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5 de set. de 2013

Tutorial DIY: Vira-Tempo

Olá, (con)textuados lindos! Mais uma quinta, e aqui a Sofia está de volta para conversar com vocês. Porém, dessa vez, resolvi fazer algo diferente: em vez de uma resenha, temos um tutorial de DIY (do-it-yourself, que corresponde a faça-você-mesmo). Eu sou praticamente obcecada com DIY’s, porque:
a) eu adoro trabalhos manuais, é algo que eu simplesmente amo fazer;
b) acho muito legal poder fazer as coisas ao meu jeito e gosto, e ficar com um produto final diferente de tudo o que poderia comprar numa loja;
c) poupar dinheiro é bom!;
d) a minha coisa preferida no mundo é criar, mesmo que seja apenas um pequeno anel, ou algo assim. Faz-me sentir bem.

Então, uma das minhas criações preferidas foi (oh, a eterna surpresa de haver uma relação com Harry Potter!) um colar vira-tempo, estilo Hermione, que eu fiz há cerca de um ano. O original é esse:


E o meu ficou assim:


Você pode fazer um mais pequeno e mais perfeitinho, tudo depende dos materiais que encontrar. O meu maior problema foi não achar anéis maiores que aquele anel de chaveiro que ficou no centro. Eu pensei em tentar arrumar uns mais pequenos, mas aí seria mais difícil trabalhar com os materiais, porque tudo teria que ser feito em ponto mais pequeno… e bem, você entendeu a dificuldade. Mas se se sentir à vontade em fazer a experiência, tem todo o meu apoio! Confesso que eu mesma queria experimentar de novo.
Vamos àquilo que você precisa para começar.

Materiais:

- Os anéis de chaveiro que você consiga arranjar, desde que caibam bem dentro uns dos outros;
- 2 missangas grandes, que caibam juntas dentro do seu anel mais pequeno;
- 4 missangas mais pequenas;
- Arame;
- Tinta ou spray dourado;
- Super cola;
- Essas duas ferramentazinhas (uma delas para trabalhar o arame – não necessariamente igual à que tenho aqui – e a outra para cortá-lo):


Instruções:

(1) Pegue seu anel mais pequeno e corte um pedaço de arame que não esteja torto como o da imagem que o atravesse de um lado ao outro, deixando ainda comprimento suficiente para enrolar ao redor do anel, de forma a segurá-lo. Passe as duas missangas pelo arame e enrole o excesso ao redor do anel. Eu só enrolei uma vez, mas você pode e deve enrolar mais um pouco.

(2) Corte um pedaço de arame mais ou menos nessa proporção em relação ao seu anel. Enrole uma das pontas ao redor do anel, fixando-a bem.

(3) Passe uma das missangas mais pequenas pelo arame (aqui, ela é igual às outras duas, mas ignore – você precisa que a missanga seja pequena).

(4) Pegue seu alicate de pontas achatadas e enrole a outra ponta do arame sobre si mesma, de forma a criar uma espécie de nó que impedirá a missanga de deslizar ou cair - como na foto.



(5) Corte um pedaço de arame mais ou menos do tamanho do pedaço anterior e enrole uma das pontas como demonstram as fotos. NÃO APERTE DEMAIS! É importante que você possa deslizar outro arame por entre essa espiral, porque…


(6) … agora você irá passar a espiral pelo pedacinho de arame que ficou entre o anel e a missanga. Depois, use o alicate e achate a espiral, de modo a ficar só um círculo mais pequeno do que a sua missanga.

(7) Encurve o resto do arame de modo a que ele se ajuste e se encoste à missanga. NÃO CORTE O EXCESSO! Será necessário. Repita o processo para o outro lado.


Se você tem outro anel de chaveiro, pule para o passo (8).

(7.1) Esses passos são apenas para quem, como eu, não conseguiu mais do que o primeiro anel de chaveiro. Pegue no seu arame e experimente-o ao redor daquilo que você já fez, de forma a que ele se encaixe. Deixe um bom pedaço de excesso e corte.

(7.2) Feche o seu aro sobrepondo as duas pontas por alguns milímetros e enrolando o excesso dos dois lados, exatamente como fez no segundo passo, por exemplo. Aperte bem e achate se necessário.  Assim que lhe pareça firme o suficiente, sem que se desenrole, pode cortar o restante excesso.

