23 de set. de 2012

Capítulo 52


I'm not letting you go.



Fazia frio em Londres.
Mesmo assim, Sophie estava simplesmente morrendo de vontade de tomar um sorvete de morango em calda, e esperou pacientemente — ou nem tanto assim — Julia voltar. Digamos apenas que é complicado achar sorvete para vender em um lugar onde havia nevado há menos de uma semana. Especialmente de morango em calda.
De qualquer forma, Julia voltou depois de quarenta minutos (Sophie havia contado) para o apartamento onde as duas estavam morando agora. Assim que Sophie se formou, recebeu uma carta inesperada, contendo uma escritura de um apartamento na St. Alban’s Street e uma chave, gravada em letra cursiva: “Parabéns, maninha”.
Obviamente ela havia começado a chorar (culpa, também, dos hormônios, mas principalmente da satisfação e do agradecimento que sentia por ter Joe como irmão), e ligado para Joseph, que inicialmente até se fez de desentendido.
O primeiro livro dele fora um sucesso e era possível dizer que em seis meses, Joe conseguira o triplo de dinheiro que toda a sua família já gastara em toda a vida. Sophie perdeu a conta de quantas vezes parou tudo que estava fazendo para ver uma de suas entrevistas na tevê ou ler uma revista que comprava na rua acima de seu antigo dormitório na Laurent Louis. Não podia negar, estava morrendo de orgulho do irmão. E de saudades também.
Tanto ela quanto Julia estavam formadas no ensino médio e fora de seus respectivos colégios internos. Não queriam estar separadas, evidentemente, e o presente de Joe só veio a calhar. Sophie já começara sua faculdade de música e era difícil não achá-la em meio aos livros ou enfurnada naquele piano (que também era presente de Joe). Tocando, ou estudando, Sophie... quase fugia da realidade que não queria enfrentar. A verdade de que estava grávida de um filho que, na prática, não seria seu.
Julia havia sido aceita em Oxford assim como Tarris, ela fazendo jornalismo, ele medicina. O certo para ela seria morar no campus como todo mundo, mas Julia se recusava a deixar a amiga sozinha, além de que morar com Sophie aplacava toda a dor que sentia todo dia, toda a saudade, toda a martirização. Mesmo que tivesse de dirigir uma hora inteira para chegar até Oxford, toda manhã.
Tarris, por sua vez, estava sendo um amigão também. Sophie confessava que às vezes ele parecia um perfeito idiota, mas ele era extremamente atencioso e entendia mais de gravidez do que Julia e Sophie juntas (já que queria seguir a carreira do pai). Além de ser engraçadíssimo. Passar uma tarde de sábado com Julia e Tarris era provavelmente a única coisa que conseguia animá-la.
Sobretudo quando Sophie não conseguia parar de chorar.
Tarris e o Dr. Raphael Felton disseram que isso era absolutamente normal. Devido à grande mudança hormonal (ainda mais para ela, que era uma adolescente e “mãe de primeira viagem”), Sophie tendia a ficar muito mais emocional do que o comum. Era, mais ou menos, como se fosse uma TPM contínua e concentrada.
Mas Sophie suspeitava que sua gravidez não tinha muito a ver com o fato de ela ir dormir toda noite chorando, ou chorar mesmo toda vez que ficava sozinha sem se ocupar. Talvez a gravidez fosse culpada quando ela chorava por simplesmente não conseguir tocar uma fusa que a partitura que estava tentando reproduzir pedisse. Mas quando Sophie pensava em Luke, bem, ela sabia que choraria com ou sem bebê. O fato de estar longe dele e saber que ele provavelmente estava odiando-a nesse exato momento machucava. Doía de uma forma indescritível, e consequentemente enchia seus olhos castanhos de lágrimas.
Mas ela merecia.
Sophie também já havia feito uma porção de exames médicos e o bebê estava bem. Julia havia colado a primeira ecografia (que na verdade era apenas um borrão preto) na geladeira, mesmo depois de todos os protestos de Soph. Para dizer a verdade, logo mais Tarris apareceria para levá-las para a primeira ultrassonografia morfológica (a que se faz na vigésima semana, no intuito de saber se o bebê tem algum tipo de síndrome e, claro, saber o sexo).
Mas não antes de Sophie tomar o sorvete.
Claro que ela estava mais do que agradecida à Julia e Tarris por tudo o que eles estavam fazendo por ela. Juzy estava ajudando-a de todas as formas possíveis, mesmo que todo dia tentasse convencê-la a ficar com o bebê. E Tarris, já não parecia ajudar Sophie só por causa de Julia. Havia se tornado amigo dela também.
Claro que não da maneira que ele era amigo de Juzy. Vira e mexe era bem estranho ver os dois se agarrando, ainda mais quando eles não conseguiam passar um minuto sem mandar um ao outro à merda.
Acontece que Julia e Tarris mantinham uma espécie de amizade com benefícios bem esquisita. Assim que Sophie pôde ficar sozinha com ela, no primeiro dia que chegou à Inglaterra, Julia havia dito que Tarris havia se tornado seu melhor amigo ali pois sua história era muito parecida com a dela, com a diferença que a garota que ele amava teve de ir. Eles tinham ficado apenas uma vez antes de se conhecerem, e então Julia simplesmente o descartou como andara fazendo com todos os garotos. Até o dia em que Tarris apareceu em sua porta e brigou com ela por estar tratando-o mal quando ele nem sequer gostava mesmo dela. Julia brigou de volta, argumentando quase a mesma coisa, e então os dois começaram a chorar. Falaram e escutaram sobre as pessoas que amavam e sentiam saudade, e nesse mesmo dia, dormiram juntos.
Essa foi uma história bem esquisita para Sophie, ela confessava, e até mesmo o disse para Julia assim que ela terminou de relatar. Para a sua surpresa, a amiga concordou plenamente, mas disse que Tarris fora uma das melhores coisas que lhe acontecera na Inglaterra. Os dois passaram a conversar e desabafar um para o outro frequentemente, e aplacar um pouco da carência juntos. Criaram uma amizade colorida intensa e esquisita. Mas Julia não gostava dele, e nem ele gostava dela. Eles apenas... tentavam levar a vida enquanto a vida não os levava para as pessoas que amavam.
Mesmo que Julia houvesse ficado meio abalada por saber que Tarris era o único garoto com quem havia dormido depois de Nate. Obviamente ela não confessava isso, mas Sophie conseguia ver em seus olhos. Conhecia sua melhor amiga e sabia que ela sentia saudades como ninguém.
Ninguém além de, talvez, a própria Sophie.
— Você não tinha que estar em jejum para fazer o ultrassom? — Julia perguntou, deixando a sacola de mercadorias em cima da mesa de centro da cozinha pequena, mas não minúscula, do apartamento das duas.
— Não — Sophie respondeu, indo em direção à sacola e abrindo-a. Julia havia comprado um sorvete de morango e uma lata de morango em calda. Espertinha. — É o ultrassom, não o hemograma. Posso comer.
— Ah — Julia deu ombros, sentando-se à mesa. — Putz, estou cansada. Te contei que vou ter que começar a estagiar de graça depois do segundo módulo?
Sophie fez que sim com a cabeça, enquanto tentava abrir o pote de sorvete. Lacre do inferno.
— Você ainda tem seis meses sem estágio pela frente, relaxe — ela disse, fazendo um pouco mais de força.
Julia bufou e retirou o pote das mãos dela.
— Tudo bem — disse ela, abrindo o pote de uma vez e entregando-o a amiga. — Você diz pra eu relaxar por que tudo o que você faz é ficar tocando piano. — Sophie sorriu enquanto colocava uma porção de sorvete na tigelinha que havia escolhido. Julia abriu a lata de morangos. — Eu que tenho que estudar em outra cidade, logo terei que trabalhar de graça e ainda tenho que suprir os seus desejos de gravidez. Vou te contar, essa vida de pai é bem difícil.
Sophie gargalhou alto e colocou três morangos no sorvete. Por mais frio que estivesse fazendo ali naquela hora, sinceramente, aquele era o melhor sorvete que ela já havia tomado. Melhor talvez até do que o da sorveteria em frente à praça que havia em Franklin.
— Eu tô falando sério — disse Julia. — E me dá um pouco de sorvete por que eu também sou filha de Deus.
Sophie sorriu, entregando sua tigelinha para Julia, que tomou uma colherada.
— Tocar piano não é tão simples quando parece, se quer saber — Sophie disse, sorrindo. — E assim que esse bebê nascer eu vou começar a dar aulas, então pare de reclamar.
Julia fez que não com a cabeça.
— Eu sinceramente duvido — disse, retirando a colher da mão da amiga para tomar mais um pouco de sorvete. — Enfim, pronta para a primeira ultrassonografia... alguma-coisa-lógica?
— Morfológica — Sophie bufou, retirando a colher da mão de Julia que havia comido um morango inteiro de uma só vez. Por favor! — Você parece mesmo um pai, meu Deus. Tão atencioso quanto um homem.
— Você sabe que eu sou basicamente um garoto — ela deu ombros. — Só que garota.
Sophie semicerrou os olhos, claramente não entendendo a última frase da amiga. — Você não é... normal.
— E daí? — Julia tomou a tigela de Sophie de vez. — De qualquer forma, estou certa sobre o sexo do bebê. Será menino.
Sophie riu alto. Mesmo que soubesse que o bebê tecnicamente não era dela, estava mesmo bastante curiosa para saber o sexo dele, sobretudo quando Julia dizia que era menino desde o momento em que soubera da gravidez.
Pegou-se olhando para baixo mais uma vez. Sua barriga já estava aparente, nos seus cinco meses, mas quase não dava para notar se ela usasse seu casaco grosso, ainda mais nesse frio de janeiro. O aquecedor do apartamento lhe dava a liberdade de usar apenas um moletom. Sophie acariciou a barriga levemente. Você é menino ou menina? De qualquer forma, provavelmente vai ser um neném bem fofo, caso puxe o pai.
Sophie sorriu consigo mesma e levantou os olhos, vendo Julia acabar com o sorvete que supostamente seria dela. Já ia abrir a boca para protestar quando...
O bebê mexeu.
Sophie sentiu-se paralisar por completo, com a única exceção de sua barriga. Sentia pequenas pontadinhas, e... oras, não dava para explicar, ela apenas sabia que havia algo se mexendodentro dela. Levou a mão à barriga imediatamente, sentindo o neném (ou a neném), tanto dentro de si quanto em sua mão.
Seus olhos começaram a lacrimejar.
— Juzy... — ela murmurou, fazendo a amiga encará-la com uma linha de confusão desenhada no rosto. — Tá mexendo.
Julia gritou alguma coisa que Sophie não identificou e preferiu não identificar. O bebê estava mexendo! Dentro dela! Caramba, isso era tão surreal, e tão... emocionante! Meu Deus, havia uma vida se mexendo dentro dela! Ela estava... carregando uma criança ali.
Claro que Sophie sabia que estava grávida, mas... Deus, agora o bebê estava se mexendo! Dentro dela! Era como se finalmente a ficha houvesse caído. Até agora, de indícios que estava mesmo grávida, ela só tivera os enjoos terríveis, o sono durante o dia, a insônia durante a noite, os hormônios malucos... mas agora... agora o bebê estava se mexendo dentro dela. Isso era apenas tão... caramba, não dava para dizer!
Julia agora havia colocado a mão por dentro do moletom de Sophie. O bebê não havia parado de mexer, e um sorriso amplo havia nascido no rosto dela. Graças a Deus ela estava presente nesse momento! Só Julia sabia o quanto queria ver o bebê se mexendo pela primeira vez, e agora ele estava lá, chutando a barriga de Sophie e fazendo-a ficar com lágrimas nos olhos.
— Bom dia, moçada — elas escutaram a voz britânica de Tarris adentrar o lugar, vindo da sala. Ele tinha uma chave reserva do apartamento e entrava quando bem entendia.
— PÔNEI, CORRE AQUI, O BEBÊ TÁ MEXENDO! — Julia gritou tão alto que Sophie sentiu seus ouvidos ressoar. Gargalhou. Sim, Tarris, o bebê está mexendo! Dentro dela! Sophie não conseguia parar de sorrir. Isso era tão incrível.
Logo Tarris apareceu, atropelando tudo o que vinha pela frente. Tropeçou em uma cadeira e caiu de joelhos no chão, mas se levantou tão rápido quanto caiu. Sophie gargalhou quando ele empurrou Julia para colocar sua mão sobre a barriga dela.
— Dá um chute no irmãozinho, garotão — ele sussurrou, enquanto o ser que estava dentro da barriga de Sophie continuava a se mexer levemente. Quando sentiu a pequena pontada do bebê, ele apenas começou a sorrir assim como as meninas ali faziam. — Cara! Que bom que cheguei agora. Estava com um pressentimento de que...
— Cale a boca — Julia o interrompeu, tentando de todas as maneiras empurrar a mão dele da barriga de Sophie. — Você está estragando o momento.
Tarris pareceu não ligar e continuou com a mão sobre a barriga de Sophie até que as mexidinhas cessassem, poucos minutos depois. Estava elétrico, cara! Mesmo que soubesse do plano de Julia, oras, ele havia criado realmente uma ligação com Sophie. Além do mais, agora que finalmente começara sua faculdade, Tarris andava meio obcecado por tudo o que envolvesse um processo médico.
Após toda a euforia se dissipar e Tarris comer um ou dois morangos em calda, eles se dirigiram ao St. Mary’s Hospital, onde o Dr. Raphael Felton era um dos principais obstetras. A consulta estava marcada para as 14h e todos estavam meio curiosos para saber como seria. Tarris e Julia brigavam sempre que possível sobre o sexo do bebê, e a Prof. Camie (Sophie não se acostumara a chamá-la de outra forma), estava mais como Sophie: curiosa, mas sem arriscar um palpite.
A Prof. Camie e o Dr. Raphael eram mesmo pessoas incríveis, Sophie notara. Quanto mais os conhecia, mais gostava da ideia de que eles cuidariam do bebê. Soph não sabia se conseguiria deixá-lo em um orfanato. Achar duas pessoas que fossem experientes e tivessem a estrutura para criá-lo fora uma benção.
Mesmo que Julia discordasse.


[...]



