23 de set. de 2012

Capítulo 53

You can't run away... you wouldn't. 



Cinco anos e meio depois


Céus, ela estava quase atrasada. Visualizou o relógio de parede acima da pia — sua amiga maluca o havia colocado no local mais improvável possível. 7h15min. Respirou.
Tudo bem, ela ainda poderia chegar na hora. Só precisava terminar o café da manhã, arrumar seu filho e fazê-lo comer, levá-lo até a creche e ir em direção à escola. Em quarenta e cinco minutos.
Droga, era muito pouco. Ainda mais levando-se em conta que Henry demorava uma vida para comer e parecia superentretido com seu desenho animado, o televisor no último volume na sala ao lado da cozinha.
Sophie suspirou.
— Henry Lucas Farro, pela última vez, abaixe esse volume! — gritou ela, sentindo-se um pouco menos estressada quando notou que o som que ecoava da tevê ficou mais baixo.
Desculpe, mamãe! — ela escutou o grito agudo do filho e virou-se para o fogão, dando uma última mexida nos ovos e virando o bacon. Gloriou-se mentalmente por não se queimar desta vez. Sinceramente, às vezes parecia que Sophie tinha um imã para óleo quente. Seu braço ainda ardia pela última gota que a queimara, semana passada.
Ela apagou o fogo dos ovos, deixando o bacon fritar durante mais um tempo — Henry gostava do seu bacon muito bem passado, quase queimando —, e foi até a torradeira que havia acabado de apitar. Colocou a torrada do filho em um prato de porcelana com a estampa do Mickey Mouse que Julia havia comprado numa loja de utilidades, sabe-se lá aonde, em uma de suas viagens a trabalho. Julia sabia que Henry era meio obcecado por desenhos antigos, especialmente o Mickey Mouse e sua turma, Snoopy, Bob Esponja e até mesmo o Pica-Pau. Mas ele também adorava desenhos atuais que envolviam muita computação gráfica, além de gostar de desenhos que não eram tão atuais, mas ainda assim, não deveriam fazer sucesso para uma criança de apenas cinco anos. Ele tinha uma estante inteira apenas de DVD’s de desenho animado que Julia comprava para assistir com ele.
Neste momento, Sophie conseguia reconhecer a voz de Jake, o cachorro elástico do desenho Adventure Time. Henry acordara às seis horas da manhã para não perder a maratona que passava na Cartoon Network e Sophie aproveitou para corrigir as provas que precisava, enquanto escutava as risadas contagiosas do filho e, mais uma vez, agradecia a Deus pela bênção que era tê-lo. Acabou levando mais tempo do que o que ela pensava, e agora só faltavam quarenta minutos para ela chegar ao colégio, onde dava aulas de piano, canto e teoria musical para alunos do quarto ao nono ano, o que não era um trabalho nada fácil. Além de ter que lidar com alunos que não queriam nada com a vida, vira e mexe um garoto de doze anos se “apaixonava” por ela (Julia havia dito uma vez que se estivesse com doze anos e sua professora de piano fosse tão jovem e gostosa, ela provavelmente se apaixonaria também). Lidar com pré-adolescentes era tão exaustivo que Sophie gostaria que Henry tivesse cinco anos para sempre.
Sinceramente, essa parecia a melhor fase de uma criança. Os primeiros meses foram terríveis, Sophie era muito nova e não tinha nenhuma experiência, além de ainda ter de frequentar para a faculdade de música (Camie lhe ajudara muito nesta época). Ela e Julia se reviravam ao avesso para poderem cuidar do pequeno recém-nascido, e ainda assim era tão difícil. Sophie estudava à noite e Julia trabalhava e estudava o dia inteiro, tendo que cuidar de Henry quando Sophie estava na faculdade. Quando ele fez um ano de idade, elas já não se aguentavam mais. A exaustão havia tomado conta de ambas, junto à culpa que Sophie sentia por estar criando um bebê longe de sua família.
Foi então que houve a ligação. A ligação que Sophie fez para Hayley para dizer que ficara grávida e tivera um filho.
Céus, fora um horror. Hayley esbravejou ao telefone — logo depois de se recuperar do choque inicial, que incluía a total discórdia e achar que tudo aquilo era uma simples brincadeira —, brigou, gritou, chorou. E quando perguntou sobre o pai da criança, Sophie... apenas respondeu que não sabia quem era.
Isso foi o fim. Sua mãe largou o telefone e logo Sophie ouviu a voz de Josh, que parecia muito mais calma do que a de Hayley. E realmente estava. Josh com certeza estava magoado, mas... tanto ele quanto Sophie sabiam que ele não estava em posição de brigar com ela, uma vez que ele fizera quase a mesma coisa em relação a Danna. Conversou com Joe e com Nate em seguida, ambos com as vozes mais grossas do que ela se lembrava, apesar da voz de Joe estar um pouco arrastada e mais rouca. Ambos estavam pasmos, Joe ficou chateado por Sophie não tê-lo contado. Até que Hayley reapareceu, sem parar de brigar, e Sophie encerrou a ligação com um “eu já assumi a responsabilidade! E vou criá-lo sozinha, como tenho feito ao longo desses seis meses.”.
Isso por que Sophie não podia dizer a real idade de Henry. Se dissesse que ele tinha um ano de idade, bem, não era preciso fazer muita conta para descobrir que as dadas condiziam e que, afinal, o filho de Sophie era também filho de Luke.
Foram quase duas horas com o telefone grudado a orelha, escutando o choro e a briga da família, Julia encarando-a com preocupação e lhe dando apoio moral. O pequeno Henry, tão inocente, dormia em seu quarto como um anjo, sem ter a mínima ideia do que acontecia fora dele.
Os dias seguintes, entretanto, foram muito mais tranquilos. Julia conseguiu um trabalho remunerado e Sophie passou a estagiar no mesmo lugar onde dava aulas até hoje. Quando Henry tinha dois anos de meio, Hayley, Josh, Joe, Danna e Hector foram visitá-los. Sophie comunicara Julia sobre a vinda de sua família até Londres e, sinceramente, nunca vira a amiga empalidecer tão rapidamente de forma tão brusca. Parecia que o sangue tinha fugido de seu rosto, e ambas sabiam a razão.
Mas Nate não iria visitá-las. Havia entrado no exército e estava em treinamento contínuo por dois anos, impossibilitado de visitar outro país por tanto tempo.
E acabou sendo uma das semanas mais incríveis da vida de Sophie. Não se lembrava do quanto sentia saudade de seus pais, de modo que os abraçou tão apertadamente da primeira vez que os viu que começou a chorar. Joe estava tão grande, e Sophie quase desmaiou quando Danna anunciou que o pequeno Henry teria um priminho (que, no fim, acabou sendo uma priminha). Estavam todos tão diferentes, tão mudados, e Sophie se deu conta de que havia mudado também, e muito. Mesmo que só tivesse dezenove anos, já era uma adulta desde o momento em que Henry Lucas, seu bebê tão lindo, nascera. Não parara de pintar o cabelo, mas crescera, física e emocionalmente. Não era mais uma adolescente. Era... uma mãe.
Henry fora o xodó do momento, evidentemente. Todos ficaram chocados com sua esperteza e precocidade, além de ser inegável que o bebê era mesmo a criança mais linda do mundo inteiro, sobretudo quando se sentava ao piano da mãe e começava a martelar as teclas, gargalhando gostosamente quando o som das teclas ecoava.
Ele era muito pequeno, mas já parecia carregar os genes musicais dos pais. Ou então, havia aprendido a amar música por todas as horas que Sophie passava tocando piano mesmo quando estava grávida dele, ou quando bebê ficava em seu colo, dormindo calmamente ou sorrindo enquanto ela treinava as obras que precisava para a faculdade. Isso era tão comum que até hoje, cinco anos e meio depois de seu nascimento, o garoto se sentava no colo da mãe para escutá-la tocar.
E claro que todos acharam Henry muito precoce e grandão para um garoto de dois anos de idade, sobretudo quando ele era precoce e grandão mesmo para um garoto de sua idade. Tinha dois anos e meio e quase não falava errado, além de já ter aprendido a usar o banheiro — feito este que Sophie simplesmente amou. Não havia nada pior do que ter de acordar de madrugada para trocar suas fraldas.
Ossos do ofício.
E claro, ainda havia a época em que Julia perdeu o emprego e... bem, faltou dinheiro. Foi a pior época pela qual eles passaram, e se não fosse por Tarris, Sophie e Julia não aguentariam as rédeas da situação. Não podiam parar de pagar a creche de Henry por que não tinham tempo para cuidar do garoto, e claro que elas compravam as coisas que eram úteis para a casa e os livros da faculdade antes de pagar as contas do apartamento. Infelizmente, isso deixou-as endividadas até o pescoço e Sophie conseguira limpar seu nome fazia apenas dois meses. Julia, sem fazer nada pelo período de tempo que supostamente deveria estar trabalhando, passou a escrever artigos de acordo com suas próprias ideias, vocabulário e fontes, e postá-los na internet por meio de um blog que ela mesma criara. O incrível fora que as pessoas passaram a ler o que ela fizera apenas por pura diversão e, hoje, o blog de Julia era um site noticiário formado por uma equipe, todos ex-universitários, colegas dela. O dinheiro que passaram a ganhar com propagandas e patrocínio fora o suficiente para mantê-las em um padrão pouco mais folgado de vida. Mesmo que Sophie sempre atrasasse a conta de telefone. Depois da criação do site, mesmo na faculdade, Julia passou a receber propostas de empregos de todas as editoras e jornais do país. Todos se encantaram pelo seu jeito irônico e verdadeiro de ver e mostrar as coisas ao povo. E oras, ela seria formada por Oxford! Quem não iria querê-la?
Agora, formada, Julia não estava trabalhando para ninguém senão ela mesma. Tinha um pequeno escritório no centro onde se reunia com seus colegas e projetava as notícias para aquele dia, além de andar sempre com o iPhone em mãos, atenta a toda e qualquer notícia que possa acontecer dentro da Inglaterra ou mesmo no resto do mundo.
Sophie também mal conseguia se lembrar de quando Henry completou três aninhos sem chorar. Havia contraído uma gripe inicialmente, mas... a gripe não sarou. Deu-se uma tosse que não acabava, febre, vômito, por vezes sua respiração ficava comprometida. Sophie perdeu a conta de quantas vezes ele chorava e apontava para seu peito, dizendo que “seu coração estava doendo”. Ela o levou ao hospital diversas vezes, recebendo sempre o mesmo diagnóstico: gripe. Mas a gripe de Henry não cessava, e então, em outra consulta, quando ele fez o hemograma e a radiografia, descobriu-se que o pequeno menino havia contraído pneumonia.
Ainda passando pela crise financeira, Sophie nunca havia se sentido tão angustiada em sua vida. Suas notas na faculdade caíram consideravelmente, pois ela deixava de ir as aulas para ficar com seu filho, certificar-se de que ele estava bem e sem tossir, sem febre, sem dor, sem falta de ar, comendo direito. Ele havia emagrecido tanto, e Sophie simplesmente entrava em pânico quando ele não conseguia respirar. Chorava com ele quando ele dizia que seu peito estava doendo, e chorava sozinha quando finalmente conseguia fazê-lo dormir. Henry havia se tornado uma criança complicada para comer nessa época, e isso havia se estendido até hoje.
Foi o mês mais difícil que Sophie já passara em sua vida. Não conseguia dormir, não conseguia trabalhar, não conseguia estudar. Só conseguia pensar em seu filho, doente, com aquela doença terrível. Após todo o tratamento e as visitas ao hospital, Henry finalmente sarou. Até hoje Sophie brigava com a síndica do prédio para fazer as manutenções dos ares-condicionados, e retirara-o da creche que recusou a fazê-lo. Além de garantir que Henry comesse todos as vitaminas que precisava.
Mas mesmo com todas as dificuldades, Sophie não conseguia imaginar sua vida sem seu pequeno filho. Ele havia se tornado o centro do seu mundo, e tudo o que ela fazia era para ele de alguma forma. Não havia nada no mundo que Sophie amasse mais do que Henry, o travesso, teimoso, e apaixonado por desenho animado Henry Lucas. Toda vez que ela se sentia magoada por algo que fizera no passado, só precisava olhar para seu rostinho jovial e inocente para sentir que tudo valera a pena. Só precisava ver seu sorriso e seus olhos perfeitos para se derreter. Só precisava sentir seus bracinhos em volta do seu pescoço, abraçando-a como se ela fosse a mulher mais incrível do mundo para saber que tinha feito a coisa certa.
A coisa certa fora ficar com Henry para ela.
— Cheguei, amores! — Sophie saiu de seus devaneios quando escutou a voz de Julia ecoando pela casa. Retirou o bacon do fogo, colocando as fatias sobre os pratos de porcelana.
— Bom dia — Sophie disse, levando os pratos para a mesa. — Henry, vem comer!
Peraí — ele gritou de volta, fazendo Sophie revirar os olhos e encarar a amiga a sua frente. Seu cabelo estava molhado e o único vestígio de maquiagem em seus olhos verdes era um rímel que ela com certeza havia acabado de passar. Sua bolsa parecia abarrotada e, ora, Julia não tinha nenhuma camiseta do Bon Jovi. Some isso ao fato de ela estar chegando em casa as sete e vinte da manhã e não é preciso ser um gênio para adivinhar onde ela estava.
— Sério, eu tenho que parar de esperar você chegar em casa — Sophie disse, sentando-se à mesa e dando uma garfada de seus ovos. — Você podia ligar. Não estava no escritório?
— Desculpe, papai — Julia revirou os olhos, fazendo Sophie rir. — Sim, estava no escritório, mas fui tomar uma cerveja com o Bruce depois disso.
Sophie parou de mastigar.
— Bruce não é o cara casado?
Julia apertou os olhos.
— Claro que não! O que acha que eu sou? — ela deu ombros e Sophie voltou a comer. — O que se casou é o Paul. Pelo amor de Deus, como você confunde Bruce com Paul?
— Você também dormiu com o Paul — Sophie disse em tom inexpressivo, sem ligar.
— Isso foi antes de ele se casar — Julia explicou-se. — E já faz um tempão, por favor, pare de me condenar!
— Você tem que parar de dormir com os seus funcionários, Julia — Sophie apontou com o garfo para a amiga. — Henry, ande! Os ovos vão esfriar!
Peraí, mamãe, tá quase no fim!
— Não tenho, não — Julia disse, sentando-se e largando a bolsa em cima da mesa. — Essa é uma das poucas vantagens de ser a chefe. E eu não estou cometendo nenhum crime, se quer saber. Bruce já estava me cantando há uns dois meses. E eu sou uma mulher de vinte e três anos bem sucedida, linda e independente na capital da Inglaterra. Faço bem de estar dormindo com quem eu quiser.
Sophie negou com a cabeça.
— Primeiramente, você só tem vinte e dois. E depois, certo, você é independente e linda e blábláblá, mas... quanto tempo tem que você não sente algo por um desses caras?
— Acredite, eu senti algo ontem à noite enquanto o Bruce... é melhor não terminar a frase — ela se calou ao ver o olhar fulminante de Sophie. Havia proibido Julia de falar besteiras ou palavrões na frente de Henry há um bom tempo.
— Eu não estou falando de s-e-x-o — Sophie soletrou, preferindo prevenir que seu filho não estivesse chegando. — Você é uma garota incrível e metade desses caras se declararam para você. Sabe, Julia... você precisa se apaixonar de novo. Amar, sabe. Amar e ter um homem te amando de volta.
Julia encarou Sophie como se ela houvesse acabado de dizer a coisa mais retardada do mundo.
— Certo, você tem razão — ela disse em seguida. — Lucas!
O quê? — Henry respondeu ao grito de Julia na sala.
— Eu te amo, você me ama?
Aham!
— Então diz que me ama!
Eu te amo, tia Julia — ela escutou o grito da criança e sorriu para Sophie.
— Viu? Eu amo um homem que me ama de volta, e tive ontem uma noite de s... s-e-x-o, incrível. Minha vida está completa. — Julia deu de ombros. — E não me venha com essa de “você precisa amar”, Srta. Responsabilidade. Quantos anos têm que você não fica com ninguém?
Sophie suspirou.
— Não preciso disso.
— Por favor, Soph! — Julia se remexeu na cadeira. — O mais perto de experiência s... s-e-x-u-a-l que você teve desde o nascimento do Lucas, foi quando aquele professor esquisito te beijou naquela festa esquisita de alunos esquisitos.
Sophie riu.
— Novamente, Juzy, eu não preciso disso. Tudo que preciso é minha música e meu filho. — Respondeu Sophie, comendo um pedaço de bacon torrado do jeito que Henry gosta.
Julia bufou.
— Pois sabe o que eu acho? — disse e Sophie negou com a cabeça. — Acho que uma hora ou outra, Soph, você vai perceber que o Luke não foi o único.
Sophie abaixou o garfo por impulso, sentindo o sangue parar de fluir em suas veias. Engoliu, ainda pasma, pálida.
— Assim como você percebeu com o Nate? — ela não viu quando as palavras saíram de sua boca, arrependendo-se logo depois de tê-las dito. Julia havia... tocado em seu ponto fraco. Sophie se irritara e dissera as palavras sem pensar, apenas para... revidar.
Mas Julia aparentemente tinha se irritado de verdade. Levantou-se de uma vez, deixando a bolsa em cima da mesa, andando com força até o fogão. Colocou um pouco de ovos em um prato e bateu a frigideira contra o fogão.
— Não fale como se fosse escolha minha — ela se virou para Sophie, os olhos fulminando de irritação... e tristeza. — Não vim para Londres por que eu quis, Soph. Não levo a vida que levo por que eu quero.
Sophie mordeu o lábio.
— Me desculpe, eu falei sem pensar — disse, sinceramente.
Julia largou a frigideira no fogão, perdendo subitamente sua fome. Seu rosto não estava mais irritado, mas Sophie teve a impressão de que ela queria chorar. Apoiou o peso de seu corpo sobre suas mãos, no balcão, suspirando.
— Eu não ia sair com o Bruce ontem, Soph — ela confessou. — Não queria, na verdade. Mas... quando eu estava escrevendo um artigo... eu recebi uma ligação... Leonard. Leonard me ligou. — Julia não encarava mais a amiga. Olhava para suas mãos que iam empalidecendo conforme ela aumentava sua força sobre elas. — Ontem foi aniversário dele, de dezesseis anos. Eu tinha... esquecido do aniversário do meu próprio irmão, e... caramba, Sophie, ele parece tão diferente. A voz dele, segura e ao mesmo tempo travessa. Jason deu uma moto para ele e o garoto estava quase explodindo de felicidade. Disse que queria que eu estivesse lá para ver, para dar uma volta com ele — Julia suspirou, engolindo seu choro. Sophie já não conseguia mais encará-la ou comer o que estava em seu prato. Sentia em seu interior que Julia já deveria ter voltado para a América, mas a única coisa que a prendia... era ela. — Eu sinto tanta saudade, Sophie. Meu irmão, aquele pirralho irritante, virou... um homem, sabe? E a minha mãe... minha mãe parecia tão cansada, a voz dela estava embargada por estar falando comigo, com saudades de mim tanto quanto eu sinto saudades dela... Eu sinto tanta saudade da vida que eu tinha em Nashville, mesmo que ela tenha sido tão menor do que a vida que eu tive aqui... — Julia retirou uma de suas mãos do mármore, passando-a pelos olhos num gesto rápido e trêmulo. — Por isso saí com Bruce. Queria me distrair. Por que a cada dia que se passa, mais eu sinto que esse não é o meu lugar. Que Londres não é o meu lugar. Que não é aqui que eu devo ficar, mesmo que isso aqui envolva... noventa e cinco por cento da minha vida. Eu só... — Julia fungou, mordendo o lábio — ...queria voltar.
Sophie suspirou, engolindo seu próprio choro.
— Então volte — murmurou ela, encarando suas próprias mãos. Suas palavras eram sinceras, entretanto. Sabia que Julia precisava voltar. Tanto para sua família quanto... para a tatuagem que ela agora encarava.
— Não posso — ela murmurou de volta. — Não consigo deixar você e o Lucas. Não consigo me ver longe de vocês. Não consigo... você sabe que eu sou maluca por aquele garoto... Eu não posso voltar.
— Mas você deve — Sophie levantou os olhos, encontrando os de Julia, completamente abalados e confusos.
— Só se vocês vierem — ela encarou Sophie de volta e deu um sorriso nervoso. — Vocês são minha família, eu não vou conseguir me aguentar de saudade. Vem comigo.
Sophie abaixou os olhos.
— Eu não posso voltar, Julia — murmurou. — Não posso. Você sabe por quê. Você sabe por quem. Não posso voltar.
Julia suspirou, sem retirar os olhos da amiga.
— Mas você deve.


