You can't run away... you wouldn't.
Cinco
anos e meio depois
Céus,
ela estava quase atrasada. Visualizou o relógio de parede acima da pia — sua
amiga maluca o havia colocado no local mais improvável possível. 7h15min.
Respirou.
Tudo
bem, ela ainda poderia chegar na hora. Só precisava terminar o café da manhã,
arrumar seu filho e fazê-lo comer, levá-lo até a creche e ir em direção à
escola. Em quarenta e cinco minutos.
Droga,
era muito pouco. Ainda mais levando-se em conta que Henry demorava uma vida
para comer e parecia superentretido com seu desenho animado, o televisor no
último volume na sala ao lado da cozinha.
Sophie
suspirou.
—
Henry Lucas Farro, pela última vez, abaixe esse volume! — gritou ela,
sentindo-se um pouco menos estressada quando notou que o som que ecoava da tevê
ficou mais baixo.
— Desculpe, mamãe! — ela escutou o grito
agudo do filho e virou-se para o fogão, dando uma última mexida nos ovos e
virando o bacon. Gloriou-se mentalmente por não se queimar desta vez.
Sinceramente, às vezes parecia que Sophie tinha um imã para óleo quente. Seu
braço ainda ardia pela última gota que a queimara, semana passada.
Ela
apagou o fogo dos ovos, deixando o bacon fritar durante mais um tempo — Henry
gostava do seu bacon muito bem passado, quase queimando —, e foi até a
torradeira que havia acabado de apitar. Colocou a torrada do filho em um prato
de porcelana com a estampa do Mickey Mouse que Julia havia comprado numa loja
de utilidades, sabe-se lá aonde, em uma de suas viagens a trabalho. Julia sabia
que Henry era meio obcecado por desenhos antigos, especialmente o Mickey Mouse
e sua turma, Snoopy, Bob Esponja e até mesmo o Pica-Pau. Mas ele também adorava
desenhos atuais que envolviam muita computação gráfica, além de gostar de
desenhos que não eram tão atuais, mas
ainda assim, não deveriam fazer sucesso para uma criança de apenas cinco anos.
Ele tinha uma estante inteira apenas de DVD’s de desenho animado que Julia
comprava para assistir com ele.
Neste
momento, Sophie conseguia reconhecer a voz de Jake, o cachorro elástico do
desenho Adventure Time. Henry acordara
às seis horas da manhã para não perder a maratona que passava na Cartoon
Network e Sophie aproveitou para corrigir as provas que precisava, enquanto
escutava as risadas contagiosas do filho e, mais uma vez, agradecia a Deus pela
bênção que era tê-lo. Acabou levando mais tempo do que o que ela pensava, e
agora só faltavam quarenta minutos para ela chegar ao colégio, onde dava aulas
de piano, canto e teoria musical para alunos do quarto ao nono ano, o que não
era um trabalho nada fácil. Além de ter que lidar com alunos que não queriam
nada com a vida, vira e mexe um garoto de doze anos se “apaixonava” por ela
(Julia havia dito uma vez que se estivesse com doze anos e sua professora de
piano fosse tão jovem e gostosa, ela provavelmente se apaixonaria também).
Lidar com pré-adolescentes era tão exaustivo que Sophie gostaria que Henry
tivesse cinco anos para sempre.
Sinceramente,
essa parecia a melhor fase de uma criança. Os primeiros meses foram terríveis,
Sophie era muito nova e não tinha nenhuma experiência, além de ainda ter de
frequentar para a faculdade de música (Camie lhe ajudara muito nesta época).
Ela e Julia se reviravam ao avesso para poderem cuidar do pequeno
recém-nascido, e ainda assim era tão difícil. Sophie estudava à noite e Julia
trabalhava e estudava o dia inteiro, tendo que cuidar de Henry quando Sophie
estava na faculdade. Quando ele fez um ano de idade, elas já não se aguentavam
mais. A exaustão havia tomado conta de ambas, junto à culpa que Sophie sentia
por estar criando um bebê longe de sua família.
Foi
então que houve a ligação. A ligação que Sophie fez para Hayley para dizer que
ficara grávida e tivera um filho.
Céus,
fora um horror. Hayley esbravejou ao telefone — logo depois de se recuperar do
choque inicial, que incluía a total discórdia e achar que tudo aquilo era uma simples brincadeira —, brigou,
gritou, chorou. E quando perguntou sobre o pai da criança, Sophie... apenas
respondeu que não sabia quem era.
Isso
foi o fim. Sua mãe largou o telefone e logo Sophie ouviu a voz de Josh, que
parecia muito mais calma do que a de Hayley. E realmente estava. Josh com
certeza estava magoado, mas... tanto ele quanto Sophie sabiam que ele não estava
em posição de brigar com ela, uma vez que ele fizera quase a mesma coisa em relação a Danna. Conversou com Joe e com
Nate em seguida, ambos com as vozes mais grossas do que ela se lembrava, apesar
da voz de Joe estar um pouco arrastada e mais rouca. Ambos estavam pasmos, Joe
ficou chateado por Sophie não tê-lo contado. Até que Hayley reapareceu, sem
parar de brigar, e Sophie encerrou a ligação com um “eu já assumi a responsabilidade! E vou criá-lo sozinha, como tenho
feito ao longo desses seis meses.”.
Isso
por que Sophie não podia dizer a real idade de Henry. Se dissesse que ele tinha
um ano de idade, bem, não era preciso fazer muita conta para descobrir que as
dadas condiziam e que, afinal, o filho de Sophie era também filho de Luke.
Foram
quase duas horas com o telefone grudado a orelha, escutando o choro e a briga
da família, Julia encarando-a com preocupação e lhe dando apoio moral. O
pequeno Henry, tão inocente, dormia em seu quarto como um anjo, sem ter a
mínima ideia do que acontecia fora dele.
Os dias
seguintes, entretanto, foram muito mais tranquilos. Julia conseguiu um trabalho
remunerado e Sophie passou a estagiar no mesmo lugar onde dava aulas até hoje.
Quando Henry tinha dois anos de meio, Hayley, Josh, Joe, Danna e Hector foram
visitá-los. Sophie comunicara Julia sobre a vinda de sua família até Londres e,
sinceramente, nunca vira a amiga empalidecer tão rapidamente de forma tão
brusca. Parecia que o sangue tinha fugido de seu rosto, e ambas sabiam a razão.
Mas
Nate não iria visitá-las. Havia entrado no exército e estava em treinamento
contínuo por dois anos, impossibilitado de visitar outro país por tanto tempo.
E
acabou sendo uma das semanas mais incríveis da vida de Sophie. Não se lembrava
do quanto sentia saudade de seus pais, de modo que os abraçou tão apertadamente
da primeira vez que os viu que começou a chorar. Joe estava tão grande, e
Sophie quase desmaiou quando Danna anunciou que o pequeno Henry teria um
priminho (que, no fim, acabou sendo uma priminha). Estavam todos tão
diferentes, tão mudados, e Sophie se deu conta de que havia mudado também, e
muito. Mesmo que só tivesse dezenove anos, já era uma adulta desde o momento em
que Henry Lucas, seu bebê tão lindo, nascera. Não parara de pintar o cabelo,
mas crescera, física e emocionalmente. Não era mais uma adolescente. Era... uma
mãe.
Henry
fora o xodó do momento, evidentemente. Todos ficaram chocados com sua esperteza
e precocidade, além de ser inegável que o bebê era mesmo a criança mais linda
do mundo inteiro, sobretudo quando se sentava ao piano da mãe e começava a
martelar as teclas, gargalhando gostosamente quando o som das teclas ecoava.
Ele
era muito pequeno, mas já parecia carregar os genes musicais dos pais. Ou
então, havia aprendido a amar música por todas as horas que Sophie passava
tocando piano mesmo quando estava grávida dele, ou quando bebê ficava em seu
colo, dormindo calmamente ou sorrindo enquanto ela treinava as obras que
precisava para a faculdade. Isso era tão comum que até hoje, cinco anos e meio
depois de seu nascimento, o garoto se sentava no colo da mãe para escutá-la
tocar.
E
claro que todos acharam Henry muito precoce e grandão para um garoto de dois
anos de idade, sobretudo quando ele era precoce e grandão mesmo para um garoto
de sua idade. Tinha dois anos e meio e quase não falava errado, além de já ter
aprendido a usar o banheiro — feito este que Sophie simplesmente amou. Não havia nada pior do que ter de
acordar de madrugada para trocar suas fraldas.
Ossos
do ofício.
E
claro, ainda havia a época em que Julia perdeu o emprego e... bem, faltou
dinheiro. Foi a pior época pela qual eles passaram, e se não fosse por Tarris,
Sophie e Julia não aguentariam as rédeas da situação. Não podiam parar de pagar
a creche de Henry por que não tinham tempo para cuidar do garoto, e claro que
elas compravam as coisas que eram úteis para a casa e os livros da faculdade
antes de pagar as contas do apartamento. Infelizmente, isso deixou-as
endividadas até o pescoço e Sophie conseguira limpar seu nome fazia apenas dois
meses. Julia, sem fazer nada pelo período de tempo que supostamente deveria
estar trabalhando, passou a escrever artigos de acordo com suas próprias
ideias, vocabulário e fontes, e postá-los na internet por meio de um blog que
ela mesma criara. O incrível fora que as pessoas passaram a ler o que ela fizera apenas por pura diversão e, hoje, o
blog de Julia era um site noticiário formado por uma equipe, todos ex-universitários,
colegas dela. O dinheiro que passaram a ganhar com propagandas e patrocínio fora
o suficiente para mantê-las em um padrão pouco mais folgado de vida. Mesmo que
Sophie sempre atrasasse a conta de
telefone. Depois da criação do site, mesmo na faculdade, Julia passou a receber
propostas de empregos de todas as editoras e jornais do país. Todos se encantaram
pelo seu jeito irônico e verdadeiro de ver e mostrar as coisas ao povo. E oras,
ela seria formada por Oxford! Quem não iria querê-la?
Agora,
formada, Julia não estava trabalhando para ninguém senão ela mesma. Tinha um
pequeno escritório no centro onde se reunia com seus colegas e projetava as
notícias para aquele dia, além de andar sempre com o iPhone em mãos, atenta a
toda e qualquer notícia que possa acontecer dentro da Inglaterra ou mesmo no
resto do mundo.
Sophie
também mal conseguia se lembrar de quando Henry completou três aninhos sem
chorar. Havia contraído uma gripe inicialmente, mas... a gripe não sarou.
Deu-se uma tosse que não acabava, febre, vômito, por vezes sua respiração
ficava comprometida. Sophie perdeu a conta de quantas vezes ele chorava e
apontava para seu peito, dizendo que “seu coração estava doendo”. Ela o levou
ao hospital diversas vezes, recebendo sempre o mesmo diagnóstico: gripe. Mas a
gripe de Henry não cessava, e então, em outra consulta, quando ele fez o
hemograma e a radiografia, descobriu-se que o pequeno menino havia contraído
pneumonia.