Sinceramente, se Sophie tivesse mais de duas mãos agradaria mais, pois poderia apertar a mão de todas as pessoas que queriam segurá-la naquele momento. Enquanto Camie segurava sua mão esquerda, Tarris e Julia discutiam pela direita.
— Crianças — a face calma, porém segura do Dr. Raphael Felton fez com que Julia e Tarris se calassem no mesmo momento. — Estamos em um hospital. Façam silêncio.
Julia torceu os lábios.
— Sim, tio, desculpa — disse em tom de arrependimento, virando-se para Tarris logo depois e distribuindo tapinhas pelo seu ombro, murmurando um “cala a boca, moleque idiota”.
Sophie puxou sua mão direita e sorriu. Era melhor não criar nenhum motivo de discussão entre aqueles dois agora.
— Nervosa? — Camie perguntou à Sophie, que sorriu, sentindo um arrepio passar pelo seu corpo quando o Dr. Felton passou uma espécie de gel na parte inferior de sua barriga. Era gelado, extremamente gelado, e o Dr. Raphael passava sem nenhuma cerimônia.
— Na verdade... curiosa, eu acho — Sophie apenas deixou que as palavras saíssem de sua boca. Não sabia o que responder, na verdade, uma vez que a criança não seria direcionada a ela. Mais ou menos.
— Certo — o Dr. Felton terminou de passar o gelzinho e apertou alguns botões no aparelho do consultório branco, segurando uma espécie de radinho com a mão direita. Era incrível a forma que ele estava completamente confiante e profissional mesmo que soubesse que iria criar o bebê que estava prestes a ver pelas ondas sonoras que o aparelho transmitia. — Todos prontos para ver o garotão ou a garotinha?
— Por que o garoto tem que ser colocado no aumentativo e a garota no diminutivo? — Julia perguntou para o doutor, erguendo uma sobrancelha. Camie riu. — Isso é machismo.
— Não é — Tarris discordou e Sophie revirou os olhos. Eles iam começar de novo. — Garotão dá uma impressão de um garoto forte e saudável, hetero. Garotinha dá a impressão de uma garota saudável, mas ao mesmo tempo, sensível, meiga e bonita. Hetero.
Julia semicerrou os olhos.
— Eu não sou uma garotinha — disse, quase indignada. — Não sou sensível e muito menos meiga. E nem por isso sou homossexual.
Tarris ergueu uma sobrancelha, debochando.
— Sério mesmo? Ainda tenho minhas dúvidas...
Sophie viu o Dr. Felton sorrindo e ignorando o filho e sua amiga. Sinceramente, aqueles meninos tinham o dom de discutir por seja lá o que for.
Lentamente, Raphael encostou o aparelho de ultrassonografia na barriga da jovem garota que estava deitada sobre a maca do consultório obstetra do Hospital de St. Mary. Tarris e Julia, como se ouvissem novamente sua voz rígida, calaram-se imediatamente e se puseram a olhar o monitor que começou a produzir um borrão. O Dr. Felton sorriu de orelha a orelha.
— Ali está o neném — ele disse, ainda passando o aparelho pela barriga de Sophie. Esta, não conseguia desgrudar os olhos do monitor, sentindo um frio na boca do estômago, sem nem notar que um sorriso havia aflorado em sua face jovial. O aperto que sua professora de piano dava em sua mão ficou mais forte.
— Ele mexeu hoje — Sophie não notou quando as palavras saíram de sua boca, mas lembrou-se claramente da mesma emoção que sentiu no momento em que o bebê finalmente mostrara algum sinal de que estava ali, dentro dela, provocando todos aqueles hormônios esquisitos, alimentando-se e ficando pronto para vir ao mundo.
— Sério? — Camila perguntou, olhando nos olhos de Sophie. Seus globos castanhos vivos brilhavam com tanta intensidade que a garota se perguntou se ela estava com tanta vontade de chorar quanto a própria Sophie estava. — E como foi?
Sophie deixou com que seu sorriso ficasse maior.
— Foi... — ela respirou, pensando um pouco — ...mágico. Foi mágico.
Camie sorriu, sem largar a mão da jovem à sua frente.
— Posso imaginar — disse ela. — Minha gravidez do Tarris foi toda uma bênção. Mágico é um... ótimo adjetivo para a primeira vez que o bebê mexe.
— Eu não estava preocupado, mas o usual seria que o bebê tivesse começado a mexer no mês passado — Raphael disse, ainda passando o aparelho pela barriga de Sophie, com os olhos grudados no monitor. — E pelo que vejo, estou feliz em dizer que seu bebê está perfeito, Soph.
Sophie suspirou de alívio, mesmo que não estivesse pensando em nada de ruim pudesse acontecer com o bebê. Tinha lido um monte sobre isso na internet, e aparentemente, sua gravidez corria como qualquer outra. Apenas depois de ficar aliviada e sentir um calor invadir seu coração, Sophie refletiu sobre a frase do Doutor.
Seu bebê.
— Não será meu bebê, Doutor — ela murmurou, tentando manter o seu sorriso no rosto. — Será seu.
Raphael sorriu sinceramente outra vez, como se esperasse por aquilo. Olhou para Camie, que compartilhou de seu sorriso maroto e assentiu levemente com a cabeça.
— Pois bem, Soph — disse ele, retomando seu tom profissional e inegavelmente simpático. — Pode ver aquela dimensão um pouco mais esbranquiçada, meio oval? É a cabeça do bebê. Ali... fica o fêmur. O crescimento do fêmur, da cabeça e do osso da coxa, logo ali, está perfeitamente normal para um feto de vinte semanas. Sua placenta também está em uma ótima localização. Eu esperava que ela estivesse bloqueando o colo do útero, uma vez que você ainda é muito jovem, mas seu corpo está trabalhando perfeitamente. E o do bebê também.
— Legal, agora vamos ao que interessa — Julia disse, fazendo com que as pessoas ali rissem e Tarris murmurasse um “eu já sei”.
— Da última vez que fizemos a ecografia ele não estava numa boa posição. Mas agora eu consigo ver tranquilamente — Raphael sorriu novamente. — Acho que o garotão se mexeu para nós.
Sophie não se preocupou em conter a risada que escapou de sua garganta, enquanto escutou Julia gritando “eu sabia!”. Mas mesmo que sua risada houvesse ecoado como uma demonstração de alegria, para ela, também havia uma grande parcela de mágoa. Subitamente passou pela sua cabeça todas as vezes em que ela e Luke fizeram planos sobre como criariam ou qual seriam os nomes de seus futuros filhos. Subitamente passou pela sua cabeça todas as vezes que ela vira uma gravidez acontecendo e a felicidade de uma mãe quando sabia o sexo do seu bebê. Sarah, por exemplo, falou para tantas pessoas que Adam era um menino que o blog da Paris Hilton soube disso antes de Hayley. Lilian, por sua vez, quando soube que Jodie era menina, comprara todo o enxoval de uma vez, em tons de rosa bebê e branco, além de ter deixado todos os seus alunos saberem disso no dia seguinte. Sophie se lembrou de todas as crianças pequenas que conhecia. Adam, Jodie, Claire, Erich, os mais próximos. Lembrou-se de Henry, o garotinho do avião que era parecidíssimo com Luke e que se mostrara a pessoa mais atenciosa que ela já vira. Sua mãe não devia ter mais de vinte e quatro anos. Como será que se sentira quando descobrira que Henry era um menino?
Independente da sensação que passava por Sophie agora, não deveria passar. Ela podia estar gerando o bebê, mas não o criaria. Não era a mãe dele.
Por isso ficou calada conforme o Dr. Felton continuava fazendo o resto da ultrassonografia. Como era a primeira vez que eles faziam a morfológica, Raphael continuou examinando por uns bons vinte minutos. Conversava com Tarris sobre alguns assuntos que as demais pessoas ali não entendiam bem, sorria simpaticamente, falava com Sophie e com Camie e, mais frequentemente, pedia silêncio para Julia e Tarris, que agora estavam discutindo sobre Julia ter tido razão em relação ao sexo do bebê. Finalmente, Raphael pediu para que eles saíssem da sala, o que fez Sophie sorrir. Eles estavam realmente insuportáveis.
— Sabe, Soph — Camie começou a dizer, assim que o exame acabou e Sophie limpava sua barriga com algumas toalhas de papel. — Eu e Raphael chegamos a um consenso.
O Dr. Felton sorriu e assentiu muito levemente com a cabeça.
— Estávamos pensando sobre... — ele começou, retirando suas luvas — ...o nome do bebê.
— Decidimos que se fosse menina, nós escolheríamos — Camila retomou. — Natalie. Sempre fui apaixonada por esse nome. — A mulher riu, segurando uma mão na outra. Parecia mais do que feliz e, apesar de tudo, tranquila. — Mas já que você está esperando um menininho... bem, nós pensamos que você poderia escolher o nome.
Certo, Sophie havia sido pega de surpresa. Ela ergueu as sobrancelhas, encarando as pessoas a sua frente, o rosto sereno do Dr. Raphael e os olhos hipnotizantes de Camie, depositando total confiança nela. Nem sequer havia pensado nisso, e era uma escolha que necessitava de tanto tempo... e essa seria uma tarefa dos Srs. Felton, não? Eles criariam o bebê, portanto eles deveriam escolher o nome, mesmo que não fosse uma menina, não é? Sim, é verdade. Mas quando Sophie abriu a boca para dizer que não poderia fazer isso, ela... subitamente sentiu uma vontade de não o fazer. Uma vontade de contribuir em alguma coisa para o bebê em seja lá o que for. Queria fazer a diferença na vida dele, mesmo que soubesse que isso não era certo, e que ela não deveria sentir esse tipo de coisa. Mas agora ela tinha a oportunidade. Agora... ela tinha a oportunidade de fazer uma diferença. Uma, apenas.
Foi por isso que ela sorriu melancolicamente e disse, não muito alto:
— Henry Lucas — sua voz saiu mais rouca do que ela planejava e Sophie precisou pigarrear. Engoliu seco. — Henry Lucas é o nome que eu daria para ele.


[...]