(8) Pegue o seu segundo aro ou anel e enrole o excesso de arame que deixamos no passo (7) ao redor dele, de forma a ficar bem apertado. Se você está trabalhando com o aro que fizemos nos passos (7.1) e (7.2), recomendo que enrole uma das pontas sobre o ponto de fecho do aro, como demonstra a foto. Isso vai impedir que ele deslize.
Pouse isso por agora.

(9) Corte dois pedaços de arame com cerca de 3 cm cada. Pegue num e dobre uma das pontas de forma a impedir a missanga pequena de cair (ver passo 4). Pegue nas duas missangas pequenas que faltam e passe-as pelo arame. Se tiver um terceiro anel, é só enrolar o excesso de arame ao redor dele. Se tiver que criar um aro, forme uma espiral pouco mais larga que o seu arame e achate de seguida, de forma a que a peça fique igual à da foto.


(10) Notou que nem as pecinhas, nem o seu terceiro anel estão ligados à peça central do vira-tempo que você já criou? Pois é, mas é só repetir os passos (5) a (7), e enrolar as pontas ao redor do seu segundo anel, como mostram as fotos!

(11) Se vai criar o seu terceiro aro, só necessita de repetir o passo (7.1), passar o aro que criou pelas espirais que estão na ponta da peça das missangas, e repetir o (7.2). Verifique mesmo que passou o aro pela pecinha antes de fechá-lo, para não ter que desfazer o seu trabalho depois. Seu vira-tempo deve estar, nessa fase, com o aspeto da foto.

(12) O que eu fiz para poder pendurar o vira-tempo num fio, foi apenas pegar em mais dois pequenos pedaços de arame e formar duas saliências, enrolando as pontas firmemente sobre o fecho do terceiro aro.

(13) Passe super cola nos locais de ligação entre os aros – nas espirais achatadas, se quiser. Tenha cuidado para não colar certos arames às missangas, pois, como já deve ter notado, é isso que faz com o vira-tempo gire. O ideal é que esses arames fiquem o mais soltos possível.

(14) Pinte o seu vira-tempo de dourado! Se for utilizar spray, tenha em atenção que o deve fazer num local arejado e NUNCA dentro de casa. Deixe a tinta secar e…




… o seu vira-tempo está pronto! É só pendurar numa corrente ou fio e pô-lo ao pescoço! E não tenha medo de o girar naqueles dias em que só precisava de mais umas horinhas ;)



PS: Não nos responsabilizamos pelos danos causados a bruxos que mexeram com o tempo.





15 de ago. de 2013

[RESENHA] Saga Harry Potter, de J. K. Rowling

Título Original: Harry Potter

SinopseOs livros giram em redor de Harry Potter, um órfão que descobre, com 11 anos de idade, que é um feiticeiro, apesar de estar então vivendo no mundo das pessoas não-mágicas – os trouxas. A sua habilidade, porém, é inata, e as crianças como ele são convidadas a frequentar uma escola que lhes ensina tudo o que precisam de saber para serem bem-sucedidos no mundo da magia. Harry torna-se um estudante na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, local onde a maioria dos acontecimentos da história tomam lugar. À medida que se desenvolve enquanto adolescente, Harry aprende a lidar com os vários problemas que enfrenta: mágicos, sociais e emocionais, incluindo os desafios normais da adolescência, tais como a amizade e os exames – e o ainda maior teste de se preparar para a confrontação que se adivinha no seu futuro.




AVISO: Essa resenha irá conter alguns spoilers, embora eu não saiba como é possível você ainda não saber das principais reviravoltas no enredo dessa saga famosíssima.