Ainda
passando pela crise financeira, Sophie nunca havia se sentido tão angustiada em
sua vida. Suas notas na faculdade caíram consideravelmente, pois ela deixava de
ir as aulas para ficar com seu filho, certificar-se de que ele estava bem e sem
tossir, sem febre, sem dor, sem falta de ar, comendo direito. Ele havia
emagrecido tanto, e Sophie
simplesmente entrava em pânico quando ele não conseguia respirar. Chorava com
ele quando ele dizia que seu peito estava doendo, e chorava sozinha quando
finalmente conseguia fazê-lo dormir. Henry havia se tornado uma criança
complicada para comer nessa época, e isso havia se estendido até hoje.
Foi o
mês mais difícil que Sophie já passara em sua vida. Não conseguia dormir, não
conseguia trabalhar, não conseguia estudar. Só conseguia pensar em seu filho,
doente, com aquela doença terrível. Após todo o tratamento e as visitas ao
hospital, Henry finalmente sarou. Até hoje Sophie brigava com a síndica do prédio
para fazer as manutenções dos ares-condicionados, e retirara-o da creche que
recusou a fazê-lo. Além de garantir que Henry comesse todos as vitaminas que
precisava.
Mas
mesmo com todas as dificuldades, Sophie não conseguia imaginar sua vida sem seu
pequeno filho. Ele havia se tornado o centro do seu mundo, e tudo o que ela
fazia era para ele de alguma forma. Não havia nada no mundo que Sophie amasse mais do que Henry, o travesso,
teimoso, e apaixonado por desenho animado Henry Lucas. Toda vez que ela se
sentia magoada por algo que fizera no passado, só precisava olhar para seu
rostinho jovial e inocente para sentir que tudo valera a pena. Só precisava ver
seu sorriso e seus olhos perfeitos para se derreter. Só precisava sentir seus
bracinhos em volta do seu pescoço, abraçando-a como se ela fosse a mulher mais
incrível do mundo para saber que tinha feito a coisa certa.
A
coisa certa fora ficar com Henry para ela.
—
Cheguei, amores! — Sophie saiu de seus devaneios quando escutou a voz de Julia
ecoando pela casa. Retirou o bacon do fogo, colocando as fatias sobre os pratos
de porcelana.
— Bom
dia — Sophie disse, levando os pratos para a mesa. — Henry, vem comer!
— Peraí — ele gritou de volta, fazendo
Sophie revirar os olhos e encarar a amiga a sua frente. Seu cabelo estava
molhado e o único vestígio de maquiagem em seus olhos verdes era um rímel que
ela com certeza havia acabado de passar. Sua bolsa parecia abarrotada e, ora,
Julia não tinha nenhuma camiseta do Bon Jovi. Some isso ao fato de ela estar
chegando em casa as sete e vinte da manhã e não é preciso ser um gênio para
adivinhar onde ela estava.
—
Sério, eu tenho que parar de esperar você chegar em casa — Sophie disse,
sentando-se à mesa e dando uma garfada de seus ovos. — Você podia ligar. Não
estava no escritório?
—
Desculpe, papai — Julia revirou os olhos, fazendo Sophie rir. — Sim, estava no
escritório, mas fui tomar uma cerveja com o Bruce depois disso.
Sophie
parou de mastigar.
—
Bruce não é o cara casado?
Julia
apertou os olhos.
—
Claro que não! O que acha que eu sou? — ela deu ombros e Sophie voltou a comer.
— O que se casou é o Paul. Pelo amor de Deus, como você confunde Bruce com Paul?
— Você
também dormiu com o Paul — Sophie disse em tom inexpressivo, sem ligar.
— Isso
foi antes de ele se casar — Julia explicou-se. — E já faz um tempão, por favor,
pare de me condenar!
— Você
tem que parar de dormir com os seus funcionários, Julia — Sophie apontou com o
garfo para a amiga. — Henry, ande! Os ovos vão esfriar!
— Peraí, mamãe, tá quase no fim!
— Não
tenho, não — Julia disse, sentando-se e largando a bolsa em cima da mesa. —
Essa é uma das poucas vantagens de ser a chefe. E eu não estou cometendo nenhum
crime, se quer saber. Bruce já estava me cantando há uns dois meses. E eu sou
uma mulher de vinte e três anos bem sucedida, linda e independente na capital
da Inglaterra. Faço bem de estar dormindo com quem eu quiser.
Sophie
negou com a cabeça.
—
Primeiramente, você só tem vinte e dois. E depois, certo, você é independente e
linda e blábláblá, mas... quanto tempo tem que você não sente algo por um desses caras?
—
Acredite, eu senti algo ontem à noite
enquanto o Bruce... é melhor não terminar a frase — ela se calou ao ver o olhar
fulminante de Sophie. Havia proibido Julia de falar besteiras ou palavrões na
frente de Henry há um bom tempo.
— Eu
não estou falando de s-e-x-o — Sophie soletrou, preferindo prevenir que seu
filho não estivesse chegando. — Você é uma garota incrível e metade desses
caras se declararam para você. Sabe, Julia... você precisa se apaixonar de
novo. Amar, sabe. Amar e ter um homem
te amando de volta.
Julia
encarou Sophie como se ela houvesse acabado de dizer a coisa mais retardada do
mundo.
—
Certo, você tem razão — ela disse em seguida. — Lucas!
— O quê? — Henry respondeu ao grito de
Julia na sala.
— Eu
te amo, você me ama?
— Aham!
—
Então diz que me ama!
— Eu te amo, tia Julia — ela escutou o
grito da criança e sorriu para Sophie.
— Viu?
Eu amo um homem que me ama de volta, e tive ontem uma noite de s... s-e-x-o,
incrível. Minha vida está completa. — Julia deu de ombros. — E não me venha com
essa de “você precisa amar”, Srta. Responsabilidade. Quantos anos têm que você
não fica com ninguém?
Sophie
suspirou.
— Não
preciso disso.
— Por
favor, Soph! — Julia se remexeu na cadeira. — O mais perto de experiência s...
s-e-x-u-a-l que você teve desde o nascimento do Lucas, foi quando aquele
professor esquisito te beijou naquela festa esquisita de alunos esquisitos.
Sophie
riu.
—
Novamente, Juzy, eu não preciso disso. Tudo que preciso é minha música e meu
filho. — Respondeu Sophie, comendo um pedaço de bacon torrado do jeito que
Henry gosta.
Julia
bufou.
— Pois
sabe o que eu acho? — disse e Sophie negou com a cabeça. — Acho que uma hora ou
outra, Soph, você vai perceber que o Luke não foi o único.
Sophie
abaixou o garfo por impulso, sentindo o sangue parar de fluir em suas veias.
Engoliu, ainda pasma, pálida.
—
Assim como você percebeu com o Nate? — ela não viu quando as palavras saíram de
sua boca, arrependendo-se logo depois de tê-las dito. Julia havia... tocado em
seu ponto fraco. Sophie se irritara e dissera as palavras sem pensar, apenas
para... revidar.
Mas
Julia aparentemente tinha se irritado de verdade. Levantou-se de uma vez,
deixando a bolsa em cima da mesa, andando com força até o fogão. Colocou um
pouco de ovos em um prato e bateu a frigideira contra o fogão.
— Não
fale como se fosse escolha minha — ela se virou para Sophie, os olhos
fulminando de irritação... e tristeza. — Não vim para Londres por que eu quis,
Soph. Não levo a vida que levo por que eu
quero.
Sophie
mordeu o lábio.
— Me
desculpe, eu falei sem pensar — disse, sinceramente.
Julia
largou a frigideira no fogão, perdendo subitamente sua fome. Seu rosto não
estava mais irritado, mas Sophie teve a impressão de que ela queria chorar.
Apoiou o peso de seu corpo sobre suas mãos, no balcão, suspirando.
— Eu
não ia sair com o Bruce ontem, Soph — ela confessou. — Não queria, na verdade.
Mas... quando eu estava escrevendo um artigo... eu recebi uma ligação... Leonard.
Leonard me ligou. — Julia não encarava mais a amiga. Olhava para suas mãos que
iam empalidecendo conforme ela aumentava sua força sobre elas. — Ontem foi
aniversário dele, de dezesseis anos. Eu tinha... esquecido do aniversário do
meu próprio irmão, e... caramba, Sophie, ele parece tão diferente. A voz dele,
segura e ao mesmo tempo travessa. Jason deu uma moto para ele e o garoto estava
quase explodindo de felicidade. Disse que queria que eu estivesse lá para ver,
para dar uma volta com ele — Julia suspirou, engolindo seu choro. Sophie já não
conseguia mais encará-la ou comer o que estava em seu prato. Sentia em seu
interior que Julia já deveria ter voltado para a América, mas a única coisa que
a prendia... era ela. — Eu sinto tanta saudade,
Sophie. Meu irmão, aquele pirralho irritante, virou... um homem, sabe? E a minha
mãe... minha mãe parecia tão cansada, a voz dela estava embargada por estar
falando comigo, com saudades de mim tanto quanto eu sinto saudades dela... Eu
sinto tanta saudade da vida que eu tinha em Nashville, mesmo que ela tenha sido
tão menor do que a vida que eu tive
aqui... — Julia retirou uma de suas mãos do mármore, passando-a pelos olhos num
gesto rápido e trêmulo. — Por isso saí com Bruce. Queria me distrair. Por que a
cada dia que se passa, mais eu sinto que esse não é o meu lugar. Que Londres
não é o meu lugar. Que não é aqui que eu devo ficar, mesmo que isso aqui
envolva... noventa e cinco por cento da minha vida. Eu só... — Julia fungou,
mordendo o lábio — ...queria voltar.
Sophie
suspirou, engolindo seu próprio choro.
—
Então volte — murmurou ela, encarando suas próprias mãos. Suas palavras eram
sinceras, entretanto. Sabia que Julia precisava
voltar. Tanto para sua família quanto... para a tatuagem que ela agora
encarava.
— Não
posso — ela murmurou de volta. — Não consigo deixar você e o Lucas. Não consigo
me ver longe de vocês. Não consigo... você sabe que eu sou maluca por aquele
garoto... Eu não posso voltar.
— Mas
você deve — Sophie levantou os olhos, encontrando os de Julia, completamente
abalados e confusos.
— Só
se vocês vierem — ela encarou Sophie de volta e deu um sorriso nervoso. — Vocês
são minha família, eu não vou conseguir me aguentar de saudade. Vem comigo.
Sophie
abaixou os olhos.
— Eu
não posso voltar, Julia — murmurou. — Não posso. Você sabe por quê. Você sabe
por quem. Não posso voltar.
Julia
suspirou, sem retirar os olhos da amiga.
