada, estava negra. Os olhos escuros a encararam com divertimento, mais uma vez. Agora ele tinha por volta de vinte anos de idade.

— Responda-me, minha cara — disse ele. — Quando um homem morre por cirrose, a culpa é dele por ter ingerido cerveja até acabar com a própria vida, ou do álcool por simplesmente existir? — ela manteve-se calada e o homem prosseguiu: — Eu simplesmente existo, nos corações, nas músicas, nos poemas. Simplesmente sou usado e abusado todo o tempo, para bons e maus fins. Os seres humanos têm seu livre arbítrio e usam-me o quanto bem entenderem. Minha função, minha cara, é apenas manter-me vivo entre os homens e avisá-los de quando estou perto.

— E por quê?! — ela esbravejou antes que pudesse se controlar. — Por que precisa me avisar de algo que sabe que vai acontecer, mas sem poder me dizer exatamente o que é?! Que diferença, honestamente, isso faria na minha vida?!

Seus olhos eram tão abrangedores que iam até o fundo de sua alma, de sua existência. Calmamente, como sempre, ele disse a ela:

— Porque, assim, posso fazer com que você acredite na minha existência antes de me sentir — voltando-se para a rosa, ele deixou a última pétala viajar pelo ar, respirando fundo em seguida. — E posso avisar a você que sentir-me não será fácil, e que você deverá, minha cara, ser bastante prudente. Aviso a você: estou perto, estou vindo, e quando eu chegar, você deverá estar preparada para ter sua vida virada de cabeça para baixo.

Os olhos dela estavam presos aos próprios pés.

— Num bom ou mau sentido?

— Isso não cabe a mim.

Quando os olhos dela levantaram-se outra vez, o amor transformara-se no mesmo homem que ela encontrara pela primeira vez, de barba e cabelos claros. Sentiu uma súbita vontade de chorar e segurou-se com toda a força que tinha.

— Eu vou me lembrar disso quando acordar?

O amor fez que não com a cabeça.

— Isso não será possível.

— Como vou saber que você virá a mim, então?

Aproximando-se mais do que jamais havia se aproximado naquele intervalo do tempo, o amor tocou o rosto dela e sussurrou-lhe, afavelmente:

— Confie em mim, minha cara. Você saberá.