A saga Harry Potter é, como já devem ter entendido, uma parte bastante importante da minha vida. Publicada inicialmente pouco depois de eu nascer, a minha paixão começou não pelos livros em si, mas pela sua primeira adaptação cinematográfica, em 2001. Assim, seria só no verão de 2007 que eu me decidiria a pegar nos livros e atacar a história escrita de frente. E, meu Deus, como essa decisão foi genial! Então com 12 anos, eu fui cativada pela história desde a primeira página, facilitada pela escrita direta, acessível e fluída de Rowling. No Natal do mesmo ano, meus presentes favoritos foram os dois últimos volumes da saga. Antes mesmo do ano acabar, já eu tinha terminado minha aventura com Harry.
Desde então, já reli os livros várias vezes (apesar de não me ter dado ao trabalho de contá-las), e encontro-me, no momento de escrita dessa resenha, nas últimas cem páginas d’O Cálice de Fogo, quarto volume da saga. Pretendo terminá-lo logo, para poder começar A Ordem da Fênix mais uma vez.

Assim, quando a Sarinha me pediu para entrar na equipe de resenhas, eu soube imediatamente por onde teria de começar: o alfa e o ómega da minha experiência literária, Harry Potter. Como acredito que a saga só pode ser apreciada em todo o seu valor enquanto saga – e não livros individuais –, resolvi fazer uma resenha conjunta; uma espécie de visão geral sobre a história que transparece, volume atrás de volume. O formato que pretendo usar vai ser um pouco diferente daquele que Sarah costuma usar, mas acho que será fácil de se habituar a ele: pretendo ter 5 tópicos que poderão ser aplicados a qualquer livro, e dentro dos quais irei pontuar a obra; no final, farei uma conclusão sucinta, com a pontuação geral que dou ao livro.
Estão prontos? Vamos então!


1. O universo

Logo no início da saga, somos obviamente apresentados a um universo novo e diferente: o mundo da magia. Porém, não podemos classificá-lo como um universo paralelo, uma vez que ele não existe numa espécie de realidade alternativa, como acontece noutras obras (o que seria o caso d’As Crônicas de Nárnia). Não, o universo mágico a que Rowling nos introduz é algo que poderia perfeitamente coexistir, nesse preciso momento, com a realidade que já conhecemos. Aliás, podemos notar, ao longo das obras, uma preocupação clara da autora em descrever e explicar o contato entre os dois mundos: o Estatuto de Sigilo em Magia, o qual se certifica de que os trouxas não tomam conhecimento do submundo mágico; a impossibilidade dos aparelhos eletrônicos funcionarem na presença de grandes quantidades de magia, o que clarifica o porquê da maioria dos feiticeiros não os conhecerem; a Seção de Mau Uso dos Artefatos dos Trouxas, onde trabalha Mr. Weasley e a qual resolve os problemas criados por bruxos espertinhos que decidiram enfeitiçar objetos comuns para os trouxas (incluindo o próprio Mr. Weasley)… Existem até Obliviadores, cujo emprego consiste unicamente em andar pelo mundo apagando as memórias dos trouxas que viram um pouco demais! (Claro que esse seria o emprego perfeito para Gilderoy Lockhart, porém ele decidiu usar os seus poderes para o mal, e roubar os feitos de outras pessoas para se tornar famoso com eles. Mas ele acabou em São Mungo, não siga o exemplo dele.)
Tendo isto em conta, poderíamos esperar de Rowling que nos presenteasse com um mundo tanto fantástico quanto perfeito; uma espécie de salvação para Harry, que, maltratado pelos seus tios e primo, viveu o pior do mundo “normal”. Porém, somos novamente surpreendidos: como a própria autora chegou a afirmar, a natureza humana é igual com ou sem poderes mágicos, e as circunstâncias, apesar de diferentes, acabam apenas por criar problemas semelhantes. Assim, descobrimos a um tempo um mundo que cultiva a imaginação, mas que permanece realista, cheio de dilemas, erros e contratempos apenas naturais a seres humanos.

Senhoras e senhores, estamos perante um universo imaginário fantástico, contudo incrivelmente realista. Mas a genialidade de Jo não nos poderia proporcionar outra coisa.

Pontuação: 


2. A escrita e o enredo

A nossa viagem pelo universo mágico de que já falamos, é, na minha perspetiva, muito fácil e natural devido à escrita acessível e fluída da autora, a qual permite que leitores mais novos embarquem também nela. Nesse ponto, não tenho muito a dizer, tirando que a escolha de Jo de escrever uma obra infanto-juvenil tornou impossível, desde logo, o uso de outro tipo de escrita. Assim, ela pode não exibir todos os recursos de linguagem que domina, nem dar à obra um tom “profundo”, mas a escrita não deixa de ser apelativa e esteticamente agradável. Nada de surpreendente neste quesito.