[...]


Oh, droga. E agora?
Sophie encarou sua sala de aula vazia, as carteiras largadas de qualquer maneira pelos alunos do oitavo ano que haviam acabado de sair, apressados para chegar em casa e passar o resto da tarde no computador. Bem, talvez Gina não fizesse isso, afinal, era a garota de treze anos mais dedicada que Sophie já havia conhecido, e empenhava-se em tirar a nota máxima em todas as matérias. Inclusive música, canto, matéria essa que a própria garota havia escolhido cursar. Assim como todos os outros vinte e cinco alunos da classe do oitavo ano.
Alunos esses que Sophie não voltaria a ver.
Sua cabeça trabalhava procurando uma saída. Quanto tempo havia que ela não moldava um currículo? Bem, precisava moldar um agora, e urgente. Precisava conseguir um emprego o quanto antes.
Droga. Péssimo momento para ser demitida. Sobretudo quando Julia queria tanto voltar para Nashville e o site dela estivesse se expandindo. Para Julia abrir uma filial na América não demoraria nada.
Sophie achava que conseguia aguentar tudo sozinha. Não ganhava mal na escola, afinal, trabalhava dois turnos e lecionava para mais de duzentos e vinte alunos. Era cansativo, sim, mas era o suficiente. Mas... bem, agora a escola havia achado as aulas de músicas inoportunas e estavam substituindo-as pelos esportes. Sophie e mais três professores foram demitidos, restando apenas um músico, que daria aulas simples de violão para algumas crianças que queriam realmente aprender.
Que ótimo. Sophie só havia trabalhado em apenas um lugar, precisava achar outra escola de música para lecionar, e com certeza recebendo menos do que o necessário. Isso, é claro, se ela conseguisse achar um emprego. Era só dar uma olhada nos telejornais ou mesmo no site de Julia para saber que a inflação estava terrível e a crise econômica tomava conta do país. Muitos estavam sendo despedidos, muitos procuravam emprego, poucos estavam estabilizados. A própria Julia teve de demitir dois redatores há menos de um mês.
Sozinha e desempregada, Sophie não conseguiria lidar com tudo o que estava acontecendo. Agora também não contava mais com a ajuda de Tarris, já que este havia se mudado para Dover e estava casado há menos de dois meses. Sophie sabia que isso havia afetado Julia também — ela perdera seu melhor amigo colorido, além de saber que Tarris fora para Dover procurar por Leighton, a garota que fora separada dele mais ou menos da forma como Julia fora separada de Nate. Na realidade, Tarris só estava no colégio interno em que Julia estava matriculada na época em que se conheceram para ocupar a mente — mais ou menos da forma como Nate fez, indo para o colégio militar antes da hora.
Agora Tarris estava casado com a mulher que amava. E Julia... bem, não. Dava para ver que isso machucava-a. Sophie não podia deixá-la ficar em Londres só por causa dela e de Henry. Quer dizer, o filho era de Sophie, Julia não tinha a mínima responsabilidade sobre ele, e só a ajudara por tanto tempo por que... eram melhores amigas.
Tudo bem, Sophie receberia seus direitos por ter sido demitida, isso poderia suprir suas necessidades por um tempo. Ela trabalhava naquela empresa há quatro anos! As libras que receberia por direito deveriam aguentar até ela conseguir se empregar novamente.
Ela suspirou, pegou suas coisas e saiu da sala. Tinha de esvaziar seu armário também. Oliver Schmidt, professor de flauta, não havia nem sequer dado sua última aula. Esvaziara todo o seu armário e saíra da escola com raiva assim que terminou. Na realidade, de todos os professores demitidos, Sophie foi a única que trabalhou por que prometera aos alunos que lhes diria suas médias, além de ter de entregar as provas corrigidas. Quando souberam que Sophie fora demitida, eles ficaram abalados, e ela mesma também ficou. A turma do oitavo ano era a mais fácil de trabalhar e os alunos a amavam. Fizeram até mesmo uma pequena festa de aniversário para ela, quatro meses atrás.
Sophie sentiria saudade daqueles pirralhos.
Não havia muita coisa no armário. Um diário de notas que ela teria de deixar na direção da escola, alguns livros didáticos, uma foto de Henry pregada à porta, seu celular, um caderninho de partituras, e alguns papeis que Sophie apenas jogava lá dentro. Esvaziou tudo da melhor forma que podia, preferindo deixar os papéis inúteis por lá, e levou os livros e as notas de seus alunos para diretoria, deixando-a com uma secretária qualquer. Enfiou o caderno, o celular e a foto de Henry na bolsa e apertou o sobretudo contra o corpo assim que saiu do prédio da escola particular em que lecionava. Passou a caminhar em passos rápidos conforme o ritmo de Londres mandava até a creche onde Henry estava matriculado. Teria de buscá-lo dentro de meia hora e decidiu ir andando, optando por ter mais tempo para pensar enquanto via sua respiração fazer contraste com o vento frio inglês.
Mas ela não pensou muito. Logo seu celular passou a vibrar, tocando alto uma versão piano de My Heart que ela achara na internet. Era incrível como mesmo depois de tantos anos era possível encontrar os vídeos da Paramore no YouTube.
Quando finalmente achou o celular, Sophie atendeu sem verificar o número, já com medo de perder a ligação. Murmurou um “alô” forçado.
Soph! — ela reconheceu a voz no mesmo momento, deixando um sorriso aparecer em sua face. — Por que não atendeu o telefone antes? Estou te ligando desde cedo!
— Estava na aula, tenho que dar o exemplo para aqueles meninos — ela disse de volta para o aparelho, diminuindo o ritmo do passo. — Meu celular estava no armário, me desculpe.
Eu ia deixar você ser a primeira a saber, mas como você não atendeu o telefone, não me culpe — sua voz estava estranhamente alegre demais. Sophie estranhou, mas gostou.
— Saber de quê, querida irmã? — perguntou ela à Danna, escutando sua risada do outro lado da linha. Era inegável que a pessoa com que Sophie mais mantivera contato ao longo de todos esses seis anos longe de casa fora Danna. Haviam se tornado mais próximas do que já eram quando estavam juntas.
É que... ai, espera um pouco, a Anna está chorando — ela escutou um barulho, indicando que o celular havia sido largado em algum lugar, seguido de um choro alto e fino. Anna, a pequena filhinha de Danna e Hector, mais parecia um anjinho. Tinha cabelos loiros longos que iam até as costas, baseado no que Danna dizia e nas fotos que Sophie tinha dela, já que nunca vira a sobrinha frente a frente. Anna é, na verdade, o nome da falecida mãe de Hector. — Pronto, bebê. Quer falar com a tia Sophie? — ela não pôde deixar de sorrir quando escutou a voz de Danna mais fina, brincando com a filha. Logo depois a voz da irmã foi substituída por choramingos de uma criança. — Pronto, pronto. Ok, Sophie. Sobre o quê eu estava falando com você?
Ela riu.
— Tenho que saber de alguma coisa.
Ah, sim — Danna sorriu, mais para fazer uma pausa dramática do que para qualquer outra coisa. — Eu e Hector marcamos nosso casamento.
Sophie teve que parar de andar para gritar com o telefone.
— SÉRIO?! — gritou, sem se importar com os olhares estranhos direcionados a ela. — Caramba, Danna, que ótimo! Parabéns!
Não aceito seus parabéns assim — Danna havia impostado sua voz e ainda era possível escutar os choramingos ao fundo. — Só vou aceitar quando você estiver aqui, sendo minha madrinha.
Sophie mordeu o lábio, voltando a andar. Não... não teria como ela ser a madrinha de Danna. Primeiramente, Sophie não tinha coragem de voltar para Nashville e encarar... certas pessoas. E agora ainda havia o problema de ela estar desempregada!
Por mais que Sophie quisesse ver Danna se casando, era... simplesmente impossível.
— Não posso, Danna — ela murmurou para o telefone. — Não tenho como.
Ah, Soph, por favor! Eu vou me casar! Eu preciso de você aqui, vamos, por favor, faça isso... — Danna começou a implorar.
Sophie suspirou.
— Não dá mesmo! — exclamou. — Danna, eu acabei de ser demitida. Não sei como vou conseguir um emprego e não tenho dinheiro para gastar com uma viagem tão longa e cara. É... impossível, não tem como.
Você foi demitida? — a voz de Danna parecia assustada. Ou empolgada. Ou os dois.
— Fui — Sophie começou a andar com um pouco mais de velocidade. — Assim que cheguei à escola, atrasada, para variar, tive uma reunião com a diretoria e eu fui demitida com outros três professores.
Ai, mas... — Danna começou a choramingar assim como sua filha. — Por favor, Sophie! Eu já até estou imaginando o seu vestido! Ok, mentira, eu não estou, nem ligo para isso, é Hayley que está. Mas... caramba, você precisa vir. Eu pago sua passagem e a do Henry, ok?
Sophie negou com a cabeça mesmo que a irmã não pudesse ver.
— Não, de jeito nenhum — disse ela. — Não vou aceitar seu dinheiro, ou empréstimo, ou qualquer coisa assim. Se fosse para eu ir, Danna, eu teria de ir por mim mesma, e Julia teria de ir junto. Além do mais, não tenho tempo para gastar em Nashville... E nem se atreva a falar com o Joe!
Sophie pôde escutar Danna bufando. Era incrível como quando qualquer um quisesse convencer Sophie a fazer alguma coisa, a primeira pessoa que procuravam era Joseph. Simplesmente por que sabiam que Sophie não conseguia dizer “não” para ele. Na realidade, ela até conseguia, mas ele não aceitava e no fim ela fazia o que ela queria.
Mas Joseph manipulava todos assim.
Mas eu queria tanto você aqui, cara. É especial pra mim. E Henry seria meu pajem, tão lindo, naquele terninho... — Danna já estava melhor em choramingar do que Anna.
— Desculpa, Danna — Sophie torceu os lábios. — Não vai dar.
Danna havia ficado chateada, é verdade. Sophie também ficaria caso se colocasse no lugar da irmã.
Mas Sophie não tinha coragem, simples assim. O dinheiro era sim uma desculpa, mas mesmo que ela pudesse, não iria. Nashville... trazia muitas lembranças. Lembranças doloridas. Sobretudo, Sophie não conseguia se imaginar encarando Kathryn ou Jeremy — tinha certeza de que estava sendo odiada por ambos.
Isso por que, evidentemente, Luke também a odiava.
Sophie não tivera muitas notícias dele desde que foi embora. A última vez que soube dele foi quando Julia, atualizando sua página no Facebook, achou o seu perfil e chamou-a para ver.
Na foto, lá estava ele, com seus vinte e dois anos, a barba impecavelmente feita e o cabelo ainda bagunçado e ridículo. Era uma foto bem normal, parecendo ter sido tirada numa festa de faculdade, seu sorriso estava estampado e feliz. Na foto de sua capa, uma guitarra. Quanto aos dados, estava morando em Nova Iorque e trabalhando por lá em uma empresa chamada Feeling of Feeling, que Julia descobrira ser uma banda, posteriormente. “Em um relacionamento enrolado”.
Sophie não quis ver o resto e deixou Julia sozinha com seu notebook e seu vício em redes sociais. Já bastava por um dia ver tudo aquilo, todo aquele Luke sem sequer um vestígio de que um dia fora dela.
Claro que Sophie esperava e, na realidade, até queria isso. Queria que Luke fosse feliz sem ela, sem sentir sua falta, e que algum dia, quem sabe, ele fosse capaz de perdoá-la por ter ido embora sem mais nem menos e, na compreensão dele, ter engravidado de um inglês qualquer que nem sequer assumiu a criança. Mas acontece que na prática... tudo é diferente. Tudo dói mais. E se não fosse por Henry, Sophie não aguentaria.
Obviamente, Sophie pensou muito antes de decidir que não iria contar de Henry para Luke. Pensou muito durante muito tempo e decidiu não o fazer. Provavelmente isso só deixaria Luke com mais raiva dela, e além do mais, envolveria Henry em uma grande briga judicial e um ambiente ruim que uma criança não deveria estar. Seu filho merecia crescer em um ambiente calmo, amoroso e feliz, e não na casa de seus avós maternos, tendo sua atenção dividida por dois pais machucados que mal conseguiam falar um com o outro sem brigar.
Por isso Sophie mentiu. Por que era o melhor para todos. Para Luke, que não ficaria sabendo subitamente que tinha um filho, e para Henry, que poderia crescer sem um pai, mas cresceria em um ambiente onde um pai não seria necessário. Já que, na realidade, ele tinha quase duas mães.
Mas Sophie sabia que isso iria acabar algum dia, e esse dia já estava próximo. Julia não falava muito sobre Nate já fazia alguns anos, mas toda vez — toda vez — que Sophie a observava sem que ela soubesse, Julia estava olhando para a tatuagem de infinito. Mesmo que a amiga já fosse uma mulher feita, toda noite passava pelo menos vinte minutos escrevendo em seu diário, com a única exceção das noites em que ela não passava em casa (nada de pseudo-namorados perto de Henry, outra regra de Sophie). E toda vez que Nate conversava com Sophie, ele perguntava “e como estão as coisas com o Henry e com a Julia?”. Como se envolver o garoto na pergunta fosse tirar sua verdadeira dúvida.
A mais pura verdade era que a “situação temporária” que ambos criaram estava pelo fim. Então seriam apenas Henry e Sophie, na grande Londres, procurando viver da melhor maneira possível. A questão era: como fazer isso sem um emprego?
A pergunta ainda martelava na cabeça de Sophie quando ela chegou à creche de Henry, bem na hora. Ele estava jogando cartinhas com dois meninos no canto da sala, quando a professora chamou-o e Henry agarrou a mochilinha o mais rápido que pôde, despedindo-se de seus amigos — James e Simon, Sophie os conhecia —, e indo em direção à sua mãe que esperava na porta com um sorriso no rosto.
Ele era mesmo o menino mais lindo do mundo, não era? Seu cabelo meio loiro, meio castanho, estava bagunçado novamente, crescido para todo lado. Caramba, Sophie batalhava para deixar o cabelo do filho certinho, mas ele parecia ter vontade própria. Certo, ainda assim, ele era lindíssimo, com seu sorriso aberto faltando dois dentinhos inferiores — Henry passara meia hora pulando e dizendo que estava rico quando viu a nota de dez libras que a “fada do dente” deixara em seu travesseiro —, e seus olhos azuis profundos que só não eram mais hipnotizantes por estarem cobertos pelos seus óculos de grau que caíram perfeitamente em seu rosto. Ele usava óculos desde que aprendera a ler, há quatro meses, quando Sophie suspeitou de que o pingo do “i” estava grande demais em suas tarefas de casa. Mas ele havia se tornado o garoto de óculos mais charmoso do mundo.
Sophie se agachou, ficando na altura do filho que correra até ela e passara os bracinhos pelo seu pescoço, apertando-a e deixando um beijo carinhoso em sua bochecha. Ela o apertou contra si, sorrindo, beijando seu rosto duas ou três vezes e chamando-o de lindo, perguntando se estava tudo bem. Henry sorriu, se afastou e assentiu veemente com a cabeça.
Outra vantagem dessa fase: as crianças não sentem vergonha das mães, mesmo que estejam sendo observadas pelo resto de seus colegas. Ser mimado é absolutamente normal e até gostoso.