— Mas
você deve.
[...]
Oh,
droga. E agora?
Sophie
encarou sua sala de aula vazia, as carteiras largadas de qualquer maneira pelos
alunos do oitavo ano que haviam acabado de sair, apressados para chegar em casa
e passar o resto da tarde no computador. Bem, talvez Gina não fizesse isso,
afinal, era a garota de treze anos mais dedicada que Sophie já havia conhecido,
e empenhava-se em tirar a nota máxima em todas as matérias. Inclusive música,
canto, matéria essa que a própria garota havia escolhido cursar. Assim como
todos os outros vinte e cinco alunos da classe do oitavo ano.
Alunos
esses que Sophie não voltaria a ver.
Sua
cabeça trabalhava procurando uma saída. Quanto tempo havia que ela não moldava
um currículo? Bem, precisava moldar um agora, e urgente. Precisava conseguir um
emprego o quanto antes.
Droga.
Péssimo momento para ser demitida.
Sobretudo quando Julia queria tanto voltar
para Nashville e o site dela estivesse se expandindo. Para Julia abrir uma
filial na América não demoraria nada.
Sophie
achava que conseguia aguentar tudo sozinha. Não ganhava mal na escola, afinal,
trabalhava dois turnos e lecionava para mais de duzentos e vinte alunos. Era
cansativo, sim, mas era o suficiente. Mas... bem, agora a escola havia achado
as aulas de músicas inoportunas e estavam substituindo-as pelos esportes.
Sophie e mais três professores foram demitidos, restando apenas um músico, que
daria aulas simples de violão para algumas crianças que queriam realmente
aprender.
Que ótimo. Sophie só havia trabalhado em
apenas um lugar, precisava achar outra escola de música para lecionar, e com
certeza recebendo menos do que o necessário. Isso, é claro, se ela conseguisse achar um emprego. Era
só dar uma olhada nos telejornais ou mesmo no site de Julia para saber que a
inflação estava terrível e a crise econômica tomava conta do país. Muitos
estavam sendo despedidos, muitos procuravam emprego, poucos estavam
estabilizados. A própria Julia teve de demitir dois redatores há menos de um
mês.
Sozinha
e desempregada, Sophie não conseguiria lidar com tudo o que estava acontecendo.
Agora também não contava mais com a ajuda de Tarris, já que este havia se
mudado para Dover e estava casado há menos de dois meses. Sophie sabia que isso
havia afetado Julia também — ela perdera seu melhor amigo colorido, além de
saber que Tarris fora para Dover procurar por Leighton, a garota que fora
separada dele mais ou menos da forma como Julia fora separada de Nate. Na
realidade, Tarris só estava no colégio interno em que Julia estava matriculada
na época em que se conheceram para ocupar a mente — mais ou menos da forma como
Nate fez, indo para o colégio militar antes da hora.
Agora
Tarris estava casado com a mulher que amava. E Julia... bem, não. Dava para ver que isso machucava-a.
Sophie não podia deixá-la ficar em Londres só por causa dela e de Henry. Quer
dizer, o filho era de Sophie, Julia não tinha a mínima responsabilidade sobre
ele, e só a ajudara por tanto tempo por que... eram melhores amigas.
Tudo
bem, Sophie receberia seus direitos por ter sido demitida, isso poderia suprir
suas necessidades por um tempo. Ela trabalhava naquela empresa há quatro anos!
As libras que receberia por direito deveriam aguentar até ela conseguir se
empregar novamente.
Ela
suspirou, pegou suas coisas e saiu da sala. Tinha de esvaziar seu armário
também. Oliver Schmidt, professor de flauta, não havia nem sequer dado sua
última aula. Esvaziara todo o seu armário e saíra da escola com raiva assim que
terminou. Na realidade, de todos os professores demitidos, Sophie foi a única
que trabalhou por que prometera aos alunos que lhes diria suas médias, além de
ter de entregar as provas corrigidas. Quando souberam que Sophie fora demitida,
eles ficaram abalados, e ela mesma também ficou. A turma do oitavo ano era a
mais fácil de trabalhar e os alunos a amavam. Fizeram até mesmo uma pequena
festa de aniversário para ela, quatro meses atrás.
Sophie
sentiria saudade daqueles pirralhos.
Não
havia muita coisa no armário. Um diário de notas que ela teria de deixar na
direção da escola, alguns livros didáticos, uma foto de Henry pregada à porta,
seu celular, um caderninho de partituras, e alguns papeis que Sophie apenas
jogava lá dentro. Esvaziou tudo da melhor forma que podia, preferindo deixar os
papéis inúteis por lá, e levou os livros e as notas de seus alunos para
diretoria, deixando-a com uma secretária qualquer. Enfiou o caderno, o celular
e a foto de Henry na bolsa e apertou o sobretudo contra o corpo assim que saiu
do prédio da escola particular em que lecionava. Passou a caminhar em passos
rápidos conforme o ritmo de Londres mandava até a creche onde Henry estava
matriculado. Teria de buscá-lo dentro de meia hora e decidiu ir andando,
optando por ter mais tempo para pensar enquanto via sua respiração fazer
contraste com o vento frio inglês.
Mas
ela não pensou muito. Logo seu celular passou a vibrar, tocando alto uma versão
piano de My Heart que ela achara na internet. Era incrível como mesmo depois de
tantos anos era possível encontrar os vídeos da Paramore no YouTube.
Quando
finalmente achou o celular, Sophie atendeu sem verificar o número, já com medo
de perder a ligação. Murmurou um “alô” forçado.
— Soph! — ela reconheceu a voz no mesmo
momento, deixando um sorriso aparecer em sua face. — Por que não atendeu o telefone antes? Estou te ligando desde cedo!
—
Estava na aula, tenho que dar o exemplo para aqueles meninos — ela disse de
volta para o aparelho, diminuindo o ritmo do passo. — Meu celular estava no
armário, me desculpe.
— Eu ia deixar você ser a primeira a saber,
mas como você não atendeu o telefone, não me culpe — sua voz estava
estranhamente alegre demais. Sophie estranhou, mas gostou.
—
Saber de quê, querida irmã? — perguntou ela à Danna, escutando sua risada do
outro lado da linha. Era inegável que a pessoa com que Sophie mais mantivera
contato ao longo de todos esses seis anos longe de casa fora Danna. Haviam se
tornado mais próximas do que já eram quando estavam juntas.
— É que... ai, espera um pouco, a Anna está
chorando — ela escutou um barulho, indicando que o celular havia sido
largado em algum lugar, seguido de um choro alto e fino. Anna, a pequena
filhinha de Danna e Hector, mais parecia um anjinho. Tinha cabelos loiros
longos que iam até as costas, baseado no que Danna dizia e nas fotos que Sophie
tinha dela, já que nunca vira a sobrinha frente a frente. Anna é, na verdade, o
nome da falecida mãe de Hector. — Pronto,
bebê. Quer falar com a tia Sophie? — ela não pôde deixar de sorrir quando
escutou a voz de Danna mais fina, brincando com a filha. Logo depois a voz da
irmã foi substituída por choramingos de uma criança. — Pronto, pronto. Ok, Sophie. Sobre o quê eu estava falando com você?
Ela
riu.
—
Tenho que saber de alguma coisa.
— Ah, sim — Danna sorriu, mais para fazer
uma pausa dramática do que para qualquer outra coisa. — Eu e Hector marcamos nosso casamento.
Sophie
teve que parar de andar para gritar com o telefone.
—
SÉRIO?! — gritou, sem se importar com os olhares estranhos direcionados a ela. —
Caramba, Danna, que ótimo! Parabéns!
— Não aceito seus parabéns assim — Danna
havia impostado sua voz e ainda era possível escutar os choramingos ao fundo. —
Só vou aceitar quando você estiver aqui,
sendo minha madrinha.
Sophie
mordeu o lábio, voltando a andar. Não... não teria como ela ser a madrinha de
Danna. Primeiramente, Sophie não tinha coragem de voltar para Nashville e
encarar... certas pessoas. E agora
ainda havia o problema de ela estar desempregada!
Por
mais que Sophie quisesse ver Danna se casando, era... simplesmente impossível.
— Não
posso, Danna — ela murmurou para o telefone. — Não tenho como.
— Ah, Soph, por favor! Eu vou me casar! Eu preciso de você aqui, vamos, por favor,
faça isso... — Danna começou a implorar.
Sophie
suspirou.
— Não
dá mesmo! — exclamou. — Danna, eu acabei de ser demitida. Não sei como vou
conseguir um emprego e não tenho dinheiro para gastar com uma viagem tão longa
e cara. É... impossível, não tem como.
— Você foi demitida? — a voz de Danna
parecia assustada. Ou empolgada. Ou os dois.
— Fui —
Sophie começou a andar com um pouco mais de velocidade. — Assim que cheguei à
escola, atrasada, para variar, tive uma reunião com a diretoria e eu fui
demitida com outros três professores.
— Ai, mas... — Danna começou a choramingar
assim como sua filha. — Por favor,
Sophie! Eu já até estou imaginando o seu vestido! Ok, mentira, eu não estou,
nem ligo para isso, é Hayley que está. Mas... caramba, você precisa vir. Eu
pago sua passagem e a do Henry, ok?
Sophie
negou com a cabeça mesmo que a irmã não pudesse ver.
— Não,
de jeito nenhum — disse ela. — Não vou aceitar seu dinheiro, ou empréstimo, ou
qualquer coisa assim. Se fosse para eu ir, Danna, eu teria de ir por mim mesma,
e Julia teria de ir junto. Além do mais, não tenho tempo para gastar em
Nashville... E nem se atreva a falar com o Joe!
Sophie
pôde escutar Danna bufando. Era incrível como quando qualquer um quisesse
convencer Sophie a fazer alguma coisa, a primeira pessoa que procuravam era
Joseph. Simplesmente por que sabiam que Sophie não conseguia dizer “não” para
ele. Na realidade, ela até conseguia, mas ele não aceitava e no fim ela fazia o
que ela queria.
Mas
Joseph manipulava todos assim.
— Mas eu queria tanto você aqui, cara. É especial
pra mim. E Henry seria meu pajem, tão lindo, naquele terninho... — Danna já
estava melhor em choramingar do que Anna.
—
Desculpa, Danna — Sophie torceu os lábios. — Não vai dar.
Danna
havia ficado chateada, é verdade. Sophie também ficaria caso se colocasse no
lugar da irmã.
Mas
Sophie não tinha coragem, simples assim. O dinheiro era sim uma desculpa, mas
mesmo que ela pudesse, não iria. Nashville... trazia muitas lembranças.
Lembranças doloridas. Sobretudo,
Sophie não conseguia se imaginar encarando Kathryn ou Jeremy — tinha certeza de
que estava sendo odiada por ambos.
Isso
por que, evidentemente, Luke também a odiava.