Por outro lado, à medida que vamos progredindo na leitura, nos apercebemos da complexidade do enredo construído por Rowling: a trama encontra-se perfeitamente tecida desde o primeiro momento, e pode acreditar que o padrão que ela escolheu é difícil de tecer. Ainda assim, o ritmo que a história atinge a certo ponto, juntamente com o mistério que sempre circunda a ação, levam a que o leitor raramente se canse (com a exceção d’A Ordem da Fênix, que tem tanta angústia e raiva reprimida que, admito, se torna um pouco repetitivo; mas em defesa de Jo, como esperaríamos que um adolescente de 15 anos reagisse a ver um dos seus colegas morrer à sua frente, às mãos do seu arqui-inimigo, sendo logo depois forçado a regressar ao lugar mais chato à face da Terra, constantemente afastado das notícias do mundo dos bruxos? Pois é). O desenlace que a história de cada um dos volumes apresenta vai-se adivinhando enquanto se avança na leitura, pelo que não se sente que a conclusão seja subitamente criada pela autora para pôr um fim necessário ao livro. Antes pelo contrário, se sente que a conclusão surge naturalmente do decorrer dos eventos, o que contribui para o realismo da história.
Mas não é só a primeira leitura que prende. Quando você decide reler a saga, aí sim, consegue ver o verdadeiro tesouro que a obra representa. O termo mais correto para o que acontece é “foreshadowing”, e refere-se às pequenas pistas que a autora vai deixando sobre o que irá acontecer no futuro, mas que, na altura, você não tem meios para decifrar. Essas pistas são uma das coisas que, para mim, tornam não só a releitura tão prazerosa, mas que demonstram o quanto Jo estava consciente do rumo que a história tomaria em diante.
Imagine o tempo que ela deve ter perdido para imaginar reviravoltas como o fato de Harry ser um horcrux, ou o desenvolvimento da personagem de Snape, tão cedo na história. Uma vez mais, genial!

Pontuação: 


3. Os personagens

Quanto aos personagens,  J. K. Rowling simplesmente se excede. Sabemos que ela tem facilidade em criar histórias onde intervêm imensos personagens (leiam uma resenha de Morte Súbita, se quiserem, e verão como isso é verdade), mas em Harry Potter vemos o quanto ela se sente confortável em escrever personagens imensamente diferentes entre si. Além disso, o desenvolvimento que ela faz dos personagens é simplesmente genial (sim, eu sei que estou usando essa palavra demais na resenha, mas ninguém me deu um limite, então vou continuar usando)! Claro que o fato de acompanhar o crescimento do trio principal é, por si só, uma atitude extremamente corajosa. A maioria das pessoas teve dificuldade apenas em passar pela adolescência, imagine repetir o trauma e ainda escrever sobre ela? Mas Jo faz isso de uma forma incrivelmente natural, livre de julgamentos, que fazem o leitor (que, em princípio, está também ele passando por fases parecidas com as dos protagonistas) se sinta um pouco menos “anormal” e pense: “se eles conseguem passar por tudo isso e ainda lutar contra o Senhor das Trevas, quem sou eu para dizer que não consigo?”. É uma questão de identificação entre o leitor e o personagem, a qual J. K. dominou completamente.
Em suma, é um livro para se ler enquanto se cresce. Mas para se ler depois de crescer, também.

Dito isso, queria referir algumas das personagens cuja construção eu acho mais impressionante:

- Severo Snape: ele é o príncipe (ah ah) das reviravoltas! Livro atrás de livro, você se convence que já o conhece na totalidade, só para vir a descobrir, no final, que ele não era exatamente quem dava a entender. Ele prova que a redenção é sempre, sempre possível;

- Neville Longbottom: Neville é simplesmente a melhor personagem para inspirar o leitor. Inicialmente, você se questiona como alguém tão fracote quanto ele pode ter sido escolhido para a grande Grifinória. Quando chega ao final, porém, já se convenceu de que não há ninguém no mundo mais legal e corajoso que Neville… Nem mesmo Harry;