Sophie segurou a mochila do filho e apertou sua mão, seguindo para fora da creche que não ficava nada longe do apartamento dela na St. Alban’s Street, que ficava perto demais do centro de Londres. Joe pagara caríssimo por aquele apartamento, Sophie sabia, e ela só não o vendia para comprar outro que era um pouco mais longe daquela loucura por que... bem, não podia.
— Como foi a aula hoje? — ela perguntou a Henry, que sorriu.
— Muito legal! — ele respondeu sorridente, andando rapidamente para acompanhar o ritmo da mãe. — O Simon vomitou.
Sophie fez uma careta.
— Coitadinho! Por quê? — ela olhou para Henry, que havia adquirido a expressão que Sophie classificava como séria. Era aquela expressão que ele usava quando parecia que iria discursar, mas na verdade só queria usar o banheiro.
— Por que... sabe aquela menina? A Kate? Aquela que usa maria-chiquinha quase sempre? Ela levou um sanduíche de creme de amendoim e o Simon vomitou quando sentiu o cheiro.
Sophie não desfez a careta do rosto.
— E isso classificou o seu dia como muito legal? — perguntou, fazendo Henry dar uma risada gostosa.
— Não, mãe! — respondeu ele como se isso fosse muito óbvio, sem parar de rir. — É que por causa disso a moça teve que limpar a sala e a gente teve dois recreios.
— Dois? — Sophie parecia interessadíssima, sorrindo para o filho. — Isso parece ótimo.
— Eu ganhei quatro vezes do James no futebol — Henry se gabou. — Eu tenho o pé mais forte de todo mundo! Fiz quatro gols!
Sophie gargalhou, escutando a voz que Henry fazia quando queria imitar um desenho animado, se gabar por alguma coisa ou dizer “eu sou o garoto mais forte do mundo!” quando brincava com Julia. Seu celular tocou novamente. Danna.
— Alô — Sophie murmurou, andando mais devagar e segurando o pulso do filho com mais força.
— Quem é? — Henry perguntou, o sorriso estampado no rosto, superinteressado. Ele ajustou os óculos no rosto e seu dedo acabou sujando a lente.
— É a Danna — Sophie disse para ele.
Ei, Sophie, quem está aí? — Danna perguntou do outro lado da linha.
— O Henry, acabei de pegá-lo na creche — Sophie respondeu. — Tudo bem? — ela perguntou para Danna de imediato, estranhando a ligação, uma vez que Danna acabara de desligar o telefone.
Sim, eu tenho uma proposta para você. A resolução de todos os seus problemas. — Danna estava dizendo impostando sua voz novamente. Sophie escutou alguém dizer algo ao fundo. — Ah, sim. E tudo isso é culpa de Hector.
Sophie sorriu, chegando a um ponto em que ela e Henry teriam de atravessar uma rua. Ela entregou o celular ao filho, que o colocou na orelha, e pegou Henry no colo, pronta para atravessar.
— Oi, tia Danna — Henry começara a conversar enquanto Sophie ria. — Tudo bem com você? Tudo bem com a Anna? Tudo bem com o tio Hector? Tudo bem com a vovó? Tudo bem com o tio Joe? Tudo bem com... Mamãe está atravessando a rua... Ela me deu o celular... Eu tô bem, hoje o Simon vomitou.
Sophie gargalhou e colocou Henry no chão, retirando o celular das mãos do filho e passando a andar até o prédio que já estava visível para ambos.
— Pronto — ela disse para o telefone.
Um dia eu entendo a vontade dele de saber do bem-estar de todo mundo. E quem é Simon? — a voz de Danna estava confusa e Sophie gargalhou outra vez. — Enfim, não importa. A questão é que eu acabei... tudo bem, o Hector acabou de resolver todos os seus problemas.
— Hum — Sophie murmurou. — Criaram um chocolate que não acaba? Fizeram o Henry aprender a se limpar sozinho?
Sophie não viu, mas soube que Danna havia revirado os olhos.
Não. Te arranjamos um emprego. — Ela disse quase como se não ligasse e Sophie franziu o cenho. — Depois que falei com você, eu falei com a Julia, que fez o seu currículo num instante e me mandou por email.  Então o Hector falou com um amigo dele que abriu uma loja de música aqui em Nashville há menos de um ano, e a escola está sendo muito frequentada, sabe, fizeram até festa de inauguração, e é um prédio enorme bem no centro. Eles precisam de uma professora de piano e, sabendo que você foi formada pela Laurent Louis, a vaga já é sua. Só precisam da sua carteira de trabalho para assinar. Você começa a trabalhar na segunda.
Sophie engasgou com a própria saliva. O quê?!
— O quê?! — ela transformou seus pensamentos em um grito esganiçado, achando tudo aquilo estranho e surreal demais. — O que você acabou de dizer?
Você não está mais desempregada, pois te arranjamos um emprego em Nashville, o que é incrível, por que além de você ficar perto da sua família, vai ser minha madrinha de casamento — Danna repetiu tudo como se não fosse nada demais. — E Julia também será uma madrinha, já que ela disse que vai vir reabrir o site dela em Nashville.
Sophie quase ficou tonta, entrando no prédio apenas por que Henry a guiava. Quando eles atravessaram as portas, Henry soltou sua mão e correu até o elevador, cumprimentando o porteiro e todas as pessoas que trabalhavam ali com um sorriso estampado no rosto.
— Danna, isso é uma brincadeira, não é? — disse ela, voltando ao planeta Terra e quase correndo para alcançar o elevador em que Henry já entrara. Agora seu filho conversava com Thomas, o rapaz que apertava os botões, provavelmente contando sobre seus dois recreios e o eventual vômito de Simon.
Não — Soph ouviu a voz da irmã. — Não é, Sophie. Eu estou falando sério. Você sabe que aí na Europa vai ser difícil você arranjar um emprego, e aqui... bem, aqui está a sua família.
Sophie bagunçou a franja, tão absorta em seus pensamentos que nem sentiu o frio na barriga que sempre sentia quando estava sendo erguida por um elevador.
— Danna... eu... não tenho como voltar para os Estados Unidos... — ela começou a dizer, mas estava tão pasma que só conseguia repetir o que sempre dissera a si mesma e aos outros. Não era capaz de formular argumento algum, neste momento.
— Nós vamos para os Estados Unidos?! — o grito de Henry se sobressaiu à história que ele contava para Thomas. — Mamãe, nós vamos para os Estados Unidos?!
Sophie hesitou.
— Não, amor, não vamos — ela respondeu para ele. — Danna... você sabe por quê. Eu realmente gostaria de estar aí para o seu casamento, mas pense... o quão horrível isso seria.
Sophie, por favor! Horrível?! — Danna aumentou o tom de voz. Devia estar gritando com o telefone uma hora dessas. — Caramba, a gente sente a sua falta aqui, e não falo só por mim. Josh ganhou mais cabelos brancos desde que você foi embora, e eu só não digo o mesmo da sua mãe, por que... bem, você sabe, toda aquela tinta. Mas pensa só no Joe, que sempre foi dependente de você. O próprio Nate. Ou os seus amigos! Sabia que aquele garoto grande e esquisito já se casou com a Marie?
Sophie não pôde deixar de sorrir pensando em Dan.
E... tudo bem, ela também sentia saudade. Sentia muita saudade. Perdeu a conta de quantas vezes, enquanto cuidava de Henry, ela não desejou que sua mãe estivesse ali, principalmente quando ele contraiu pneumonia e quando era um recém-nascido. Perdeu a conta de quantas vezes assistiu filmes como Querido John apenas para se lembrar de Nate — ele sempre condenara a protagonista por não esperar John voltar da guerra. Ficara com raiva da Amanda Seyfried por causa desse filme. — Sonhava quase toda noite com os momentos bons e ruins que tivera com os irmãos, e sonhava reencontrá-los, de vez em quando. Queria ter estado em casa quando Joe escreveu seus outros dois best-sellers que Sophie teve de comprar numa livraria. Gostaria imensamente de conhecer a sobrinha, filha de Danna, que segundo ela era uma garotinha sapeca, elétrica e que gostava de conversar.
Mas Sophie não poderia voltar. Não poderia por que voltar incluía aguentar todos os olhares acusatórios, todos os interrogatórios, todas as sentenças e decepções. Se voltasse, quantas vezes Henry não seria perguntado sobre o seu pai por más línguas? Ele teria de recomeçar, mesmo que fosse muito novo, e talvez não se adaptasse. E ainda havia a suspeita de Luke estar lá. O que ele faria se a visse novamente?
Sophie não aguentava pensar em todo o mal que tinha feito para ele. Não aguentava e não queria pensar sobre isso. Encará-lo... faria com que ela visse tudo. Sophie sabia que olharia dentro de seus olhos azuis e veria toda a dor, toda a mágoa e todo o ódio, lá, guardados, sombreando seu olhar tão puro. Ela não... não queria voltar a vê-lo, pois isso incluía toda a culpa que sentia.
Voltar para Nashville era inviável de todas as maneiras. Ao mesmo tempo que Sophie queria — e como queria — estar perto de sua família, ela não queria de forma alguma estar perto das pessoas que a queriam mal, e pior, queriam mal ao seu filho.
— Eu morro de saudades também, Danna. Você não tem ideia do quanto. — Sophie suspirou e o elevador abriu as portas. Henry segurou a mão dela e se despediu de Thomas. — Mas... é difícil. Londres é onde eu devo estar se... não quiser colocar minha vida e a vida do meu filho de cabeça para baixo.
Acontece que às vezes, Soph, nós precisamos virar nossa vida de cabeça para baixo — a entonação de sua voz havia ficado mais suave. — Se a minha vida não tivesse virado de cabeça para baixo, eu não estaria aqui agora. Provavelmente não estaria nem viva. Tudo de bom que eu tenho hoje eu devo a essa reviravolta. Incluindo você.
Sophie suspirou, mordendo o lábio inferior. Danna... tinha razão. Neste ponto, Danna tinha toda razão.
Toda reviravolta que houvera na vida de Sophie trouxera algo de bom para ela, sempre. Por exemplo, quando seus pais se separaram. Foi uma época horrível, mas as coisas boas que aconteceram em seguida foram inegavelmente incríveis. E quando ficou grávida... bom, ela poderia ter se separado do amor de sua vida. Mas ganhara o maior presente que Deus poderia lhe dar.
Henry era sua vida. Sophie não amava nada da maneira que o amava.
— Eu... vou pensar sobre isso, ok? Te ligo depois — disse ela, retirando a chave do apartamento de dentro da bolsa e desligou o telefone. Respirou fundo, procurando a chave certa para destrancar a porta, quando Henry rodou a maçaneta e a abriu.
— Tá aberta! — ele gritou e Sophie olhou em seu relógio. 15h20min. Como a porta estaria aberta se Sophie se lembrava claramente de trancá-la?
— Onde está o meu príncipe?! — ela soltou o ar de seus pulmões em puro alívio quando escutou a voz de Julia. Henry gritou e adentrou a casa correndo. Sophie fechou a porta atrás de si enquanto via o filho pular nos braços da melhor amiga, gargalhando pelas cócegas que ela agora despejava sobre ele.
Sophie mordeu o lábio. Não conseguia ver a si mesma sem Julia... mesmo que soubesse que a amiga teria de ir para Nashville, e iria. A questão era que elas duas haviam superado todas as dificuldades, juntas, e Henry provavelmente só não sentia falta de um pai por causa dela. Afinal, era Julia quem assistia desenhos animados que envolviam carros — Sophie os achava insuportavelmente chatos — com ele, era Julia quem assistia a beisebol e futebol com ele, todas as noites de domingo, comendo salgadinhos que posteriormente iriam entupir suas artérias. Julia quem o mimava com presentinhos. Julia quem o aconselhava em relação a garotas — Henry havia ganhado um beijo na bochecha de uma coleguinha enquanto brincava com massa de modelar duas semanas atrás e conversara quase duas horas sobre isso com quem? Não com sua mãe, mas sim, com Julia.
Julia era especial para Henry, e... vê-la indo embora deixaria um vazio em sua vida. Um vazio muito grande.  E seu filho era muito pequeno para já sentir as dores que a vida impõe. Dores como a saudade.
De qualquer maneira, com o que for que acontecesse, a vida dos dois levaria uma reviravolta. Se Julia fosse embora — e Sophie continuasse desempregada —, tudo mudaria. Se eles fossem embora com Julia, tudo mudaria também, mas a diferença é que eles teriam Julia e o resto da família.
Mas também teriam os inimigos.
Droga, Sophie estava confusa. Queria e não queria voltar, por motivos diferentes e mais confusos ainda. Estava com medo, estava nervosa, estava... simplesmente confusa.
— Adivinha quem comprou cookies? — Julia gritou, segurando Henry no colo.
— Cookies! — ele gritou de volta, sorrindo, quando ela o colocou no chão.
— Estão na mesa. Não coma tudo! Sua mãe ainda vai te fazer comer todas aquelas frutas essa tarde — ela não tinha certeza de que Henry escutara tudo o que ela dissera, uma vez que o garoto saíra correndo como um furação para a cozinha. Sorrindo, Julia se virou para Sophie.
— Esse Lucas é uma graça — disse, pegando seu laptop que estava na estante de livros e se jogando no sofá em seguida. — Qual companhia aérea você prefere? Ih, já era, comprei pela Air France.
Sophie encarou Julia com os olhos arregalados.
— Eu...
— Tem que fazer suas malas — Julia a interrompeu, apontando o dedo para a amiga. — Só não sei como vamos fazer para carregar esse piano. Sério, Sophie, por que você não toca um instrumento mais difícil de locomoção, hein?
— Julia, eu ainda...
— Não fez o passaporte do Lucas. Vamos ter que providenciar isso hoje — Julia assentiu veemente com a cabeça, digitando loucamente em seu notebook.
— Mas Julia, você...
— Vou montar um escritório em Nashville, já tenho até meus contatos de quem trabalhará comigo — ela interrompeu novamente e Sophie revirou os olhos.
— Julia, eu... cala a boca! — ela apontou o dedo para a amiga, que começou a rir. — Eu ainda não sei se vou. Não sei se eu, ou Henry, estamos prontos. Eu... não sei.
— Nesse caso, eu sei por vocês dois — Julia sorriu, conversando como se estivesse fazendo uma propaganda de sabonete. — Não quero me separar de vocês dois, Soph. Mas eu quero, mais do que tudo, ir embora daqui para onde é realmente o meu lugar. E você sabe que é o seu também.
Sophie se sentou no sofá.
— Eu... tenho medo, Julia. Eu fui embora de lá por sentir medo, e não quero voltar para enfrentar tudo aquilo que não enfrentei seis anos atrás — confessou Sophie. Julia fechou o laptop e encarou a amiga com seus grandes olhos verdes e, por hora, compreensivos.
— Não há como construir um futuro sem enfrentar o passado, Sophie — ela torceu os lábios. — Acho que quem disse isso foi Aristóteles.
Sophie riu.
— Eu acho que você acabou de inventar isso.
— Pode ser, ambos somos pensadores incríveis — ela deu de ombros, fazendo a amiga rir novamente. — A questão é que você precisa ir. Precisa... enfrentar tudo e todo mundo, de cabeça erguida, por você e pelo seu filho. Por que querendo ou não, um dia ele vai perguntar por que você nunca vai para lá e vai questionar melhor o paradeiro do pai dele.
Sophie só foi capaz de assentir com a cabeça. Julia tinha razão. Filha de uma mãe, ela sempre tinha razão. Ou talvez fosse apenas sua sagacidade jornalística.
— Mas... e se não der certo, Juzy? — ela levantou os olhos para encarar o rosto risonho da amiga, que segurou sua mão.
— Você ainda vai ter a sua melhor amiga pra te apoiar.