Sophie
não tivera muitas notícias dele desde que foi embora. A última vez que soube
dele foi quando Julia, atualizando sua página no Facebook, achou o seu perfil e
chamou-a para ver.
Na
foto, lá estava ele, com seus vinte e dois anos, a barba impecavelmente feita e
o cabelo ainda bagunçado e ridículo. Era uma foto bem normal, parecendo ter
sido tirada numa festa de faculdade, seu sorriso estava estampado e feliz. Na
foto de sua capa, uma guitarra. Quanto aos dados, estava morando em Nova Iorque
e trabalhando por lá em uma empresa chamada Feeling of Feeling, que Julia
descobrira ser uma banda, posteriormente. “Em um relacionamento enrolado”.
Sophie
não quis ver o resto e deixou Julia sozinha com seu notebook e seu vício em
redes sociais. Já bastava por um dia ver tudo aquilo, todo aquele Luke sem
sequer um vestígio de que um dia fora dela.
Claro
que Sophie esperava e, na realidade, até queria isso. Queria que Luke fosse
feliz sem ela, sem sentir sua falta, e que algum dia, quem sabe, ele fosse
capaz de perdoá-la por ter ido embora sem mais nem menos e, na compreensão
dele, ter engravidado de um inglês qualquer que nem sequer assumiu a criança.
Mas acontece que na prática... tudo é diferente. Tudo dói mais. E se não fosse por Henry, Sophie não aguentaria.
Obviamente,
Sophie pensou muito antes de decidir que não iria contar de Henry para Luke.
Pensou muito durante muito tempo e decidiu não o fazer. Provavelmente isso só
deixaria Luke com mais raiva dela, e além do mais, envolveria Henry em uma
grande briga judicial e um ambiente ruim que uma criança não deveria estar. Seu filho merecia crescer em um ambiente calmo,
amoroso e feliz, e não na casa de seus avós maternos, tendo sua atenção
dividida por dois pais machucados que mal conseguiam falar um com o outro sem
brigar.
Por
isso Sophie mentiu. Por que era o melhor para todos. Para Luke, que não ficaria
sabendo subitamente que tinha um filho, e para Henry, que poderia crescer sem
um pai, mas cresceria em um ambiente onde um pai não seria necessário. Já que,
na realidade, ele tinha quase duas mães.
Mas
Sophie sabia que isso iria acabar algum dia, e esse dia já estava próximo.
Julia não falava muito sobre Nate já fazia alguns anos, mas toda vez — toda vez — que Sophie a observava sem
que ela soubesse, Julia estava olhando para a tatuagem de infinito. Mesmo que a
amiga já fosse uma mulher feita, toda noite passava pelo menos vinte minutos
escrevendo em seu diário, com a única exceção das noites em que ela não passava
em casa (nada de pseudo-namorados perto de Henry, outra regra de Sophie). E
toda vez que Nate conversava com Sophie, ele perguntava “e como estão as coisas
com o Henry e com a Julia?”. Como se envolver o garoto na pergunta fosse tirar
sua verdadeira dúvida.
A mais
pura verdade era que a “situação temporária” que ambos criaram estava pelo fim.
Então seriam apenas Henry e Sophie, na grande Londres, procurando viver da
melhor maneira possível. A questão era: como
fazer isso sem um emprego?
A
pergunta ainda martelava na cabeça de Sophie quando ela chegou à creche de
Henry, bem na hora. Ele estava jogando cartinhas com dois meninos no canto da
sala, quando a professora chamou-o e Henry agarrou a mochilinha o mais rápido
que pôde, despedindo-se de seus amigos — James e Simon, Sophie os conhecia —, e
indo em direção à sua mãe que esperava na porta com um sorriso no rosto.
Ele era mesmo o menino mais
lindo do mundo, não era? Seu
cabelo meio loiro, meio castanho, estava bagunçado novamente, crescido para
todo lado. Caramba, Sophie batalhava para deixar o cabelo do filho certinho,
mas ele parecia ter vontade própria. Certo, ainda assim, ele era lindíssimo,
com seu sorriso aberto faltando dois dentinhos inferiores — Henry passara meia
hora pulando e dizendo que estava rico quando viu a nota de dez libras que a
“fada do dente” deixara em seu travesseiro —, e seus olhos azuis profundos que
só não eram mais hipnotizantes por estarem cobertos pelos seus óculos de grau
que caíram perfeitamente em seu rosto. Ele usava óculos desde que aprendera a
ler, há quatro meses, quando Sophie suspeitou de que o pingo do “i” estava
grande demais em suas tarefas de casa. Mas ele havia se tornado o garoto de
óculos mais charmoso do mundo.
Sophie
se agachou, ficando na altura do filho que correra até ela e passara os
bracinhos pelo seu pescoço, apertando-a e deixando um beijo carinhoso em sua
bochecha. Ela o apertou contra si, sorrindo, beijando seu rosto duas ou três
vezes e chamando-o de lindo, perguntando se estava tudo bem. Henry sorriu, se
afastou e assentiu veemente com a cabeça.
Outra
vantagem dessa fase: as crianças não sentem vergonha das mães, mesmo que
estejam sendo observadas pelo resto de seus colegas. Ser mimado é absolutamente
normal e até gostoso.
Sophie
segurou a mochila do filho e apertou sua mão, seguindo para fora da creche que
não ficava nada longe do apartamento dela na St. Alban’s Street, que ficava perto demais do centro de Londres. Joe
pagara caríssimo por aquele apartamento, Sophie sabia, e ela só não o vendia
para comprar outro que era um pouco mais longe daquela loucura por que... bem,
não podia.
— Como
foi a aula hoje? — ela perguntou a Henry, que sorriu.
—
Muito legal! — ele respondeu sorridente, andando rapidamente para acompanhar o
ritmo da mãe. — O Simon vomitou.
Sophie
fez uma careta.
—
Coitadinho! Por quê? — ela olhou para Henry, que havia adquirido a expressão
que Sophie classificava como séria. Era aquela expressão que ele usava quando
parecia que iria discursar, mas na verdade só queria usar o banheiro.
— Por
que... sabe aquela menina? A Kate? Aquela que usa maria-chiquinha quase sempre?
Ela levou um sanduíche de creme de amendoim e o Simon vomitou quando sentiu o
cheiro.
Sophie
não desfez a careta do rosto.
— E
isso classificou o seu dia como muito legal? — perguntou, fazendo Henry dar uma
risada gostosa.
— Não,
mãe! — respondeu ele como se isso fosse muito óbvio, sem parar de rir. — É que
por causa disso a moça teve que limpar a sala e a gente teve dois recreios.
—
Dois? — Sophie parecia interessadíssima, sorrindo para o filho. — Isso parece
ótimo.
— Eu
ganhei quatro vezes do James no
futebol — Henry se gabou. — Eu tenho o pé mais forte de todo mundo! Fiz quatro
gols!
Sophie
gargalhou, escutando a voz que Henry fazia quando queria imitar um desenho
animado, se gabar por alguma coisa ou dizer “eu sou o garoto mais forte do
mundo!” quando brincava com Julia. Seu celular tocou novamente. Danna.
— Alô —
Sophie murmurou, andando mais devagar e segurando o pulso do filho com mais
força.
— Quem
é? — Henry perguntou, o sorriso estampado no rosto, superinteressado. Ele
ajustou os óculos no rosto e seu dedo acabou sujando a lente.
— É a
Danna — Sophie disse para ele.
— Ei, Sophie, quem está aí? — Danna perguntou
do outro lado da linha.
— O
Henry, acabei de pegá-lo na creche — Sophie respondeu. — Tudo bem? — ela
perguntou para Danna de imediato, estranhando a ligação, uma vez que Danna
acabara de desligar o telefone.
— Sim, eu tenho uma proposta para você. A
resolução de todos os seus problemas. — Danna estava dizendo impostando sua
voz novamente. Sophie escutou alguém dizer algo ao fundo. — Ah, sim. E tudo isso é culpa de Hector.
Sophie
sorriu, chegando a um ponto em que ela e Henry teriam de atravessar uma rua.
Ela entregou o celular ao filho, que o colocou na orelha, e pegou Henry no
colo, pronta para atravessar.
— Oi,
tia Danna — Henry começara a conversar enquanto Sophie ria. — Tudo bem com
você? Tudo bem com a Anna? Tudo bem com o tio Hector? Tudo bem com a vovó? Tudo
bem com o tio Joe? Tudo bem com... Mamãe está atravessando a rua... Ela me deu
o celular... Eu tô bem, hoje o Simon vomitou.
Sophie
gargalhou e colocou Henry no chão, retirando o celular das mãos do filho e
passando a andar até o prédio que já estava visível para ambos.
—
Pronto — ela disse para o telefone.
— Um dia eu entendo a vontade dele de saber do
bem-estar de todo mundo. E quem é Simon? — a voz de Danna estava confusa e
Sophie gargalhou outra vez. — Enfim, não
importa. A questão é que eu acabei... tudo bem, o Hector acabou de resolver
todos os seus problemas.
— Hum —
Sophie murmurou. — Criaram um chocolate que não acaba? Fizeram o Henry aprender
a se limpar sozinho?
Sophie
não viu, mas soube que Danna havia revirado os olhos.
— Não. Te arranjamos um emprego. — Ela
disse quase como se não ligasse e Sophie franziu o cenho. — Depois que falei com você, eu falei com a Julia, que fez o seu
currículo num instante e me mandou por email. Então o Hector falou com um amigo dele que
abriu uma loja de música aqui em Nashville há menos de um ano, e a escola está
sendo muito frequentada, sabe, fizeram até festa de inauguração, e é um prédio
enorme bem no centro. Eles precisam de uma professora de piano e, sabendo que
você foi formada pela Laurent Louis, a vaga já é sua. Só precisam da sua
carteira de trabalho para assinar. Você começa a trabalhar na segunda.
Sophie
engasgou com a própria saliva. O quê?!
— O
quê?! — ela transformou seus pensamentos em um grito esganiçado, achando tudo
aquilo estranho e surreal demais. — O que você acabou de dizer?
— Você não está mais desempregada, pois te
arranjamos um emprego em Nashville, o que é incrível, por que além de você
ficar perto da sua família, vai ser minha madrinha de casamento — Danna
repetiu tudo como se não fosse nada demais. — E Julia também será uma madrinha, já que ela disse que vai vir reabrir
o site dela em Nashville.
Sophie
quase ficou tonta, entrando no prédio apenas por que Henry a guiava. Quando
eles atravessaram as portas, Henry soltou sua mão e correu até o elevador,
cumprimentando o porteiro e todas as pessoas que trabalhavam ali com um sorriso
estampado no rosto.
—
Danna, isso é uma brincadeira, não é? — disse ela, voltando ao planeta Terra e
quase correndo para alcançar o elevador em que Henry já entrara. Agora seu
filho conversava com Thomas, o rapaz que apertava os botões, provavelmente
contando sobre seus dois recreios e o eventual vômito de Simon.