- Alvo Dumbledore: este sim, é uma revelação! Você viveu toda sua vida convencido de que ele é o melhor ser à face da Terra, e afinal descobre que, em tempos, ele já foi até apaixonado por um dos bruxos mais obscuros de sempre! O melhor é o jeito que Rowling encontra para lhe mostrar, com isso, que ninguém é perfeito – nem mesmo seu modelo de vida. E isso não quer de todo dizer que você não possa continuar amando-o;

- Luna Lovegood: ela é provavelmente minha personagem preferida da saga. Como a própria autora o colocou, ela simplesmente não quer saber. Ela acredita no que acredita, e se veste do jeito que se veste, e faz aquilo que acha melhor, e tudo o resto será imediatamente ignorado! Tem uma opinião sobre a forma de dançar dela? Pode falar, Luna está demasiado ocupada caçando Nargles para o escutar;

- Dobby: o inocente corajoso. Não encontro outra forma de o expressar. Dobby, de todos os personagens da saga, é provavelmente o mais inocente – não apenas por ser um elfo doméstico (que Monstro nos mostra que não é necessariamente um sinônimo de inocência), mas por ser verdadeira e incorruptivelmente bondoso. Ele viveu a maior parte da sua vida na mansão dos Malfoy, e se isso não é o suficiente para corromper qualquer outra criatura, não sei o que é! Mesmo assim, Dobby acaba dando a vida por Harry, seu maior herói. A sua coragem ainda me traz lágrimas aos olhos.

Eu poderia continuar, mas acho que vocês entenderam o ponto fulcral. A verdade é que a maioria dos personagens têm um desenvolvimento complexo e único que contribui para adensar o enredo principal, para além de nos convencerem de que não há pessoas completamente boas, nem completamente más – somos as nossas escolhas, e a redenção é sempre possível.

Pontuação: 


4. A temática

Quando estamos falando de Harry Potter, a coisa mais complicada de que podemos falar, muito provavelmente, é a temática. É que, ainda que se baseie maioritariamente nos vários tipos de amor e em como eles podem ser, sem tirar nem pôr, a sua salvação, a saga aborda ainda um milhão de outras questões. Se eu tiver que resumir, provavelmente diria que o principal tema é a ética e a moral, a dicotomia entre o bem e o mal (que se torna clara quando entendemos que, mesmo face a Maldições Imperdoáveis, Harry, o representante do bem, tenta não abandonar o uso do Feitiço de Atordoar e outros do gênero), o que é considerado justo ou injusto… Algo dentro dessas linhas.

Mas também não podemos esquecer o enormíssimo destaque que é dado à morte. Vemos tantas diferentes perspetivas em relação à morte ao longo da saga, que nem sabemos bem o que pensar. Por um lado, há Voldemort, que foge da morte como se… bem, como se sua vida dependesse disso. Por outro lado, temos Dumbledore, que entende que sua vida pode ser perpetuada muito para além da sua morte por aqueles que o amaram e lhe foram fiéis. A sua célebre frase “para uma mente bem organizada, a morte é apenas a próxima aventura” foi um dos pensamentos mais difíceis de abarcar e, ao mesmo tempo, mais inspiradores que eu alguma vez encontrei. Ainda agora senti arrepios só por digitá-la. Não esqueçamos também as famosas “Acolheu, então, a Morte como uma velha amiga e acompanhou-a de bom grado, e, iguais, partiram desta vida” e “As pessoas que amamos nunca nos deixam de verdade”.
Mas, apesar de tantas mensagens bonitas em relação à morte, Harry sofre perda atrás de perda, e nunca deixamos verdadeiramente de as ver como uma tragédia. Até Dumbledore, que sabíamos ter uma mente bem organizada. Até Hedwig, que era apenas um animal inocente. Até Cedrico, a quem nem éramos tão chegados assim. Até Colin Creevey, que tantas vezes desejamos que simplesmente desaparecesse. Até Voldemort, que teve um fim tão humano que se tornou patético. E mesmo assim, em algum ponto da saga, entendemos que a morte é algo necessário, ao qual nem os mais ambiciosos escapam, e que seria melhor morrer por aquilo em que você acredita, do que deixar de defender o que é correto. Já viu um outro livro para crianças que tenha uma mensagem tão complexa sobre a morte quanto Harry Potter?