[...]



Três dólares por uma caixa de suco de morango. Três dólares. Aquilo era um assalto, caramba! Por que tudo em aeroporto tinha que ter o triplo do preço normal?
A pequenina Anna Elizabeth pouco estava ligando para o valor de seu suco favorito, entretanto. Tudo estava bom demais. O suco estava na temperatura certa, ela vestira seu vestido mais bonito, e Luna, sua boneca de pano preferida, estava com ela. Além do mais, sua mamãe havia dito que ela iria conhecer sua tia e seu priminho daqui a pouco.
— Quando eles vão chegar, mamãe? — perguntou a menina, quando retirou o canudinho do suco da boca. Estava sentada no colo da mãe, balançando suas perninhas curtas.
Danna sorriu.
— Daqui a pouco — respondeu ela, segurando Anna com um braço e passando os olhos pelo portão de desembarque de onde Sophie e Henry deveriam sair. A ansiedade corria pelas suas veias, oras, estava morrendo de saudades da irmã e do sobrinho!
Danna ainda não acreditava que eles estavam realmente voltando para Nashville. Não sabia o que Julia dissera para Sophie, mas seja lá o que for, funcionara muito bem. Danna estava pensando em fazer uma faculdade de jornalismo para saber manipular as pessoas bem daquela forma. Sorriu com o pensamento bobo.
Julia fora mesmo excepcional. Danna gostaria de abraçá-la só para agradecer, mesmo que a conhecesse muito pouco. Só a vira pessoalmente uma vez, quando fora à Londres, e desde então as duas só conversavam vez ou outra pelo telefone. Mas Danna gostava dela. Afinal, uma pessoa que se tornara a melhor amiga de sua irmã e o amor da vida de seu irmão não poderia ser nada menos que incrível.
Claro que tanto Julia quanto Danna haviam omitido algumas coisas para Sophie quando argumentaram para trazê-la à Nashville. Bem, omitir não é mentir.
O portão se abriu e Danna ficou atenta para ver a irmã. Levantou-se do banco, segurando a filha no colo, vendo a loucura de pessoas procurarem por suas malas na esteira que começara a rolar. Danna começou a se aproximar e a viu. Um ponto vermelho estridente no meio de uma multidão, que segurava a mão de um garotinho de cabelo loiro espetado para cima.
— Ali, Anna. Olha a tia e o primo ali — Danna apontou, fazendo sua filha sorrir. Sophie achou Danna com os olhos e sorriu instantaneamente, pegando a mão de Henry e indo em direção à irmã. Sem parar de sorrir, ela alcançou e abraçou Danna apenas com uma parte do corpo, pois a outra mão ainda apertava a de Henry, e havia uma criança entre as duas.
— Meu Deus, que saudade — Sophie sussurrou, separando-se da irmã. Danna sorriu. — E quem é essa linda? — ela afinou a voz, olhando para a pequena Anna.
— Anna — ela respondeu, concentrada em tomar seu suco.
— E ela? — Sophie apontou para a boneca de olhos azuis e cabelo loiro que estava em seus braços. Anna retirou o suco da boca e sorriu.
— É a Luna — respondeu ela, sorridente. — Ela é linda, né? Lá em casa eu tenho a Luna e tenho o Neville que o papai me deu. Ele tem o dentinho torto igual o Neville. Você sabe quem é Neville?
Sophie sorriu e pegou Henry no colo. Danna havia dito algo sobre Anna gostar de conversar.
— Hum... não, não sei. — Confessou ela.
— Harry Potter, mamãe! — Henry se manifestou, sorrindo para a prima. — A tia Julia comprou todos os DVDs. A Luna é a menina loirinha.
Anna sorriu.
— Você parece com o Draco! E fala igual ele também. — Exclamou, apontando para Henry. — Só que o Draco é mau! Você é mau?
Henry negou com a cabeça.
— Eu não sou o Draco, eu sou do bem! — e lá estava ele usando sua voz séria novamente. Sophie sorriu, indo em direção à esteira e pegando as duas malas que havia trazido. A mudança ainda iria chegar, quando Julia viesse, na quinta-feira. Ainda era domingo.
— Que legal — disse Danna. — Anna achou alguém para conversar sobre Harry Potter o dia todo. Acredita que ela vê um desses filmes pelo menos uma vez por dia?
Sophie riu, arrastando uma das malas, e Danna segurou outra.
— Henry gosta de todo tipo de filme e desenho animado. Eu tive que trazer todos os DVDs dele, e acredite, é muita coisa. — Ela sorriu. — Onde está Hector?
— Trabalhando. Vai da loja direto para a casa de Josh — Danna respondeu com um sorriso no rosto. — Nate está fazendo um churrasco.
Sophie gargalhou.
— E desde quando Nate sabe fazer churrasco?
— Ele não sabe — Danna riu. — Sinto medo de chegar naquela casa e encontrá-la incendiada.
Sophie fez que não com a cabeça, seguindo Danna pelo aeroporto. Tudo bem, ela não podia negar que estava eufórica demais. Estava absolutamente alegre. Ela iria a um churrasco na casa dos Farro! Nate estava lá! Joe, Danna, Hector, seus pais! Meu Deus, por quanto tempo Sophie não quis isso?
Agora ela notava o quão morta de saudades estava. Uma nova parte dela se acendia conforme ela ia saindo daquele aeroporto, ciente de que estava em Nashville outra vez, depois de seis anos. Seis anos que passaram tão rápido. E estava feliz. Feliz por estar em casa, escutando aquele monte de sotaques sulistas ao invés dos sotaques ingleses de seus conterrâneos britânicos.
As duas mulheres adultas e as duas crianças seguiram para o carro de Danna assim que saíram do aeroporto. Danna havia colocado até mesmo duas cadeirinhas no banco traseiro do carro, uma para Anna e uma para Henry, que na realidade detestou o utensílio. Segundo ele, incomodava muito e apertava.
Pelo menos Henry foi conversando com Anna do aeroporto até a casa de Josh e Hayley. Ambos pareciam ter se dado absolutamente bem, não paravam de falar um segundo sequer, e Anna até mesmo ofereceu seu suco para o primo e novo amigo. Sophie adorou o fato de eles terem feito amizade tão rapidamente.
Se bem que Henry sempre fora muito sociável. Anna não parecia ser diferente.
E Sophie também foi conversando com Danna durante todo o trajeto, mas sem conseguir olhar para a irmã. Seus olhos estavam grudados na Nashville lá fora. Seus monumentos, os prédios, os conjuntos residenciais e condomínios, o Rio Cumberland. Passaram em frente à antiga escola de Sophie, enchendo-a de todas as lembranças possíveis. Sua cabeça já estava começando a doer quando o carro de Danna virou na sua antiga rua e passou em frente à casa dos pais de Luke.
O coração de Sophie acelerou com a lembrança de todos os momentos que passara naquela casa. Todos os ensaios da Paramore na garagem, ou das tantas vezes que ficou com Luke em seu quarto, conversando, estudando, tocando, ou mesmo fazendo amor.
Ela respirou fundo enquanto o carro de Danna estacionava na frente da casa de Hayley. Seja forte. Você sabia que seria assim.
— Chegamos? — Henry perguntou com a voz eufórica demais. Sophie sorriu, escutando a voz do filho, lembrando-se mais uma vez de que tudo valera a pena.
— Chegamos, garotão! — foi Danna quem respondeu. — Já vou te tirar dessa cadeirinha. Você é grande demais para um garoto de quatro anos! — a ultima frase dela foi dita com um olhar malicioso para Sophie. Ah, legal, Danna. Isso, melhore as coisas, me condene mais.
Sophie saiu do carro sem se importar de pegar suas malas. Retirou o filho da cadeirinha e ele pulou para fora do carro, sorrindo avidamente.
— Aqui faz tanto sol! Eu estou suado — disse ele, passando a mão pela testa. Sophie sorriu e pegou-o no colo, dando um beijo em sua bochecha e limpando seu rosto com uma das mãos.
— Você prefere o frio? — perguntou ela, sorrindo.
— Não — Henry sorriu. — Sol é legal. Vou ficar moreninho igual a tia Juzy.
Sophie gargalhou, dando mais uns beijos na bochecha do filho. Danna também pegara sua filha no colo e já abrira a porta que dava para a sala de estar dos Farro. Sophie sentiu seu estômago revirar de ansiedade e seguiu com seu filho até lá.
A primeira pessoa que viu fora Joe, quase irreconhecível, com os cabelos maiores do que nunca e os olhos grandes e vivos. Havia esticado, estava muito maior do que ela. Assim que a olhou, ele abriu seu sorriso, largando o que quer que estava em sua mão e gritando seu nome.
Sophie colocou Henry no chão e abraçou o irmão o mais forte que pôde.
Caramba, aquele não podia ser seu pequeno Joseph. Aquele homem não podia ser seu irmãozinho que dormira em sua cama quando tinha pesadelos. Aquele rapaz não podia ser o garotinho que ligava para Sophie todo dia quando ela estava na Inglaterra, da primeira vez.
— Senti tanto a sua falta, Soph — ele disse, sua voz rouca e arrastada, sua mão apertando a cintura da irmã que agora era tão menor que ele.
— Você não sabe o quanto eu senti a sua também — ela sorriu, apertando o ombro de Joe. — O que aconteceu? Da última vez que te vi, eu era maior que você.
Joe sorriu, afastando-se da irmã e segurando a ponta de suas mãos.
— Os tempos mudam, linda — e piscou um dos olhos. Sophie gargalhou, assistindo seu irmão, tão crescido e tão... seguro de si. Sophie sabia que Joe já assumira sua sexualidade para a família — e para o resto do mundo, uma vez que agora ele era famoso —, mas ainda assim era tão engraçado vê-lo tão diferente.
Sophie havia perdido tanto de seu crescimento.
A próxima que viu foi Hayley, seu cabelo ainda malucamente vermelho, seus olhos verdes sempre vivos, agora brilhantes por ver a filha que não via há tanto tempo.
Sophie se jogou nos braços da mãe enquanto escutava Joe falando com Henry. Segurou-se para não deixar as lágrimas cair enquanto apertava-a o mais forte que podia, tentando aplacar toda a saudade que sentira daquela mulher. Todas as vezes que ela quis, da forma mais intensa, a presença da mãe. Agora que Sophie também tinha um filho, o que ela sentia pela mãe havia se transformado de um amor para uma espécie de compreensão. Hayley sempre fora tão forte. Sophie a admirava tanto.
Ela se afastou da mãe e riu gostosamente, limpando o canto dos olhos da mulher que lhe dera a vida.
— Como está a Sra. Williams-Farro, hein? — perguntou, fazendo Hayley rir.
— Vovó! — Henry, que agora estava no colo de Joe, abriu os braços para ir falar com Hayley. Caramba, ela ia acabar chorando assim, Sophie sabia.
Ela ainda nem havia saído da porta e já estava indo abraçar a terceira pessoa. Sophie jogou os braços para cima e abraçou Josh, enquanto ele apertava sua cintura e retirava seus pés do chão, fazendo-a gritar. Sophie riu. Josh estava tão diferente e tão igual ao mesmo tempo. Seu cabelo havia ganhado alguns fios brancos, mas isso só o deixara mais bonito, grisalho. Seu trabalho militar não conseguia fazer com que ele ficasse menos forte, era incrível.
— Como vai minha filhinha? — ele perguntou, após soltar Sophie, colocando uma mecha de seu cabelo em sua orelha.
— Vou bem, pai — ela sorriu. — Você está grisalho!
Josh sorriu.
— Verdade, acho que vou pegar uma daquelas tintas toxicas da Hayley e passar no cabelo — ele mexeu nos fios, fazendo Sophie rir. Henry estava sendo mimado por Hayley agora.
— É impressão minha — Sophie escutou uma voz masculina ecoar e virou o rosto —, ou isso aí são rugas na sua cara?
Ela gargalhou, correndo até Nate, que esperava no canto da sala. Ele segurou sua cintura e a levantou do chão da mesma forma que Josh fez, rodando-a no ar. Sophie sorriu e pediu para ele soltá-la.
Nate estava tão grande. Tinha mais ou menos o triplo de massa muscular do que tinha da última vez que ela o vira — tudo bem, da última vez que Sophie o vira ele tinha quinze anos. Mas... ainda assim! Ele estava tão grande! E por algum motivo, estava vestido com a farda de soldado americano que era.
Sophie sentira saudades dele. Muitas saudades.
— Então quer dizer que já temos outro soldado na família? — Sophie perguntou, separando-se dele e fazendo uma continência.
— Na verdade, cadete — disse ele, quase se gabando. Sophie riu. — Acabei de voltar do quartel, na realidade. Por isso o uniforme. Pai, eu vou me trocar, não deixe a carne queimar!
— Tradução: não deixe outra peça de carne queimar — Joe resmungou, fazendo Sophie rir.
Josh sorriu e saiu em direção à área dos fundos. Segundo a fumaça que ardia os olhos de todos naquela casa, provavelmente era ali que estavam queimando carne bovina. Sophie se aproximou de Henry, que conversava com Hayley, Danna e Joe, contando alguma coisa. Anna estava ao seu lado e assentia a todo e qualquer argumento que o garoto dava.
— Aí o juiz apitou, e quem foi marcar a falta foi o John Tarry, e ele chutou e... gol! Bem no meio da rede! Aí eu e a tia Julia começamos a gritar e o Chelsea ganhou. Foi muito massa. — Ele assentiu com a cabeça, dando consistência ao seu argumento.
— Julia sempre foi meio maluca — Joe concordou, mordendo o lábio.
— Acho que ele conseguiria manter uma conversa animada com o Hector — Danna suspirou, encarando o sobrinho.
— A tia Julia é muito legal — Henry disse. — Ela sempre assiste beisebol e futebol comigo, por que a mamãe acha chato.
Sophie revirou os olhos e pegou o filho no colo, beijando o seu rosto.
— Mas é chato! — disse ela, choramingando, fazendo Hayley concordar plenamente. — Amor, são apenas homens correndo atrás de uma bola. Ou no caso do beisebol, correndo, arremessando, agarrando e rebatendo uma bola.
— Mas mamãe! — Henry estava usando o seu tom argumentativo. Sophie sorriu. — É por que você é menina. Meninas não gostam de esportes.
— Mentira — Sophie disse, afinando a voz para usar do tom argumentativo também. — Julia é uma menina e gosta, não é?
Henry pareceu pensativo.
— Mas a tia Julia é uma menina diferente — argumentou Henry novamente.
— Eu concordo. — Sophie virou o rosto para de onde a voz tinha vindo e encontrou Nate, vestido casualmente, com um sorriso no rosto. Desceu as escadas rapidamente, indo em direção a ela. — Concordo plenamente, sobrinho.
Henry olhou para Nate desconfiado, sem conhecê-lo direito.
— Você conhece minha tia Julia?
Nate sorriu.
— Se conheço — disse, dando ombros. — Estavam falando de futebol? Assisti o jogo Chelsea e Liverpool da semana passada. Tarry é um babaca, mas fez um gol bonito.
Após essa frase, Henry e Nate entraram em uma discussão detalhada sobre futebol que durou mais ou menos meia hora. O garoto parecia conhecer tanto sobre futebol quanto Nate, por pura instrução de Julia, que tomara gosto por toda espécie de esporte depois que teve de escrever um artigo esportivo para a faculdade.
E, por incrível que pareça, a carne não foi queimada. Isso por que Hector chegou poucos minutos depois e tomou conta do churrasco, transformando-o em algo que magicamente dera certo.
Sophie estava muito feliz. Henry fizera amizade com todo mundo, e tanto seus pais quanto seus irmãos pareciam encantados com ele. Pela primeira vez, em muito tempo, ela se sentia... em casa. Se sentia como se estivesse onde precisava estar. E nada a deixava mais feliz do que perceber que seu filho tinha a mesma sensação, enquanto brincava com sua nova família.
Após o almoço, Anna quis assistir Harry Potter e a Ordem da Fênix pela décima vez na semana, segundo Danna. Felizmente, o filme estava entre os DVDs de Henry e as duas crianças foram assistir o filme na sala de estar, acompanhados de Hector e Danna. Josh e Hayley arrumaram a cozinha e Sophie perdeu Nate de vista, quando Joe a chamou para seu quarto.
— Quero te mostrar uma coisa — ele dissera, segurando a mão da irmã e carregando-a até o seu quarto.
Meu Deus, Sophie não sabia que era possível caber tantos livros em duas estantes. O quarto de Joe estava impecavelmente arrumado e cheio de livros, com o mesmo papel de parede que ele tinha quando ela foi embora, com a única diferença de que agora algumas molduras estavam coladas. Os artigos da New York Times, por exemplo, e as capas de seus quatro livros publicados.
Joe sentou-se a mesinha e abriu o laptop. Indicou uma cadeira para Sophie se sentar também.
— Esse é o meu novo livro, que será lançado daqui a poucos meses — ele disse, abrindo o arquivo. — Quando eu soube da história, precisei escrevê-la. Quero que você mesma veja.
Sophie apertou os olhos, lendo o nome que estava destacado na primeira página do arquivo.


Odeio Amar Você
Joseph Farro

Tessa Nichole Collins é uma garota que já passou por muitas coisas, boas e ruins, em seus dezessete anos de vida. Considerada rebelde pela sociedade californiana, à qual estava inserida, Tess muda-se de volta para Franklin – TN com sua mãe após ela se divorciar de seu padrasto. A garota de cabelos vermelhos estridentes realmente esperava e acreditava que sua vida iria se normalizar como tinha de ser, mas seu destino foi atrapalhado por um indivíduo: Damon Basso. Quando criança, era o melhor amigo de Tess, mas hoje, para ela, era apenas um badboy idiota.

Damon James Basso vivera todos os seus dezoito anos de idade na cidadezinha de Franklin, Tenesseee. Considerado popular na escola e com as garotas, considerava-se feliz. Tinha um bom relacionamento com seus irmãos e namorava a garota mais bonita do colégio. Tudo estava perfeito até que uma garota resolveu reaparecer em sua vida: Tessa Collins. Sua melhor amiga quando criança, Tess era realmente uma gracinha. Mas agora, não passava de uma roqueira metida a rebelde que insistia em atrapalhar a sua vida.

Damon e Tessa não tinham ideia do que o destino reservava para ambos. Na realidade, eles se amavam... e odiavam a si mesmos por isso.



Sophie levou a mão à boca. Ela reconheceria aquela história em qualquer lugar. Encarou Joe, que esperava ela terminar de ler com um sorriso sapeca no rosto, parecendo achar tudo aquilo imensamente engraçado.
— Você... — Sophie tentou formular a frase, mas os nomes ainda estavam martelando em sua cabeça. Tessa Nichole Collins. — Você escreveu a história dos nossos pais?
Joe gargalhou.
— Sim — disse, tranquilamente. — Soube da história a meio do ano passado. Quer dizer, como assim meus pais tinham uma super-história de amor e eu não sabia disso?
Sophie riu.
— Eu pensei exatamente a mesma coisa quando soube — declarou, bagunçando a franja e respirando fundo. — Meu Deus, Joe! Eu... estou sem palavras, sério. Meu Deus.
Joseph riu novamente.
— Essa foi o livro que eu mais gostei de escrever e está todo mundo curioso por que eu só disse que seria baseado em uma história real, e que minha escrita iria mudar um bocado — ele juntou as mãos. — É a segunda vez que me empenho em um romance de verdade. Desses de fazer as mulheres lerem em uma noite.
— Nossa, Joe — Sophie não conseguia normalizar seu estado de espírito. — Isso é perfeito. O que a mãe e o pai disseram?
— Ah, mamãe ficou emocionada, e tal — ele deu ombros. — O pai disse que Damon é um nome que provavelmente seria discriminado no quartel, mas não ligo pra ele. Os dois estão felizes. Todo mundo está.
Sophie sorriu, os olhos grudados no laptop novamente.
— Eu posso pegar um manuscrito para mim? Eu realmente gostaria de ler antes da publicação — disse ela, em tom de súplica para o irmão. — Como presente de boas vindas?
Joseph apertou os olhos e moldou os lábios em um sorriso descontraído.
— Como se eu conseguisse dizer não para você — ele deu ombros.

Enquanto Joe foi imprimir o arquivo para Sophie, ela foi dar uma olhada em Henry. Seus olhos azuis estavam atentos por baixo dos óculos enquanto os efeitos especiais ecoavam do televisor. Estava deitado no tapete junto à Anna enquanto Hector e Danna estavam sentados no sofá, parecendo não prestar muita atenção no filme. Sophie perguntou se Henry estava bem e ele apenas fez que sim com a cabeça, atônito demais no filme.
Sem nada para fazer, ela se dirigiu à porta da casa de Hayley, no intuito de se sentar na escadinha para pensar, como tantas vezes fizera quando era adolescente.
Mas dessa vez Nate também estava lá.
Ele deu espaço para Sophie se sentar, sem nada dizer, e os dois começaram a observar o movimento fraco da rua naquela tarde de outono. O olhar de Nate estava distante e Sophie olhou de soslaio para o seu braço. Lá estava ela, a tatuagem de Julia. A tatuagem do infinito.
Sophie suspirou.
— Como está você, Nate? — perguntou sinceramente, olhando para suas próprias mãos. Seu irmão estava tão diferente, claro, também pudera. Mas a pergunta que Sophie fazia era direcionada a apenas um ponto. Ponto esse que ela tinha certeza que Nate entendera.
— Você sabe — disse ele, suspirando também —, vivendo na medida do possível.
Ela assentiu com a cabeça, mergulhando num silêncio de alguns segundos que não chegou a ser desconfortável, mas quase reconfortante. Como um complemento para a frase do irmão.
— Você ainda a ama, não é? — ela perguntou, puxando seu braço e fazendo-o encarar a tatuagem. Não tinha certeza, mas Sophie achava que vira uma ponta de sorriso no canto de seus lábios.
— Já faz muito tempo, Sophie — disse ele, apenas, sem brechas para continuar. Sophie entendeu e assentiu novamente com a cabeça, sem soltar a mão do irmão. Recostou sua cabeça no ombro dele, novamente mergulhada no silêncio, compartilhando a dor que ele sentia com a dor que ela sentia também. Um silêncio que era mais revelador do que mil palavras. — Henry é filho do Luke, não é?
Sophie sentiu seu sangue congelar dentro das veias e seu estômago revirar. Sua visão sumiu por um ou dois segundos e ela perdeu a força nas pernas. Sua voz não saía. Ela... ficou paralisada. Simplesmente paralisada.
— Não precisa responder — Nate continuou. — Eu sei que sim. Tudo faz sentido agora. Você ter ido para Londres e deixado Luke aqui sem mais nem menos, e ter aparecido um ano depois com um moleque de seis meses nos braços, filho de alguém que você mal conhecia — ele fez uma pausa, deixando Sophie sozinha com seus medos e culpas. — Bem que eu estranhei, nem acreditei, para dizer a verdade. Mas... vendo esse menino hoje... ele é a cara do Luke, Soph. Você não foi embora por que quis. Foi embora por que... precisou esconder o menino. Então a Julia te ajudou. — Sophie abaixou a cabeça, respirando fundo. Droga. — Eu só não entendo... por que você não ficou? Por que você não ficou e cuidou do Henry aqui?
Ela mordeu o lábio inferior.
— Eu não o queria — respondeu sentindo uma pontada no coração. — Eu iria dá-lo para a adoção. Para um casal de pais incríveis que cuidariam dele melhor do que eu.
Nate encarou a irmã.
— E por que não fez isso?
Sophie limpou a lágrima que desceu pela sua bochecha, levantando os olhos para encarar os de Nate.
— Por que eu me apaixonei por ele — ela mordeu o lábio inferior, encarando o irmão com tristeza.
Nate assentiu com a cabeça e voltou sua atenção para o movimento da rua.
Sophie respirou fundo, tentando normalizar seu estado de espírito.
— Por favor, Nate — ela começou —, não conta para ninguém. Eu decidi deixar Henry fora de toda essa complicação. Por favor. Ninguém pode saber disso.
Nate deu um meio sorriso.
— Eu não vou contar nada, Sophie — disse, segurando a mão da irmã e apertando. — Por que eu sei que um dia... você mesma vai.
Ele levou a mão da irmã até os lábios e a beijou, levantando-se e adentrando a casa. Deixou uma Sophie confusa, com todas as emoções que existiam transbordando de dentro do seu ser. Como Nate descobrira?
Caramba, não era para ninguém saber. Isso apenas complicaria a vida de todos, incluindo Henry e o próprio Luke. Eles não mereciam isso. A melhor saída era que tudo se normalizasse e ficasse da mesma forma que estava.
Sophie respirou fundo. Nate não iria contar a ninguém. Mas se ele fora capaz de perceber, quem mais seria? Apenas ele, Julia e Danna sabiam até agora. Ainda assim era muita gente.
Nate estava errado, Sophie não iria contar isso para ninguém. Não era capaz. Não seria capaz de contar isso a ninguém, sobretudo Henry, que já havia lhe perguntando sobre seu pai certa vez.
Sophie apenas o chamou para sentar e explicou que tivera um namorado que amava muito, ele era um ótimo rapaz e um músico talentoso. Mas as coisas não haviam dado certo e eles se separaram antes de Henry nascer.
Desde então, o garoto não perguntara mais de seu pai. Provavelmente ficara triste ao ver a mãe chorando na frente dele, mesmo que Sophie houvesse se segurado ao máximo. Quando o garoto a abraçou, ela não conseguiu se aguentar e chorou mais. Henry, apesar de muito novo, era muito sensível à dor das pessoas, e dormiu na cama de Sophie naquela noite para garantir que ela não choraria mais.
Essas e outras atitudes faziam dele cada vez mais parecido com o pai. O pai que ele não podia saber que tinha.
Sophie suspirou e limpou os olhos, pronta para se levantar e sair dali. Mas um barulho fê-la parar.
— Cowboy! — a voz masculina exclamou. — Solta! Solta meu tênis, Cowboy, caramba! — Sophie virou o rosto para a casa ao lado, vendo um rapaz sair pela porta, lutando com um cachorrinho chihuahua preso a uma coleira. Seu coração parou. — Cowboy, merda! Você vai estragar meu Nike, filho da mãe!
Luke.
Por uma fração de segundo, foi como se tudo houvesse ficado em câmera lenta. Luke pegou o cachorro no colo e virou acidentalmente o rosto, fazendo com que seus olhares se encontrassem por um segundo que mais pareceu uma hora. Sua voz falhou, seu rosto ficou pálido, e ele piscou três vezes para garantir que não estava tendo uma miragem.
Então tudo voltou ao seu tempo normal. O chihuahua latia, irritado, e a boca de Luke estava entreaberta. O coração de Sophie passou a pular dentro do peito como se quisesse sair dali naquele mesmo momento e sua respiração ficou audível.
— Sophie.
Ela foi capaz de escutar perfeitamente o seu murmuro, tão baixo que não era possível que se sobressaísse aos latidos de Cowboy, o chihuahua.
— Luke — ela murmurou em controversa, mais para ter certeza de que estava realmente vendo-o depois de todos esses anos.
Meu Deus, como ele estava diferente. E lindo. Seu cabelo parecia maior e mais bagunçado, seus olhos azuis estavam perfeitamente brilhantes de pura surpresa. Ele também estava maior, Sophie achava. Seus ombros estavam mais largos, seu peito mais aparente, seus braços mais musculosos. A barba em seu rosto parecia não ser feita há pelo menos quatro dias.
— Você voltou — ele murmurou novamente. Sophie notou o quanto ele estava parecido com Jeremy com aquela barba malfeita.
— Ainda hoje — ela respondeu por alto e viu os lábios de Luke se contraírem em um sorriso.
Um sorriso que cortou o seu coração. Por que Sophie sabia que ele não sorria por que estava feliz em vê-la, e muito menos por que havia perdoado-a, ou não tinha ressentimentos.
Luke sorria sim. Mas sorria por que, subitamente, havia sido atingido por toda a raiva que sentia dela.
— Que bom — disse ele, passando uma das mãos pelo cabelo. — Como está indo o seu futuro? Do jeito que você quer, aposto.
Seu sorriso aumentara. Com todo aquele deboche, era como se ele despejasse sobre Sophie toda a ira e a dor que sentira ao longo desses anos. Sophie conseguia ver.
Conseguia ver nos olhos dele.
— Sim, Luke — respondeu ela, sem abaixar os olhos, com o tom de voz suave. — Do jeito que quero. Só por que o meu futuro não saiu como planejado, não quer dizer que ele não está da maneira que eu quero que esteja.
Luke sorriu mais uma vez, assentindo com a cabeça e fazendo um carinho na parte de trás da cabeça do seu cachorro.
— Sou obrigado a concordar com você — disse no tom mais debochado que Sophie jamais o vira usando. Foi como se ela tivesse sido atingida por um soco na barriga. Mesmo assim não perdeu a compostura. — Enfim, Sophie, eu tenho que ir. Estou cheio de compromissos para hoje. — Ele se dirigiu para o Audi parado na frente da casa de Kathryn e Jeremy. — A gente se vê.
Luke entrou rapidamente no carro e arrancou com ele para longe dali, deixando ali uma Sophie desolada.
Não por que ele a havia tratado mal.
E sim por que ele ainda estava cheio de ódio dentro de si.

Notas Finais

Ei, bebês! ASOPSOKASAS E aí? Tudo bem?
Então, estamos aqui. No blog. OAV Fanfics. Para sempre <3POASKÃPOSKÃOPSK gente, seguinte. A maior parte das coisas desse blog são provisórias. Tipo essa caixinha de comentários aqui. Ela tá feinha e etc, mas eu arrumarei. Outra coisa que também arrumarei são os hiperlinks aqui, mas TODOS OS CAPÍTULOS DA OAV 1 E 2 JÁ ESTÃO POSTADOS AQUI. Incluindo esse que não está postado no Nyah! Fanfiction.Então, gente, é o seguinte. Comentem aqui pra mim, que isso está caracterizando essa nossa mudança. Tá? :3Vamos falar sobre esse capítulo. QUEM AÍ QUER UM HENRYYYYYYYYYYYYYY??????????? S2S2S2S2S2Gente, eu estava escrevendo e me apaixonando por essa criança perfeita, meu Deus, que lindo. E A ANNA? S2S2S2 ai.Eu disse que ia passar tempo bruscamente e passei. *U* Amei esse capítulo.E tô morrendo de dó do Luke :cPRÓXIMO CAPÍTULO TEM REVELAÇÕES E ENTRADA DE MAIS UMA PERSONAGEM NOVA, como não poderia ser diferente. <3 Que mais que eu posso spoilar pra vcs? Talvez o primeiro reencontro de Nate e Julia?e.... Eu iria falar outra coisa, mas me esqueci.Oh, sim. A partir de hoje, como eu perdi as "MP's", vocês podem me mandar um email a hora que quiserem, ok? aqui tá meu endereço: saramaltas@gmail.comResponderei tudinho :3 vou ver se faço um forms ou uma ask.fm para o blog, também, caso seja necessário. E..... Obrigada por estarem aqui. Eu amo vocês. ^^



Capítulo 52


I'm not letting you go.



Fazia frio em Londres.
Mesmo assim, Sophie estava simplesmente morrendo de vontade de tomar um sorvete de morango em calda, e esperou pacientemente — ou nem tanto assim — Julia voltar. Digamos apenas que é complicado achar sorvete para vender em um lugar onde havia nevado há menos de uma semana. Especialmente de morango em calda.
De qualquer forma, Julia voltou depois de quarenta minutos (Sophie havia contado) para o apartamento onde as duas estavam morando agora. Assim que Sophie se formou, recebeu uma carta inesperada, contendo uma escritura de um apartamento na St. Alban’s Street e uma chave, gravada em letra cursiva: “Parabéns, maninha”.
Obviamente ela havia começado a chorar (culpa, também, dos hormônios, mas principalmente da satisfação e do agradecimento que sentia por ter Joe como irmão), e ligado para Joseph, que inicialmente até se fez de desentendido.
O primeiro livro dele fora um sucesso e era possível dizer que em seis meses, Joe conseguira o triplo de dinheiro que toda a sua família já gastara em toda a vida. Sophie perdeu a conta de quantas vezes parou tudo que estava fazendo para ver uma de suas entrevistas na tevê ou ler uma revista que comprava na rua acima de seu antigo dormitório na Laurent Louis. Não podia negar, estava morrendo de orgulho do irmão. E de saudades também.
Tanto ela quanto Julia estavam formadas no ensino médio e fora de seus respectivos colégios internos. Não queriam estar separadas, evidentemente, e o presente de Joe só veio a calhar. Sophie já começara sua faculdade de música e era difícil não achá-la em meio aos livros ou enfurnada naquele piano (que também era presente de Joe). Tocando, ou estudando, Sophie... quase fugia da realidade que não queria enfrentar. A verdade de que estava grávida de um filho que, na prática, não seria seu.
Julia havia sido aceita em Oxford assim como Tarris, ela fazendo jornalismo, ele medicina. O certo para ela seria morar no campus como todo mundo, mas Julia se recusava a deixar a amiga sozinha, além de que morar com Sophie aplacava toda a dor que sentia todo dia, toda a saudade, toda a martirização. Mesmo que tivesse de dirigir uma hora inteira para chegar até Oxford, toda manhã.
Tarris, por sua vez, estava sendo um amigão também. Sophie confessava que às vezes ele parecia um perfeito idiota, mas ele era extremamente atencioso e entendia mais de gravidez do que Julia e Sophie juntas (já que queria seguir a carreira do pai). Além de ser engraçadíssimo. Passar uma tarde de sábado com Julia e Tarris era provavelmente a única coisa que conseguia animá-la.
Sobretudo quando Sophie não conseguia parar de chorar.
Tarris e o Dr. Raphael Felton disseram que isso era absolutamente normal. Devido à grande mudança hormonal (ainda mais para ela, que era uma adolescente e “mãe de primeira viagem”), Sophie tendia a ficar muito mais emocional do que o comum. Era, mais ou menos, como se fosse uma TPM contínua e concentrada.
Mas Sophie suspeitava que sua gravidez não tinha muito a ver com o fato de ela ir dormir toda noite chorando, ou chorar mesmo toda vez que ficava sozinha sem se ocupar. Talvez a gravidez fosse culpada quando ela chorava por simplesmente não conseguir tocar uma fusa que a partitura que estava tentando reproduzir pedisse. Mas quando Sophie pensava em Luke, bem, ela sabia que choraria com ou sem bebê. O fato de estar longe dele e saber que ele provavelmente estava odiando-a nesse exato momento machucava. Doía de uma forma indescritível, e consequentemente enchia seus olhos castanhos de lágrimas.
Mas ela merecia.
Sophie também já havia feito uma porção de exames médicos e o bebê estava bem. Julia havia colado a primeira ecografia (que na verdade era apenas um borrão preto) na geladeira, mesmo depois de todos os protestos de Soph. Para dizer a verdade, logo mais Tarris apareceria para levá-las para a primeira ultrassonografia morfológica (a que se faz na vigésima semana, no intuito de saber se o bebê tem algum tipo de síndrome e, claro, saber o sexo).
Mas não antes de Sophie tomar o sorvete.
Claro que ela estava mais do que agradecida à Julia e Tarris por tudo o que eles estavam fazendo por ela. Juzy estava ajudando-a de todas as formas possíveis, mesmo que todo dia tentasse convencê-la a ficar com o bebê. E Tarris, já não parecia ajudar Sophie só por causa de Julia. Havia se tornado amigo dela também.
Claro que não da maneira que ele era amigo de Juzy. Vira e mexe era bem estranho ver os dois se agarrando, ainda mais quando eles não conseguiam passar um minuto sem mandar um ao outro à merda.
Acontece que Julia e Tarris mantinham uma espécie de amizade com benefícios bem esquisita. Assim que Sophie pôde ficar sozinha com ela, no primeiro dia que chegou à Inglaterra, Julia havia dito que Tarris havia se tornado seu melhor amigo ali pois sua história era muito parecida com a dela, com a diferença que a garota que ele amava teve de ir. Eles tinham ficado apenas uma vez antes de se conhecerem, e então Julia simplesmente o descartou como andara fazendo com todos os garotos. Até o dia em que Tarris apareceu em sua porta e brigou com ela por estar tratando-o mal quando ele nem sequer gostava mesmo dela. Julia brigou de volta, argumentando quase a mesma coisa, e então os dois começaram a chorar. Falaram e escutaram sobre as pessoas que amavam e sentiam saudade, e nesse mesmo dia, dormiram juntos.
Essa foi uma história bem esquisita para Sophie, ela confessava, e até mesmo o disse para Julia assim que ela terminou de relatar. Para a sua surpresa, a amiga concordou plenamente, mas disse que Tarris fora uma das melhores coisas que lhe acontecera na Inglaterra. Os dois passaram a conversar e desabafar um para o outro frequentemente, e aplacar um pouco da carência juntos. Criaram uma amizade colorida intensa e esquisita. Mas Julia não gostava dele, e nem ele gostava dela. Eles apenas... tentavam levar a vida enquanto a vida não os levava para as pessoas que amavam.
Mesmo que Julia houvesse ficado meio abalada por saber que Tarris era o único garoto com quem havia dormido depois de Nate. Obviamente ela não confessava isso, mas Sophie conseguia ver em seus olhos. Conhecia sua melhor amiga e sabia que ela sentia saudades como ninguém.
Ninguém além de, talvez, a própria Sophie.
— Você não tinha que estar em jejum para fazer o ultrassom? — Julia perguntou, deixando a sacola de mercadorias em cima da mesa de centro da cozinha pequena, mas não minúscula, do apartamento das duas.
— Não — Sophie respondeu, indo em direção à sacola e abrindo-a. Julia havia comprado um sorvete de morango e uma lata de morango em calda. Espertinha. — É o ultrassom, não o hemograma. Posso comer.
— Ah — Julia deu ombros, sentando-se à mesa. — Putz, estou cansada. Te contei que vou ter que começar a estagiar de graça depois do segundo módulo?
Sophie fez que sim com a cabeça, enquanto tentava abrir o pote de sorvete. Lacre do inferno.
— Você ainda tem seis meses sem estágio pela frente, relaxe — ela disse, fazendo um pouco mais de força.
Julia bufou e retirou o pote das mãos dela.
— Tudo bem — disse ela, abrindo o pote de uma vez e entregando-o a amiga. — Você diz pra eu relaxar por que tudo o que você faz é ficar tocando piano. — Sophie sorriu enquanto colocava uma porção de sorvete na tigelinha que havia escolhido. Julia abriu a lata de morangos. — Eu que tenho que estudar em outra cidade, logo terei que trabalhar de graça e ainda tenho que suprir os seus desejos de gravidez. Vou te contar, essa vida de pai é bem difícil.
Sophie gargalhou alto e colocou três morangos no sorvete. Por mais frio que estivesse fazendo ali naquela hora, sinceramente, aquele era o melhor sorvete que ela já havia tomado. Melhor talvez até do que o da sorveteria em frente à praça que havia em Franklin.
— Eu tô falando sério — disse Julia. — E me dá um pouco de sorvete por que eu também sou filha de Deus.
Sophie sorriu, entregando sua tigelinha para Julia, que tomou uma colherada.
— Tocar piano não é tão simples quando parece, se quer saber — Sophie disse, sorrindo. — E assim que esse bebê nascer eu vou começar a dar aulas, então pare de reclamar.
Julia fez que não com a cabeça.
— Eu sinceramente duvido — disse, retirando a colher da mão da amiga para tomar mais um pouco de sorvete. — Enfim, pronta para a primeira ultrassonografia... alguma-coisa-lógica?
— Morfológica — Sophie bufou, retirando a colher da mão de Julia que havia comido um morango inteiro de uma só vez. Por favor! — Você parece mesmo um pai, meu Deus. Tão atencioso quanto um homem.
— Você sabe que eu sou basicamente um garoto — ela deu ombros. — Só que garota.
Sophie semicerrou os olhos, claramente não entendendo a última frase da amiga. — Você não é... normal.
— E daí? — Julia tomou a tigela de Sophie de vez. — De qualquer forma, estou certa sobre o sexo do bebê. Será menino.
Sophie riu alto. Mesmo que soubesse que o bebê tecnicamente não era dela, estava mesmo bastante curiosa para saber o sexo dele, sobretudo quando Julia dizia que era menino desde o momento em que soubera da gravidez.
Pegou-se olhando para baixo mais uma vez. Sua barriga já estava aparente, nos seus cinco meses, mas quase não dava para notar se ela usasse seu casaco grosso, ainda mais nesse frio de janeiro. O aquecedor do apartamento lhe dava a liberdade de usar apenas um moletom. Sophie acariciou a barriga levemente. Você é menino ou menina? De qualquer forma, provavelmente vai ser um neném bem fofo, caso puxe o pai.
Sophie sorriu consigo mesma e levantou os olhos, vendo Julia acabar com o sorvete que supostamente seria dela. Já ia abrir a boca para protestar quando...
O bebê mexeu.
Sophie sentiu-se paralisar por completo, com a única exceção de sua barriga. Sentia pequenas pontadinhas, e... oras, não dava para explicar, ela apenas sabia que havia algo se mexendodentro dela. Levou a mão à barriga imediatamente, sentindo o neném (ou a neném), tanto dentro de si quanto em sua mão.
Seus olhos começaram a lacrimejar.
— Juzy... — ela murmurou, fazendo a amiga encará-la com uma linha de confusão desenhada no rosto. — Tá mexendo.
Julia gritou alguma coisa que Sophie não identificou e preferiu não identificar. O bebê estava mexendo! Dentro dela! Caramba, isso era tão surreal, e tão... emocionante! Meu Deus, havia uma vida se mexendo dentro dela! Ela estava... carregando uma criança ali.
Claro que Sophie sabia que estava grávida, mas... Deus, agora o bebê estava se mexendo! Dentro dela! Era como se finalmente a ficha houvesse caído. Até agora, de indícios que estava mesmo grávida, ela só tivera os enjoos terríveis, o sono durante o dia, a insônia durante a noite, os hormônios malucos... mas agora... agora o bebê estava se mexendo dentro dela. Isso era apenas tão... caramba, não dava para dizer!
Julia agora havia colocado a mão por dentro do moletom de Sophie. O bebê não havia parado de mexer, e um sorriso amplo havia nascido no rosto dela. Graças a Deus ela estava presente nesse momento! Só Julia sabia o quanto queria ver o bebê se mexendo pela primeira vez, e agora ele estava lá, chutando a barriga de Sophie e fazendo-a ficar com lágrimas nos olhos.
— Bom dia, moçada — elas escutaram a voz britânica de Tarris adentrar o lugar, vindo da sala. Ele tinha uma chave reserva do apartamento e entrava quando bem entendia.
— PÔNEI, CORRE AQUI, O BEBÊ TÁ MEXENDO! — Julia gritou tão alto que Sophie sentiu seus ouvidos ressoar. Gargalhou. Sim, Tarris, o bebê está mexendo! Dentro dela! Sophie não conseguia parar de sorrir. Isso era tão incrível.
Logo Tarris apareceu, atropelando tudo o que vinha pela frente. Tropeçou em uma cadeira e caiu de joelhos no chão, mas se levantou tão rápido quanto caiu. Sophie gargalhou quando ele empurrou Julia para colocar sua mão sobre a barriga dela.
— Dá um chute no irmãozinho, garotão — ele sussurrou, enquanto o ser que estava dentro da barriga de Sophie continuava a se mexer levemente. Quando sentiu a pequena pontada do bebê, ele apenas começou a sorrir assim como as meninas ali faziam. — Cara! Que bom que cheguei agora. Estava com um pressentimento de que...
— Cale a boca — Julia o interrompeu, tentando de todas as maneiras empurrar a mão dele da barriga de Sophie. — Você está estragando o momento.
Tarris pareceu não ligar e continuou com a mão sobre a barriga de Sophie até que as mexidinhas cessassem, poucos minutos depois. Estava elétrico, cara! Mesmo que soubesse do plano de Julia, oras, ele havia criado realmente uma ligação com Sophie. Além do mais, agora que finalmente começara sua faculdade, Tarris andava meio obcecado por tudo o que envolvesse um processo médico.
Após toda a euforia se dissipar e Tarris comer um ou dois morangos em calda, eles se dirigiram ao St. Mary’s Hospital, onde o Dr. Raphael Felton era um dos principais obstetras. A consulta estava marcada para as 14h e todos estavam meio curiosos para saber como seria. Tarris e Julia brigavam sempre que possível sobre o sexo do bebê, e a Prof. Camie (Sophie não se acostumara a chamá-la de outra forma), estava mais como Sophie: curiosa, mas sem arriscar um palpite.
A Prof. Camie e o Dr. Raphael eram mesmo pessoas incríveis, Sophie notara. Quanto mais os conhecia, mais gostava da ideia de que eles cuidariam do bebê. Soph não sabia se conseguiria deixá-lo em um orfanato. Achar duas pessoas que fossem experientes e tivessem a estrutura para criá-lo fora uma benção.
Mesmo que Julia discordasse.


[...]



Sinceramente, se Sophie tivesse mais de duas mãos agradaria mais, pois poderia apertar a mão de todas as pessoas que queriam segurá-la naquele momento. Enquanto Camie segurava sua mão esquerda, Tarris e Julia discutiam pela direita.
— Crianças — a face calma, porém segura do Dr. Raphael Felton fez com que Julia e Tarris se calassem no mesmo momento. — Estamos em um hospital. Façam silêncio.
Julia torceu os lábios.
— Sim, tio, desculpa — disse em tom de arrependimento, virando-se para Tarris logo depois e distribuindo tapinhas pelo seu ombro, murmurando um “cala a boca, moleque idiota”.
Sophie puxou sua mão direita e sorriu. Era melhor não criar nenhum motivo de discussão entre aqueles dois agora.
— Nervosa? — Camie perguntou à Sophie, que sorriu, sentindo um arrepio passar pelo seu corpo quando o Dr. Felton passou uma espécie de gel na parte inferior de sua barriga. Era gelado, extremamente gelado, e o Dr. Raphael passava sem nenhuma cerimônia.
— Na verdade... curiosa, eu acho — Sophie apenas deixou que as palavras saíssem de sua boca. Não sabia o que responder, na verdade, uma vez que a criança não seria direcionada a ela. Mais ou menos.
— Certo — o Dr. Felton terminou de passar o gelzinho e apertou alguns botões no aparelho do consultório branco, segurando uma espécie de radinho com a mão direita. Era incrível a forma que ele estava completamente confiante e profissional mesmo que soubesse que iria criar o bebê que estava prestes a ver pelas ondas sonoras que o aparelho transmitia. — Todos prontos para ver o garotão ou a garotinha?
— Por que o garoto tem que ser colocado no aumentativo e a garota no diminutivo? — Julia perguntou para o doutor, erguendo uma sobrancelha. Camie riu. — Isso é machismo.
— Não é — Tarris discordou e Sophie revirou os olhos. Eles iam começar de novo. — Garotão dá uma impressão de um garoto forte e saudável, hetero. Garotinha dá a impressão de uma garota saudável, mas ao mesmo tempo, sensível, meiga e bonita. Hetero.
Julia semicerrou os olhos.
— Eu não sou uma garotinha — disse, quase indignada. — Não sou sensível e muito menos meiga. E nem por isso sou homossexual.
Tarris ergueu uma sobrancelha, debochando.
— Sério mesmo? Ainda tenho minhas dúvidas...
Sophie viu o Dr. Felton sorrindo e ignorando o filho e sua amiga. Sinceramente, aqueles meninos tinham o dom de discutir por seja lá o que for.
Lentamente, Raphael encostou o aparelho de ultrassonografia na barriga da jovem garota que estava deitada sobre a maca do consultório obstetra do Hospital de St. Mary. Tarris e Julia, como se ouvissem novamente sua voz rígida, calaram-se imediatamente e se puseram a olhar o monitor que começou a produzir um borrão. O Dr. Felton sorriu de orelha a orelha.
— Ali está o neném — ele disse, ainda passando o aparelho pela barriga de Sophie. Esta, não conseguia desgrudar os olhos do monitor, sentindo um frio na boca do estômago, sem nem notar que um sorriso havia aflorado em sua face jovial. O aperto que sua professora de piano dava em sua mão ficou mais forte.
— Ele mexeu hoje — Sophie não notou quando as palavras saíram de sua boca, mas lembrou-se claramente da mesma emoção que sentiu no momento em que o bebê finalmente mostrara algum sinal de que estava ali, dentro dela, provocando todos aqueles hormônios esquisitos, alimentando-se e ficando pronto para vir ao mundo.
— Sério? — Camila perguntou, olhando nos olhos de Sophie. Seus globos castanhos vivos brilhavam com tanta intensidade que a garota se perguntou se ela estava com tanta vontade de chorar quanto a própria Sophie estava. — E como foi?
Sophie deixou com que seu sorriso ficasse maior.
— Foi... — ela respirou, pensando um pouco — ...mágico. Foi mágico.
Camie sorriu, sem largar a mão da jovem à sua frente.
— Posso imaginar — disse ela. — Minha gravidez do Tarris foi toda uma bênção. Mágico é um... ótimo adjetivo para a primeira vez que o bebê mexe.
— Eu não estava preocupado, mas o usual seria que o bebê tivesse começado a mexer no mês passado — Raphael disse, ainda passando o aparelho pela barriga de Sophie, com os olhos grudados no monitor. — E pelo que vejo, estou feliz em dizer que seu bebê está perfeito, Soph.
Sophie suspirou de alívio, mesmo que não estivesse pensando em nada de ruim pudesse acontecer com o bebê. Tinha lido um monte sobre isso na internet, e aparentemente, sua gravidez corria como qualquer outra. Apenas depois de ficar aliviada e sentir um calor invadir seu coração, Sophie refletiu sobre a frase do Doutor.
Seu bebê.
— Não será meu bebê, Doutor — ela murmurou, tentando manter o seu sorriso no rosto. — Será seu.
Raphael sorriu sinceramente outra vez, como se esperasse por aquilo. Olhou para Camie, que compartilhou de seu sorriso maroto e assentiu levemente com a cabeça.
— Pois bem, Soph — disse ele, retomando seu tom profissional e inegavelmente simpático. — Pode ver aquela dimensão um pouco mais esbranquiçada, meio oval? É a cabeça do bebê. Ali... fica o fêmur. O crescimento do fêmur, da cabeça e do osso da coxa, logo ali, está perfeitamente normal para um feto de vinte semanas. Sua placenta também está em uma ótima localização. Eu esperava que ela estivesse bloqueando o colo do útero, uma vez que você ainda é muito jovem, mas seu corpo está trabalhando perfeitamente. E o do bebê também.
— Legal, agora vamos ao que interessa — Julia disse, fazendo com que as pessoas ali rissem e Tarris murmurasse um “eu já sei”.
— Da última vez que fizemos a ecografia ele não estava numa boa posição. Mas agora eu consigo ver tranquilamente — Raphael sorriu novamente. — Acho que o garotão se mexeu para nós.
Sophie não se preocupou em conter a risada que escapou de sua garganta, enquanto escutou Julia gritando “eu sabia!”. Mas mesmo que sua risada houvesse ecoado como uma demonstração de alegria, para ela, também havia uma grande parcela de mágoa. Subitamente passou pela sua cabeça todas as vezes em que ela e Luke fizeram planos sobre como criariam ou qual seriam os nomes de seus futuros filhos. Subitamente passou pela sua cabeça todas as vezes que ela vira uma gravidez acontecendo e a felicidade de uma mãe quando sabia o sexo do seu bebê. Sarah, por exemplo, falou para tantas pessoas que Adam era um menino que o blog da Paris Hilton soube disso antes de Hayley. Lilian, por sua vez, quando soube que Jodie era menina, comprara todo o enxoval de uma vez, em tons de rosa bebê e branco, além de ter deixado todos os seus alunos saberem disso no dia seguinte. Sophie se lembrou de todas as crianças pequenas que conhecia. Adam, Jodie, Claire, Erich, os mais próximos. Lembrou-se de Henry, o garotinho do avião que era parecidíssimo com Luke e que se mostrara a pessoa mais atenciosa que ela já vira. Sua mãe não devia ter mais de vinte e quatro anos. Como será que se sentira quando descobrira que Henry era um menino?
Independente da sensação que passava por Sophie agora, não deveria passar. Ela podia estar gerando o bebê, mas não o criaria. Não era a mãe dele.
Por isso ficou calada conforme o Dr. Felton continuava fazendo o resto da ultrassonografia. Como era a primeira vez que eles faziam a morfológica, Raphael continuou examinando por uns bons vinte minutos. Conversava com Tarris sobre alguns assuntos que as demais pessoas ali não entendiam bem, sorria simpaticamente, falava com Sophie e com Camie e, mais frequentemente, pedia silêncio para Julia e Tarris, que agora estavam discutindo sobre Julia ter tido razão em relação ao sexo do bebê. Finalmente, Raphael pediu para que eles saíssem da sala, o que fez Sophie sorrir. Eles estavam realmente insuportáveis.
— Sabe, Soph — Camie começou a dizer, assim que o exame acabou e Sophie limpava sua barriga com algumas toalhas de papel. — Eu e Raphael chegamos a um consenso.
O Dr. Felton sorriu e assentiu muito levemente com a cabeça.
— Estávamos pensando sobre... — ele começou, retirando suas luvas — ...o nome do bebê.
— Decidimos que se fosse menina, nós escolheríamos — Camila retomou. — Natalie. Sempre fui apaixonada por esse nome. — A mulher riu, segurando uma mão na outra. Parecia mais do que feliz e, apesar de tudo, tranquila. — Mas já que você está esperando um menininho... bem, nós pensamos que você poderia escolher o nome.
Certo, Sophie havia sido pega de surpresa. Ela ergueu as sobrancelhas, encarando as pessoas a sua frente, o rosto sereno do Dr. Raphael e os olhos hipnotizantes de Camie, depositando total confiança nela. Nem sequer havia pensado nisso, e era uma escolha que necessitava de tanto tempo... e essa seria uma tarefa dos Srs. Felton, não? Eles criariam o bebê, portanto eles deveriam escolher o nome, mesmo que não fosse uma menina, não é? Sim, é verdade. Mas quando Sophie abriu a boca para dizer que não poderia fazer isso, ela... subitamente sentiu uma vontade de não o fazer. Uma vontade de contribuir em alguma coisa para o bebê em seja lá o que for. Queria fazer a diferença na vida dele, mesmo que soubesse que isso não era certo, e que ela não deveria sentir esse tipo de coisa. Mas agora ela tinha a oportunidade. Agora... ela tinha a oportunidade de fazer uma diferença. Uma, apenas.
Foi por isso que ela sorriu melancolicamente e disse, não muito alto:
— Henry Lucas — sua voz saiu mais rouca do que ela planejava e Sophie precisou pigarrear. Engoliu seco. — Henry Lucas é o nome que eu daria para ele.


[...]


15 de maio, 18h42min.
Tarris dirigia como louco e sentia o suor frio escorrer pela sua nuca. Respirava freneticamente, segurava o volante com o triplo da força necessária, pegava todos os atalhos possíveis para poder chegar ao hospital. Droga de trânsito. Era uma terça-feira, por que as pessoas não estavam em suas devidas casas ao invés de estarem em seus carros, nas ruas, tumultuando-as? Sinceramente, Tarris já tivera que dirigir de Oxford até Londres, uma viagem que geralmente levaria 56min, em meia hora. E agora as pistas de Londres estavam tumultuadas. Justamente quando ele mais precisava que elas estivessem vazias. Ele murmurou um xingamento e escutou Sophie gritando no banco de trás, fazendo com que os pelos de sua nuca se arrepiassem. Merda!
— Quanto tempo? — perguntou ele, sua voz desgastada e desigual.
— Cinco minutos! Corre, Tarris! — ele escutou a voz de Julia quase tão medrosa quanto a dele. Também era excepcionalmente audível o ofegar de Sophie, o que apenas lhe dava mais medo.
Graças a Deus o trânsito abriu. Tarris conseguiu sair do engarrafamento e não se importou com os sinais vermelhos que passou, ou as placas que ultrapassou o limite delimitado. Droga, que se dane! Sua amiga estava quase entrando em trabalho de parto!
Tarris olhou no relógio do painel do carro. 18h47min. Como mágica, escutou Sophie gritar novamente, quase sem conseguir aguentar as contrações. Caramba, se ele soubesse que seria hoje, não teria ido à faculdade. Ela já deveria estar no hospital há, no mínimo, duas horas!
Tudo bem, Tarris, se acalme. Entrar em pânico não vai ajudar em nada, essa era uma lição valiosa que ele escutava quase todos os dias em sua faculdade ou mesmo de seu pai. Só precisava ficar calmo, tudo correria bem. Fique calmo e dirija o mais rápido que puder.
Sophie gritou outra vez.
— Estamos quase lá! — ele gritou, sem se arriscar a olhar para trás. Não queria ver o rosto de Julia transbordando medo ou o de Sophie, chorando de dor. Pisou fundo no acelerador quando achou uma pista tecnicamente vazia e, finalmente, avistou o edifício enorme do hospital. Já havia ligado para Raphael, que na realidade estava se arrumando para encerrar seu plantão. Obviamente ele decidiu ficar no hospital. Mesmo depois de trinta e seis horas de trabalho contínuo.
No mesmo momento em que o carro de Tarris parou no estacionamento do hospital, ele puxou o freio de mão com toda a força que tinha e saiu correndo do carro, gritando para Julia que iria buscar a cadeira de rodas.
Sophie gritou de dor mais uma vez, e Julia olhou para o celular que estava em sua mão, melado de suor frio. Três minutos de intervalo entre as contrações. Merda, a bolsa dela já ia estourar! Tarris precisava chegar muito rápido, ela teria de ir diretamente à sala de parto, com certeza. Julia apertou a mão da amiga, que estava praticamente deitada em seu colo e deixou um beijo no topo de sua cabeça, murmurando para ela ser forte.
Sophie não respondeu, mesmo que houvesse escutado. Estava doendo tanto! Não se lembrava de sentir absolutamente nada parecido. Sua barriga se endurecia e ela sentia como se fosse desmaiar, não conseguia conter os gritos que saíam de sua garganta, por que a dor era demais. Não havia nada pior, ela tinha certeza disso. Não havia nada com que comparar, nem mesmo as suas piores crises de cólica. Talvez, sim, mas multiplicado por mil.
— Henry quer sair — Julia murmurou, deixando um sorrisinho escapar em seguida. — Se acalme, pequeno Lucas, você já vem ao mundo.
No mesmo momento em que a barriga de Sophie endureceu novamente e a dor insuportável da contração se fez, Tarris abriu a porta de trás de seu próprio carro. Seguido de duas enfermeiras, ele estava com uma cadeira de rodas, uma vez que Sophie não conseguia mais andar. Fala sério, ela mal conseguia pensar! A dor estava tão terrível! Julia saiu do carro e Tarris pegou-a no colo, colocando-a sobre a cadeira de rodas logo depois.
Sophie, com a mão sobre a barriga, apenas sentiu que estava sendo levada para dentro do hospital. Sua cabeça rondava, sua barriga doía tanto, seu corpo estava domado pelo medo. E se algo desse errado?
Procurou Julia com os olhos, mas ela já não seguia mais a cadeira de rodas. Droga, onde estava Julia? Ela precisava... de alguém conhecido ali. Onde estava Tarris? Também não seguia mais a cadeira de rodas, ela estava sendo levada por duas enfermeiras estranhas. Sentiu outra contração e gritou. Mas dessa vez, ela também sentiu um líquido saindo.
Sua bolsa estourara.
Sophie entrou em pânico, sentindo a dor dessa contração mais forte ainda do que era antes. Agarrou-se ao encosto da cadeira de rodas e apertou com toda a força que tinha, gemendo, gritando tamanha era a dor que se dava em sua barriga. As enfermeiras diziam alguma coisa que Sophie não escutou, e apenas perguntou onde estavam Tarris e Julia. Não ouviu resposta, e sentiu uma outra contração em seguida. Não havia se passado nem sequer um minuto dessa vez! Sophie sentiu as lágrimas saírem de seus olhos enquanto gritava e gemia, agarrava a cadeira, quase desmaiava com a dor indescritível que se fazia em sua barriga. Sua cadeira de rodas foi levada a uma das tantas salas do Hospital de St. Mary e Sophie mal notou quando as duas enfermeiras retiraram suas roupas e a vestiram com a roupa própria do hospital. Outra contração, outro grito. Subitamente Sophie sentiu mais ainda a necessidade de ter alguém conhecido ao seu lado agora. Melhor, ela queria sua mãe ao seu lado agora. Queria que ela estivesse ali, apertando sua mão, transmitindo toda a sua inegável confiança para ela, dizendo que tudo iria ficar bem. Queria Hayley agora. Mais do que jamais quisera em sua vida.
Ela foi colocada de volta na cadeira de rodas, que logo entrou em uma sala branca, completamente equipada com aparelhos que ela não perdeu tempo prestando atenção. Vários enfermeiros já estavam lá e ela reconheceu os olhos de Tarris por detrás de uma máscara, ficando imediatamente aliviada. O Dr. Raphael, sem o seu sorriso calmo, ajudou-a a se deitar em uma maca própria para o parto no mesmo momento em que outra contração veio. Uma das enfermeiras que a acompanhou gritou “trinta segundos” para o Doutor, que demonstrou preocupação.
— Por que não a trouxe antes? — ele quase bronqueou Tarris, que estava ao seu lado.
— Ela só me ligou quando a contração vinha de hora em hora! — ele disse, meio desesperado também, mas respirou fundo, tentando manter a calma.
Raphael fez que sim com a cabeça, enquanto uma enfermeira aproximou-se dele com uma seringa.
— Escute, Soph, eu vou aplicar a anestesia agora, certo? — ele perguntou, mas já injetando o líquido em Sophie, que gemeu de dor. Segurou nas duas barras que a maca apresentava, as lágrimas causadas pela contração ainda saindo pelos seus olhos.
Estava na hora. Sophie sentia que se fizesse força, Henry sairia. Estava na hora. A contração já era tão forte que era apenas impossível ela aguentar durante muito tempo. Não estava dando mais.
— Eu não aguento mais, Raphael — ela gritou com sua voz chorosa, segurando-se a maca. — Não dá!
— Vinte segundos — a enfermeira que estava ao lado de Sophie disse para o Dr. Felton, que assentiu levemente com a cabeça e fez um gesto com suas mãos enluvadas para que outra enfermeira se aproximasse.
— Vou fazer um pequeno corte no canal — ele disse para Sophie, calmo — para facilitar a saída do bebê. Não se preocupe, não vai doer, já apliquei a anestesia, certo? Seja forte.
Mas doeu.
Sophie não sabia que tipo de anestesia havia sido aplicada, mas de qualquer forma, não deu tempo para que ela reagisse. Ela sentiu o bisturi e sentiu o corte, o que a fez chorar e gritar de dor mais uma vez. As contrações estavam cada vez mais frequentes e ela já estava tão exausta. Não aguentava mais. Não queria mais. Queria acabar logo com aquilo, meu Deus, era dor demais. Era dor demais.
— Soph, agora olha pra mim — disse o Dr. Raphael Felton, encarando-a nos olhos —, você vai respirar fundo, e quando a contração vier, faz força para baixo. Certo? Toda a força que você puder.
Sophie não conseguiu assentir com a cabeça e escutou a voz de Tarris com um “fica tranquila, gatinha, você já vai sair dessa” antes de uma contração acontecer.
Não teve tempo para pensar. Agarrou-se as barras e fez toda a força que pôde, gritando mais alto do que jamais havia gritado em sua vida, sentindo a dor se apoderar de todo o seu corpo de uma maneira avassaladora e indescritível. Suava completamente, chorava, gritava, berrava, fazendo toda a força que podia. A contração acabou, e o bebê não havia nascido.
— Certo — Raphael disse —, vamos, Soph, faça força! Agora é com você, seja forte! Na próxima contração, faça força, toda a força que puder, ok? Respire! Vamos!
Mais uma contração. Mais dor. Mais força.
Sophie fez toda a força que pôde para baixo, a dor da contração tomando conta dela, as lágrimas escorrendo de seus olhos, os berros ecoando pela sua garganta.
— Já estou vendo o cabelinho dele! — Raphael gritou, e mesmo que estivesse com a máscara no rosto, Sophie soube que ele estava sorrindo. — Vamos, querida, força!
Dessa vez, a contração veio seguida de outra. Simplesmente parecia que não houvera intervalos. Sophie gritou com o triplo da energia que tinha e, com suas mãos brancas e exaustas, agarrou as barras. Colocou toda a força que havia em seu corpo para baixo.
E estão escutou um choro.
Sentindo um alívio apoderar-se dela, Sophie não parou de chorar. Deixou todos os seus músculos relaxarem sobre a maca, chorando, sentindo o aperto da mão de Tarris que murmurava que já havia acabado, como se estivesse consolando uma criança que acabara de ter um pesadelo.
Mas não era um pesadelo. Era um milagre divino. Mais uma vida que a Terra ganhava.
Henry Lucas, o filho de Luke e Sophie, havia nascido. Numa terça-feira, 15 de maio, às 19h45min.
O Doutor Raphael cortara o cordão umbilical e agora segurava um pequeno ser, completamente ensanguentado, entre algumas toalhas brancas.
— Quer ver o meninão? — ele perguntou para Sophie, que chorando, fez que não com a cabeça.
Já havia conversado sobre isso anteriormente com o Doutor Felton. Sophie não podia vê-lo. Não queria ver e olhar para o rostinho do garoto que... afinal, ela iria praticamente abandonar. Não sabia se era capaz.
Não sabia se seria capaz de deixá-lo ir caso o visse.
Por isso ela virou o rosto, incapaz de falar qualquer coisa, deixando as lágrimas saírem tranquilamente de seus olhos. Acompanhado do alívio que sentia por não haver mais dor, ela sentia uma grande tristeza por ter passado por aquilo, afinal. Tristeza por ver o garoto que ela carregara por nove meses na barriga, saindo daquela sala nos braços de uma enfermeira. Tristeza por saber que aquela era a última vez que o veria. Seu filho, filho de Luke, saía por aquelas portas para longe de seus verdadeiros pais.
Mas era isso o que ela queria.
O médico, Dr. Raphael Felton, dissera a Sophie que ela teria de ficar no hospital durante três dias, internada, para recuperar-se do parto. Eram regras. Ela precisava se recuperar dos pontos que havia levado e precisava, acima de tudo, descansar, pois o ato de dar à luz havia tomado toda a sua energia. E ainda havia o fato de ela ser muito nova, é claro.
Sophie adormeceu assim que parou de chorar, depois de tomar banho e ser levada para uma outra sala. Tarris, que a acompanhara, explicou o que Julia não estava com ela na hora do parto por que já estava descontrolada o suficiente quando chegou ao hospital. Provavelmente, quando visse todo o sangue e todo o desespero de Sophie desmaiaria, e tudo o que eles menos precisavam era de outro paciente. Como Sophie não poderia receber visitas ainda naquele dia, ela deixou-se adormecer depois de pensar em tudo. Sua família em Nashville, seus amigos, Luke, Raphael e Camila, Tarris e Julia e, por fim, Henry. O pequeno Henry. O filho que ela gerara, mas que não seria dela.


Acordou no dia seguinte apenas para tomar os remédios anti-inflamatórios e o café da manhã que a enfermeira lhe havia trazido, mas não conseguiu dormir depois disso. Mesmo que já estivesse praticamente “livre”, sua cabeça continuava cheia. Cheia de culpa, cheia de incerteza, cheia de mágoa, cheia de saudade, cheia de raiva dela mesma. Cheia de tudo.
Julia apareceu logo depois, trazendo uma caixa de bombons de licor (uma vez que Sophie não ingerira álcool quando estava grávida). Parecia imensamente tranquila e fez Sophie rir algumas vezes. Nem parecia a mesma pessoa que tantas vezes a olhou com reprovação, dizendo “se eu não fosse tão egoísta e quisesse você aqui, eu ligaria para o Luke e para Hayley agora mesmo”.
Depois Tarris e Camie apareceram. Com certeza, Tarris parecia muito mais com a mãe do que com o pai, uma vez que o Dr. Raphael era uma das pessoas mais calmas que ela já havia conhecido. Diferente de Julia, que abordara um monte de assuntos cotidianos, eles passaram a maior parte do tempo falando sobre o bebê. Dizendo que ele era o mais bonito do berçário inteiro, que quase não chorava e era muito calmo, que era extremamente fofo e que não parava de sorrir, que as enfermeiras estavam superapaixonadas por ele.
E ao mesmo tempo que Sophie gostava de saber as notícias sobre Henry e sua primeira aventura no berçário, ela não gostava. Sentia-se como se estivesse quebrando uma regra, afeiçoando-se ao bebê (mesmo sem o ver). Tarris e Camie tinham o direito de ficarem animados com o nascimento de Henry. Lógico, afinal, Camie seria sua mãe e Tarris seria seu irmão. Mas Sophie...
Sophie não seria nada para ele. Apenas a mulher que o abandonou.
Quando mãe e filho saíram do seu quarto, ela estava exausta. Sentia-se mais do que mal. Sentia-se suja por estar fazendo tudo aquilo. Sentia-se horrível por estar realmente abandonando o seu filho. Ela não deveria fazer isso. Não deveria.
— Soph? — ela ouviu a voz do Dr. Felton e secou imediatamente a lágrima que havia escorrido de seus olhos. Em seu rosto moreno, havia aquele mesmo sorriso sincero e sereno de sempre. — Como está?
Sophie tentou sorrir.
— Me sinto bem — ela disse, mentindo, em parte. — Bem melhor do que ontem. Nunca senti tanta dor.
— É natural — Raphael assentiu. — Mas tudo correu perfeitamente bem. Henry nasceu com 52 cm de altura e pesa 3,500kg. É um garotão enorme e muito forte.
Sophie não conseguiu conter a lágrima que saiu de seus olhos, e nem o sorriso que aflorou em sua face. Mas não respondeu.
— A questão, Soph — continuou Raphael —, é que ele precisa ser amamentado. E o estoque do banco de leite está no vermelho.
Sophie sentiu um arrepio correr por toda a sua espinha. O que o Dr. Felton queria dizer...
— Eu não posso retirar leite de outras crianças e dar a Henry, quando a mãe dele está logo aqui, pronta para amamentá-lo — continuou o médico, segurando suas próprias mãos.
— Mas nós já conversamos sobre isso, Dr... — Sophie olhou para baixo, procurando sua própria voz para dizer tudo aquilo. — Eu... não posso... não posso vê-lo. Não quero.
Para a sua surpresa, Raphael sorriu.
— Mas você não quer que nada de mal aconteça a ele, certo? — perguntou ele, e Sophie negou imediatamente com a cabeça. — Só você tem o leite para ele, Sophie. Se não for você, ele não será alimentado. Estará, portanto, aberto a doenças... e bebês recém-nascidos são muito frágeis. Se ele não receber os devidos cuidados, pode não sobreviver.
Sophie sentiu o sangue fugir de seu rosto e suas mãos ficaram geladas. Raphael estava brincando, não estava? Henry não corria esse risco, corria? Não podia ser, oras, ele acabara de dizer que Henry nasceu maior do que o normal e era um garoto forte. Não... podia ser!
— Só você pode amamentar essa criança, Soph — Raphael se levantou da cadeira onde havia se sentado. — Posso mandar a enfermeira trazê-lo?
Olhando para as próprias mãos, Sophie assentiu com a cabeça. Viu Raphael sorrindo antes de sair do quarto.
Sophie não queria vê-lo. Não sabia o que faria se o visse. E mais, nem sabia como se amamentava uma criança! Sophie era completamente inexperiente e não tinha o mínimo de noção quando o assunto era cuidar de um bebê. Tudo bem, ela perdeu as contas de quantas vezes cuidou de Jodie ou de Claire, mas o assunto era outro quando filho não era dela. E ela nunca precisou amamentarninguém.
A porta se abriu, revelando uma enfermeira com um rosto simpático, carregando um bebê completamente embrulhado por uma manta azul. Sophie não conseguia vê-lo e se sentiu um pouco aliviada por isso.


(PlayNOW: Só Agora - Pitty)


— Vamos mamar, bebê? — ela afinou a voz para conversar com o bebê, que não emitia nenhum som sequer. Direcionou seus olhos para Sophie e sorriu de orelha a orelha, transmitindo para Sophie uma confiança que ela não sentia há muito tempo. Aproximou-se, inclinando o embrulhozinho azul para Sophie.
Seu coração disparou.
— Eu não... sei como segurá-lo — ela disse quando a enfermeira chegou até ela. Devagar, a mulher colocou o bebê em seu colo.
— Sabe sim — disse ela. — Toda mãe sabe.
Sophie, ainda com o coração batendo mais forte do que nunca, apoiou a cabeça do bebê em um braço e segurou suas costas com o outro. Sentiu sua mãozinha, tão pequena, agarrar seu colo, e então ela evitou olhar para seu rosto. Sua respiração estava desregulada, suas mãos tremiam e suavam, e ela não sabia o que fazer.
— Ele já sabe o que fazer — disse a enfermeira, sorrindo simpaticamente. — Apenas direcione a mama à boquinha dele.
Sophie assentiu com a cabeça e o fez da melhor maneira que pôde, o que ainda assim pareceu extremamente desajeitado. A enfermeira sorriu de orelha a orelha e disse que ela estava indo muito bem.
Então Henry começou a sugar, amamentando-se. Sua mãozinha, que antes estava no colo de Sophie, agora segurava sua mama, tranquilamente. Meu Deus, ele era tão pequeno, tão novinho, tão inocente. Já sabia exatamente o que fazer para se alimentar e parecia tão bem, tão em paz.
Sophie não olhou para o seu rosto. Não sabia por que estava fazendo isso, mas sentia que precisava evitá-lo. Não é seu filho, ela repetiu para si mesma em pensamento. Não podia olhá-lo. Não podia.
— Vou deixar vocês a sós — disse a enfermeira, sorrindo. — Volto em alguns minutos.
Então ela saiu porta afora, deixando uma Sophie extremamente confusa e cheia de medo, e um bebê alimentando-se sem ter a mínima consciência do mundo em que acabara de nascer.
Sophie continuava sentindo o líquido sendo retirado de sua mama. A mão tão pequenina vez ou outra mudava de posição, mas não saía dali, como se o pequeno menino quisesse segurar sua mãe até que se sentisse completamente satisfeito.
Não olhe para o rosto dele. Não olhe para o rosto dele.
Mas Sophie olhou. Foi mais forte do que ela. Ela precisou olhar para Henry, e não conseguiu conter as lágrimas que saíram de seus olhos assim que ela viu seu rostinho perfeito. Suas bochechas tão rosadas e seus lábios fininhos e rosadinhos, mamando, tão tranquilamente. Seu cabelinho castanho ondulado, exatamente como os de Luke, apenas era mais bonitinho. Sua sobrancelhinha tão bem moldada, da mesma cor de seu cabelo, logo acima de seus olhos que agora estavam fechados e seus cílios enormes. Seu nariz, pequeno e bem feito, era como se houvesse sido perfeitamente moldado para aquele rostinho de anjo.
Meu Deus. Henry era o bebê mais lindo que Sophie já vira em toda a sua vida.



Baby, tanto a aprender. Meu colo alimenta você e a mim.
Deixa eu mimar você, adorar você.
Agora, só agora.
Porque um dia eu sei, vou ter que deixá-lo ir.



A mão que antes segurava as costas do bebê se direcionou até sua bochecha. Sophie acariciou o rosto de Henry levemente, tentando controlar os seus soluços, sentindo seu coração inundar de todo tipo de sentimento que possa existir. Mas dentre eles, o que mais se destacava era a paz. A paz que a inocência daquele bebê transmitia a ela. A paz que ela sentia enquanto ele estava em seus braços, amamentando-se, fazendo a mais simples das tarefas que um bebê pode fazer, tão inocentemente. Henry estava em seus braços e Sophie se sentia... completa. Como se tivesse achado seu lugar no mundo.
Seus cabelos fininhos estavam emaranhados. Sorrindo e chorando ao mesmo tempo, Sophie passou os dedos pela sua cabecinha tão pequena e frágil, alinhando seu cabelinho desorganizado num mesmo sentido. O aperto leve que a mãozinha de Henry em sua mama ficou pouca coisa mais forte, e então ele abriu os olhos.
Sophie não conteve seu soluço quando Henry a encarou com aqueles olhos perfeitamente azuis como o céu limpo de verão e o mar. Azuis como... os olhos de Luke. Exatamente como os olhos de Luke.
Então a boquinha de Henry se curvou em um sorriso simples e sincero, mesmo que ele ainda estivesse mamando.
Olhando-a com os olhos mais perfeitos do mundo, Henry sorriu para sua mãe. Sua verdadeira mãe. Como se quisesse dizer a ela que estava feliz por estar ali.
— Belos olhos — Sophie disse, acompanhado de um soluço, enquanto Henry ainda sorria para ela e mamava ao mesmo tempo. — Você é o bebê mais lindo do mundo, sabia? — ela disse, limpando um bocado de suas próprias lágrimas. Ela riu, vendo o pequeno Henry Lucas se concentrar em se alimentar do leite que ainda havia em sua mama. Mas agora, mesmo que ele estivesse mamando com mais força do que antes, não quebrara o contato visual. Seus olhinhos azuis e perfeitos continuavam encarando Sophie, com tanta intensidade e calma que era simplesmente impossível... não se apaixonar.
Droga, o que ela estava fazendo? Henry era dela! Era o filho dela! Apenas dela, caramba, ela... não podia deixá-lo ir. Não podia entregá-lo para ninguém. Sophie era sua mãe, Sophie deveria criá-lo, por que apenas Sophie o amava com tanta intensidade.
Sophie o amava. Sophie amava Henry, seu bebê, de um modo que nunca havia amado nada antes em sua vida, e ela sempre soubera disso. Sabia disso enquanto estava grávida e sabia disso quando não quisera olhar para seu rosto, tão perfeito, tão inocente, tão jovial. Henry Lucas era filho de Sophie e de mais ninguém.
Ela não podia deixá-lo ir. Ela não iria deixá-lo ir.
— Me desculpa — ela sussurrou, entre seu choro copioso, segurando-o com mais força do que segurava antes. — Me desculpa por ter pensado nessa ideia maluca de não criar você, tá? Eu vou cuidar de você, Henry. Eu não vou te deixar. Eu vou dar tudo para que você seja feliz e para que não te falte nada. Eu prometo, meu bebê. — Ela deixou as lágrimas caírem de seus olhos, e Henry a olhou novamente, sem o seu sorriso tão lindo e acolhedor. Parara de mamar. Parecia quase preocupado. — Me desculpa — ela murmurou novamente. — Eu te amo, tá? Vou cuidar de você.
Os olhos de Henry começaram a encher-se de lágrimas também, e não demorou nada para que ele começasse a chorar. Um choro fino e agudo, o mesmo que ela ouvira no dia anterior, quando ele nascera. Sophie apertou-o contra si e forçou-se a engolir suas próprias lágrimas, balançando-o em seu colo, até que seu choro breve se cessasse. Ele bocejou e fechou seus olhinhos, adormecendo tão rapidamente que era quase impossível de se acreditar.
Sophie continuou chorando em silêncio, com o filho em seus braços. Seu filho. Seu.



Sabe, serei seu lar se quiser. Sem pressa, do jeito que tem que ser.
O que mais posso fazer? Só te olhar dormir.

Agora, só agora.
Correndo pelo campo, antes de deixá-lo ir.

Muda a estação... Necessários são.
Você a florescer... Calmamente, lindamente.


Ela parou de chorar não muito depois. Sophie não sabia como conseguira manter a ideia boba de dá-lo a alguém. Agora... simplesmente parecia tão simples. Ele era o filho dela, e Sophie iriasim fazer de suas tripas coração para que ele crescesse como uma criança feliz. Mesmo que o fizesse sozinha, sim, ela conseguiria. Daria um jeito. Sempre havia um jeito.
O que ela não faria era abandoná-lo.
A porta se abriu e Sophie sentiu seu coração se apertar. Não, ela não estava pronta para separar-se dele agora. Não podia se separar de seu filho agora! Precisava de mais um tempo, apenas mais um pouco, com ele. Não iria dá-lo a ninguém. Não iria separar-se dele.
— Soph? — ela viu o rosto do Dr. Raphael, extremamente calmo como sempre. Só que agora ele parecia mais feliz. — Como vão as coisas?
— Eu não posso — Sophie disparou. — Não posso, Raphael, não posso... me desculpe, eu não posso... não posso deixá-lo com você. Você e Camie. Me desculpe, eu não posso, ele... ele é meu filho. Eu não posso deixá-lo. Ele...
— Sophie, se acalme — o Dr. Felton continuava com seu sorriso no rosto, quase se divertindo. — Tudo bem, ele é mesmo seu. Não precisa se desculpar, querida, Henry sempre foi seu. Desde o início.
Sophie encarou seu médico com os olhos marejados e confusos. Raphael riu.
— Você é uma boa garota, Soph — ele foi dizendo, sentando-se na poltrona de frente para a maca em que ela estava sentada. — Eu soube disso assim que te vi. E melhor do que eu, Julia sempre soube disso. Ela sempre soube que você não iria conseguir dar Henry para adoção — ele explicava tão calmamente, mas o baque em Sophie era como se fosse um soco na cara. Julia. — Por isso ela me pediu ajuda. Para mim, Tarris e Camie. Por que ela sabia que você não conseguiria se separar de seu próprio filho, e só precisava de uns coadjuvantes. Portanto, não se preocupe. Henry é seu filhinho. Sempre foi. — O Doutor Felton se levantou, ainda encarando Sophie com o melhor dos sorrisos no rosto. — Gostaria de ficar mais um tempinho com ele?
Sophie, com os olhos lacrimejando, assentiu:
— Sim, sim, por favor. E obrigada.
Raphael sorriu antes de sair porta afora, deixando uma jovem mãe apaixonada pelo seu filho extremamente confusa e agradecida. Apenas Julia poderia pensar uma coisa dessas.
Sophie sorriu, limpando o resto das lágrimas e voltando a atenção para Henry que estava em seus braços. Seu bebê. O pequeno Henry Lucas Farro. Filhinho de Sophie.



Mesmo quando eu não mais estiver, lembre que me ouviu dizer.
O quanto me importei. E o que eu senti.

Agora, só agora.
Talvez você perceba, que eu nunca vou deixá-lo ir. Que eu nunca vou deixá-lo ir.
Eu não vou deixá-lo ir.