— Não — Soph ouviu a voz da irmã. — Não é, Sophie. Eu estou falando sério. Você
sabe que aí na Europa vai ser difícil você arranjar um emprego, e aqui... bem,
aqui está a sua família.
Sophie
bagunçou a franja, tão absorta em seus pensamentos que nem sentiu o frio na
barriga que sempre sentia quando
estava sendo erguida por um elevador.
—
Danna... eu... não tenho como voltar para os Estados Unidos... — ela começou a
dizer, mas estava tão pasma que só conseguia repetir o que sempre dissera a si
mesma e aos outros. Não era capaz de formular argumento algum, neste momento.
— Nós
vamos para os Estados Unidos?! — o grito de Henry se sobressaiu à história que
ele contava para Thomas. — Mamãe, nós vamos para os Estados Unidos?!
Sophie
hesitou.
— Não,
amor, não vamos — ela respondeu para ele. — Danna... você sabe por quê. Eu realmente gostaria de estar
aí para o seu casamento, mas pense... o quão horrível isso seria.
— Sophie, por favor! Horrível?! — Danna aumentou o tom de voz. Devia
estar gritando com o telefone uma hora dessas. — Caramba, a gente sente a sua falta aqui, e não falo só por mim. Josh
ganhou mais cabelos brancos desde que você foi embora, e eu só não digo o mesmo
da sua mãe, por que... bem, você sabe, toda aquela tinta. Mas pensa só no Joe,
que sempre foi dependente de você. O próprio Nate. Ou os seus amigos! Sabia que
aquele garoto grande e esquisito já se casou com a Marie?
Sophie
não pôde deixar de sorrir pensando em Dan.
E...
tudo bem, ela também sentia saudade. Sentia muita
saudade. Perdeu a conta de quantas vezes, enquanto cuidava de Henry, ela
não desejou que sua mãe estivesse ali, principalmente quando ele contraiu
pneumonia e quando era um recém-nascido. Perdeu a conta de quantas vezes
assistiu filmes como Querido John apenas para se lembrar de Nate — ele sempre
condenara a protagonista por não esperar John voltar da guerra. Ficara com
raiva da Amanda Seyfried por causa desse filme. — Sonhava quase toda noite com
os momentos bons e ruins que tivera com os irmãos, e sonhava reencontrá-los, de
vez em quando. Queria ter estado em casa quando Joe escreveu seus outros dois
best-sellers que Sophie teve de comprar numa livraria. Gostaria imensamente de
conhecer a sobrinha, filha de Danna, que segundo ela era uma garotinha sapeca,
elétrica e que gostava de conversar.
Mas
Sophie não poderia voltar. Não poderia por que voltar incluía aguentar todos os
olhares acusatórios, todos os interrogatórios, todas as sentenças e decepções.
Se voltasse, quantas vezes Henry não seria perguntado sobre o seu pai por más
línguas? Ele teria de recomeçar, mesmo que fosse muito novo, e talvez não se
adaptasse. E ainda havia a suspeita de Luke estar lá. O que ele faria se a
visse novamente?
Sophie
não aguentava pensar em todo o mal
que tinha feito para ele. Não aguentava e não queria pensar sobre isso.
Encará-lo... faria com que ela visse tudo. Sophie sabia que olharia dentro de
seus olhos azuis e veria toda a dor, toda a mágoa e todo o ódio, lá, guardados,
sombreando seu olhar tão puro. Ela não... não queria voltar a vê-lo, pois isso
incluía toda a culpa que sentia.
Voltar
para Nashville era inviável de todas as maneiras. Ao mesmo tempo que Sophie
queria — e como queria — estar perto de sua família, ela não queria de forma
alguma estar perto das pessoas que a queriam mal, e pior, queriam mal ao seu
filho.
— Eu
morro de saudades também, Danna. Você não tem ideia do quanto. — Sophie
suspirou e o elevador abriu as portas. Henry segurou a mão dela e se despediu
de Thomas. — Mas... é difícil. Londres é onde eu devo estar se... não quiser
colocar minha vida e a vida do meu filho de cabeça para baixo.
— Acontece que às vezes, Soph, nós precisamos
virar nossa vida de cabeça para baixo — a entonação de sua voz havia ficado
mais suave. — Se a minha vida não tivesse
virado de cabeça para baixo, eu não estaria aqui agora. Provavelmente não
estaria nem viva. Tudo de bom que eu tenho hoje eu devo a essa reviravolta.
Incluindo você.
Sophie
suspirou, mordendo o lábio inferior. Danna... tinha razão. Neste ponto, Danna
tinha toda razão.
Toda
reviravolta que houvera na vida de Sophie trouxera algo de bom para ela,
sempre. Por exemplo, quando seus pais se separaram. Foi uma época horrível, mas
as coisas boas que aconteceram em seguida foram inegavelmente incríveis. E
quando ficou grávida... bom, ela poderia ter se separado do amor de sua vida.
Mas ganhara o maior presente que Deus poderia lhe dar.
Henry
era sua vida. Sophie não amava nada da
maneira que o amava.
—
Eu... vou pensar sobre isso, ok? Te ligo depois — disse ela, retirando a chave
do apartamento de dentro da bolsa e desligou o telefone. Respirou fundo,
procurando a chave certa para destrancar a porta, quando Henry rodou a maçaneta
e a abriu.
— Tá
aberta! — ele gritou e Sophie olhou em seu relógio. 15h20min. Como a porta
estaria aberta se Sophie se lembrava claramente de trancá-la?
— Onde
está o meu príncipe?! — ela soltou o ar de seus pulmões em puro alívio quando
escutou a voz de Julia. Henry gritou e adentrou a casa correndo. Sophie fechou
a porta atrás de si enquanto via o filho pular nos braços da melhor amiga,
gargalhando pelas cócegas que ela agora despejava sobre ele.
Sophie
mordeu o lábio. Não conseguia ver a si mesma sem Julia... mesmo que soubesse
que a amiga teria de ir para
Nashville, e iria. A questão era que elas duas haviam superado todas as
dificuldades, juntas, e Henry provavelmente só não sentia falta de um pai por
causa dela. Afinal, era Julia quem assistia desenhos animados que envolviam
carros — Sophie os achava insuportavelmente chatos — com ele, era Julia quem
assistia a beisebol e futebol com ele, todas as noites de domingo, comendo
salgadinhos que posteriormente iriam entupir suas artérias. Julia quem o mimava
com presentinhos. Julia quem o aconselhava em relação a garotas — Henry havia
ganhado um beijo na bochecha de uma coleguinha enquanto brincava com massa de
modelar duas semanas atrás e conversara quase duas horas sobre isso com quem?
Não com sua mãe, mas sim, com Julia.
Julia era especial para Henry, e... vê-la indo
embora deixaria um vazio em sua vida. Um vazio muito grande. E seu filho era muito pequeno para já sentir
as dores que a vida impõe. Dores como a saudade.
De
qualquer maneira, com o que for que acontecesse, a vida dos dois levaria uma
reviravolta. Se Julia fosse embora — e Sophie continuasse desempregada —, tudo
mudaria. Se eles fossem embora com Julia, tudo mudaria também, mas a diferença
é que eles teriam Julia e o resto da família.
Mas
também teriam os inimigos.
Droga,
Sophie estava confusa. Queria e não queria voltar, por motivos diferentes e
mais confusos ainda. Estava com medo, estava nervosa, estava... simplesmente
confusa.
—
Adivinha quem comprou cookies? — Julia gritou, segurando Henry no colo.
—
Cookies! — ele gritou de volta, sorrindo, quando ela o colocou no chão.
—
Estão na mesa. Não coma tudo! Sua mãe ainda vai te fazer comer todas aquelas
frutas essa tarde — ela não tinha certeza de que Henry escutara tudo o que ela
dissera, uma vez que o garoto saíra correndo como um furação para a cozinha.
Sorrindo, Julia se virou para Sophie.
— Esse
Lucas é uma graça — disse, pegando seu laptop que estava na estante de livros e
se jogando no sofá em seguida. — Qual companhia aérea você prefere? Ih, já era,
comprei pela Air France.
Sophie
encarou Julia com os olhos arregalados.
—
Eu...
— Tem
que fazer suas malas — Julia a interrompeu, apontando o dedo para a amiga. — Só
não sei como vamos fazer para carregar esse piano. Sério, Sophie, por que você
não toca um instrumento mais difícil de locomoção, hein?
—
Julia, eu ainda...
— Não
fez o passaporte do Lucas. Vamos ter que providenciar isso hoje — Julia assentiu veemente com a cabeça, digitando loucamente
em seu notebook.
— Mas
Julia, você...
— Vou
montar um escritório em Nashville, já tenho até meus contatos de quem
trabalhará comigo — ela interrompeu novamente e Sophie revirou os olhos.
—
Julia, eu... cala a boca! — ela apontou o dedo para a amiga, que começou a rir.
— Eu ainda não sei se vou. Não sei se eu, ou Henry, estamos prontos. Eu... não
sei.
—
Nesse caso, eu sei por vocês dois — Julia sorriu, conversando como se estivesse
fazendo uma propaganda de sabonete. — Não quero me separar de vocês dois, Soph.
Mas eu quero, mais do que tudo, ir embora daqui para onde é realmente o meu lugar. E você sabe que é o seu também.
Sophie
se sentou no sofá.
—
Eu... tenho medo, Julia. Eu fui embora de lá por sentir medo, e não quero voltar para enfrentar tudo aquilo que não
enfrentei seis anos atrás — confessou Sophie. Julia fechou o laptop e encarou a
amiga com seus grandes olhos verdes e, por hora, compreensivos.
— Não
há como construir um futuro sem enfrentar o passado, Sophie — ela torceu os
lábios. — Acho que quem disse isso foi Aristóteles.
Sophie
riu.
— Eu
acho que você acabou de inventar isso.
— Pode
ser, ambos somos pensadores incríveis — ela deu de ombros, fazendo a amiga rir
novamente. — A questão é que você precisa
ir. Precisa... enfrentar tudo e todo mundo, de cabeça erguida, por você e
pelo seu filho. Por que querendo ou não, um dia ele vai perguntar por que você
nunca vai para lá e vai questionar melhor o paradeiro do pai dele.
Sophie
só foi capaz de assentir com a cabeça. Julia tinha razão. Filha de uma mãe, ela
sempre tinha razão. Ou talvez fosse apenas sua sagacidade jornalística.
—
Mas... e se não der certo, Juzy? — ela levantou os olhos para encarar o rosto
risonho da amiga, que segurou sua mão.
— Você
ainda vai ter a sua melhor amiga pra te apoiar.
[...]
Três
dólares por uma caixa de suco de morango. Três
dólares. Aquilo era um assalto, caramba! Por que tudo em aeroporto tinha
que ter o triplo do preço normal?
A
pequenina Anna Elizabeth pouco estava ligando para o valor de seu suco
favorito, entretanto. Tudo estava bom
demais. O suco estava na temperatura certa, ela vestira seu vestido mais
bonito, e Luna, sua boneca de pano preferida, estava com ela. Além do mais, sua
mamãe havia dito que ela iria conhecer sua tia e seu priminho daqui a pouco.
—
Quando eles vão chegar, mamãe? — perguntou a menina, quando retirou o canudinho
do suco da boca. Estava sentada no colo da mãe, balançando suas perninhas
curtas.
Danna
sorriu.
—
Daqui a pouco — respondeu ela, segurando Anna com um braço e passando os olhos
pelo portão de desembarque de onde Sophie e Henry deveriam sair. A ansiedade
corria pelas suas veias, oras, estava morrendo de saudades da irmã e do
sobrinho!
Danna
ainda não acreditava que eles estavam realmente voltando para Nashville. Não
sabia o que Julia dissera para Sophie, mas seja lá o que for, funcionara muito
bem. Danna estava pensando em fazer uma faculdade de jornalismo para saber
manipular as pessoas bem daquela forma. Sorriu com o pensamento bobo.
Julia
fora mesmo excepcional. Danna gostaria de abraçá-la só para agradecer, mesmo
que a conhecesse muito pouco. Só a vira pessoalmente uma vez, quando fora à
Londres, e desde então as duas só conversavam vez ou outra pelo telefone. Mas
Danna gostava dela. Afinal, uma pessoa que se tornara a melhor amiga de sua
irmã e o amor da vida de seu irmão não poderia ser nada menos que incrível.
Claro
que tanto Julia quanto Danna haviam omitido algumas coisas para Sophie quando
argumentaram para trazê-la à Nashville. Bem, omitir não é mentir.
O
portão se abriu e Danna ficou atenta para ver a irmã. Levantou-se do banco,
segurando a filha no colo, vendo a loucura de pessoas procurarem por suas malas
na esteira que começara a rolar. Danna começou a se aproximar e a viu. Um ponto
vermelho estridente no meio de uma multidão, que segurava a mão de um garotinho
de cabelo loiro espetado para cima.
— Ali,
Anna. Olha a tia e o primo ali — Danna apontou, fazendo sua filha sorrir.
Sophie achou Danna com os olhos e sorriu instantaneamente, pegando a mão de
Henry e indo em direção à irmã. Sem parar de sorrir, ela alcançou e abraçou
Danna apenas com uma parte do corpo, pois a outra mão ainda apertava a de
Henry, e havia uma criança entre as duas.
— Meu
Deus, que saudade — Sophie sussurrou, separando-se da irmã. Danna sorriu. — E
quem é essa linda? — ela afinou a voz, olhando para a pequena Anna.
— Anna
— ela respondeu, concentrada em tomar seu suco.
— E
ela? — Sophie apontou para a boneca de olhos azuis e cabelo loiro que estava em
seus braços. Anna retirou o suco da boca e sorriu.
— É a
Luna — respondeu ela, sorridente. — Ela é linda, né? Lá em casa eu tenho a Luna
e tenho o Neville que o papai me deu. Ele tem o dentinho torto igual o Neville.
Você sabe quem é Neville?
Sophie
sorriu e pegou Henry no colo. Danna havia dito algo sobre Anna gostar de
conversar.
—
Hum... não, não sei. — Confessou ela.
—
Harry Potter, mamãe! — Henry se manifestou, sorrindo para a prima. — A tia
Julia comprou todos os DVDs. A Luna é a menina loirinha.
Anna
sorriu.
— Você
parece com o Draco! E fala igual ele também. — Exclamou, apontando para Henry. —
Só que o Draco é mau! Você é mau?
Henry
negou com a cabeça.
— Eu
não sou o Draco, eu sou do bem! — e lá estava ele usando sua voz séria
novamente. Sophie sorriu, indo em direção à esteira e pegando as duas malas que
havia trazido. A mudança ainda iria chegar, quando Julia viesse, na
quinta-feira. Ainda era domingo.
— Que
legal — disse Danna. — Anna achou alguém para conversar sobre Harry Potter o
dia todo. Acredita que ela vê um desses filmes pelo menos uma vez por dia?
Sophie
riu, arrastando uma das malas, e Danna segurou outra.
—
Henry gosta de todo tipo de filme e desenho animado. Eu tive que trazer todos
os DVDs dele, e acredite, é muita coisa. — Ela sorriu. — Onde está Hector?
—
Trabalhando. Vai da loja direto para a casa de Josh — Danna respondeu com um
sorriso no rosto. — Nate está fazendo um churrasco.
Sophie
gargalhou.
— E
desde quando Nate sabe fazer churrasco?
— Ele
não sabe — Danna riu. — Sinto medo de chegar naquela casa e encontrá-la
incendiada.
Sophie
fez que não com a cabeça, seguindo Danna pelo aeroporto. Tudo bem, ela não
podia negar que estava eufórica demais.
Estava absolutamente alegre. Ela iria a
um churrasco na casa dos Farro! Nate estava lá! Joe, Danna, Hector, seus
pais! Meu Deus, por quanto tempo Sophie não quis isso?
Agora
ela notava o quão morta de saudades estava. Uma nova parte dela se acendia
conforme ela ia saindo daquele aeroporto, ciente de que estava em Nashville outra vez, depois de seis anos. Seis anos que passaram tão rápido. E
estava feliz. Feliz por estar em casa, escutando aquele monte de sotaques
sulistas ao invés dos sotaques ingleses de seus conterrâneos britânicos.
As
duas mulheres adultas e as duas crianças seguiram para o carro de Danna assim
que saíram do aeroporto. Danna havia colocado até mesmo duas cadeirinhas no
banco traseiro do carro, uma para Anna e uma para Henry, que na realidade
detestou o utensílio. Segundo ele, incomodava muito e apertava.
Pelo
menos Henry foi conversando com Anna do aeroporto até a casa de Josh e Hayley. Ambos
pareciam ter se dado absolutamente bem, não paravam de falar um segundo sequer,
e Anna até mesmo ofereceu seu suco para o primo e novo amigo. Sophie adorou o
fato de eles terem feito amizade tão rapidamente.
Se bem
que Henry sempre fora muito sociável. Anna não parecia ser diferente.
E
Sophie também foi conversando com Danna durante todo o trajeto, mas sem
conseguir olhar para a irmã. Seus olhos estavam grudados na Nashville lá fora.
Seus monumentos, os prédios, os conjuntos residenciais e condomínios, o Rio
Cumberland. Passaram em frente à antiga escola de Sophie, enchendo-a de todas
as lembranças possíveis. Sua cabeça já estava começando a doer quando o carro
de Danna virou na sua antiga rua e passou em frente à casa dos pais de Luke.
O
coração de Sophie acelerou com a lembrança de todos os momentos que passara
naquela casa. Todos os ensaios da Paramore na garagem, ou das tantas vezes que
ficou com Luke em seu quarto, conversando, estudando, tocando, ou mesmo fazendo
amor.
Ela
respirou fundo enquanto o carro de Danna estacionava na frente da casa de
Hayley. Seja forte. Você sabia que seria
assim.
—
Chegamos? — Henry perguntou com a voz eufórica demais. Sophie sorriu, escutando
a voz do filho, lembrando-se mais uma vez de que tudo valera a pena.
—
Chegamos, garotão! — foi Danna quem respondeu. — Já vou te tirar dessa
cadeirinha. Você é grande demais para um garoto de quatro anos! — a ultima
frase dela foi dita com um olhar malicioso para Sophie. Ah, legal, Danna. Isso, melhore as coisas, me condene mais.
Sophie
saiu do carro sem se importar de pegar suas malas. Retirou o filho da
cadeirinha e ele pulou para fora do carro, sorrindo avidamente.
— Aqui
faz tanto sol! Eu estou suado — disse ele, passando a mão pela testa. Sophie
sorriu e pegou-o no colo, dando um beijo em sua bochecha e limpando seu rosto
com uma das mãos.
— Você
prefere o frio? — perguntou ela, sorrindo.
— Não —
Henry sorriu. — Sol é legal. Vou ficar moreninho igual a tia Juzy.
Sophie
gargalhou, dando mais uns beijos na bochecha do filho. Danna também pegara sua
filha no colo e já abrira a porta que dava para a sala de estar dos Farro. Sophie
sentiu seu estômago revirar de ansiedade e seguiu com seu filho até lá.
A
primeira pessoa que viu fora Joe, quase irreconhecível, com os cabelos maiores
do que nunca e os olhos grandes e vivos. Havia esticado, estava muito maior do
que ela. Assim que a olhou, ele abriu seu sorriso, largando o que quer que
estava em sua mão e gritando seu nome.
Sophie
colocou Henry no chão e abraçou o irmão o mais forte que pôde.
Caramba,
aquele não podia ser seu pequeno Joseph. Aquele homem não podia ser seu irmãozinho que dormira em sua cama quando
tinha pesadelos. Aquele rapaz não podia ser o garotinho que ligava para Sophie
todo dia quando ela estava na Inglaterra, da primeira vez.
—
Senti tanto a sua falta, Soph — ele disse, sua voz rouca e arrastada, sua mão
apertando a cintura da irmã que agora era tão menor que ele.
— Você
não sabe o quanto eu senti a sua também — ela sorriu, apertando o ombro de Joe.
— O que aconteceu? Da última vez que te vi, eu era maior que você.
Joe
sorriu, afastando-se da irmã e segurando a ponta de suas mãos.
— Os
tempos mudam, linda — e piscou um dos olhos. Sophie gargalhou, assistindo seu
irmão, tão crescido e tão... seguro de si. Sophie sabia que Joe já assumira sua
sexualidade para a família — e para o resto do mundo, uma vez que agora ele era
famoso —, mas ainda assim era tão engraçado vê-lo tão diferente.
Sophie
havia perdido tanto de seu crescimento.
A
próxima que viu foi Hayley, seu cabelo ainda malucamente vermelho, seus olhos
verdes sempre vivos, agora brilhantes por ver a filha que não via há tanto
tempo.
Sophie
se jogou nos braços da mãe enquanto escutava Joe falando com Henry. Segurou-se
para não deixar as lágrimas cair enquanto apertava-a o mais forte que podia,
tentando aplacar toda a saudade que sentira daquela mulher. Todas as vezes que
ela quis, da forma mais intensa, a presença da mãe. Agora que Sophie também
tinha um filho, o que ela sentia pela mãe havia se transformado de um amor para
uma espécie de compreensão. Hayley sempre fora tão forte. Sophie a admirava
tanto.
Ela se
afastou da mãe e riu gostosamente, limpando o canto dos olhos da mulher que lhe
dera a vida.
— Como
está a Sra. Williams-Farro, hein? — perguntou, fazendo Hayley rir.
—
Vovó! — Henry, que agora estava no colo de Joe, abriu os braços para ir falar
com Hayley. Caramba, ela ia acabar
chorando assim, Sophie sabia.
Ela
ainda nem havia saído da porta e já estava indo abraçar a terceira pessoa. Sophie
jogou os braços para cima e abraçou Josh, enquanto ele apertava sua cintura e
retirava seus pés do chão, fazendo-a gritar. Sophie riu. Josh estava tão
diferente e tão igual ao mesmo tempo. Seu cabelo havia ganhado alguns fios
brancos, mas isso só o deixara mais bonito, grisalho. Seu trabalho militar não
conseguia fazer com que ele ficasse menos forte, era incrível.
— Como
vai minha filhinha? — ele perguntou, após soltar Sophie, colocando uma mecha de
seu cabelo em sua orelha.
— Vou
bem, pai — ela sorriu. — Você está grisalho!
Josh
sorriu.
—
Verdade, acho que vou pegar uma daquelas tintas toxicas da Hayley e passar no
cabelo — ele mexeu nos fios, fazendo Sophie rir. Henry estava sendo mimado por
Hayley agora.
— É
impressão minha — Sophie escutou uma voz masculina ecoar e virou o rosto —, ou
isso aí são rugas na sua cara?
Ela
gargalhou, correndo até Nate, que esperava no canto da sala. Ele segurou sua
cintura e a levantou do chão da mesma forma que Josh fez, rodando-a no ar.
Sophie sorriu e pediu para ele soltá-la.
Nate
estava tão grande. Tinha mais ou
menos o triplo de massa muscular do que tinha da última vez que ela o vira —
tudo bem, da última vez que Sophie o vira ele tinha quinze anos. Mas... ainda assim! Ele estava tão grande! E por algum
motivo, estava vestido com a farda de soldado americano que era.
Sophie
sentira saudades dele. Muitas saudades.
—
Então quer dizer que já temos outro soldado na família? — Sophie perguntou,
separando-se dele e fazendo uma continência.
— Na
verdade, cadete — disse ele, quase se gabando. Sophie riu. — Acabei de voltar
do quartel, na realidade. Por isso o uniforme. Pai, eu vou me trocar, não deixe
a carne queimar!
—
Tradução: não deixe outra peça de
carne queimar — Joe resmungou, fazendo Sophie rir.
Josh
sorriu e saiu em direção à área dos fundos. Segundo a fumaça que ardia os olhos
de todos naquela casa, provavelmente era ali que estavam queimando carne
bovina. Sophie se aproximou de Henry, que conversava com Hayley, Danna e Joe,
contando alguma coisa. Anna estava ao seu lado e assentia a todo e qualquer
argumento que o garoto dava.
— Aí o
juiz apitou, e quem foi marcar a falta foi o John Tarry, e ele chutou e... gol!
Bem no meio da rede! Aí eu e a tia Julia começamos a gritar e o Chelsea ganhou.
Foi muito massa. — Ele assentiu com a
cabeça, dando consistência ao seu argumento.
—
Julia sempre foi meio maluca — Joe concordou, mordendo o lábio.
— Acho
que ele conseguiria manter uma conversa animada com o Hector — Danna suspirou,
encarando o sobrinho.
— A
tia Julia é muito legal — Henry disse. — Ela sempre assiste beisebol e futebol
comigo, por que a mamãe acha chato.
Sophie
revirou os olhos e pegou o filho no colo, beijando o seu rosto.
— Mas
é chato! — disse ela, choramingando, fazendo Hayley concordar plenamente. —
Amor, são apenas homens correndo atrás de uma bola. Ou no caso do beisebol,
correndo, arremessando, agarrando e rebatendo uma bola.
— Mas
mamãe! — Henry estava usando o seu tom argumentativo. Sophie sorriu. — É por
que você é menina. Meninas não gostam de esportes.
—
Mentira — Sophie disse, afinando a voz para usar do tom argumentativo também. —
Julia é uma menina e gosta, não é?
Henry
pareceu pensativo.
— Mas
a tia Julia é uma menina diferente — argumentou Henry novamente.
— Eu
concordo. — Sophie virou o rosto para de onde a voz tinha vindo e encontrou
Nate, vestido casualmente, com um sorriso no rosto. Desceu as escadas
rapidamente, indo em direção a ela. — Concordo plenamente, sobrinho.
Henry
olhou para Nate desconfiado, sem conhecê-lo direito.
— Você
conhece minha tia Julia?
Nate
sorriu.
— Se
conheço — disse, dando ombros. — Estavam falando de futebol? Assisti o jogo
Chelsea e Liverpool da semana passada. Tarry é um babaca, mas fez um gol
bonito.
Após
essa frase, Henry e Nate entraram em uma discussão detalhada sobre futebol que
durou mais ou menos meia hora. O garoto parecia conhecer tanto sobre futebol
quanto Nate, por pura instrução de Julia, que tomara gosto por toda espécie de
esporte depois que teve de escrever um artigo esportivo para a faculdade.
E, por
incrível que pareça, a carne não foi queimada. Isso por que Hector chegou
poucos minutos depois e tomou conta do churrasco, transformando-o em algo que
magicamente dera certo.
Sophie
estava muito feliz. Henry fizera
amizade com todo mundo, e tanto seus pais quanto seus irmãos pareciam
encantados com ele. Pela primeira vez, em muito tempo, ela se sentia... em casa. Se sentia como se estivesse
onde precisava estar. E nada a deixava mais feliz do que perceber que seu filho
tinha a mesma sensação, enquanto brincava com sua nova família.
Após o
almoço, Anna quis assistir Harry Potter e a Ordem da Fênix pela décima vez na
semana, segundo Danna. Felizmente, o filme estava entre os DVDs de Henry e as
duas crianças foram assistir o filme na sala de estar, acompanhados de Hector e
Danna. Josh e Hayley arrumaram a cozinha e Sophie perdeu Nate de vista, quando
Joe a chamou para seu quarto.
—
Quero te mostrar uma coisa — ele dissera, segurando a mão da irmã e
carregando-a até o seu quarto.
Meu
Deus, Sophie não sabia que era possível caber tantos livros em duas estantes. O
quarto de Joe estava impecavelmente arrumado e cheio de livros, com o mesmo
papel de parede que ele tinha quando ela foi embora, com a única diferença de
que agora algumas molduras estavam coladas. Os artigos da New York Times, por
exemplo, e as capas de seus quatro livros publicados.
Joe
sentou-se a mesinha e abriu o laptop. Indicou uma cadeira para Sophie se sentar
também.
— Esse
é o meu novo livro, que será lançado daqui a poucos meses — ele disse, abrindo
o arquivo. — Quando eu soube da história, precisei
escrevê-la. Quero que você mesma veja.
Sophie
apertou os olhos, lendo o nome que estava destacado na primeira página do
arquivo.
Odeio Amar Você
Joseph Farro
Tessa Nichole
Collins é uma garota que já passou por muitas coisas, boas e ruins, em seus
dezessete anos de vida. Considerada rebelde pela sociedade californiana, à qual
estava inserida, Tess muda-se de volta para Franklin – TN com sua mãe após ela
se divorciar de seu padrasto. A garota de cabelos vermelhos estridentes
realmente esperava e acreditava que sua vida iria se normalizar como tinha de
ser, mas seu destino foi atrapalhado por um indivíduo: Damon Basso. Quando
criança, era o melhor amigo de Tess, mas hoje, para ela, era apenas um badboy idiota.
Damon James Basso
vivera todos os seus dezoito anos de idade na cidadezinha de Franklin,
Tenesseee. Considerado popular na escola e com as garotas, considerava-se
feliz. Tinha um bom relacionamento com seus irmãos e namorava a garota mais
bonita do colégio. Tudo estava perfeito até que uma garota resolveu reaparecer
em sua vida: Tessa Collins. Sua melhor amiga quando criança, Tess era realmente
uma gracinha. Mas agora, não passava de uma roqueira metida a rebelde que
insistia em atrapalhar a sua vida.
Damon e Tessa não
tinham ideia do que o destino reservava para ambos. Na realidade, eles se
amavam... e odiavam a si mesmos por isso.
Sophie
levou a mão à boca. Ela reconheceria
aquela história em qualquer lugar. Encarou Joe, que esperava ela terminar
de ler com um sorriso sapeca no rosto, parecendo achar tudo aquilo imensamente
engraçado.
—
Você... — Sophie tentou formular a frase, mas os nomes ainda estavam martelando
em sua cabeça. Tessa Nichole Collins.
— Você escreveu a história dos nossos
pais?
Joe
gargalhou.
— Sim —
disse, tranquilamente. — Soube da história a meio do ano passado. Quer dizer, como assim meus pais tinham uma
super-história de amor e eu não sabia disso?
Sophie
riu.
— Eu
pensei exatamente a mesma coisa
quando soube — declarou, bagunçando a franja e respirando fundo. — Meu Deus,
Joe! Eu... estou sem palavras, sério. Meu Deus.
Joseph
riu novamente.
— Essa
foi o livro que eu mais gostei de escrever e está todo mundo curioso por que eu
só disse que seria baseado em uma história real, e que minha escrita iria mudar
um bocado — ele juntou as mãos. — É a segunda vez que me empenho em um romance de verdade. Desses de fazer as
mulheres lerem em uma noite.
—
Nossa, Joe — Sophie não conseguia normalizar seu estado de espírito. — Isso é
perfeito. O que a mãe e o pai disseram?
— Ah,
mamãe ficou emocionada, e tal — ele deu ombros. — O pai disse que Damon é um
nome que provavelmente seria discriminado no quartel, mas não ligo pra ele. Os
dois estão felizes. Todo mundo está.
Sophie
sorriu, os olhos grudados no laptop novamente.
— Eu
posso pegar um manuscrito para mim? Eu realmente gostaria de ler antes da
publicação — disse ela, em tom de súplica para o irmão. — Como presente de boas
vindas?
Joseph
apertou os olhos e moldou os lábios em um sorriso descontraído.
— Como
se eu conseguisse dizer não para você — ele deu ombros.
Enquanto
Joe foi imprimir o arquivo para Sophie, ela foi dar uma olhada em Henry. Seus
olhos azuis estavam atentos por baixo dos óculos enquanto os efeitos especiais
ecoavam do televisor. Estava deitado no tapete junto à Anna enquanto Hector e
Danna estavam sentados no sofá, parecendo não prestar muita atenção no filme.
Sophie perguntou se Henry estava bem e ele apenas fez que sim com a cabeça,
atônito demais no filme.
Sem
nada para fazer, ela se dirigiu à porta da casa de Hayley, no intuito de se
sentar na escadinha para pensar, como tantas vezes fizera quando era
adolescente.
Mas
dessa vez Nate também estava lá.
Ele deu
espaço para Sophie se sentar, sem nada dizer, e os dois começaram a observar o
movimento fraco da rua naquela tarde de outono. O olhar de Nate estava distante
e Sophie olhou de soslaio para o seu braço. Lá estava ela, a tatuagem de Julia.
A tatuagem do infinito.
Sophie
suspirou.
— Como
está você, Nate? — perguntou sinceramente, olhando para suas próprias mãos. Seu
irmão estava tão diferente, claro, também pudera. Mas a pergunta que Sophie
fazia era direcionada a apenas um ponto. Ponto esse que ela tinha certeza que
Nate entendera.
— Você
sabe — disse ele, suspirando também —, vivendo na medida do possível.
Ela
assentiu com a cabeça, mergulhando num silêncio de alguns segundos que não
chegou a ser desconfortável, mas quase reconfortante. Como um complemento para
a frase do irmão.
— Você
ainda a ama, não é? — ela perguntou, puxando seu braço e fazendo-o encarar a
tatuagem. Não tinha certeza, mas Sophie achava que vira uma ponta de sorriso no
canto de seus lábios.
— Já
faz muito tempo, Sophie — disse ele, apenas, sem brechas para continuar. Sophie
entendeu e assentiu novamente com a cabeça, sem soltar a mão do irmão. Recostou
sua cabeça no ombro dele, novamente mergulhada no silêncio, compartilhando a
dor que ele sentia com a dor que ela sentia também. Um silêncio que era mais
revelador do que mil palavras. — Henry é filho do Luke, não é?
Sophie
sentiu seu sangue congelar dentro das veias e seu estômago revirar. Sua visão
sumiu por um ou dois segundos e ela perdeu a força nas pernas. Sua voz não
saía. Ela... ficou paralisada. Simplesmente paralisada.
— Não
precisa responder — Nate continuou. — Eu sei que sim. Tudo faz sentido agora.
Você ter ido para Londres e deixado Luke aqui sem mais nem menos, e ter
aparecido um ano depois com um moleque de seis meses nos braços, filho de alguém
que você mal conhecia — ele fez uma pausa, deixando Sophie sozinha com seus
medos e culpas. — Bem que eu estranhei, nem acreditei, para dizer a verdade.
Mas... vendo esse menino hoje... ele é a cara
do Luke, Soph. Você não foi embora por que quis. Foi embora por que...
precisou esconder o menino. Então a Julia te ajudou. — Sophie abaixou a cabeça,
respirando fundo. Droga. — Eu só não
entendo... por que você não ficou? Por que você não ficou e cuidou do Henry
aqui?
Ela
mordeu o lábio inferior.
— Eu
não o queria — respondeu sentindo uma pontada no coração. — Eu iria dá-lo para
a adoção. Para um casal de pais incríveis que cuidariam dele melhor do que eu.
Nate encarou
a irmã.
— E
por que não fez isso?
Sophie
limpou a lágrima que desceu pela sua bochecha, levantando os olhos para encarar
os de Nate.
— Por
que eu me apaixonei por ele — ela mordeu o lábio inferior, encarando o irmão
com tristeza.
Nate
assentiu com a cabeça e voltou sua atenção para o movimento da rua.
Sophie
respirou fundo, tentando normalizar seu estado de espírito.
— Por favor,
Nate — ela começou —, não conta para ninguém. Eu decidi deixar Henry fora de toda essa complicação. Por favor.
Ninguém pode saber disso.
Nate
deu um meio sorriso.
— Eu
não vou contar nada, Sophie — disse, segurando a mão da irmã e apertando. — Por
que eu sei que um dia... você mesma vai.
Ele
levou a mão da irmã até os lábios e a beijou, levantando-se e adentrando a
casa. Deixou uma Sophie confusa, com todas as emoções que existiam
transbordando de dentro do seu ser. Como Nate descobrira?
Caramba,
não era para ninguém saber. Isso apenas complicaria a vida de todos, incluindo
Henry e o próprio Luke. Eles não mereciam isso. A melhor saída era que tudo se
normalizasse e ficasse da mesma forma que estava.
Sophie
respirou fundo. Nate não iria contar a ninguém. Mas se ele fora capaz de
perceber, quem mais seria? Apenas ele, Julia e Danna sabiam até agora. Ainda
assim era muita gente.
Nate estava
errado, Sophie não iria contar isso para ninguém. Não era capaz. Não seria
capaz de contar isso a ninguém, sobretudo Henry, que já havia lhe perguntando
sobre seu pai certa vez.
Sophie
apenas o chamou para sentar e explicou que tivera um namorado que amava muito,
ele era um ótimo rapaz e um músico talentoso. Mas as coisas não haviam dado
certo e eles se separaram antes de Henry nascer.
Desde
então, o garoto não perguntara mais de seu pai. Provavelmente ficara triste ao
ver a mãe chorando na frente dele, mesmo que Sophie houvesse se segurado ao
máximo. Quando o garoto a abraçou, ela não conseguiu se aguentar e chorou mais.
Henry, apesar de muito novo, era muito sensível
à dor das pessoas, e dormiu na cama de Sophie naquela noite para garantir que
ela não choraria mais.
Essas
e outras atitudes faziam dele cada vez mais parecido com o pai. O pai que ele
não podia saber que tinha.
Sophie
suspirou e limpou os olhos, pronta para se levantar e sair dali. Mas um barulho
fê-la parar.
—
Cowboy! — a voz masculina exclamou. — Solta! Solta meu tênis, Cowboy, caramba! —
Sophie virou o rosto para a casa ao lado, vendo um rapaz sair pela porta,
lutando com um cachorrinho chihuahua preso a uma coleira. Seu coração parou. —
Cowboy, merda! Você vai estragar meu Nike, filho da mãe!
Luke.
Por
uma fração de segundo, foi como se tudo houvesse ficado em câmera lenta. Luke
pegou o cachorro no colo e virou acidentalmente o rosto, fazendo com que seus
olhares se encontrassem por um segundo que mais pareceu uma hora. Sua voz
falhou, seu rosto ficou pálido, e ele piscou três vezes para garantir que não
estava tendo uma miragem.
Então
tudo voltou ao seu tempo normal. O chihuahua latia, irritado, e a boca de Luke
estava entreaberta. O coração de Sophie passou a pular dentro do peito como se
quisesse sair dali naquele mesmo momento e sua respiração ficou audível.
—
Sophie.
Ela
foi capaz de escutar perfeitamente o seu murmuro, tão baixo que não era possível
que se sobressaísse aos latidos de Cowboy, o chihuahua.
— Luke
— ela murmurou em controversa, mais para ter certeza de que estava realmente
vendo-o depois de todos esses anos.
Meu Deus, como ele estava diferente. E lindo. Seu cabelo parecia maior e mais
bagunçado, seus olhos azuis estavam perfeitamente brilhantes de pura surpresa. Ele
também estava maior, Sophie achava. Seus ombros estavam mais largos, seu peito
mais aparente, seus braços mais musculosos. A barba em seu rosto parecia não
ser feita há pelo menos quatro dias.
— Você
voltou — ele murmurou novamente. Sophie notou o quanto ele estava parecido com
Jeremy com aquela barba malfeita.
—
Ainda hoje — ela respondeu por alto e viu os lábios de Luke se contraírem em um
sorriso.
Um
sorriso que cortou o seu coração. Por que Sophie sabia que ele não sorria por
que estava feliz em vê-la, e muito menos por que havia perdoado-a, ou não tinha
ressentimentos.
Luke
sorria sim. Mas sorria por que, subitamente, havia sido atingido por toda a
raiva que sentia dela.
— Que
bom — disse ele, passando uma das mãos pelo cabelo. — Como está indo o seu
futuro? Do jeito que você quer, aposto.
Seu
sorriso aumentara. Com todo aquele deboche, era como se ele despejasse sobre
Sophie toda a ira e a dor que sentira ao longo desses anos. Sophie conseguia
ver.
Conseguia
ver nos olhos dele.
— Sim,
Luke — respondeu ela, sem abaixar os olhos, com o tom de voz suave. — Do jeito
que quero. Só por que o meu futuro não saiu como planejado, não quer dizer que ele
não está da maneira que eu quero que esteja.
Luke
sorriu mais uma vez, assentindo com a cabeça e fazendo um carinho na parte de
trás da cabeça do seu cachorro.
— Sou
obrigado a concordar com você — disse no tom mais debochado que Sophie jamais o
vira usando. Foi como se ela tivesse sido atingida por um soco na barriga. Mesmo
assim não perdeu a compostura. — Enfim, Sophie, eu tenho que ir. Estou cheio de
compromissos para hoje. — Ele se dirigiu para o Audi parado na frente da casa
de Kathryn e Jeremy. — A gente se vê.
Luke
entrou rapidamente no carro e arrancou com ele para longe dali, deixando ali
uma Sophie desolada.
Não
por que ele a havia tratado mal.
E sim
por que ele ainda estava cheio de ódio dentro de si.
Notas Finais
Ei, bebês! ASOPSOKASAS E aí? Tudo bem?
Então, estamos aqui. No blog. OAV Fanfics. Para sempre <3POASKÃPOSKÃOPSK gente, seguinte. A maior parte das coisas desse blog são provisórias. Tipo essa caixinha de comentários aqui. Ela tá feinha e etc, mas eu arrumarei. Outra coisa que também arrumarei são os hiperlinks aqui, mas TODOS OS CAPÍTULOS DA OAV 1 E 2 JÁ ESTÃO POSTADOS AQUI. Incluindo esse que não está postado no Nyah! Fanfiction.Então, gente, é o seguinte. Comentem aqui pra mim, que isso está caracterizando essa nossa mudança. Tá? :3Vamos falar sobre esse capítulo. QUEM AÍ QUER UM HENRYYYYYYYYYYYYYY??????????? S2S2S2S2S2Gente, eu estava escrevendo e me apaixonando por essa criança perfeita, meu Deus, que lindo. E A ANNA? S2S2S2 ai.Eu disse que ia passar tempo bruscamente e passei. *U* Amei esse capítulo.E tô morrendo de dó do Luke :cPRÓXIMO CAPÍTULO TEM REVELAÇÕES E ENTRADA DE MAIS UMA PERSONAGEM NOVA, como não poderia ser diferente. <3 Que mais que eu posso spoilar pra vcs? Talvez o primeiro reencontro de Nate e Julia?e.... Eu iria falar outra coisa, mas me esqueci.Oh, sim. A partir de hoje, como eu perdi as "MP's", vocês podem me mandar um email a hora que quiserem, ok? aqui tá meu endereço: saramaltas@gmail.comResponderei tudinho :3 vou ver se faço um forms ou uma ask.fm para o blog, também, caso seja necessário. E..... Obrigada por estarem aqui. Eu amo vocês. ^^