Para além de tudo isso, a história aborda ainda a depressão (com a belíssima imagem de que a invocação da sua memória mais feliz e um pouco de chocolate conseguem afugentar até o mais horrível Dementador), a discriminação, o preconceito, e o racismo (seja através dos “sangue-puros” e dos “sangue-ruins”, do desprezo dos Devoradores da Morte pelos trouxas, ou do preconceito que Lupin e Hagrid sofrem por terem uma doença ou genes nos quais, obviamente, não tiveram qualquer influência), e ainda a injustiça para com aqueles que são considerados socialmente inferiores, como acontece com os elfos domésticos (e sim, eu estou completamente do lado de Hermione nesta questão).

Podemos ainda falar da forma como J. K. Rowling explora os limites da resistência humana, seja física, emocional, psicológica, socialmente… Se é uma vertente da condição humana, Jo fez com que Harry (sobretudo, mas também outros personagens, tais como o restante trio) experimentasse o seu limite. Eu perdi a conta a quantas vezes parei no meio da leitura da Batalha Final para me perguntar quantas horas haviam passado e: a) como é que eles não tinham fome; b) como é que eles não tinham vontade de ir ao banheiro; c) como é que eles ainda não tinham começado a chorar, entrar em pânico, etc; d) como é que eles ainda se aguentavam em pé e conseguiam lançar feitiços… A lista continua e continua e continua. Claro que a luta incessável, ao longo de décadas e décadas, contra o lado das trevas provavelmente também cansou personagens como Dumbledore (como é que, no fim de tanto tempo, ele ainda conseguia manter a cabeça fria o suficiente para entender tanta coisa?), Lupin, Sirius (que, não nos esqueçamos, passou doze anos sob mercê dos Dementadores), Mr. e Mrs. Weasley… Parece que todos os personagens estão constantemente sendo postos à prova, ao longo de todo o enredo. E quem sabe, talvez a sua resistência possa ser aquilo que nos inspire para continuar a nossa luta também.

Além disso, eu queria voltar a focar a temática do amor, porque, afinal, é com ela que a saga começa e termina: no início, Lilían dá a vida por seu filho, para que esse mesmo filho possa vir a dar a vida por todos os outros, e finalmente parar Voldemort. E dar a vida por alguém… isso é a forma de amor mais altruísta que existe. Porém, uma das perguntas mais comuns em relação a este tema é: por que seria impossível a Voldemort amar? Muitas pessoas alvitram que foi por ter sido concebido sob o efeito de uma poção do amor, mas Rowling já clarificou que foi por sua mãe ter morrido logo após o seu nascimento – e, como ele ficou entregue aos cuidados de um orfanato trouxa, foi privado de qualquer forma pessoalizada de afeto.
Ao fim e ao cabo, essa é a principal diferença entre Harry e Tom Riddle. Enquanto Harry só se tornou órfão depois do primeiro ano de idade, tendo sido amado e mimado durante todo esse tempo, Tom sempre foi privado de afeto. Tanto, que se tornou incapaz de sequer compreender o que era o amor, ou as coisas a que as pessoas que o sentem estão dispostas a se submeter pelos outros. E essa revelou ser a sua maior fraqueza.

Para concluir este tópico, tenho que ressaltar a imensidão de temáticas que podem ser encontradas em Harry Potter (que eu estive longe de abordar plenamente aqui), e o quanto essa profusão torna a releitura uma descoberta permanente de novas lições a aprender.

Pontuação: 


5. Tópico Surpresa: a relação entre a obra e o Cristianismo

Este é um tópico bastante controverso, sobretudo porque, quando a saga inicialmente fez sucesso, cristãos por todo o mundo acharam que o fato de ela se relacionar a bruxaria era um pecado e, logo, a leitura deveria ser proibida pela Igreja.
Ora bem, enquanto católica, eu sinto-me no pleno direito de dizer: pobre Jo. Ela já tinha passado por muito na vida para ainda ter de lidar com mais essa. Agora que já falamos lá em cima sobre a temática, acho que se torna claro para você, caro leitor, o porquê de eu dizer isto: afinal, qual é o tema principal sobre o qual se debruça a obra? O amor, isso, muito bem! E sobre o que Jesus Cristo veio pregar ao mundo? O amor, exatamente! Um chocolate para você!