15 de maio, 18h42min.
Tarris dirigia como louco e sentia o suor frio escorrer pela sua nuca. Respirava freneticamente, segurava o volante com o triplo da força necessária, pegava todos os atalhos possíveis para poder chegar ao hospital. Droga de trânsito. Era uma terça-feira, por que as pessoas não estavam em suas devidas casas ao invés de estarem em seus carros, nas ruas, tumultuando-as? Sinceramente, Tarris já tivera que dirigir de Oxford até Londres, uma viagem que geralmente levaria 56min, em meia hora. E agora as pistas de Londres estavam tumultuadas. Justamente quando ele mais precisava que elas estivessem vazias. Ele murmurou um xingamento e escutou Sophie gritando no banco de trás, fazendo com que os pelos de sua nuca se arrepiassem. Merda!
— Quanto tempo? — perguntou ele, sua voz desgastada e desigual.
— Cinco minutos! Corre, Tarris! — ele escutou a voz de Julia quase tão medrosa quanto a dele. Também era excepcionalmente audível o ofegar de Sophie, o que apenas lhe dava mais medo.
Graças a Deus o trânsito abriu. Tarris conseguiu sair do engarrafamento e não se importou com os sinais vermelhos que passou, ou as placas que ultrapassou o limite delimitado. Droga, que se dane! Sua amiga estava quase entrando em trabalho de parto!
Tarris olhou no relógio do painel do carro. 18h47min. Como mágica, escutou Sophie gritar novamente, quase sem conseguir aguentar as contrações. Caramba, se ele soubesse que seria hoje, não teria ido à faculdade. Ela já deveria estar no hospital há, no mínimo, duas horas!
Tudo bem, Tarris, se acalme. Entrar em pânico não vai ajudar em nada, essa era uma lição valiosa que ele escutava quase todos os dias em sua faculdade ou mesmo de seu pai. Só precisava ficar calmo, tudo correria bem. Fique calmo e dirija o mais rápido que puder.
Sophie gritou outra vez.
— Estamos quase lá! — ele gritou, sem se arriscar a olhar para trás. Não queria ver o rosto de Julia transbordando medo ou o de Sophie, chorando de dor. Pisou fundo no acelerador quando achou uma pista tecnicamente vazia e, finalmente, avistou o edifício enorme do hospital. Já havia ligado para Raphael, que na realidade estava se arrumando para encerrar seu plantão. Obviamente ele decidiu ficar no hospital. Mesmo depois de trinta e seis horas de trabalho contínuo.
No mesmo momento em que o carro de Tarris parou no estacionamento do hospital, ele puxou o freio de mão com toda a força que tinha e saiu correndo do carro, gritando para Julia que iria buscar a cadeira de rodas.
Sophie gritou de dor mais uma vez, e Julia olhou para o celular que estava em sua mão, melado de suor frio. Três minutos de intervalo entre as contrações. Merda, a bolsa dela já ia estourar! Tarris precisava chegar muito rápido, ela teria de ir diretamente à sala de parto, com certeza. Julia apertou a mão da amiga, que estava praticamente deitada em seu colo e deixou um beijo no topo de sua cabeça, murmurando para ela ser forte.
Sophie não respondeu, mesmo que houvesse escutado. Estava doendo tanto! Não se lembrava de sentir absolutamente nada parecido. Sua barriga se endurecia e ela sentia como se fosse desmaiar, não conseguia conter os gritos que saíam de sua garganta, por que a dor era demais. Não havia nada pior, ela tinha certeza disso. Não havia nada com que comparar, nem mesmo as suas piores crises de cólica. Talvez, sim, mas multiplicado por mil.
— Henry quer sair — Julia murmurou, deixando um sorrisinho escapar em seguida. — Se acalme, pequeno Lucas, você já vem ao mundo.
No mesmo momento em que a barriga de Sophie endureceu novamente e a dor insuportável da contração se fez, Tarris abriu a porta de trás de seu próprio carro. Seguido de duas enfermeiras, ele estava com uma cadeira de rodas, uma vez que Sophie não conseguia mais andar. Fala sério, ela mal conseguia pensar! A dor estava tão terrível! Julia saiu do carro e Tarris pegou-a no colo, colocando-a sobre a cadeira de rodas logo depois.
Sophie, com a mão sobre a barriga, apenas sentiu que estava sendo levada para dentro do hospital. Sua cabeça rondava, sua barriga doía tanto, seu corpo estava domado pelo medo. E se algo desse errado?
Procurou Julia com os olhos, mas ela já não seguia mais a cadeira de rodas. Droga, onde estava Julia? Ela precisava... de alguém conhecido ali. Onde estava Tarris? Também não seguia mais a cadeira de rodas, ela estava sendo levada por duas enfermeiras estranhas. Sentiu outra contração e gritou. Mas dessa vez, ela também sentiu um líquido saindo.
Sua bolsa estourara.
Sophie entrou em pânico, sentindo a dor dessa contração mais forte ainda do que era antes. Agarrou-se ao encosto da cadeira de rodas e apertou com toda a força que tinha, gemendo, gritando tamanha era a dor que se dava em sua barriga. As enfermeiras diziam alguma coisa que Sophie não escutou, e apenas perguntou onde estavam Tarris e Julia. Não ouviu resposta, e sentiu uma outra contração em seguida. Não havia se passado nem sequer um minuto dessa vez! Sophie sentiu as lágrimas saírem de seus olhos enquanto gritava e gemia, agarrava a cadeira, quase desmaiava com a dor indescritível que se fazia em sua barriga. Sua cadeira de rodas foi levada a uma das tantas salas do Hospital de St. Mary e Sophie mal notou quando as duas enfermeiras retiraram suas roupas e a vestiram com a roupa própria do hospital. Outra contração, outro grito. Subitamente Sophie sentiu mais ainda a necessidade de ter alguém conhecido ao seu lado agora. Melhor, ela queria sua mãe ao seu lado agora. Queria que ela estivesse ali, apertando sua mão, transmitindo toda a sua inegável confiança para ela, dizendo que tudo iria ficar bem. Queria Hayley agora. Mais do que jamais quisera em sua vida.
Ela foi colocada de volta na cadeira de rodas, que logo entrou em uma sala branca, completamente equipada com aparelhos que ela não perdeu tempo prestando atenção. Vários enfermeiros já estavam lá e ela reconheceu os olhos de Tarris por detrás de uma máscara, ficando imediatamente aliviada. O Dr. Raphael, sem o seu sorriso calmo, ajudou-a a se deitar em uma maca própria para o parto no mesmo momento em que outra contração veio. Uma das enfermeiras que a acompanhou gritou “trinta segundos” para o Doutor, que demonstrou preocupação.
— Por que não a trouxe antes? — ele quase bronqueou Tarris, que estava ao seu lado.
— Ela só me ligou quando a contração vinha de hora em hora! — ele disse, meio desesperado também, mas respirou fundo, tentando manter a calma.
Raphael fez que sim com a cabeça, enquanto uma enfermeira aproximou-se dele com uma seringa.
— Escute, Soph, eu vou aplicar a anestesia agora, certo? — ele perguntou, mas já injetando o líquido em Sophie, que gemeu de dor. Segurou nas duas barras que a maca apresentava, as lágrimas causadas pela contração ainda saindo pelos seus olhos.
Estava na hora. Sophie sentia que se fizesse força, Henry sairia. Estava na hora. A contração já era tão forte que era apenas impossível ela aguentar durante muito tempo. Não estava dando mais.
— Eu não aguento mais, Raphael — ela gritou com sua voz chorosa, segurando-se a maca. — Não dá!
— Vinte segundos — a enfermeira que estava ao lado de Sophie disse para o Dr. Felton, que assentiu levemente com a cabeça e fez um gesto com suas mãos enluvadas para que outra enfermeira se aproximasse.
— Vou fazer um pequeno corte no canal — ele disse para Sophie, calmo — para facilitar a saída do bebê. Não se preocupe, não vai doer, já apliquei a anestesia, certo? Seja forte.
Mas doeu.
Sophie não sabia que tipo de anestesia havia sido aplicada, mas de qualquer forma, não deu tempo para que ela reagisse. Ela sentiu o bisturi e sentiu o corte, o que a fez chorar e gritar de dor mais uma vez. As contrações estavam cada vez mais frequentes e ela já estava tão exausta. Não aguentava mais. Não queria mais. Queria acabar logo com aquilo, meu Deus, era dor demais. Era dor demais.
— Soph, agora olha pra mim — disse o Dr. Raphael Felton, encarando-a nos olhos —, você vai respirar fundo, e quando a contração vier, faz força para baixo. Certo? Toda a força que você puder.
Sophie não conseguiu assentir com a cabeça e escutou a voz de Tarris com um “fica tranquila, gatinha, você já vai sair dessa” antes de uma contração acontecer.
Não teve tempo para pensar. Agarrou-se as barras e fez toda a força que pôde, gritando mais alto do que jamais havia gritado em sua vida, sentindo a dor se apoderar de todo o seu corpo de uma maneira avassaladora e indescritível. Suava completamente, chorava, gritava, berrava, fazendo toda a força que podia. A contração acabou, e o bebê não havia nascido.
— Certo — Raphael disse —, vamos, Soph, faça força! Agora é com você, seja forte! Na próxima contração, faça força, toda a força que puder, ok? Respire! Vamos!
Mais uma contração. Mais dor. Mais força.
Sophie fez toda a força que pôde para baixo, a dor da contração tomando conta dela, as lágrimas escorrendo de seus olhos, os berros ecoando pela sua garganta.
— Já estou vendo o cabelinho dele! — Raphael gritou, e mesmo que estivesse com a máscara no rosto, Sophie soube que ele estava sorrindo. — Vamos, querida, força!
Dessa vez, a contração veio seguida de outra. Simplesmente parecia que não houvera intervalos. Sophie gritou com o triplo da energia que tinha e, com suas mãos brancas e exaustas, agarrou as barras. Colocou toda a força que havia em seu corpo para baixo.
E estão escutou um choro.
Sentindo um alívio apoderar-se dela, Sophie não parou de chorar. Deixou todos os seus músculos relaxarem sobre a maca, chorando, sentindo o aperto da mão de Tarris que murmurava que já havia acabado, como se estivesse consolando uma criança que acabara de ter um pesadelo.
Mas não era um pesadelo. Era um milagre divino. Mais uma vida que a Terra ganhava.
Henry Lucas, o filho de Luke e Sophie, havia nascido. Numa terça-feira, 15 de maio, às 19h45min.
O Doutor Raphael cortara o cordão umbilical e agora segurava um pequeno ser, completamente ensanguentado, entre algumas toalhas brancas.
— Quer ver o meninão? — ele perguntou para Sophie, que chorando, fez que não com a cabeça.
Já havia conversado sobre isso anteriormente com o Doutor Felton. Sophie não podia vê-lo. Não queria ver e olhar para o rostinho do garoto que... afinal, ela iria praticamente abandonar. Não sabia se era capaz.
Não sabia se seria capaz de deixá-lo ir caso o visse.
Por isso ela virou o rosto, incapaz de falar qualquer coisa, deixando as lágrimas saírem tranquilamente de seus olhos. Acompanhado do alívio que sentia por não haver mais dor, ela sentia uma grande tristeza por ter passado por aquilo, afinal. Tristeza por ver o garoto que ela carregara por nove meses na barriga, saindo daquela sala nos braços de uma enfermeira. Tristeza por saber que aquela era a última vez que o veria. Seu filho, filho de Luke, saía por aquelas portas para longe de seus verdadeiros pais.
Mas era isso o que ela queria.
O médico, Dr. Raphael Felton, dissera a Sophie que ela teria de ficar no hospital durante três dias, internada, para recuperar-se do parto. Eram regras. Ela precisava se recuperar dos pontos que havia levado e precisava, acima de tudo, descansar, pois o ato de dar à luz havia tomado toda a sua energia. E ainda havia o fato de ela ser muito nova, é claro.
Sophie adormeceu assim que parou de chorar, depois de tomar banho e ser levada para uma outra sala. Tarris, que a acompanhara, explicou o que Julia não estava com ela na hora do parto por que já estava descontrolada o suficiente quando chegou ao hospital. Provavelmente, quando visse todo o sangue e todo o desespero de Sophie desmaiaria, e tudo o que eles menos precisavam era de outro paciente. Como Sophie não poderia receber visitas ainda naquele dia, ela deixou-se adormecer depois de pensar em tudo. Sua família em Nashville, seus amigos, Luke, Raphael e Camila, Tarris e Julia e, por fim, Henry. O pequeno Henry. O filho que ela gerara, mas que não seria dela.


Acordou no dia seguinte apenas para tomar os remédios anti-inflamatórios e o café da manhã que a enfermeira lhe havia trazido, mas não conseguiu dormir depois disso. Mesmo que já estivesse praticamente “livre”, sua cabeça continuava cheia. Cheia de culpa, cheia de incerteza, cheia de mágoa, cheia de saudade, cheia de raiva dela mesma. Cheia de tudo.
Julia apareceu logo depois, trazendo uma caixa de bombons de licor (uma vez que Sophie não ingerira álcool quando estava grávida). Parecia imensamente tranquila e fez Sophie rir algumas vezes. Nem parecia a mesma pessoa que tantas vezes a olhou com reprovação, dizendo “se eu não fosse tão egoísta e quisesse você aqui, eu ligaria para o Luke e para Hayley agora mesmo”.
Depois Tarris e Camie apareceram. Com certeza, Tarris parecia muito mais com a mãe do que com o pai, uma vez que o Dr. Raphael era uma das pessoas mais calmas que ela já havia conhecido. Diferente de Julia, que abordara um monte de assuntos cotidianos, eles passaram a maior parte do tempo falando sobre o bebê. Dizendo que ele era o mais bonito do berçário inteiro, que quase não chorava e era muito calmo, que era extremamente fofo e que não parava de sorrir, que as enfermeiras estavam superapaixonadas por ele.
E ao mesmo tempo que Sophie gostava de saber as notícias sobre Henry e sua primeira aventura no berçário, ela não gostava. Sentia-se como se estivesse quebrando uma regra, afeiçoando-se ao bebê (mesmo sem o ver). Tarris e Camie tinham o direito de ficarem animados com o nascimento de Henry. Lógico, afinal, Camie seria sua mãe e Tarris seria seu irmão. Mas Sophie...
Sophie não seria nada para ele. Apenas a mulher que o abandonou.
Quando mãe e filho saíram do seu quarto, ela estava exausta. Sentia-se mais do que mal. Sentia-se suja por estar fazendo tudo aquilo. Sentia-se horrível por estar realmente abandonando o seu filho. Ela não deveria fazer isso. Não deveria.
— Soph? — ela ouviu a voz do Dr. Felton e secou imediatamente a lágrima que havia escorrido de seus olhos. Em seu rosto moreno, havia aquele mesmo sorriso sincero e sereno de sempre. — Como está?
Sophie tentou sorrir.
— Me sinto bem — ela disse, mentindo, em parte. — Bem melhor do que ontem. Nunca senti tanta dor.
— É natural — Raphael assentiu. — Mas tudo correu perfeitamente bem. Henry nasceu com 52 cm de altura e pesa 3,500kg. É um garotão enorme e muito forte.
Sophie não conseguiu conter a lágrima que saiu de seus olhos, e nem o sorriso que aflorou em sua face. Mas não respondeu.
— A questão, Soph — continuou Raphael —, é que ele precisa ser amamentado. E o estoque do banco de leite está no vermelho.
Sophie sentiu um arrepio correr por toda a sua espinha. O que o Dr. Felton queria dizer...
— Eu não posso retirar leite de outras crianças e dar a Henry, quando a mãe dele está logo aqui, pronta para amamentá-lo — continuou o médico, segurando suas próprias mãos.
— Mas nós já conversamos sobre isso, Dr... — Sophie olhou para baixo, procurando sua própria voz para dizer tudo aquilo. — Eu... não posso... não posso vê-lo. Não quero.
Para a sua surpresa, Raphael sorriu.
— Mas você não quer que nada de mal aconteça a ele, certo? — perguntou ele, e Sophie negou imediatamente com a cabeça. — Só você tem o leite para ele, Sophie. Se não for você, ele não será alimentado. Estará, portanto, aberto a doenças... e bebês recém-nascidos são muito frágeis. Se ele não receber os devidos cuidados, pode não sobreviver.
Sophie sentiu o sangue fugir de seu rosto e suas mãos ficaram geladas. Raphael estava brincando, não estava? Henry não corria esse risco, corria? Não podia ser, oras, ele acabara de dizer que Henry nasceu maior do que o normal e era um garoto forte. Não... podia ser!
— Só você pode amamentar essa criança, Soph — Raphael se levantou da cadeira onde havia se sentado. — Posso mandar a enfermeira trazê-lo?
Olhando para as próprias mãos, Sophie assentiu com a cabeça. Viu Raphael sorrindo antes de sair do quarto.
Sophie não queria vê-lo. Não sabia o que faria se o visse. E mais, nem sabia como se amamentava uma criança! Sophie era completamente inexperiente e não tinha o mínimo de noção quando o assunto era cuidar de um bebê. Tudo bem, ela perdeu as contas de quantas vezes cuidou de Jodie ou de Claire, mas o assunto era outro quando filho não era dela. E ela nunca precisou amamentarninguém.
A porta se abriu, revelando uma enfermeira com um rosto simpático, carregando um bebê completamente embrulhado por uma manta azul. Sophie não conseguia vê-lo e se sentiu um pouco aliviada por isso.


(PlayNOW: Só Agora - Pitty)


— Vamos mamar, bebê? — ela afinou a voz para conversar com o bebê, que não emitia nenhum som sequer. Direcionou seus olhos para Sophie e sorriu de orelha a orelha, transmitindo para Sophie uma confiança que ela não sentia há muito tempo. Aproximou-se, inclinando o embrulhozinho azul para Sophie.
Seu coração disparou.
— Eu não... sei como segurá-lo — ela disse quando a enfermeira chegou até ela. Devagar, a mulher colocou o bebê em seu colo.
— Sabe sim — disse ela. — Toda mãe sabe.
Sophie, ainda com o coração batendo mais forte do que nunca, apoiou a cabeça do bebê em um braço e segurou suas costas com o outro. Sentiu sua mãozinha, tão pequena, agarrar seu colo, e então ela evitou olhar para seu rosto. Sua respiração estava desregulada, suas mãos tremiam e suavam, e ela não sabia o que fazer.
— Ele já sabe o que fazer — disse a enfermeira, sorrindo simpaticamente. — Apenas direcione a mama à boquinha dele.
Sophie assentiu com a cabeça e o fez da melhor maneira que pôde, o que ainda assim pareceu extremamente desajeitado. A enfermeira sorriu de orelha a orelha e disse que ela estava indo muito bem.
Então Henry começou a sugar, amamentando-se. Sua mãozinha, que antes estava no colo de Sophie, agora segurava sua mama, tranquilamente. Meu Deus, ele era tão pequeno, tão novinho, tão inocente. Já sabia exatamente o que fazer para se alimentar e parecia tão bem, tão em paz.
Sophie não olhou para o seu rosto. Não sabia por que estava fazendo isso, mas sentia que precisava evitá-lo. Não é seu filho, ela repetiu para si mesma em pensamento. Não podia olhá-lo. Não podia.
— Vou deixar vocês a sós — disse a enfermeira, sorrindo. — Volto em alguns minutos.
Então ela saiu porta afora, deixando uma Sophie extremamente confusa e cheia de medo, e um bebê alimentando-se sem ter a mínima consciência do mundo em que acabara de nascer.
Sophie continuava sentindo o líquido sendo retirado de sua mama. A mão tão pequenina vez ou outra mudava de posição, mas não saía dali, como se o pequeno menino quisesse segurar sua mãe até que se sentisse completamente satisfeito.
Não olhe para o rosto dele. Não olhe para o rosto dele.
Mas Sophie olhou. Foi mais forte do que ela. Ela precisou olhar para Henry, e não conseguiu conter as lágrimas que saíram de seus olhos assim que ela viu seu rostinho perfeito. Suas bochechas tão rosadas e seus lábios fininhos e rosadinhos, mamando, tão tranquilamente. Seu cabelinho castanho ondulado, exatamente como os de Luke, apenas era mais bonitinho. Sua sobrancelhinha tão bem moldada, da mesma cor de seu cabelo, logo acima de seus olhos que agora estavam fechados e seus cílios enormes. Seu nariz, pequeno e bem feito, era como se houvesse sido perfeitamente moldado para aquele rostinho de anjo.
Meu Deus. Henry era o bebê mais lindo que Sophie já vira em toda a sua vida.



Baby, tanto a aprender. Meu colo alimenta você e a mim.
Deixa eu mimar você, adorar você.
Agora, só agora.
Porque um dia eu sei, vou ter que deixá-lo ir.



A mão que antes segurava as costas do bebê se direcionou até sua bochecha. Sophie acariciou o rosto de Henry levemente, tentando controlar os seus soluços, sentindo seu coração inundar de todo tipo de sentimento que possa existir. Mas dentre eles, o que mais se destacava era a paz. A paz que a inocência daquele bebê transmitia a ela. A paz que ela sentia enquanto ele estava em seus braços, amamentando-se, fazendo a mais simples das tarefas que um bebê pode fazer, tão inocentemente. Henry estava em seus braços e Sophie se sentia... completa. Como se tivesse achado seu lugar no mundo.
Seus cabelos fininhos estavam emaranhados. Sorrindo e chorando ao mesmo tempo, Sophie passou os dedos pela sua cabecinha tão pequena e frágil, alinhando seu cabelinho desorganizado num mesmo sentido. O aperto leve que a mãozinha de Henry em sua mama ficou pouca coisa mais forte, e então ele abriu os olhos.
Sophie não conteve seu soluço quando Henry a encarou com aqueles olhos perfeitamente azuis como o céu limpo de verão e o mar. Azuis como... os olhos de Luke. Exatamente como os olhos de Luke.
Então a boquinha de Henry se curvou em um sorriso simples e sincero, mesmo que ele ainda estivesse mamando.
Olhando-a com os olhos mais perfeitos do mundo, Henry sorriu para sua mãe. Sua verdadeira mãe. Como se quisesse dizer a ela que estava feliz por estar ali.
— Belos olhos — Sophie disse, acompanhado de um soluço, enquanto Henry ainda sorria para ela e mamava ao mesmo tempo. — Você é o bebê mais lindo do mundo, sabia? — ela disse, limpando um bocado de suas próprias lágrimas. Ela riu, vendo o pequeno Henry Lucas se concentrar em se alimentar do leite que ainda havia em sua mama. Mas agora, mesmo que ele estivesse mamando com mais força do que antes, não quebrara o contato visual. Seus olhinhos azuis e perfeitos continuavam encarando Sophie, com tanta intensidade e calma que era simplesmente impossível... não se apaixonar.
Droga, o que ela estava fazendo? Henry era dela! Era o filho dela! Apenas dela, caramba, ela... não podia deixá-lo ir. Não podia entregá-lo para ninguém. Sophie era sua mãe, Sophie deveria criá-lo, por que apenas Sophie o amava com tanta intensidade.
Sophie o amava. Sophie amava Henry, seu bebê, de um modo que nunca havia amado nada antes em sua vida, e ela sempre soubera disso. Sabia disso enquanto estava grávida e sabia disso quando não quisera olhar para seu rosto, tão perfeito, tão inocente, tão jovial. Henry Lucas era filho de Sophie e de mais ninguém.
Ela não podia deixá-lo ir. Ela não iria deixá-lo ir.
— Me desculpa — ela sussurrou, entre seu choro copioso, segurando-o com mais força do que segurava antes. — Me desculpa por ter pensado nessa ideia maluca de não criar você, tá? Eu vou cuidar de você, Henry. Eu não vou te deixar. Eu vou dar tudo para que você seja feliz e para que não te falte nada. Eu prometo, meu bebê. — Ela deixou as lágrimas caírem de seus olhos, e Henry a olhou novamente, sem o seu sorriso tão lindo e acolhedor. Parara de mamar. Parecia quase preocupado. — Me desculpa — ela murmurou novamente. — Eu te amo, tá? Vou cuidar de você.
Os olhos de Henry começaram a encher-se de lágrimas também, e não demorou nada para que ele começasse a chorar. Um choro fino e agudo, o mesmo que ela ouvira no dia anterior, quando ele nascera. Sophie apertou-o contra si e forçou-se a engolir suas próprias lágrimas, balançando-o em seu colo, até que seu choro breve se cessasse. Ele bocejou e fechou seus olhinhos, adormecendo tão rapidamente que era quase impossível de se acreditar.
Sophie continuou chorando em silêncio, com o filho em seus braços. Seu filho. Seu.



Sabe, serei seu lar se quiser. Sem pressa, do jeito que tem que ser.
O que mais posso fazer? Só te olhar dormir.

Agora, só agora.
Correndo pelo campo, antes de deixá-lo ir.

Muda a estação... Necessários são.
Você a florescer... Calmamente, lindamente.


Ela parou de chorar não muito depois. Sophie não sabia como conseguira manter a ideia boba de dá-lo a alguém. Agora... simplesmente parecia tão simples. Ele era o filho dela, e Sophie iriasim fazer de suas tripas coração para que ele crescesse como uma criança feliz. Mesmo que o fizesse sozinha, sim, ela conseguiria. Daria um jeito. Sempre havia um jeito.
O que ela não faria era abandoná-lo.
A porta se abriu e Sophie sentiu seu coração se apertar. Não, ela não estava pronta para separar-se dele agora. Não podia se separar de seu filho agora! Precisava de mais um tempo, apenas mais um pouco, com ele. Não iria dá-lo a ninguém. Não iria separar-se dele.
— Soph? — ela viu o rosto do Dr. Raphael, extremamente calmo como sempre. Só que agora ele parecia mais feliz. — Como vão as coisas?
— Eu não posso — Sophie disparou. — Não posso, Raphael, não posso... me desculpe, eu não posso... não posso deixá-lo com você. Você e Camie. Me desculpe, eu não posso, ele... ele é meu filho. Eu não posso deixá-lo. Ele...
— Sophie, se acalme — o Dr. Felton continuava com seu sorriso no rosto, quase se divertindo. — Tudo bem, ele é mesmo seu. Não precisa se desculpar, querida, Henry sempre foi seu. Desde o início.
Sophie encarou seu médico com os olhos marejados e confusos. Raphael riu.
— Você é uma boa garota, Soph — ele foi dizendo, sentando-se na poltrona de frente para a maca em que ela estava sentada. — Eu soube disso assim que te vi. E melhor do que eu, Julia sempre soube disso. Ela sempre soube que você não iria conseguir dar Henry para adoção — ele explicava tão calmamente, mas o baque em Sophie era como se fosse um soco na cara. Julia. — Por isso ela me pediu ajuda. Para mim, Tarris e Camie. Por que ela sabia que você não conseguiria se separar de seu próprio filho, e só precisava de uns coadjuvantes. Portanto, não se preocupe. Henry é seu filhinho. Sempre foi. — O Doutor Felton se levantou, ainda encarando Sophie com o melhor dos sorrisos no rosto. — Gostaria de ficar mais um tempinho com ele?
Sophie, com os olhos lacrimejando, assentiu:
— Sim, sim, por favor. E obrigada.
Raphael sorriu antes de sair porta afora, deixando uma jovem mãe apaixonada pelo seu filho extremamente confusa e agradecida. Apenas Julia poderia pensar uma coisa dessas.
Sophie sorriu, limpando o resto das lágrimas e voltando a atenção para Henry que estava em seus braços. Seu bebê. O pequeno Henry Lucas Farro. Filhinho de Sophie.



Mesmo quando eu não mais estiver, lembre que me ouviu dizer.
O quanto me importei. E o que eu senti.

Agora, só agora.
Talvez você perceba, que eu nunca vou deixá-lo ir. Que eu nunca vou deixá-lo ir.
Eu não vou deixá-lo ir. 

Capítulo 51

Runaway with my love!



Com os olhos ainda marejados, ela sentou-se na larga poltrona, indiferente às pessoas que ao seu redor faziam o mesmo. Em suas mãos, havia apenas uma pequena mala, a única coisa que ela decidiu que precisava levar consigo. Escutou o som nada importante de uma mulher qualquer dizendo-a para apertar o cinto de segurança e o fez automaticamente, com cuidado para não deixar a mala cair. Não queria guardá-la no recipiente acima de si. Queria, precisava levá-la em seu colo, consigo, a todo tempo. Era sua última lembrança dele.
Não se importou em secar uma lágrima que desceu pela sua bochecha e fungou levemente. Afinal, o que era apenas uma lágrima dentre tantas que já haviam sido derramadas ao longo daqueles três dias? Ora. Era como secar apenas uma gota d’água de alguém que já estava completamente molhado. Uma lágrima, aquela lágrima, que havia saído dos olhos dela, já não tinha a mínima importância. Não depois dos três dias mais confusos, tristes, terríveis e culposos de seus dezessete anos de vida.
Dezessete anos, esses, que ela completava hoje. Vinte e sete de agosto. E ao invés de estar em casa, comemorando com seus familiares e atendendo todas as ligações de seu namorado, ela estava sentada e amarrada a uma poltrona de um avião.
Um avião com destino à Londres.
Sophie recostou a cabeça e apertou as mãos contra a barriga quando o avião decolou. Pegou-se encarando sua barriga pela, sei lá, ducentésima vez, logo depois. Havia uma criança ali.Mesmo que a ficha já tivesse caído, mesmo que ela já estivesse ciente de tudo o que havia feito e estava fazendo, ainda era tão difícil de aceitar... Tão difícil de aceitar e entender que um bebê estava dentro dela agora. Não havia como negar, Sophie estava com medo. Não com medo da reação das pessoas, uma vez que ela estava indo para longe de todas as que importavam, mas com medo de... bom, ela não sabia bem de quê. Talvez de alguém descobrir, ou de seu corpo jovem não estar preparado o suficiente para gerar uma criança agora. Tantos medos. Tantas coisas.
Mas apesar de tudo, Sophie sentia que estava fazendo o que deveria fazer. Mesmo carregando toda a culpa e as palavras de desgosto de Nate, de Danna, e de Jenny. Mesmo separando-se mais uma vez da sua família. Mesmo tendo visto, ainda há pouco, o rosto choroso de Joe dizendo que iria morrer de saudades. Mesmo vendo Hayley se controlando para não chorar também, e mesmo depois de ter abraçado Josh o mais forte que já havia abraçado em sua vida. Ainda assim ela sentia estar fazendo a coisa certa. Mesmo que para isso, ela precisasse ser tachada de egoísta e insensível. Preferia fazer com que todos ficassem com raiva dela do que arruinar suas vidas.
Lembrou-se de Danna mais uma vez. Lembrou-se da conversa que tivera com ela, e da cara surpresa que ela fez quando Sophie disse que não iria criar o bebê.
— Você... vai... abortar? — era o que Danna havia perguntado em voz baixa, pasma, ainda sem acreditar nas palavras da irmã. Simplesmente parecia que não esperava por aquelas palavras.
Sophie fez que não levemente, deixando-se suspirar.
— Não consigo — ela ainda negava com a cabeça, a voz completamente rouca e perdida. — Não consigo. — Ela repetiu, tentando impor melhor sua voz, mas ela apenas pareceu mais chorosa. Seus olhos já marejavam novamente.
Danna, por sua vez, mesmo que estivesse completamente paralisada, deixou que uma linha de preocupação se fizesse em seu rosto preocupado.
— Então...? — ela deixou a pergunta no ar, sem entender o que a irmã queria dizer com todas aquelas palavras. Sophie suspirou novamente.
— Não estou preparada para criar uma criança agora, Danna — confessou ela, olhando para as próprias mãos. — Nem eu, nem Luke. E nossa família não está pronta para lidar com uma adolescente idiota, irresponsável e grávida. Eu... não vou criar essa criança, por que... eu vou arruinar tudo. Todo mundo... — Sophie deixou a frase no ar, incapaz de continuar falando, pois sua voz já havia aumentado de tom e embargado-se pelo choro que subiu sem dó pela sua garganta. Precisou fazer uma pausa para deixar com que as lágrimas invadissem-na mais uma vez, incapaz de segurá-las. Droga, estava tão perdida... tão arruinada! E o pior era sua irresponsabilidade poderia afetar a todos ao seu redor, e ela não podia deixar isso acontecer. Foi por isso que, sem tentar controlar seu choro, ela voltou a dizer para a irmã: — Eu vou... pra Inglaterra... Laurent Louis... e vou deixar meu filho com uma família que esteja preparada para... lhe dar todo o amor e o apoio que ele... que ele precisa pra crescer...
Vendo Sophie cair em choro compulsivo novamente, Danna não conseguiu conter suas próprias lágrimas. Mesmo assim, uma ponta de indignação subiu pelo seu peito.
— Você não pode fazer isso! — exclamou a mais velha, com a voz praticamente normalizada, limpando as duas lágrimas que haviam caído de seus olhos rapidamente. — Sophie, o filho é seu, você não pode... escondê-loVocê é a mãe dele, você precisa criá-lo!
— Eu não posso! — Sophie quase gritou entre seu choro copioso. — Eu não consigo! Eu só tenho dezesseis anos! Danna... Eu não posso tirar Luke de Nova Iorque... eu não posso lidar com toda a reprovação... eu vou acabar... com o meu futuro, o futuro das pessoas... Eu não estou apta! E se eu ficar com essa criança, Luke vai ter que voltar pra cá, e vai dar tudo errado! Por que nós somos... muito novos!
— Mesmo assim — Danna disse, retrucando, a voz com um tom de desespero. — É o seu filho. Você não pode deixar de criar o seu próprio filho, Soph! Eu não posso deixar isso acontecer!
— Danna, pelo amor de Deus — Sophie continuou, sem se preocupar em parar de chorar. — Você é... um exemplo! Você sabe o que é crescer sem pai, você sabe o que é ser fruto de um casal jovem demais que foi irresponsável! Me responde, por favor... você não preferia ter sido criada por uma família adotiva que te amava ao invés da tua mãe de sangue que... não ligava pra você?
De repente, Danna havia ficado sem palavras. Abaixou a cabeça lentamente, sentindo as lágrimas saírem com um pouco mais de força de seus olhos, sentindo em seu íntimo que Sophie tinha e não tinha razão ao mesmo tempo. Estava confusa. Não conseguiu responder.
— Acima da... minha vida, da vida do Luke, e de todo mundo que nos rodeia, Danna... eu estou pensando na vida do bebê... ele não tem nada a ver com essa história... ele precisa vir ao mundo e ser... ser amado e criado por pessoas que tenham esse tipo... esse tipo de estrutura... — Sophie continuou dizendo, sem abandonar a voz completamente embargada pelo choro incessante. Danna, ainda de cabeça baixa, perguntou:
— Mas e o Luke?
Sophie deixou-se soluçar outra vez. Não respondeu de imediato à pergunta de Danna, mesmo que soubesse a resposta, mesmo que soubesse o que diria para Luke, pois era exatamente nisso que ela estava pensando desde o momento em que descobriu que estava grávida. Mas quando finalmente se sentiu apta a dizer seus pensamentos em voz alta, ela fungou:
— Eu vou ter que fazer isso... Eu... vou dizer... que não fui aceita em Juilliard e... — seu choro já estava compulsivo, e foi com um fio de voz que ela terminou a frase — ...e eu vou pra Laurent Louis construir meu futuro.
Danna olhou para baixo e passou uma mão pelo rosto. Não soube como conseguiu sussurrar:
— Você vai machucá-lo.
Sophie soluçou.
— Eu sei — ela disse, a voz oitavada, a dor cortando-lhe o coração como uma faca afiada. — Eu sei.
Posteriormente Danna havia abraçado-a durante um bom período de tempo, sem dizer nada, e Sophie não se lembrava de ter se sentido tão mal como se sentiu naquele momento. Era incrível como agora, dentro daquele avião, ela se sentia igualmente perdida. Como no primeiro momento em que descobrira sobre a gravidez.
Sophie sabia que iria machucar Luke. Sabia que iria machucá-lo tanto a ponto de que ele passasse a odiá-la para o resto de sua vida. E machucava-a, como machucava-a saber que ela estava fazendo isso com ele. Só Deus sabe a dor que invadiu seu coração quando ela atendeu o telefonema de Luke naquela mesma noite, pronta para ser forte e fria, pronta para dizer que ela iria para a Inglaterra na segunda-feira só por que precisava seguir seu futuro na música.
Mas no mesmo momento em que ela escutou sua voz doce, perfeita e viciosa, as lágrimas começaram a sair de seus olhos. E ela soube que se respondesse ao seu “boa noite, minha linda”, acabaria dizendo todos os seus problemas. Sabia que o que sairia de sua boca não seria um “Luke, eu preciso conversar com você”, e sim um “Luke... eu estou grávida”.
Foi por isso que ela encerrou a ligação antes de soluçar e desligou o celular em seguida. Não iria conseguir falar com Luke, ela... não era capaz.
Então, do telefone de Danna, Sophie ligou para Julia e lhe relatou toda a situação. Mas ao invés de julgar Sophie por não querer ficar com a criança, tudo o que Julia disse foi: “vai ser menino! Pode escrever o que eu estou dizendo, essa criança é um moleque!”.
Sophie apenas riu entre seu choro, enquanto escutava Julia fazer piadas e suposições sobre o sexo do bebê. Julia deveria ser a única pessoa no mundo que conseguia fazê-la rir independente da ocasião, mesmo que ela fosse a mais crítica possível.
Com certeza, sua conversa por telefone com Julia fora muito melhor do que sua conversa por telefone com Nate. Depois de ter relatado toda a mentira, Nate lançou-lhe todas as palavras de julgamento que tinha. Disse que ela estava sendo egoísta e insensível — ela esperava por isso — por estar indo para a Inglaterra por vontade própria. Por estar largando o amor da vida dela por que queria. Tentou convencê-la a ficar de todas as maneiras, mas Sophie apenas desligou o telefone quando sentiu que já não aguentava mais escutar a voz acusatória do irmão. Nate estava claramente julgando-a por fazer uma coisa que Julia fez por que não tinha escolha. Achava um absurdo. E Sophie não estava conseguindo lidar com toda a dor que sentia a cada palavra que Nate dizia, por que mesmo que o motivo fosse uma mentira, o fundo de razão cabia muito bem. Isso estava matando-a.
Quanto a Hayley, Josh e Joe, eles voaram de volta para Nashville o mais rápido que puderam, deixando duas entrevistas de Joe pendentes na Califórnia. Conseguiram encontrá-la no aeroporto, e Sophie passara a última hora se despedindo deles. Mesmo que Hayley se controlasse para não chorar, parecia que ia enlouquecer com outro filho longe dela, ela mesma havia dito isso. Sophie precisou repetir todo o seu monólogo sobre seguir seu futuro na música, dizendo que se ela não terminasse o ensino médio na Inglaterra jamais seria aceita novamente e, por isso, precisava ir imediatamente. Falou sobre sua audiência terrível na Juilliard School, argumentando que ela precisava seguir seu sonho conforme seus pais haviam lhe ensinado.
Claro que sua argumentação bem feita e bem ensaiada deu certo. Já havia dado quando conversou com eles por telefone, mas quando aquele Joseph com lágrimas nos olhos perguntou sobre Luke, Sophie simplesmente não conseguiu dizer nada. Já havia ensaiado milhares de desculpas antes, mas ela não conseguia mentir sobre isso. As palavras simplesmente não saíam de sua garganta.
Talvez, por entender isso, seus pais e seu irmão mais novo não perguntaram mais nada. Sophie fez Joe prometer que iria ficar bem e escrever muitas histórias, e Joe fez Sophie prometer que ligaria todo dia e seria a maior pianista de todos os tempos. Quando eles deram o último abraço, Sophie já estava chorando.
Agora o avião avançava para longe de sua família, seus amigos e seu namorado. Ou melhor, ex-namorado, já que Sophie tinha certeza de que ele iria detestá-la para sempre assim que lesse sua carta. Sim, por que ela fora fraca o suficiente para desligar todos os telefones que tinha e lhe mandar apenas uma carta, fria e inexpressiva, dizendo o porquê de estar indo embora para longe dele. Uma única carta, de uma única página, que ela havia levado cinco horas para escrever. Uma carta idiota e mentirosa, que não continha uma só palavra que ela realmente queria dizer a ele. Uma carta escrita em caneta preta, com uma caligrafia igual demais, sem nenhum “eu te amo” ou “eu vou voltar para você”. Uma carta mentirosa, fria, terrível, e que provavelmente cortaria o coração daquele que ela amava mais do que tudo em mil pedaços.
Depois da experiência exaustiva de escrever a carta, Sophie não a releu. Sentia-se enojada por ter escrito aquele monte de mentiras e friezas. Sentia-se suja por ter tido a coragem de colocar um “me desculpe” no canto inferior esquerdo do papel. Sentia-se, acima de tudo, acabada por estar realmente fazendo aquilo. E quando colocou a carta no correio, sentiu como se uma faca houvesse atravessado seu coração, e teve de se segurar para não começar a chorar novamente no meio de todas aquelas pessoas. Por que pareceu que só naquele momento ela teve a consciência de que Luke nunca mais seria dela. Ela nunca mais sentiria seu cheiro. Nunca mais sentiria as mãos dele em sua volta. Nunca mais tomaria seus lábios aos dela. Nunca mais faria amor com ele. Nunca mais riria ao ouvir suas idiotices, nunca mais olharia no fundo de seus olhos azuis e lhe diria, com todo o amor que tinha no coração, que o odiava, só para irritar. Nunca mais seria dele.
Ele não sabia. Ele não sabia, mas Sophie ainda o amava, e o amava mais do que tudo o que havia no mundo. Mais do que a si mesma e sim, mais do que tudo o que a rodeava. Ele não sabia, mas Sophie estava fazendo aquilo para poupá-lo de uma vida que ele não havia escolhido. Ele não sabia, mas Sophie não estava indo embora por que não o amava.
Ela estava indo embora por que o amava demais.
Passando as mãos pelos olhos molhados, Sophie abriu lentamente a mala que carregava. Ela sabia o que havia ali. Um notebook já carregado, fones de ouvido, um pen drive e uma carta. E, ah, três fotografias e um Woodstock de pelúcia. Sophie não havia conseguido colocá-los em outra mala.
Com os dedos trêmulos, a garota de cabelos ruivos estridentes segurou com delicadeza a carta e releu as palavras que estavam no envelope.


“De Luke; Para Sophie.
SÓ LEIA QUANDO A SAUDADE SE TORNAR INSUPORTÁVEL.”


Bem, se ela fosse analisar, o que mais havia nela agora, tirando toda a dor, insegurança, culpa e perdição, era saudade. Sophie estava simplesmente morrendo de saudades de Luke.
Ainda mais quando sabia que eles jamais ficariam juntos de novo. Ainda mais quando sabia que tudo havia sido arruinado no momento em que aquela carta foi posta no correio. Droga, por que tudo tinha de ser assim? Por que esse bebê não havia esperado um pouquinho, apenas mais um pouquinho para vir? Caramba, o futuro dos dois já estava traçado! Sophie amava tanto Luke, e eles já haviam planejado tudo! Por que, vida, você decidiu dar uma reviravolta tão grande? Por que, destino, você não agiu de acordo com o que era melhor para os dois?
Por quê?
Ah, Sophie sabia o porquê, entretanto. A vida havia dado essa reviravolta por que tanto Sophie quanto Luke haviam sido irresponsáveis. Burros. Inconsequentes.
E agora ela estava ali, chorando. Sabendo que, muito provavelmente, o garoto que ela amava estaria chorando também, dentro de um campus de uma universidade.
Encarando o papel em sua mão, Sophie respirou fundo. Sua mão ainda tremia quando ela abriu a carta que não era muito grande. Apenas uma página da letra itálica e desigual de Luke. Suas mãos estavam suando e ela limpou-as da melhor forma que pôde, antes de pôr-se a ler.



“Querida Garota Chata, Insuportável, Estúpida e Boba.
Gostaria de saber como foi a sua reação depois de ver minha saudação amorosa. Quer dizer, eu acho que você deve ter rido, ou murmurado que eu sou chato, insuportável, estúpido e bobo também. Ou talvez ter pensado que vai me bater quando me vir da próxima vez, o que acho muito improvável, por que eu vou estar morrendo de saudades de você e só vou deixar você me bater depois de te matar de beijos.
Mas que merda, nós ainda nem nos separamos e eu já tô com saudades. ):
Bem, caso queira saber, são quatro e quarenta e dois da manhã de terça-feira e eu estou sentado naquela poltrona do lado da janela, escrevendo essa carta e te vendo dormir. Daqui a alguns minutos você vai embarcar naquele avião sem graça sem mim, e vai me deixar aqui desamparado e sozinho como um cachorrinho que não tem dono.
Certo, parei de drama.
Já te falei o quão linda você é dormindo? Meu Deus, dá vontade de te beijar inteira, mas não dá pra fazer isso por que você acordaria. Entende o meu dilema? Poxa vida, pare de ser linda assim enquanto dorme. Mentira, não pare. Caramba, você se mexeu e suspirou, quero oficialmente te morder agora. Você é perfeita demais dormindo, por favor, e depois ainda pergunta o porquê de eu tirar tantas fotos do seu sono. Mas entenda que é mais forte do que eu! Por que, meu Deus, você é linda dormindo. É linda de qualquer jeito, na verdade.
Tudo bem, eu sou idiota.
Mas é que é difícil falar alguma coisa bonitinha e que preste quando você é tão linda desse jeito.
Certo. É mais fácil elogiar você escrevendo, por que você não fica corada e nem me pede pra parar. Sabia disso? Acho que vou tentar mais vezes.
Enfim, me deixe ir direto ao ponto. Eu pedi pra você abrir essa carta apenas quando a saudade estivesse insuportável, então, você provavelmente está sentindo muito a minha falta.
O que eu quero que você saiba, Sophie, minha linda, é que eu também estou sentindo a sua. E quero que você saiba que não importa que dia seja hoje, a qual hora você esteja lendo isso, ou quanto tempo faça. Eu estou pensando em você. Isso por que você já se tornou parte de mim, e eu já te amo mais do que tudo.
Quando você sentir minha falta, releia isso, e repasse na sua cabeça: EU TE AMO. E nós vamos ficar juntos outra vez daqui a alguns meses. Já estou contando os segundos. Mesmo, é claro, que você esteja dormindo como um anjo perfeito aqui na minha frente.
Quanto ao pacote, que você já deve ter visto, eu não aguentei e mordi um chocolate. Estava ótimo. Espero que você tenha gostado do Woodstock, também.
Agora vai ver o que tem no pen drive (:
Um monte de beijos,
O Cara que Te Ama.”



Sophie terminou de ler a carta controlando-se para não soluçar, fungando. Conseguia até imaginar Luke quando escrevera essa carta, na poltrona cor de marfim que havia na janela do apartamento de Brendon, sentado em cima de uma perna e balançando a outra. Naquela noite ele estava usando o short verde musgo curto de dormir que Sophie gostava de zoar, por que deixava suas coxas maiores do que realmente eram. Ela apenas chorou outra vez, lembrando-se disso, de coisas tão pequenas e insignificantes, mas que para ela agora pareciam tão grandes, significativas e distantes. Droga, ela era uma idiota! Uma verdadeira idiota! Por que não havia usado a porcaria da camisinha naquele dia?! Por que não havia negado, ou qualquer coisa, qualquer coisa, para não estar onde estava agora? Ela sabia as consequências, caramba, ela crescera sabendo! Para que adiantaram os sermões, as aulas? Para ela acabar onde estava agora? No avião em direção à Londres, indo entregarseu filho para outra família? Merda! Por que fora tão burra? Por que fora tão irresponsável? Por que não pensara um pouquinho que fosse? Caramba! Ela não precisava estar passando por isso! Ela não precisava estar se separando do único homem que amava! Ela não precisava deixar toda a sua família e ir embora para outro país, inferno, ela não precisava!
Ela só precisava ter sido um pouquinho mais responsável. Um pouquinho.
Devagar, ainda fungando, ela ligou seu computador portátil, balançando o pen drive nos dedos. Os trinta segundos que o notebook demorou para ligar pareceram uma eternidade, e Sophie não esperou todos os programas iniciarem para conectar o pen drive em uma das saídas USB. A pasta se abriu cinco segundos depois e Sophie deixou com que mais lágrimas caíssem de seus olhos ao ver o único arquivo que nela continha.
Um vídeo. Um único vídeo.
Ela não conseguia identificar a miniatura, mas o nome estava bem legível. “Wherever You Will Go – Luke & Sophie”. Ela colocou os fones de ouvido e hesitou antes de clicar no vídeo, que tomou toda a tela do completo imediatamente.
Ao reconhecer a música Wherever You Will Go – The Calling logo na introdução do vídeo, seu choro silencioso se tornou mais forte do que já estava. A primeira tela era branca, com o nome dos dois escrito em vermelho. De repente, a música ganhou menos intensidade, e Sophie viu o rosto de Luke tomar a tela do computador. Ele sorria.



So lately, been wondering, who will be there to take my place. When I'm gone, you'll need love, to light the shadows on your face.(Ultimamente, tenho pensado, quem ocupará meu lugar. Quando eu me for, você vai precisar de amor, para iluminar as sombras do teu rosto.)




“Oi, minha chata” ele havia dito logo de cara. A câmera apenas tomava uma parte de seu rosto e pescoço, e tremia bastante. Ele com certeza estava segurando-a com uma das mãos. Luke riu, seus globos azuis brilhando mais do que nunca. “Tudo bem com você, linda? Bem, independente de quando você esteja vendo isso, eu realmente espero que sim. Mas eu... eu estou bem, se quer saber. Hoje é nosso primeiro dia em Nova Iorque, são cinco e pouco da tarde, e você está dormindo por que passou os últimos dias pilhada por causa da Juilliard e nós fizemos nossa última apresentação nas Rock Friday Nights ontem. Nós comemos panquecas, lavamos a louça, conversamos um monte e eu fiquei te vendo adormecer. Então, é, eu estou bem. Quanto a esse vídeo, eu não tenho ideia do que vai acontecer nele... mas eu já vou dizer que esse vídeo vai ter o intuito de você nunca esquecer o quanto nós somos ligados e o quanto isso é real. É pra você nunca esquecer do quanto gosta de ficar comigo.” Luke deu uma risada, mexendo em seu cabelo e fazendo a câmera sair de foco por alguns segundos. “Infelizmente, nós vamos nos separar, e... tudo bem, vai ser só por alguns meses. Esse vídeo vai ser mesmo pra você matar um pouco da saudade e se lembrar do quanto eu te amo. Bem, eu acho que vai, por que eu ainda não sei o que vou colocar nele, mas enfim, você já vai ver. Eu vou voltar no fim do vídeo com outra gravação final, eu acho”.
Sophie precisou levar as mãos ao rosto para tentar impedir os soluços de voltarem com toda a força. Não sabia exatamente o que estava sentindo — tristeza, culpa, desapontamento, perdição? —, mas nem sequer tivera tempo para pensar nisso. Logo o rosto de Luke saiu do computador e a música começou a tocar com mais intensidade, enquanto as letras em vermelho reapareciam no monitor.



“Você sabe que o nosso amor não é comum. Há sempre uma pitada de implicância... Mas o que seria de nós sem isso?”



Sorria” o rosto de Luke reapareceu na tela. Só que dessa vez, ele estava acompanhado dela, de Sophie, e ela se lembrou claramente desse dia enquanto via a gravação. Eles estavam na varanda de Brendon, na última noite em que ela passara em NYC.
“Estou sorrindo” a Sophie do vídeo respondeu a Luke, e fez um sorriso para a câmera que estava a sua frente. Luke sorriu também, mas diferente dela, seu sorriso parecia sacana. Sophie podia ver isso agora. “Não vai tirar essa foto?” ela havia parado de sorrir e se virado para Luke, que começou a gargalhar. “Você tá gravando?!”
Após isso, a imagem ficou completamente tremida, pois Sophie havia retirado a câmera das mãos do namorado. E enquanto assistia isso, a mesma Sophie que depois dessa cena havia batido nos ombros do namorado e xingado-o de idiota, estava controlando-se ao máximo para não soluçar. Segurava seu rosto com as mãos, fungando loucamente, sentindo a boca salgada pelo gosto das lágrimas incessantes que saíam de seus olhos.
Não dava para acreditar que ela nunca mais teria aquele tipo de briguinha boba com Luke. Não dava para acreditar que aquilo havia acontecido há sete dias atrás. Sete dias, droga! Uma semana apenas! Não dava para acreditar que tanta coisa havia mudado em tão pouco tempo... não dava para acreditar que essa onda havia atingido-a e transformado-a assim. Não dava para acreditar que tão pouco tempo havia passado para que sua vida virasse de cabeça para baixo dessa forma.
Não dava para acreditar que tão pouco tempo havia sido o suficiente para decretar que Luke nunca mais estaria em sua vida.



If a great wave shall fall and fall upon us all. Then between the sand and stone, could you make it on your own?(Se uma grande onda cair e cair sobre todos nós. Então entre a areia e a pedra, você conseguiria se virar sozinha?).



Logo a tela do computador foi preenchida por um punhado de fotos deles, que passavam conforme a música tocava. Sophie mal conseguiu se aguentar quando viu uma garotinha de dois anos de idade, com o cabelo loiro trançado delicadamente, sorrindo abertamente enquanto apertava a mão de um garotinho de quatro aninhos e cabelo castanho caído pelos olhos azuis. Ele segurava a mão da garotinha com a mão direita e segurava um bicho de pelúcia com a esquerda, enquanto sorria com gosto para a foto. Sophie, Luke, e Perry, há vários anos atrás. Sophie nem sabia falar direito, mas já sabia amar, e amava Luke, seu melhor amigo, com todo o coração. Logo depois a foto foi substituída por outra, de duas crianças magricelas, concentradas em um violão. O cabelo já mais acobreado de Sophie estava longo, caído pelas costas, e tapava metade de seu rosto. Luke, magrinho como nunca, estava com o cabelo bem curto, uma das poucas épocas da sua vida que seu cabelo não era totalmente esquisito. Ele devia ter uns nove anos nessa foto, Sophie nem se lembrava da existência dela. Depois, a foto foi substituída por um casalzinho tão jovem quanto poderia, que sorria, e mostrava suas mãos para a câmera. Mãos essas que continham pequenas alianças de papel no quarto dedo esquerdo. Sophie deixou-se soluçar, sentindo as lembranças daquele dia tomarem conta dela de uma vez, rapidamente, por completo. Era tão jovem, mas sabia que futuro almejava, e sabia que ele se encontrava ao lado de Luke.
O futuro que Sophie queria desde criança não seria mais o futuro que ela teria. Não mais.
Logo a foto foi tirada da tela, dando espaço à outra tela branca.



“Essas são nossas fotos de quando éramos bebês mais legais, não acha?
Você pode não acreditar, mas eu me lembro da história de todas elas. A primeira, eu tinha cinco anos, e o Perry havia descosturado uma parte do bico. Minha mãe estava arrumando isso quando e eu estava enchendo o saco dela, quando meu pai apareceu dizendo que tia Hayley estava “ganhando neném”. Lembro de ter perguntado pro meu pai o que era isso, e ele disse que ela ia ter outro filhinho.
Então meu pai trouxe você pra casa, já que ninguém podia cuidar de você. Minha mãe, pra aliviar a tensão, trançou o seu cabelo, e eu pedi pra ela tirar uma foto. Você dormiu na minha casa durante uma semana inteira (tia Hayley estava no hospital, se recuperando do parto cesariano, e tio Josh não saía de lá por nada), e acho que foi aí que eu descobri que amava você mais do que tudo e iria viver contigo o resto da minha vida.
A segunda, foi assim que eu aprendi a tocar My Heart. Passei quase duas semanas de treino intenso, tentando de todas as formas tocar bem certinho. Quando consegui, a primeira pessoa que mostrei foi pra você, e você pediu pra aprender também. Passamos o resto da tarde entretidos em apenas um violão, e meu pai achou tão bonitinho que tirou uma foto quando não estávamos olhando.
Quanto à terceira... bem, eu não sei se preciso contar a história, certo?”


Não, Sophie pensou, chorando, com o coração doendo tanto que mal conseguia respirar. Não precisa —, ela completou, esgotada pelo vídeo e pelas lembranças e culpas que ele lhe trazia, mas sem nenhuma coragem de parar de vê-lo ou desviar o olhar do computador. Mesmo que estivesse doendo, maltratando, machucando, corroendo, ela não podia parar de ver. Ela não podia, por que era aquela sua última lembrança de Luke, e da vida que tivera com ele. A vida que deveria ter com ele.
E que agora não teria mais.



If I could, then I would. I'll go wherever you will go.
Way up high or down low. I'll go wherever you will go.
(Se eu pudesse, eu iria. Eu vou para onde quer que você vá.
Bem lá em cima ou lá embaixo. Eu vou para onde quer que você vá.)




Sophie já não se importava mais em controlar seu choro quando a próxima tela apareceu. Agora, passavam-se fotos deles mais recentes, que haviam tirado em Nova Iorque, e junto a elas, palavras escritas em uma fonte simples e bonita.



“Sinceramente, linda, eu não acho que nosso amor tenha mais jeito. Por que, caramba... olha só tudo isso. Reflete um pouquinho sobre tudo o que nós passamos. Quer dizer, eu não conheço muitos caras de dezoito anos que podem dizer, com toda a certeza do mundo, que tem uma jornada com a pessoa que ama. Sabe? É uma coisa tão antiga, e tão pura. E eu não me vejo mais deixando de te amar. Por isso eu acho que o nosso amor não tem mais jeito, por que, fala sério, você me pegou. Me amarrou. Me enlouqueceu. Me fez virar um idiota confuso bobo e apaixonado. Me fez amar todos os seus defeitos, inclusive os que eu odiava.
E eu tenho pra mim que quando isso acontece, já era. Não tem mais jeito. É para sempre.
Mesmo assim eu tô meio apreensivo em ficar seis meses longe de você. E nós dois sabemos que você está vendo esse vídeo por que está com saudades. Por isso, eu quero que você saiba, que a cada dia que se passa, é um dia a menos. Continuarei te mandando cartas e te telefonando sempre, só pra ouvir sua voz perfeita. Vamos dar um jeito de amenizar isso.
Até o dia em que você for completamente minha.”




And maybe, I'll find out, a way to make it back someday. To watch you, to guide you… through the darkest of your days.
If a great wave shall fall and fall upon us all. Then I hope there's someone out there who can bring me back to you.
(E talvez, eu descubra, um modo de conseguir voltar algum dia. Para te vigiar, para te guiar... nos seus dias mais obscuros.
Se uma grande onda cair e cair sobre todos nós. Então eu espero que haja alguém lá que possa me trazer de volta para você.)




As fotos que eles tiraram em NYC continuavam passando sem parar, enquanto Sophie fungava copiosamente naquela poltrona fria daquele avião que rumava sem parar até outro país. Luke... colocara tanta esperança naquilo! Naquele futuro, tanta esperança nela. Sophie o amava tanto... mas não podia voltar, não podia dizer para ele e arruinar sua vida, ela... não podia fazer isso.
Lembrou-se da sua carta e sentiu vontade de vomitar, mas não o fez. Dessa vez não era o bebê que provocava seu enjoo. Dessa vez, era sua própria inconsequência e irresponsabilidade. A visão de Luke, seu Luke, desolado por ter sido largado por uma garota insensível que um dia dissera que o amava. Sophie nem conseguia pensar como Luke estaria agora, e nem queria, pois isso apenas contribuía para que ela se sentisse pior. Em relação a tudo.
Idiota. Irresponsável. Estragou tudo. Tirou ele de você. Seu amor. Tirou seu amor de você.



If I could, then I would. I'll go wherever you will go.
Way up high or down low. 
I'll go wherever you will go.
(Se eu pudesse, eu iria. Eu vou para onde quer que você vá.
Bem lá em cima ou lá embaixo. Eu vou para onde quer que você vá.)

Runaway with my heart! Runaway with my hope!Runaway with my love!
(Fuja com o meu coração! Fuja com a minha esperança!
Fuja com o meu amor!)



“Oi, chatinha” o rosto de Luke apareceu novamente na tela, e a música ficou ao fundo, tocando baixinho. Sophie mal conseguia respirar, ao ver aquele rosto tão lindo, inchado de sono, o cabelo superbagunçado, o olhar mais escuro do que o normal pela pouca iluminação do único abajur do quarto. “Bem... infelizmente, esse é o fim do vídeo. Eu já juntei tudo o que precisava e espero que você tenha gostado da coisinha que fiz” ele deu uma meia risada. “Hoje é terça-feira, devem ser umas quatro e pouco da manhã. Você já está dormindo há um tempo. Nós passamos a noite toda falando bobagens juntos, apenas para aproveitar o pouco tempo que temos antes de você embarcar, daqui a algumas horas. Você estava doentinha e nós comemos macarrão com queijo sem queijo juntos... isso faz algum sentido?” Luke deu uma risada gostosa, o que fez Sophie deixar com que uma risada amarga saísse de sua garganta igualmente, acompanhada de um soluço. “Enfim... você vai embora. E... tudo bem, eu não achei que fosse me sentir tão... eu não sei, como se estivesse perdendo alguma coisa. Eu não sei se você já sentiu isso. Foi o que eu senti quando você foi pra Inglaterra, sei lá... é um sentimento... ruim. Como se o meu subconsciente gritasse pra mim que se eu te deixar ir embora daqui a pouco, eu vou perder você.” Luke, no vídeo, suspirou, e Sophie não conseguiu conter o soluço que escapou de sua garganta, abafando-o com suas mãos que ainda se encontravam coladas em seu rosto.Droga! Aquele instinto imbecil de Luke acabara tendo razão, era isso? Ela estava indo embora, indo embora para longe dele. E Luke sabia. Luke pressentia. Luke tinha colocado toda a sua esperança numa promessa de volta, mas pressentia que ela não se cumpriria. Droga, mil vezes droga. Como Sophie queria que tudo tivesse sido diferente. Como ela queria ter passado em Juilliard e voltado para NYC daqui a alguns meses. Como ela queria não estar grávida agora. Como ela queria que o pressentimento de Luke fosse bobo e jamais se profetizasse. Como ela queria que sua vida tivesse o rumo que ela havia escolhido. “Tudo bem, eu nem deveria estar falando isso. Você vai voltar, não é?” Luke sorriu sem humor. Mas isso apenas serviu para uma Sophie que estava se sentindo a pior pessoa do mundo soluçasse outra vez. “Enfim. Eu só quero que você saiba, ao fim desse vídeo, que eu ainda te amo. Mesmo que tenha se passado uma semana, duas, ou três, até você ver isso. E ao fim desses seis meses, eu vou apenas estar te amando mais. E daqui a seis anos também. Vou continuar te amando. Por que... você faz parte de mim assim como eu faço parte de você. E mesmo que eu não esteja com você agora, eu estou com você. Isso não faz sentido, mas... não é pra fazer” Luke riu outra vez. “Eu estou com você pra sempre. Eu ficarei com você pra sempre. Tente... controlar sua saudade, nós temos uma vida toda pela frente. Eu te amo.”



I know now just quite how my life and love might still go on, in your heart, in your mind.
I'll stay with you for all of time.
If I could, then I would. I'll go wherever you will go.
Way up high or down low. I'll go wherever you will go.

If I could turn back time… I'll go wherever you will go.
If I could make you mine… I'll go wherever you will go.
I'll go wherever you will go…
(Agora eu sei exatamente como minha vida e o meu amor poderão continuar, em seu coração, em sua mente.
Eu ficarei pra sempre com você.
Se eu pudesse, eu iria. Eu vou para onde quer que você vá.
Bem lá em cima ou lá embaixo. Eu vou para onde quer que você vá.

Se eu pudesse voltar no tempo... Eu vou para onde quer que você vá.
Se eu pudesse fazer com que você fosse minha... Eu vou para onde quer que você vá.
Eu vou para onde quer que você vá...)




Quando a música acabou, Sophie, esgotada, fechou o notebook e cobriu o rosto com as mãos, deixando-se soluçar. Todo o vídeo, a carta, tudo, ecoava e assombrava sua mente. O rosto de Luke, a letra de Luke, as palavras de Luke. Droga, droga, droga! O que ela havia feito? O que eles haviam feito? Sophie não o teria mais! Ela não o teria mais! Mais que idiota que ela fora, meu Deus do Céu, que idiota! Ele a amava, caramba! Ele a amava tanto, droga, ele a amava tanto, e... tudo estava destruído. Como Sophie aguentaria ficar tão longe de Luke? Já não fora difícil o suficiente da primeira vez?
Viver sem Luke seria um castigo. Um castigo que ela teria de aguentar por ter sido tão irresponsável.
— Menina — ela escutou uma voz fina ecoar e um pequeno peso se fazer em sua perna. Levantou os olhos, retirando as mãos do rosto. — Tá tudo bem? Mamãe, ela tá cholando!
Um garotinho. Quatro, cinco anos no máximo, olhos verdes e cabelo castanho claro. Parecia preocupadíssimo com Sophie, e só agora ela notou que a maioria das pessoas do avião olhava para ela. Não ligou, entretanto, e encarou o menino entre as lágrimas que insistiam em cair de seus olhos. Meu Deus, ele se parecia tanto com Luke quando era pequeno. O mesmo olhar — que apesar de verde — intenso, a mesma sinceridade na voz. Sua mãozinha estava pousada na coxa de Sophie, atenciosamente, e ela teve de limpar os olhos e tentar sorrir para ele.
— Tá tudo bem, querido — disse ela em voz baixa. — Tudo bem.
— Henry! — ela viu uma moça puxar o braço do garotinho, meio envergonhada. Parecia ser extremamente nova. Era a mãe dele, provavelmente. Quantos anos tinha? Vinte e três? Vinte e quatro? — Não seja mal educado, que coisa! — bronqueou a mulher.
— Mas ela tava cholando... — Henry, o menino, argumentou, e Sophie abaixou a cabeça. Ele era tão inocente, tão novo. Estava preocupado.
— Henry — a mulher disse novamente, repreendendo-o com o olhar. Virou-se para Sophie. — Me desculpe, é que ele costuma ser imperativo... e meio extrovertido às vezes.
Novamente, Sophie tentou sorrir para o menino.
— Não tem problema — ela disse e viu Henry sorrir, mostrando seu sorriso com dois dentinhos inferiores faltando. Nossa, se ele e Luke fossem parentes não seriam tão parecidos. Seu sorriso, mesmo inocente, era extremamente acolhedor.
— Você tér um biscoito? — Henry perguntou, elevando a outra mão que segurava um pacote de bolachas de chocolate. Retirou uma delas e ofereceu à Sophie. Sua mãe parecia confusa se deixava o filho conversar com a moça que parecia triste. — Meu papai semple diz que biscoito de chotolate cula qualquer dor.
Sophie riu e secou a lágrima que escorreu pela sua bochecha. Meu Deus, que criança mais linda. Tão novinho e tão preocupado em fazer com que uma estranha parasse de chorar.
— Obrigada, Henry — agradeceu ela, segurando o biscoito que Henry acabara de lhe oferecer. O garoto sorriu mais uma vez, parecendo extremamente contente.
— De nada — ele respondeu, voltando sua atenção para sua mãe que o ajudou a se sentar na fileira de poltronas à frente de Sophie, que tivera a sorte de sentar em uma sozinha. A mulher voltou sua atenção para Sophie, logo depois.
— Me desculpe outra vez — ela disse baixo, sem saber mais o que dizer. Obviamente aquela garota não estava bem e mesmo assim tinha sido muito legal com Henry.
— Seu filho é lindo — Sophie disse, tentando desembargar a voz e sorrir para a mulher.
— Ah, obrigada — ela disse, sorrindo de volta. — Ele é minha benção. Dá um trabalho danado, mas... só Deus sabe o quanto eu sou grata por tê-lo. — A mulher mexeu no cabelo castanho do menino, que Sophie agora não conseguia ver. — Você vai entender o que eu digo quando for mãe, também.
Sophie mordeu seu lábio inferior, controlando-se para não desatar a chorar na frente daquela mulher mais uma vez. Tudo o que menos precisava era que ela achasse que tinha feito ou falado algo errado, ou qualquer coisa assim.
Mal sabia ela que havia uma pequena benção dentro de Sophie agora.
— É... — Sophie concordou, evitando contato visual. Não conseguiu dizer mais nada para a mulher, que sorriu para ela, pediu licença e sentou-se à sua frente.
As palavras da mulher não pararam de ecoar em sua cabeça confusa e tola. Você vai entender o que eu digo quando for mãe, também.
Os olhos de Sophie se encharcaram outra vez. Não, Sophie não iria entender, por que ela não seria mãe agora. Não tinha experiência, não tinha idade, não tinha estrutura.
E, acima de tudo, não tinha Luke.


*****




Seu quarto estava revirado. Uma bagunça. Uma zona. Exatamente como o seu coração.
Lágrimas saíam furiosamente dos seus olhos enquanto ele via a pilha de lixo queimar. Seu punho direito sangrava e ardia, mas ele pouco estava se importando com dor agora. Sinceramente, queria que tudo se danasse. Não estava nem aí se o mundo acabaria agora, ou se uma bomba explodiria aquela merda de universidade em um milhão de pedaços. Não ligava se o fogo que se fazia na pequena lixeira de aço inoxidável incendiasse todo o dormitório. Ele queria mais era que a Terra os engolisse mesmo. Nada mais importava.
Viu, Luke? É isso que dá, parceiro. É isso que acontece quando você deixa seu coração ganhar. É isso que acontece quando você é bom demais. Isso que acontece quando você deposita seu coração, esperança, futuro, amor... em uma pessoa. Viu, idiota? Aprendeu agora? Aprendeu ou vai precisar de outra mulher para te ensinar? E aí, vai precisar da Sophie de novo? Ou da Stephy? Quem vai ser a próxima garota que vai te enganar e te quebrar de novo, idiota?
Luke soluçou e xingou pela centésima vez, amaldiçoando o dia em que conhecera Sophie. E o pior era saber que não era a primeira vez que ele chorava por ela. O pior era saber que ele se dedicara a ela, e fizera tantas coisas por ela, e... puta merda! Aquele inferno de pacote, meu Deus, como ele fora idiota! As músicas que ele enfiara a merda do seu coração dentro, as cartas, as promessas, as juras de amor... Tudo jogado às traças! O que tinha valido para ela? Bosta nenhuma! Tudo era lixo! Sempre fora!
Luke tinha mesmo era que deixar de ser idiota. Parar de ser bonzinho e de acreditar em tudo que uma garota diz. Parar de ser romântico e retardado e agir como um homem, desses imbecis, que nunca se machucam por que machucam os outros.
Ah, não, Luke! Seja você mesmo! Não faça isso!
Sim, claro. Então Luke continuaria um idiotinha e logo, logo, estaria chorando e esmurrando porta-retratos como um retardado. Continuaria sendo uma besta e diria “eu te amo”, carregado de tudo o que sentia, para depois ser largado e ficar tristonhozinho, queimando todas as fotos e cartas e músicas que lembrava a tal da menina. Ah, que meigo! Ele era tão sensível, não? Tão romântico! Tudo o que uma garota queria, não é mesmo? Lindo a ponto de fazer um vídeo dizendo para a garota de todas as formas que a amava! Ou elogiá-la de mil formas diferentes em uma carta toda enfeitadinha! Ou compor uma dezena de músicas para ela! Nossa, como ele era perfeito!
Era perfeito, romântico, sensível e o diabo a quatro, mas isso não conseguiu segurá-la. Isso não conseguiu fazer com que ela voltasse para ele. Não conseguiu fazer nem com que ela lutasse para seguir o plano.
Luke viu seu próprio rosto em uma fotografia se desintegrar no fogo e passou a mão pelos olhos, deixando com que os soluços fluíssem de sua garganta sem cerimônias. Merda, ele não podia enganar ninguém! Estava doendo. Estava doendo tanto que ele mal conseguia respirar! Ela não conseguia pensar nisso? Não conseguia entender? Inferno, o vídeo não fora o suficiente para que ele provasse que era total e completamente apaixonado e maluco por ela? Seu amor não fora o suficiente para que ela lutasse um pouquinho para manter o que os dois tinham combinado tantas vezes? O que aconteceu com tudo o que ela havia dito e jurado? O que aconteceu com o amor que ela disse que tinha? O que aconteceu com as promessas, as juras, os planos para o futuro? O choro, as risadas, o que aconteceu com os beijos deles? O que aconteceu com o amor?
Sophie havia jogado fora. Havia jogado tudo fora. Desligara o telefone, cortara todos contatos que havia com o cara que ela dizia que amava, e foi embora.
Foi embora.
E o deixou.



Te vejo errando e isso não é pecado, exceto quando faz outra pessoa sangrar.
Te vejo sonhando e isso dá medo, perdido num mundo que não dá pra entrar.
Você está saindo da minha vida, e parece que vai demorar. Se não souber voltar, ao menos mande notícias. Você acha que eu sou louca, mas tudo vai se encaixar.



Seguir o seu futuro. Era isso que ela havia dito, naquela maldita carta que ainda estava em suas mãos, para ele. Seguir. O. Seu. Futuro. Era tão ridículo que chegava a doer.
Luke encarava a carta molhada de lágrimas e sangue, relendo sem conseguir acreditar nas palavras infames que ali estavam escritas. Não acreditava que era verdade, mas lá tinha tudo. Tudo sobre Sophie não ter atendido suas últimas trinta ligações ou não ter respondido os mais de vinte emails. Oh, mas Luke, o bobinho, não estava achando que ela o largaria! Estava preocupado, sim, estava, mas não cogitava a hipótese. Nãosua garota linda jamais o evitaria.
Que idiota.



“Olá, Luke.
Eu me sinto mal em escrever isso, mas... eu preciso. Preciso deixar de ser fraca e abrir o jogo com você. Preciso parar de te deixar esperando ou criando expectativas.
Eu não fui aceita em Juilliard. Me enviaram uma carta de rejeição, dizendo que eu não cumpria o modelo correto de aluna por lá.
Eu... fiquei tão perdida. Não sabia como ia fazer para seguir meu futuro na música, como sempre quis fazer, e então eu recebi outra ligação da Laurent Louis.
Eu estou indo, Luke. Estou voltando para a Inglaterra. Lá, na LL, é o único lugar onde eu posso seguir meu caminho na música. Eu sei que deveria estar voltando para Nova Iorque para ficar com você, mas não consigo suportar a ideia de te ver trabalhando e eu... não. Eu não sou assim. Eu preciso ser a melhor, preciso me formar como a melhor, preciso seguir o meu sonho de trabalhar como musicista, e aí em Nova Iorque eu não vou conseguir.
Com você eu não vou conseguir.
Eu fui uma fraca por ter desligado o telefone. Fui mais fraca ainda por fazer com que Danna mentisse, quando você ligava para ela. Por favor, não entre mais em contato. Essa carta... é o fim, Luke. Eu sinto muito.
Já acertei todas as burocracias e, quando você ler isso, eu já devo ter ido. Vou seguir o meu sonho. Vou tocar. Como sempre foi para ser.
Me desculpe,
Sophie.”



Luke gritou com toda a força que tinha no peito após terminar de reler aquela carta. Já era pelo menos a décima vez que ele via aquelas palavras, por que tudo ainda parecia muito surreal.
É o fim, Luke. Eu sinto muito.
Caramba! Como ela tinha a audácia de pedir desculpas?! Ela não tinha o direito! Não tinha o direito de pedir desculpas, por que ela estava indo embora! Estava deixando tudo o que os dois haviam construído desde sempre! Inferno! Ela estava abandonando um passado de duas crianças que se amavam! Dois adolescentes que enfrentaram tudo para ficar juntos! Dois jovens que tinhamplanos para o futuro!
Ela tinha ido embora!
Causava náuseas em Luke saber que ela não estaria mais com ele. Seus planos já não tinham mais nenhum valor. Ele nunca acordaria de manhã, daqui a alguns anos, e a veria dormir ao seu lado. Ela nunca mais iria rir de uma palhaçada sua e chamá-lo de idiota. Ela nunca mais iria apertar seus ombros e sussurrar que o amava. Ela nunca mais iria ficar corada quando ele a elogiasse. Nunca mais tocaria para ele. Nunca mais faria amor com ele. Nunca mais embrenharia seus dedos no cabelo dele e comentaria pela milésima vez que aquele corte era ridículo. Nunca mais implicaria com ele. Nunca mais o beijaria.
Sophie nunca mais seria dele.
Isso, é claro, se algum dia ela já fora dele. Por que, pelo jeito, Luke para ela não fora nada mais do que um simples caso. Ora, que outra explicação havia para que ela lhe deixasse assim, sem nem se explicar com ele? Que outra explicação ela teria para ir embora, assim, do nada, se não fosse por que ela não amava Luke como dizia amar?
Mentirosa. Era essa a palavra que vinha ecoando na cabeça daquele jovem de dezoito anos completamente desolado e arrasado, que deixava sua mão direita pingar sangue por ter quebrado um porta-retratos de vidro com um soco. Mentirosa. Mentiu sobre o que sentia e sobre o que queria. Mentiu quando disse que voltaria. Mentiu quando jurou que o amava. Mentiu. Mentiu sobre tudo.Mentirosa.
E além de mentirosa, era egoísta. Luke se lembrou de quando pensava exatamente a mesma coisa dela, assim que ela iniciou seu namoro com Brad, em tempos antigos. Fútil, egoísta, fria, cínica, mentirosa. Era isso que ele realmente acreditava que ela era naquela época.
Quem diria que ele estava certo.
Luke soluçou outra vez e sem cerimônias atirou a maldita carta ao fogo. Viu, lentamente, as palavras frias e egoístas de Sophie se desintegrarem até se tornarem apenas cinzas. Assim como todas as fotos dos dois. Assim como outras cartas, bilhetes, lembranças. Apenas cinzas.
E era isso que Luke queria fazer com o amor que ainda sentia por ela. Queimá-lo, exterminá-lo, até não haver mais nada.
Nada além de cinzas.



Tô aproveitando cada segundo antes que isso aqui vire uma tragédia.

E não adianta nem me procurar em outros timbres, outros risos.
Eu estava aqui o tempo todo.
Só você não viu.



Luke estava exausto. Exausto de pensar, chorar, sentir. Recebera a carta pela manhã e já era quase noite.
Limpou o rosto com as mãos e se forçou a engolir o choro. Não sentia a mínima vontade de parar, mas sabia que precisava deixar de ser bobo. Passou as mãos pelo cabelo e se levantou do chão em que estava agachado, vendo a lixeira de aço queimar tudo o que ele tinha sobre ela. Fungou, cessando os soluços, mas nem por isso impedindo a dor dilacerante de cortar o seu coração. Mas tudo bem. Luke havia aprendido.
Amara Sophie. Com todo o coração. Como sempre, isso só o havia ferrado. Pois bem. Sophie havia dito que iria seguir o seu futuro sem ele.
E já que era assim, era exatamente isso que Luke iria fazer também.



Só por hoje não quero mais te ver, só por hoje não vou tomar minha dose de você.
Cansei de chorar feridas que não se fecham, não se curam, não.
E essa abstinência uma hora vai passar.




[...]



O garoto esbelto de cabelos acobreados se pôs na ponta dos pés, tentando avistar melhor as pessoas que chegavam aos montes no aeroporto. Assim como ele, sua amiga morena e maluca tentava fazer o mesmo, mas com bem menos visibilidade do que ele, afinal ela era uma bela de uma baixinha. Para falar a verdade, ele já a havia zoado por isso hoje, e recebido um tapa de volta.
— Então — ele disse para a amiga, com os olhos ainda pregados na porta onde os passageiros saíam e pegavam suas malas na esteira. — Onde está sua amiga grávida?
Julia bufou.
— Olha, Tarris, você pode calar a boca com ou sem os dentes. A escolha é tua. — Ela disse, irritada, fazendo o amigo idiota rir. — Só procura uma garota do cabelo muito vermelho.
— Tipo aquela ali? — Tarris perguntou, bocejando em seguida.
Julia se aproximou dele, tentando seguir seu olhar.
— Onde? — perguntou, procurando Sophie com os olhos, sentindo seu coração se acelerar.
— Ali — ele apontou para uma garota que pegava uma mala enorme na esteira e a colocava no chão, arrastando-a.
No mesmo momento em que o olhar de Julia seguiu o de Tarris e avistou a garota, Sophie virou o rosto, fazendo com que seus olhos se encontrassem com os de sua melhor amiga que ela tantosentira falta.
Sorrindo, Julia nem viu o momento em que saiu correndo em direção à Sophie, dando-lhe o mais apertado abraço que já havia dado em alguém desde... bem, desde que saíra de Nashville.
Mal conseguia acreditar. Sophie estava ali mesmo! A feia da sua melhor amiga estava ali, mesmo, abraçando-a com força e fungando levemente em seu pescoço. Oh, droga, Sophie, você poderia não chorar agora. Não quando Julia estava tentando se manter firme conforme todo o seu passado passava diante dos seus olhos, junto com toda a saudade que sentia não só de Sophie, mas de tudo que envolvia sua estadia pequena, porém mais do que significativa, no Tennessee. Aí Sophie aparece, abraça-a e começa a chorar. Isso não ajuda muito para uma garota que está lutando de verdade para manter sua instabilidade emocional e não chorar mais uma vez na frente do seu amigo idiota.
— Que saudade — Sophie disse com a voz mais desigual do que nunca, sem parar de fungar. — Não sabe o quanto eu senti a sua falta.
Ótimo, Julia estava chorando também.
— Sua boba — ela disse, sem conseguir parar de apertar a amiga com mais força do que ela achava que seria capaz. Já estava quase distendendo um músculo, Julia sentia. — Boba, bobona, para de chorar.
— Eu parar? Você também tá chorando, sua vaca! — Sophie se queixou.
E então as duas começaram a rir. E chorar. Ao mesmo tempo. E sem se separar.
Realmente, um abraço era muito pouco para duas amigas tão próximas que estavam separadas há tanto tempo. Por isso elas não conseguiam sair dos braços uma da outra, chorando e rindo, como verdadeiras idiotas. Deus, tanta coisa havia mudado desde a última vez que se viram! E ainda assim Sophie sentia como se nada houvesse mudado. Entre as duas, com a amizade que as rondava, com certeza tudo ainda era o mesmo. Julia ainda era tão importante para ela quanto uma irmã.
— Feliz aniversário — Julia sussurrou, sem conseguir parar de rir ou cessar as lágrimas que escorriam pelo seu rosto. Sophie fungou, lembrando-se por instinto o que havia acontecido no dia vinte e sete de agosto do ano passado.
Joe fizera cupcakes e chocolate quente. Ela ganhara o carro. Soube que Julia havia perdido sua virgindade um dia antes. Passara o dia no shopping com as meninas. Ganhou um livro de Luke. Foi levada à força para o palco e obrigada a cantar Hate That I Love You num karaokê, com Luke. Foi dormir cansada, porém, leve como nunca se sentira antes.
Tanta coisa havia mudado. Seus pais haviam quase se separado, ela ganhara uma irmã mais velha do que ela. Vira Joe quase entrar em um colapso interno. Viu Julia indo embora, e consequentemente, viu Nate se tornar outra pessoa. Viu-se apaixonar novamente por Luke, e perder sua virgindade com ele. Viu tudo se acertar. Viu a Paramore fazendo um subsucesso. Viu-se decidindo que Luke era mesmo o cara que ela amava e com quem iria viver para sempre. Viu esse sempre acabar no momento em que descobriu que estava grávida antes do que seria capaz.
Tudo isso em apenas um ano. Um bendito ano havia transformado Sophie em outra pessoa. Havia transformado Julia em outra pessoa. Trezentos e sessenta e cinco dias foram o suficiente para que Sophie assumisse uma vida que ela jamais imaginaria que teria. E ao mesmo tempo que isso era bom, era ruim, e era... tão injusto.
Mas a certeza era que agora, enquanto Sophie estava abraçada com Julia, era o momento que ela se sentia mais calma e segura. O abraço da melhor amiga lhe trazia uma espécie de calmaria e conforto que Sophie realmente precisava. Como se tudo desse certo, desde que elas estivessem juntas, as irmãs inseparáveis que eram.
— Certo — Julia disse, separando-se da amiga por um momento. Secou as próprias lágrimas com os dedos, rindo nervosamente. — Você me fez borrar minha maquiagem, sua vaca.
Sophie também riu, segurando a mão da amiga assim que limpou suas lágrimas com a ponta dos dedos.
— Meu Deus, você tá tão linda! — ela disse, esticando o braço de Julia e olhando-a por completo. Seus cabelos ondulados estavam enormes, chegavam até o meio das costas. Ela estava vestida com uma calça jeans, botas, um casaco grosso e um cachecol.
— Eu sei! — Julia disse, fazendo Sophie dar uma risada alta. Meu Deus, como ela sentira falta daquilo. — Você também tá muito gostosa, meu Deus, olha só pra você! Eu tenho certeza de que ganhou mais corpo desde a última vez que a gente se viu.
Sophie apenas riu outra vez, chamando Julia de boba, mas agradecendo internamente por ela estar ali, agora. Talvez Sophie não conseguisse aguentar sozinha.
— Posso dar uma opinião? De mulher, eu entendo — só agora Sophie havia notado outro rapaz, meio loiro, atrás delas. Tinha um sorriso maroto e o tipo de olhar escuro que fazia qualquer um se derreter.
— Não pode, não — Julia se virou para ele. — Fica na sua, Pônei.
Sophie riu. Pônei?
— Ah, qual é! Você ainda nem me apresentou sua amiga gostosa, e olha que fui eu que te tirei da prisão, como diria Susan, e te trouxe pra cá.
— Você trouxe por que quis — Julia deu de ombros. — E vai se ferrar, ninguém está falando com você.
— É assim que você me agradece?! Vai se ferrar você! — Tarris encarou Julia como se fosse matá-la.
— Vai você! — ela retrucou.
— Galera — Sophie se meteu, com um sorriso no rosto. Esse... bem, garoto, parecia muito com Julia. No quesito temperamento, quero dizer.
— Me chamo Tarris Felton — o garoto se aproximou, segurando a mão de Sophie delicadamente e levando-a até os lábios, sem quebrar o contato visual intenso. Estava tentando seduzir Sophie, ou...? — Ao seu dispor.
Ela riu, retirando sua mão dos lábios do moleque.
— Certo — disse ela, estranhando.
— Que ridículo — Julia semicerrou os olhos que estavam grudados no amigo. — Você é absolutamente ridículo, Pônei. Ridículo.
Tarris não havia tirado seus olhos de Sophie, encarando-a com intensidade. Ela já estava começando a corar.
— Posso levar sua mala? — Sophie não sabia, mas achava que sua voz não era rouca e entonada daquela forma. Também suspeitava que seu sotaque britânico não fosse tão aparente.
— Isso, seja útil para alguma coisa e pegue a mala dela — Julia deu de ombros, segurando o braço da amiga em seguida. — Tome cuidado, Soph. Esse aí dá em cima de qualquer coisa que use uma saia.
Sophie riu alto, seguindo os passos de Julia e vendo Tarris segui-las.
— Ela só diz isso por que me ama! — escutou a voz do garoto que logo já alcançara Sophie, carregando suas duas malas como se elas não fossem nada demais.
Julia riu.
— Pobrezinho iludido — disse, dando ombros.
— Iludido nada. Sou um anjo na sua vida, querida. — Tarris parecia supertranquilo. — E da sua também, querida-número-dois. — Ele piscou para Sophie e se virou para Julia em seguida. — Contou do plano a ela?
Julia ergueu as sobrancelhas.
— Oh, o plano! — exclamou. — Não, ainda não.
— Que plano? — Sophie perguntou, mais uma vez se sentindo como uma estranha que não sabia de nada entre aqueles dois malucos. Sinceramente.
— Vamos tomar um suco enquanto falamos do plano — Tarris sugeriu, e essa devia ser a primeira coisa que Julia não criticava nele. Era realmente engraçada a maneira como ela implicava com tudo o que ele fazia.
Entraram em uma lojinha de café, dentre tantas que havia naquele aeroporto. Tarris ainda carregava as malas de Sophie e as deixou junto à mesinha a qual eles se sentaram. Pediram seus sucos, apenas para passar o tempo, e Julia e Tarris se entreolharam como duas crianças sapecas.
— Certo — Sophie disse, apoiando o rosto nas mãos. — Podem me contar.
— Bem — Julia começou. — Quando você me ligou, eu fiquei bem preocupada, você sabe. Tarris apareceu em seguida e eu acabei contando pra ele, só para... espairecer.
— E eu dei a solução perfeita, por que sou um anjo enviado do próprio Deus para você, minha cara — ele piscou outra vez, realçando seu sotaque.
— Cale a boca — Julia bufou. — Enfim, sim, ele deu a solução perfeita. E de boa, eu realmente acho que foi coisa divina, por que, nossa Senhora, sério.
— Vocês vão me contar o plano ou vão continuar orando? — Sophie perguntou, fazendo com que Tarris risse.
— Bem — Julia recomeçou —, a questão é que os pais de Tarris já estão querendo adotar uma criança desde...
— Sempre. — Tarris completou, bocejando.
Julia revirou os olhos para ele.
— Eu passei um fim de semana na casa do Pônei um tempo pra trás, e o tio Rapha e a tia Camie são os melhores, você não tem noção — ela sorriu. — Enfim, eles querem adotar uma criança, por que na verdade eles sempre sonharam em ter mais de um filho. Mas tia Camie tem um problema nos ovários, e na realidade, ter o Pônei já é um grande feito, por que as chances de ela engravidar eram de uma em um milhão.
— Sou um milagre de Deus — Tarris sorriu sedutoramente para Sophie outra vez e Julia apontou o dedo para ele, bufando de raiva.
— Se você me interromper outra vez eu quebro a sua cara — ela ameaçou, fazendo Tarris rir. Revirou os olhos. — E sinceramente, eu não acho que você seja um milagre de Deus. Acho mesmo é que tia Camie e tio Rapha cometeram pecados terríveis em uma vida passada e estão pagando agora, te aceitando como filho. — Julia deu ombros. — Além disso, não é aí que está a divindade. O tio Raphael é médico, e mais, não é um médico qualquer. Além de clínico geral, ele é obstetra. Ou seja: seu obstetra. E só para completar o pacote de perfeição, a tia Camila...
— É professora na Laurent Louis, de piano, e até já deu aula pra você — Tarris interrompeu Julia outra vez.
Enquanto ele tentava se defender dos tapas incessantes que Julia passou a lhe dar, Sophie foi se lembrando da figura de Camila Felton, seus cabelos castanhos escuros enormes e seu senso de humor imbatível, mesmo que ela tivesse sido separada da coisa que provavelmente mais amava no mundo — o piano. Pelo modo como ensinava, Sophie sabia que ela deveria ter sido uma pianista espetacular.
E... subitamente Sophie gostou muito da ideia de aquela mulher que ela tanto admirava ser a mãe do filho que ela não podia criar.
— Para, caramba! — Tarris gritou, e Julia bufou e se virou para o lado.
— Não me interrompa novamente — ela disse dura, e Tarris imitou-a fazendo deboche.
— Professora Camie — Sophie murmurou.
Tarris riu.
— Eu não disse que ela conhecia a mamãe?
— Todos nós já sabíamos disso, idiota. A própria tia Camie disse que se lembrava da Soph — Julia revirou os olhos e voltou à atenção para a amiga, que ainda estava meio aérea. — Enfim. Eu e Tarris conversamos com os tios, e eles simplesmente amaram a ideia. Tio Rapha vai fazer o seu tratamento completo até o parto de graça, e a tia Camie te conseguiu um dormitório sozinho na LL, para que nenhum dos seus ex-colegas descubra que você tá grávida. Segundo o tio Rapha, até a tua formatura daqui a três meses, sua barriga vai estar quase imperceptível. Você só precisa usar umas blusinhas mais largas.
Sophie sorriu.
— Isso é sério? — perguntou, controlando-se para não chorar novamente.
Hormônios chatos.
— Claro que é, gata — Tarris piscou novamente. — Bem, agora nós vamos te levar até a tua escola e você vai encontrar mamãe lá. Depois você vai “passar mal por causa da viagem” — ele fez aspas com os dedos —, e ela vai te levar até o consultório do papai. Nós dois estaremos lá. Aí você faz o seu primeiro pré-natal.
— É — Julia concordou. — Mas nós só vamos confirmar que a criança é um menininho daqui a uns quatro meses, com a ultrassonografia.
— Morfológica. Ultrassonografia morfológica. — Tarris bocejou. — E eu acho que é uma menina.
— Cale a boca, Pônei, você não sabe de nada — ela revirou os olhos. — Enfim, Soph, este é o nosso plano. E me agradeça por ajudar você nisso e não ligar para o Luke agora mesmo. Se eu não fosse extremamente egoísta e não te quisesse aqui comigo, nada disso aconteceria.
Sophie apenas assentiu com a cabeça e mordeu o lábio inferior, controlando-se para não chorar novamente. Sabia que Julia não concordava com nada daquilo, mas ainda assim era imensamente agradecida com a amiga por ter feito tudo. Sozinha Sophie jamais conseguiria. Jamais.
E para dizer a verdade, o plano de Julia era realmente perfeito. Especialmente a parte que Sophie não sabia.