Então, penso que é uma relação lógica explicar que, apesar de Harry Potter retratar um mundo mágico, nele habitam pessoas que têm que lidar com muitos dos dilemas que nós mesmo temos que lidar no dia a dia. Nas palavras de Dumbledore, “em breve, teremos de escolher entre o que é fácil e o que é certo”. Por alguma razão, sinto que isso é algo que o próprio Cristo poderia ter dito, uma vez que, para que o mal aconteça, é apenas necessário que homens justos nada façam (como disse, e muito bem, Edmund Burke).
E, já agora que estamos reavivando o tópico das temáticas, tenho ainda que ressaltar o quanto o tema da morte também é fulcral nesta relação. Porque afinal, Jesus veio à Terra mostrar-nos o que é a verdadeira Imortalidade, a Vida Eterna – e ela nada tem que ver com a ambição patética de Voldemort em se agarrar à sua vida terrena, mas está provavelmente muito mais relacionada com a visão que Dumbledore faz dela. “A próxima aventura”. A estação de King’s Cross completamente branca, onde o trem nos levará para o local onde devemos estar. Haverá forma mais bela de pensar nesta questão?
E temos ainda o sacrifício de Harry no final d’As Relíquias da Morte! À imagem de Jesus Cristo, também Harry aceitou a sua morte para que outros pudessem viver e cumprir sua missão. Protegidos depois pelo escudo de amor que a morte do protagonista lhes facultou, nenhum outro homem de bem naquele castelo voltou a ser machucado pelas forças do mal. Por outro lado, a experiência de Harry ensina-nos a “acompanhar a morte como uma velha amiga”, o que é, afinal, aquilo que Cristo procura que nós façamos. Que não temamos a morte, mas que antes a aceitemos como algo natural e inerente à vida. O término de um ciclo e o começo de outro. O trem que abandona a estação, mas que nos leva para a próxima aventura.
Assim, não consigo possivelmente compreender como qualquer cristão quereria rejeitar Harry Potter enquanto uma leitura benéfica. Primeiro, livro algum deve ser proibido: a liberdade de expressão é fulcral para a sociedade de hoje e para o avanço da mesma. Segundo, a saga não faz mais do que aproximar e reconciliar o leitor com valores aos quais, talvez por desprezo à Igreja, ele quis virar as costas. Aconteceu comigo e estou certa de que já aconteceu com outras pessoas.

Se quer saber, por mim, Harry Potter devia até ser uma leitura recomendada a adolescentes cristãos, porque seria mais fácil para eles entender certos temas que a Igreja aborda. Pena que muitas pessoas não valorizem devidamente a interpretação de texto.

Pontuação: 


Conclusão

Como pode ter reparado, eu me alonguei imenso (imenso!) sobre os vários tópicos. Isso foi em parte por se tratar de uma saga com sete volumes, mas também porque eu conheço bem demais a saga em questão (acredite quando digo que não incluí nem de perto tudo aquilo de que eu queria falar, sobretudo em relação a exemplos). Não espere que as próximas resenhas tenham esse tamanhão, mas obedecerão à mesma estrutura e terão a mesma qualidade (torço os dedos!).

Quanto à saga, quero terminar por apontar a qualidade de clássico moderno que ela adquiriu ao longo dos últimos 15 anos. Não é muito tempo, mas é sem dúvida o suficiente para se ter tornado uma leitura absolutamente obrigatória para os amantes da ficção por todo o mundo. Se gosta de magia, tem; se gosta de mistério e ação, tem; se gosta de romance, também tem; se gosta de questões filosóficas, pode apostar que elas estão lá, por mais camufladas que possam parecer.
Assim, apesar de pertencer ao gênero infanto-juvenil, Harry Potter é uma leitura para revisitar ano após ano, e notar como sua perceção em relação à história e aos temas nela debatidos vai mudando; notar como você vai vendo mais e mais a fundo, achando nuances antes impensáveis nas suas cenas favoritas.

Harry Potter é uma coleção de sete livros que jamais devem abandonar sua mesinha de cabeceira.


Pontuação final: